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Um novo Iluminismo

por Thynus, em 23.11.16
 

 
Iluminismo
Os conhecimentos científicos e a tecnologia dobram a cada uma ou duas décadas, dependendo da disciplina em que as informações são medidas. Esse crescimento exponencial torna imprevisível o futuro além de uma década, sem falar em séculos ou milênios. Os futuristas portanto tendem a se concentrar nas direções que, segundo eles, a humanidade deveria trilhar. Mas, dada a nossa terrível falta de autocompreensão como uma espécie, o melhor objetivo na época atual talvez seja escolher aonde não ir. O que, então, deveríamos ter cuidado em evitar? Ao pensarmos sobre o assunto, estamos destinados a sempre retornar às perguntas existenciais: De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?

Os seres humanos são atores em uma história. Somos a ponta de crescimento de um épico inacabado. A resposta para as perguntas existenciais deve residir na história, e é essa a abordagem adotada pelas humanidades. Mas a história convencional por si mesma está truncada, tanto na sua linha do tempo como na percepção do organismo humano. A história não faz sentido sem a pré-história, e a pré-história não faz sentido sem a biologia.

A humanidade é uma espécie biológica em um mundo biológico. Em cada função de nosso corpo e mente e em cada nível, somos perfeitamente adaptados para viver neste planeta particular. Pertencemos à biosfera onde nascemos. Embora exaltados de várias formas, permanecemos uma espécie animal da fauna global. Nossas vidas são limitadas pelas duas leis da biologia: todas as entidades e processos da vida obedecem às leis da física e da química, e todas as entidades e processos da vida surgiram através da evolução por seleção natural.

Quanto mais aprendemos sobre nossa existência física, mais aparente se torna que, mesmo as formas mais complexas do comportamento humano, são, em última análise, biológicas. Elas exibem as especializações desenvolvidas ao longo de milhões de anos por nossos ancestrais primatas. A marca indelével da evolução está clara na forma idiossincrásica como os canais sensoriais da humanidade limitam a nossa percepção natural da realidade. Ela se confirma na maneira como programas hereditariamente preparados e contrapreparados guiam o desenvolvimento da mente.

Mesmo assim, não podemos escapar da questão do livre-arbítrio, que, segundo a argumentação de alguns filósofos, ainda nos distingue. É um produto do centro de tomada de decisões subconsciente do cérebro que dá ao córtex cerebral a ilusão de ação independente. Quanto mais os processos físicos da consciência foram definidos pela pesquisa científica, menos sobrou para qualquer fenômeno que possa ser intuitivamente rotulado como livre-arbítrio. Somos livres como seres independentes, mas nossas decisões não são livres de todos os processos orgânicos que criaram nosso cérebro e nossa mente. O livre-arbítrio, portanto, parece ser na verdade biológico.

Claro que, por qualquer padrão concebível, a humanidade é de longe a maior realização da vida. Somos a mente da biosfera, do sistema solar e — quem sabe? — talvez da galáxia. Olhando à nossa volta, aprendemos a traduzir para nossos sistemas audiovisuais limitados as modalidades sensoriais de outros organismos. Conhecemos grande parte da base bioquímica de nossa própria biologia. Logo criaremos organismos simples em laboratório. Aprendemos a história do universo e a observamos quase até seu limite.

Os nossos ancestrais foram uma em apenas umas duas dúzias de linhagens de animais a desenvolverem a eussocialidade, o seguinte grande nível de organização biológica acima da organísmica. Ali, membros do grupo que incluem duas ou mais gerações permanecem juntos, cooperam, cuidam dos jovens e dividem o trabalho de modo a favorecer a reprodução de alguns indivíduos em detrimento de outros. Os pré-humanos eram bem maiores fisicamente do que qualquer dos insetos e outros invertebrados eussociais. Foram dotados de cérebros bem mais volumosos desde o princípio. Com o tempo, descobriram a linguagem baseada em símbolos, a escrita, e a tecnologia baseada na ciência que nos dá a vantagem em relação ao resto dos seres vivos. Agora, exceto o fato de nos comportarmos como macacos antropoides grande parte do tempo e termos tempo de vida geneticamente limitado, somos semelhantes a deuses.

Qual força dinâmica nos alçou a essa posição elevada? Eis uma pergunta de enorme importância para a autocompreensão. A resposta aparente é a seleção natural multinível. No nível mais alto dos dois níveis relevantes da organização biológica, os grupos competem entre si, favorecendo traços sociais cooperativos entre os membros do mesmo grupo. No nível mais baixo, membros do mesmo grupo competem entre si de forma que leva ao comportamento egoísta. A oposição entre os dois níveis de seleção natural resultou em um genótipo quimérico em cada pessoa, tornando cada um de nós em parte santo, em parte pecador.

A interpretação das forças da seleção humana que apresentei em A conquista social da Terra, com base em pesquisas recentes, opõe-se à teoria da aptidão inclusiva, substituindo-a por modelos- ­-padrão da genética de populações aplicados a vários níveis de seleção natural. A aptidão inclusiva baseia-se na seleção de parentesco, em que os indivíduos tendem a cooperar entre si, ou não, de acordo com sua proximidade genealógica. Acreditou-se que esse modo de seleção, se definido de maneira suficientemente ampla, explicasse todas as formas de comportamento social, inclusive a organização social avançada. A explicação antagônica, incluindo uma crítica matemática da teoria da aptidão inclusiva, foi plenamente desenvolvida de 2004 a 2010.

Dadas a complexidade técnica e a importância do assunto, a controvérsia gerada pela nova abordagem deve continuar por anos, talvez bem depois que minha própria capacidade de compreender dados novos chegue ao fim. No caso, porém, de a teoria da aptidão inclusiva continuar sendo amplamente usada, isso deve ter pouco efeito sobre a percepção da seleção de grupo como a força propulsora de nosso passado e futuro. Os próprios teóricos da aptidão inclusiva argumentaram que a seleção de parentesco pode ser traduzida na seleção de grupo, embora essa crença agora tenha sido refutada matematicamente. A seleção de grupo — o que é mais importante — é claramente o processo responsável pelo comportamento social avançado. Ela também engloba os dois elementos necessários à evolução. Em primeiro lugar, descobriu-se que os traços no nível do grupo, incluindo cooperação, empatia e padrões de interligação, são hereditários nos seres humanos — ou seja, variam geneticamente em certo grau de uma pessoa para outra. Segundo, cooperação e unidade afetam claramente a sobrevivência de grupos que estão competindo.

Ocorre ainda que a percepção da seleção de grupo como a principal força propulsora da evolução combina bem com grande parte do que é mais típico — e desconcertante — na natureza humana. Além disso, repercute nos indícios dos campos normalmente discrepantes da psicologia social, da arqueologia e da biologia evolutiva de que os seres humanos são, por natureza, intensamente tribalistas. Um elemento básico da natureza humana é que as pessoas se sentem compelidas a pertencer a grupos e, tendo aderido a um deles, consideram-no superior aos grupos concorrentes.

A seleção multinível (seleção de grupo e individual combinadas) também explica a natureza conflituosa das motivações. Toda pessoa normal sente a pressão da consciência, do heroísmo contra a covardia, da verdade contra a fraude, do compromisso contra o distanciamento. Constitui nosso destino sermos atormentados por grandes e pequenos dilemas ao abrirmos caminho diariamente pelo mundo arriscado e incontrolável que nos deu origem. Temos sentimentos contraditórios. Não estamos seguros quanto a esse ou aquele rumo. Sabemos muito bem que ninguém é tão sábio ou superior que seja incapaz de cometer um erro catastrófico, e que nenhuma organização é tão nobre que esteja livre da corrupção. Todos nós vivemos nossas vidas em conflitos e controvérsias.

As lutas oriundas da seleção natural multinível também são onde as humanidades e as ciências sociais habitam. Os seres humanos são fascinados por outros seres humanos, como todos os demais primatas são fascinados por seus próprios semelhantes. Sentimos um prazer incessante em observar e analisar nossos parentes, amigos e inimigos. A fofoca sempre foi a ocupação favorita em todas as sociedades, dos grupos caçadores-coletores às cortes reais. Avaliar o mais exatamente possível as intenções e a confiabilidade daqueles que afetam nossa própria vida pessoal é bem humano e altamente adaptativo. Também é adaptativo julgar o impacto do comportamento dos outros sobre o bem-estar do grupo como um todo. Somos gênios em interpretar as intenções dos outros, enquanto eles também lutam, hora após hora, com seus próprios anjos e demônios. O direito civil é o meio pelo qual moderamos o dano de nossas falhas inevitáveis.

A confusão é aumentada pelo fato de que a humanidade vive em um mundo em grande parte mítico, assolado por espíritos. Devemos isso à nossa história arcaica. Quando os nossos ancestrais remotos adquiriram pleno reconhecimento de sua mortalidade pessoal, provavelmente entre 100 mil e 75 mil anos atrás, buscaram uma explicação de quem eles eram e o sentido do mundo que cada um estava destinado a logo deixar. Devem ter indagado: para onde vão os mortos? Para o mundo dos espíritos, muitos acreditavam. E como poderíamos vê-los novamente? Era possível vê-los a qualquer momento por meio de sonhos, drogas, magia ou privações e torturas autoinfligidas.

Os primeiros seres humanos não tinham nenhum conhecimento da Terra além do alcance de seu território e das redes comerciais. Nada sabiam do céu além da esfera celeste na superfície interna por onde passavam o Sol, a Lua e estrelas. Para explicar os mistérios de sua existência, acreditavam em seres superiores em muitos aspectos semelhantes a eles, os seres divinos que construíam não apenas ferramentas e abrigos, mas que haviam criado o universo inteiro. Com a evolução das sociedades de chefatura e depois dos Estados políticos, as pessoas imaginaram a existência de governantes sobrenaturais, além dos governantes terrestres a quem obedeciam.

Os primeiros seres humanos precisavam de uma história sobre as coisas importantes que aconteciam com eles, porque a mente consciente não consegue funcionar sem histórias e explicações de seu próprio sentido. A melhor, a única forma de nossos ancestrais conseguirem explicar a própria existência, era um mito de criação. E todo mito de criação, sem exceção, afirmava a superioridade da tribo que o inventou em relação a todas as demais tribos. Com essa suposição, todo crente religioso se considerava uma pessoa eleita.

As religiões organizadas e seus deuses, embora concebidos na ignorância de grande parte do mundo real, infelizmente se tornaram verdades absolutas na história antiga. Como no princípio, continuam sendo em toda parte uma expressão do tribalismo pelo qual os membros estabelecem sua própria identidade e uma relação especial com o mundo sobrenatural. Seus dogmas codificam regras de conduta que os devotos podem aceitar absolutamente sem hesitação. Questionar os mitos sagrados é questionar a identidade e o valor daqueles que neles acreditam. Por isso os céticos, inclusive aqueles comprometidos com mitos diferentes mas igualmente absurdos, são tão fanaticamente malvistos. Em alguns países, podem acabar na prisão ou serem mortos.

No entanto, as mesmas circunstâncias biológicas e históricas que nos levaram ao atoleiro da ignorância foram, em outros aspectos, benéficas à humanidade. As religiões organizadas presidem sobre os ritos de passagem, do nascimento à maturidade, do casamento à morte. Oferecem o melhor que uma tribo tem a oferecer: uma comunidade empenhada que oferece apoio emocional sincero, acolhe e perdoa. As crenças nos deuses ou num Deus único sacralizam as ações comunitárias, incluindo nomeação dos líderes, obediência às leis e declarações de guerra. Crenças na imortalidade e na justiça divina suprema oferecem um conforto precioso e estimulam resolução e bravura em épocas difíceis. Durante milênios as religiões organizadas foram a fonte de grande parte das artes criativas.

Por que então convém questionar abertamente os mitos e os deuses das religiões organizadas? Porque atentam contra a inteligência e semeiam a discórdia. Porque cada uma é apenas uma versão de uma multiplicidade de cenários concorrentes que poderiam ser verdadeiros. Porque encorajam a ignorância e desviam as pessoas do reconhecimento dos problemas do mundo real, conduzindo-as muitas vezes em direções erradas para ações desastrosas. Fiéis às suas origens biológicas, encorajam intensamente o altruísmo entre seus membros, estendendo-o sistematicamente aos forasteiros, embora geralmente com o objetivo adicional de proselitismo. O compromisso com uma religião particular é por definição um ato de fanatismo religioso. Nenhum missionário protestante jamais aconselha seu rebanho a examinar o catolicismo romano ou o islamismo como uma alternativa possivelmente superior. Ele deve, por implicação, declará-los inferiores.

Mas é insensato pensar que as religiões organizadas poderão num futuro próximo ser extirpadas e substituídas por uma paixão racionalista pela moralidade. O mais provável é que isso aconteça gradualmente, como vem ocorrendo na Europa, impulsionado por diversas tendências atuais. A mais potente das tendências é a reconstituição científica cada vez mais detalhada da crença religiosa como um produto biológico evolutivo. Quando contrastada com os mitos de criação e seus excessos teológicos, a reconstituição é cada vez mais persuasiva para qualquer mente ainda que apenas ligeiramente aberta. Outra tendência contra o infortúnio da devoção sectária é o crescimento da internet e a globalização das instituições e de seus usuários. Uma análise recente mostrou que a interligação crescente das pessoas no mundo inteiro fortalece suas atitudes cosmopolitas. Para isso, enfraquece a importância de afiliação étnica, localidade e nacionalidade como fontes de identificação. A interligação também intensifica uma segunda tendência: a homogeneização da humanidade quanto a raça e etnia por meio do casamento misto. Inevitavelmente, isso enfraquecerá a confiança nos mitos de criação e nos dogmas sectários.

Um bom passo inicial para a libertação da humanidade das formas opressivas do tribalismo seria o repúdio, respeitoso, das alegações daqueles no poder que se dizem porta-vozes de Deus, representantes de Deus ou conhecedores exclusivos da vontade divina. Entre esses fornecedores de narcisismo teológico estão os aspirantes a profetas, fundadores de cultos religiosos, pastores evangélicos eloquentes, aiatolás, imames, rabinos-chefes, chefes de yeshivas, o Dalai Lama e o papa. O mesmo vale para as ideologias políticas dogmáticas baseadas em preceitos incontestáveis, de esquerda ou direita, especialmente quando justificadas pelos dogmas das religiões organizadas. As religiões podem até conter sabedoria intuitiva digna de ser ouvida. Seus líderes podem ter boas intenções. Mas a humanidade já sofreu demais com as histórias incorretas contadas por profetas equivocados.

Lembro-me de uma história, que um entomologista médico me contou anos atrás, sobre a transmissão da febre recorrente por carrapatos Ornithodorus na África Ocidental. Quando a febre se agravava, ele disse, as pessoas transferiam a aldeia para um local novo. Um dia, durante uma dessas emigrações, ele viu um ancião apanhando alguns dos feios parentes distantes das aranhas, do chão sujo de uma moradia, e colocando-os cuidadosamente numa caixinha. Quando indagado do motivo, o homem respondeu que os estava transportando para o local novo porque “seus espíritos nos protegem da febre”.

Outro argumento a favor de um novo Iluminismo é que estamos sozinhos neste planeta com qualquer racionalidade e compreensão que consigamos reunir e, portanto, somos os únicos responsáveis por nossas ações como uma espécie. O planeta que conquistamos não é apenas uma parada no caminho para um mundo melhor em alguma outra dimensão. Um preceito moral com que podemos todos concordar é parar de destruir nosso local de nascimento, o único lar que a humanidade jamais terá. Os indícios do aquecimento global, com a poluição industrial como causa principal, são agora esmagadores. Também evidente a uma inspeção ainda que fortuita é o rápido desaparecimento de florestas tropicais, pradarias e outros habitats onde reside grande parte da diversidade da vida. Se não controlarmos as mudanças globais causadas pela destruição dos habitats, espécies invasivas, poluição, superpopulação e superexploração, metade das espécies de plantas e animais poderão estar extintas ou pelo menos entre os “mortos vivos” — prestes a se extinguirem — no final deste século. Estamos desnecessariamente matando a galinha dos ovos de ouro que herdamos dos antepassados e por isso seremos desprezados por nossos descendentes.

A destruição da biodiversidade no mundo vivo tem recebido bem menos atenção do que as mudanças climáticas, esgotamento de recursos insubstituíveis e outras transformações do ambiente físico. Faríamos bem em observar o seguinte princípio: se salvarmos o mundo vivo, automaticamente também salvaremos o mundo físico, porque, para conseguir o primeiro, precisamos também conseguir o segundo. Mas se salvarmos somente o mundo físico, o que parece nossa atual inclinação, acabaremos perdendo os dois. Nunca mais veremos voando muitas espécies de aves que existiam até recentemente. Lá se foram os sapos que nunca mais ouviremos coaxar nas noites chuvosas e quentes. Lá se foram os peixes prateados brilhantes de nossos lagos e riachos agora empobrecidos.

Convém dar uma segunda olhada na ciência e na religião para entendermos a verdadeira natureza da busca da verdade objetiva. A ciência não é mais um empreendimento, como a medicina, a engenharia ou a teologia. Ela é o manancial de todos os nossos conhecimentos do mundo real que podem ser testados e ajustados aos conhecimentos preexistentes. É o arsenal de tecnologias e matemática inferencial necessário para distinguir o verdadeiro do falso. Ela formula os princípios e as fórmulas que unificam todos esses conhecimentos. A ciência pertence a todos. Suas partes componentes podem ser desafiadas por qualquer um com informações suficientes para fazê-lo. Não é apenas “outro modo de conhecer”, como muitas vezes se alega, tornando-a coigual à fé religiosa. O conflito entre o conhecimento científico e os ensinamentos das religiões organizadas é irreconciliável. O abismo continuará aumentando e perpetuando os problemas, enquanto os líderes religiosos continuarem fazendo alegações insustentáveis sobre as causas sobrenaturais da realidade.

Outro princípio que acredito se justificar pelos indícios científicos até agora é que ninguém irá emigrar deste planeta, jamais. Numa escala local — o sistema solar —, faz pouco sentido continuar a exploração enviando astronautas vivos à Lua, e menos ainda a Marte e mais além, onde formas simples de vida extraterrestre poderiam razoavelmente ser procuradas: em Europa, a lua coberta de gelo de Júpiter, e na flamejante Enceladus, uma lua de Saturno. Será bem mais barato, e sem nenhum risco às vidas humanas, explorar o espaço com robôs. Contamos com uma tecnologia em propulsão de foguetes, robótica, análise remota e transmissão de informações para enviarmos robôs capazes de fazer mais do que qualquer visitante humano, inclusive tomar decisões no ato e transmitir imagens e dados de máxima qualidade à Terra. É verdade que a ideia de um ser humano — um de nós — caminhando num corpo celeste, como os exploradores de continentes desconhecidos no passado, nos entusiasma. No entanto, a verdadeira emoção será descobrir minuciosamente o que existe por lá e vermos com nossos olhos qual o seu aspecto, nos mínimos detalhes, aos nossos pés virtuais a dois metros de distância, colhendo solo e possivelmente organismos com nossas mãos virtuais e os analisando. Podemos conseguir tudo isso, e em breve. Enviar pessoas em vez de robôs seria caríssimo, arriscado para as vidas humanas e ineficiente — tudo não passaria de um espetáculo circense.

A mesma miopia cósmica existe hoje nos sonhos de colonizar outros sistemas estelares. Trata-se de um delírio especialmente perigoso, se vemos a emigração para o espaço como uma solução depois que tivermos exaurido este planeta. Está na hora de perguntarmos seriamente por que, durante a história de 3,5 bilhões de anos da biosfera, nosso planeta nunca foi visitado por extraterrestres (exceto talvez pelas luzes indistintas de óvnis no céu e por estranhos visitantes durante pesadelos em plena vigília). E por que o projeto seti de busca de inteligência extraterrestre, após vasculhar a galáxia por anos, nunca recebeu uma mensagem do espaço exterior? A possibilidade teórica de tal contato existe, e a busca deve continuar. Mas imagine que, em uma das bilhões de estrelas da parte habitável da galáxia, surgiu uma ci­vilização avançada que optou por conquistar outros sistemas estelares a fim de expandir seu espaço vital galáctico. Esse evento poderia facilmente ter ocorrido 1 bilhão de anos atrás. Se desencadeou um ciclo de conquistas que levou 1 milhão de anos para alcançar outro planeta aproveitável e, após uma ampla exploração, mais 1 milhão de anos para enviar frotas de colonizadores a diversos outros planetas exploráveis, a raça de conquistadores extraterrestres há muito teria ocupado todo o segmento habitável da galáxia, incluindo nosso próprio sistema solar.


Claro que um cenário para explicar a ausência de extraterrestres é que somos únicos em toda a galáxia, contando todos esses bilhões de anos, e somente nós nos tornamos capazes das viagens espaciais, de modo que a Via Láctea agora aguarda a nossa conquista. Tal cenário é altamente improvável.

Defendo outra possibilidade. Talvez os extraterrestres tenham simplesmente crescido. Talvez tenham descoberto que os problemas imensos de suas civilizações em evolução não poderiam ser solucionados pela competição entre crenças religiosas, ideologias ou nações guerreiras. Descobriram que grandes problemas exigem grandes soluções, racionalmente obtidas pela coo­peração entre as facções que os dividiam. Se chegaram até aí, terão percebido que não havia necessidade de colonizar outros sistemas estelares. Seria suficiente se contentarem em explorar as possibilidades ilimitadas de seu planeta natal.

Portanto, agora confessarei a minha própria fé cega. A Terra, no século xxi, poderá ser transformada, se desejarmos, num paraíso permanente para os seres humanos; poderemos ao menos começar essa transformação para valer. Ainda infligiremos muito mais danos a nós e aos demais seres vivos pelo caminho, mas se adotarmos uma ética de simples decência com os outros, aplicarmos sistematicamente a razão e aceitarmos quem realmente somos, os nossos sonhos enfim se tornarão realidade.

 

E quanto a você, Paul Gauguin, por que escreveu aquelas linhas na sua pintura? Claro que a resposta imediata que suponho é que você quisesse ser bem claro sobre a simbolização da grande extensão da atividade humana retratada em seu panorama taitiano, para o caso de alguém não perceber. Mas sinto que houve algo mais. Talvez você formulasse as três perguntas de modo a implicar que não existem respostas, nem no mundo civilizado que você rejeitou e deixou para trás, nem no mundo primitivo que adotou para encontrar a paz. Ou, de novo, talvez você quisesse dizer que a arte não pode ir mais longe do que você foi. E tudo que lhe restava pessoalmente era expressar as perguntas preocupantes por escrito. Permita que eu sugira mais uma razão para o mistério que você nos legou, não necessariamente em conflito com essas outras conjecturas. Acredito que o que você escreveu é uma exclamação de triunfo. Você realizou sua paixão de viajar para longe, de descobrir e adotar novos estilos de arte visual, de fazer as perguntas de uma nova maneira, e, com base em tudo isso, criar uma obra autenticamente original. Nesse sentido sua carreira será eterna. O preço que você pagou não foi em vão. Em nossa própria época, reunindo a análise racional com a arte e forjando uma parceria entre ciência e humanidades, chegamos mais perto das respostas que você buscou.

(Edward O. Wilson - A Conquista Social da Terra)


 
VIDA ENTRE OS INSETOS
O biólogo Edward Wilson em seu escritório na Universidade Harvard. Sumidade no estudo das formigas, usa o que aprendeu com os insetos para explicar o ser humano (Foto: Rick Friedman/Corbis)

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publicado às 19:40



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