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VIVER NA VERDADE

por Thynus, em 01.12.16
É uma fórmula que Kafka utilizou no diário ou numa carta. Franz já não se lembra muito bem onde. Sente-se seduzido por ela. O que será isso de viver na verdade? Uma definição negativa não é difícil: é não mentir, não esconder, não dissimular nada. Desde que conhece Sabina que vive na mentira. Fala à mulher de um imaginário congresso de Amesterdão ou de umas conferências de Madrid que nunca existiram, e em Genebra tem medo de andar na rua com Sabina. Mentir e esconder-se são coisas que o divertem porque nunca as tinha feito. Dão-lhe a mesma sensação de prazer que a primeira gazeta ao melhor aluno da turma.

Para Sabina, viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos actos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo-nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira. Sabina despreza aquele tipo de literatura em que o autor revela não só toda a sua intimidade, como também a dos amigos. Quem perde a sua intimidade, perde tudo, pensa Sabina. E quem renuncia voluntariamente a ela é um monstro. Por isso, Sabina não se importa de ter uma relação clandestina. Bem pelo contrário, para ela, é a única maneira de viver “na verdade”.

 Mas Franz, quanto a ele, está seguro de que a divisão da vida em domínio privado e domínio público é a origem de toda a mentira: as pessoas são sempre diferentes em público e em privado. Para Franz,   viver na verdade” é abolir a barreira entre o privado e o público. Cita frequentemente André Breton, quando este dizia que gostaria de ter vivido   numa casa de vidro” aberta a todos os olhares e onde nada fosse secreto.

Ao ouvir a mulher dizer a Sabina: Que jóia horrorosa!”, compreendera que era incapaz de continuar a viver aquela vida dupla. Nesse momento, deveria ter acorrido em defesa de Sabina. Se não o fizera, fora unicamente com medo de trair o seu amor clandestino.

No dia seguinte ao do cocktail, estava de partida para Roma, para passar dois dias com Sabina. As palavras: Que jóia horrorosa!” vinham-lhe constantemente à cabeça e faziam-lhe ver a mulher com outros olhos. Passara a ver uma mulher muito diferente daquela que julgara conhecer. A sua agressividade, invulnerável, espalhafatosa, dinâmica, aliviava-o do peso da bondade que pacientemente carregara durante vinte e três anos de casamento. Lembrou-se do imenso espaço interior da catedral de Amesterdão e voltou a sentir o entusiasmo incompreensível e singular que esse vazio lhe suscitava.

Estava a fazer a mala quando Marie-Claude entrou no quarto; falava dos convidados da véspera, aprovando energicamente certas opiniões que ouvira e condenarão acerbamente outras.

Franz olhou demoradamente para ela e depois disse:   Não vai haver conferência nenhuma em Roma.”

Marie-Claude não entendeu:   Então para que é que lá vais?”

Replicou-lhe:   Tenho uma amante há sete ou oito meses. Não quero ter encontros com ela aqui em Genebra. Por isso é que tenho viajado tanto. Pensei que mais valia prevenir-te.”

Após ter dito estas palavras, foi assaltado pela dúvida: a coragem inicial começava a abandoná-lo. Desviou os olhos para não ter de ver na cara de Marie-Claude o desespero que as suas palavras não podiam deixar de causar-lhe.

Depois de uma curta pausa, ouviu:   Sim, eu também acho que vale mais estar prevenida.”

Isto foi dito num tom de grande firmeza; Franz levantou os olhos: Marie-Claude não estava minimamente perturbada. Continuava a ser a mulher que dizia com uma voz tonitruante:   Que jóia horrorosa! “

Ela prosseguiu:   Visto que tens a coragem de me anunciar que me andas a enganar há sete ou oito meses, já agora também não posso ficar a saber com quem?”

Sempre procedera de modo a não ofender Marie-Claude e a respeitar a mulher que havia nela. Mas o que acontecera à mulher que havia em Marie-Claude? Ou, por outras palavras, o que acontecera à imagem da mãe que associava sempre à da mulher? A sua mãe, a sua mãe triste e magoada, com dois sapatos desemparceirados nos pés, deixara de estar dentro de Marie-Claude; e se calhar nem isso, porque, de fato, nunca lá devia ter estado. Quando o percebeu veio-lhe o ódio ao de cima.

Não tenho razão nenhuma para não te dizer”, disse.

Já que ela não ficara magoada por saber que ele a enganava, saber quem era a rival magoá-la-ia com certeza. Olhando-a bem nos olhos, pronunciou o nome de Sabina.

Pouco depois, foi ter com Sabina ao aeroporto. À medida que o avião ganhava altura, sentia-se cada vez mais leve. Finalmente ao cabo de nove meses, podia começar a viver outra vez na verdade!


(Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser)

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publicado às 03:21



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