Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Uma sociedade ameaçada

por Thynus, em 05.06.16
1 A actual sociedade europeia de que fazemos parte tem, na expressão do filósofo E. Husserl, uma nova "forma de vida", isto é, um horizonte novo de vivência, sentido e autocompreensão, a partir de três princípios fundamentais.
Trata-se de uma sociedade à qual foi possibilitado imenso bem-estar, derivando daí novas possibilidades de auto-realização e também um feroz individualismo, que apenas reivindica direitos ignorando deveres.
Por outro lado, as novas tecnologias têm um impacto decisivo nas sociedades, e não só no plano socioeconómico: mudam as mentalidades. Por exemplo, estar ligado à rede, navegando, afecta a vivência de si e do mundo. A concepção de espaço é outra, muda sobretudo a vivência do tempo. Tudo é rápido, vertiginoso. Tem-se a sensação de estar ao mesmo tempo em toda a parte, mas num tempo fragmentado, que não faz tecido. No bombardeamento simultâneo de notícias e opiniões - toda a gente se pronuncia sobre tudo, sem hesitações nem perplexidades -, o que acontece é a dispersão labiríntica, que dificulta a construção de uma identidade narrativa consistente. Paradoxalmente, a ligação global produz solidões penosas. Há um sentimento de quase omnipotência, seguindo-se daí que tudo o que é tecnicamente possível se deve realizar, sem perguntas de outro foro, ético, humanista. A satisfação imediata e o facilitismo são outras características de uma sociedade líquida e mole, cujo deus é o dinheiro.
Desta forma de vida faz parte ainda a crítica religiosa, no sentido de um laicismo agressivo.
 
2 Julgo que é no horizonte desta nova forma de vida que se percebe melhor a fúria legislativa da actual Assembleia da República quanto às chamadas questões fracturantes e não só. Assim:
2.1 Entre as primeiras medidas, acabou-se com a taxa moderadora no aborto, o que é incompreensível se se pensar nas mulheres doentes que pagam.
2.2 Acaba de ser aprovada a lei que permite a gestação de substituição, vulgarmente conhecida por barrigas de aluguer. Pensou-se no que isso significa, por exemplo, que a criança que vai nascer é fruto da genética e da epigenética, portanto, que não é indiferente ser gestada neste ou naquele ventre? Há um contrato, e isso é humanizante? E se a gestante quiser a criança, pois, afinal, é seu filho, a quem está tão intimamente vinculada? E se no processo de gestação surge uma deficiência grave e ninguém a quer? As técnicas de procriação medicamente assistida passaram a ser acessíveis a todas as mulheres, mesmo sem problemas de infertilidade. Pergunta--se: uma criança é um simples bem disponível? Quem é o centro: o direito da mulher ou a criança?
2.3 Sobre a eutanásia, já aqui manifestei as minhas perplexidades. Existe a autonomia, e a vida é um bem, um direito, e não um fardo que pode tornar-se insuportável. Mas legislar, sem pensar, apressadamente, como parece agora ser regra - porquê? -, pode pôr em causa conquistas essenciais da humanidade. Veja-se o que aconteceu há pouco tempo na Holanda com uma jovem de 20 anos, a quem foi autorizada a eutanásia por causa do seu sofrimento na sequência de abusos sexuais. Quem não compreende o sofrimento atroz? Mas, afinal, estamos cá para facilitar a morte ou para ajudar a viver? E quem aplica a eutanásia, isto é, sem eufemismos, quem mata? De qualquer modo, eutanásia e suicídio assistido são realidades diferentes. Há um direito à eutanásia? Quem o satisfaz?
2.4 E os animais? Sim, quem trata mal os animais - mesmo na animalidade, é preciso distinguir, pois não é a mesma realidade uma pulga ou uma mosca e um cão ou um chimpanzé - agride a humanidade em si próprio e o seu dever de considerar o valor do animal. Mas há uma distinção essencial, qualitativa, e não meramente de grau, entre o ser humano, que é pessoa, e o animal, que não é coisa mas não é pessoa. Afinal, são as pessoas que colocam a questão da humanidade e da animalidade.
2.5 Esta sociedade não sabe conviver com as dificuldades, as frustrações normais, a finitude. Foi neste enquadramento que o Ministério da Educação acabou com os exames. Um erro!
2.6 Tudo o que aí fica é independente da religião. A ética é autónoma. A política também. Mas não há dúvida de que há hoje uma tentativa de "exculturação social da religião por parte de certa esquerda europeia". Quem o diz é J. Elzo, na sequência de um livro importante de um homem de esquerda, Jean Birnbaum: Un Silence Religieux - La Gauche face au Djihadisme, que conclui, continua J. Elzo, citando grandes pensadores, como W. Benjamin, J. Derrida, J. Habermas, R. Debray, Luc Ferry, Comte-Sponville, todos de esquerda e não crentes: "Nenhum deles considerou que o exercício da política moderna tinha como condição a superação e a relegação do religioso. Todos tinham consciência de que, para bem distinguir estes dois âmbitos, o melhor é dar espaço tanto a um como ao outro." Para evitar "o conflito social, tarde ou cedo", "muito sangrento".
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:21


Comentar:

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

subscrever feeds