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O que é a moral?

Por que ser moral? Esta pergunta vem desde a época de A república de Platão (428-348 a.C.), obra na qual os personagens Sócrates e Glauco discutem a natureza da justiça.(Platão, A república (Fundação Calouste Gulbenkian, 9ª edição).) Fazendo o papel de advogado do diabo, Glauco argumenta que agimos de modo justo (ou moral) apenas porque tememos ser descobertos e punidos. Sócrates (falando por Platão) discorda e sugere que o homem justo está sempre em situação melhor que o injusto. Como contraexemplo à alegação de Sócrates de que o homem justo está sempre em situação melhor, Glauco reconta o mito do anel de Giges.(Id.)
Na história de Glauco, Giges é um simples pastor que descobre um anel mágico capaz de deixar invisível quem o usa. Após se dar conta das propriedades mágicas do objeto, Giges percebe que pode realizar suas ambições mais loucas e usa o anel para saciar sua sede de poder: seduz a rainha, mata o rei e toma o trono para si. Giges tem a capacidade de satisfazer todos os desejos que tem e assim o faz.
Glauco, então, pede a Sócrates para imaginar um cenário em que existam dois anéis mágicos, um dado a um homem justo e o outro, a um homem injusto. Glauco defende que os dois homens agirão mal e nem mesmo o justo conseguirá resistir à tentação de realizar seus desejos. Afinal, por que deveria? Com o anel de Giges, o justo não tem motivo para temer represálias. Seus atos imorais não serão vistos. Com esse tipo de poder, não seria racional que ele simplesmente pensasse nos próprios interesses e fizesse o que lhe desse na telha? Ele não seria um tanto tolo se não aproveitasse essa oportunidade a seu favor? Glauco sustenta que não só a maioria das pessoas usaria o anel, como seria irracional não usá-lo.
Se Glauco estiver certo ao dizer que apenas um tolo agiria moralmente na ausência de sanções, talvez Joffrey esteja no caminho certo. O cenário do anel de Giges é bem semelhante à forma como Joffrey vê o privilégio de estar no Trono de Ferro. Como rei, Joffrey acredita que estará imune a sanções. Afinal, a justiça em Westeros é a “justiça do rei”. O que o rei diz e faz tem valor. Se alguém não gosta ou, pior ainda, questiona o comportamento dele, então Joffrey, como rei, pode simplesmente lançar mão de alguma de suas várias punições engenhosas, como fez quando mandou cortar a língua de um menestrel após cantar uma canção que debocha da morte de Robert Baratheon e acusa, de modo pouco sutil, os Lannister de terem matado o rei. Da perspectiva de Joffrey, o privilégio de estar no Trono de Ferro é tão bom quanto ter um anel mágico.
Ser rei pode significar ter poderes quase ilimitados, mas — infelizmente para Joffrey — nem mesmo um rei pode esconder seus atos dos súditos. O anel de Giges desperta tanta atração justamente porque permite a quem o usa a possibilidade de agir de modo imoral sem ter a mesma reputação questionável de Joffrey e outras pessoas desprezíveis. E, por mais que ele goste de acreditar que pode fazer o que quiser, as pessoas se lembram com ódio de tiranos. Uma geração antes de Joffrey, o povo de Westeros se revoltou contra o Rei Louco Aerys Targaryen. Essa rebelião acabou levando ao assassinato de Aerys pelas mãos de Jaime Lannister. No final da primeira temporada de Game of Thrones, Joffrey está indo rapidamente pelo mesmo caminho de Aerys.(Martin, A fúria dos reis.)
A cada ato de crueldade, a cada mal infligido para fins egoístas, Joffrey transforma um possível aliado leal num inimigo eterno. Enquanto Giges consegue ter os benefícios de parecer ser uma boa pessoa, Joffrey não tem a mesma sorte. Antes de subir ao poder, o comportamento de Joffrey era ofensivo o bastante a ponto de merecer uma boa surra do tio. Você vibrou quando Tyrion Lannister bateu no sobrinho pela primeira vez? Eu vibrei. E ser coroado rei não fez absolutamente nada para melhorar o comportamento do jovem. Poucos dias após ter subido ao trono, Sansa, a futura noiva de Joffrey, cogita empurrá-lo de uma ponte. Os delitos do rei apenas garantem que seu período no Trono de Ferro tenha um fim rápido e sangrento.
Joffrey claramente não entendeu o que significa estar no Trono de Ferro. Mas o erro dele é agir de modo imoral? Ou é outra coisa? Talvez se achar invencível?
Por ser rei, Joffrey acredita que pode fazer o que quiser e não haverá consequências negativas. Isso é uma grande ingenuidade. O erro fatal dele nem é agir de modo imoral, e sim acreditar erroneamente que é invencível. Afinal, esse comportamento imoral lhe rendeu má fama e muitos inimigos. Seria inteligente começar a se comportar melhor.
Integrantes da corte de Joffrey, como lorde Petyr “Mindinho” Baelish, disfarçam seus delitos de modo mais competente. E assim como Giges, Cersei e Jaime Lannister conseguem manter suas transgressões morais em segredo, ainda que isso signifique empurrar uma criança da janela. Talvez a verdadeira lição a ser aprendida é que Joffrey apenas precisa ter mais cuidado com quem o vê agindo de modo imoral.

A verdade será o que você definir
Cersei e Jaime Lannister são espertos o bastante para manter seus lapsos morais em segredo. Eles agem como se fossem moralmente respeitáveis quando estão com outras pessoas e mantêm seu caso de amor e suas manobras políticas nas sombras.
Numa cena crucial da série, Cersei aconselha Joffrey, dizendo que “a bondade ocasional lhe poupará de todo tipo de problema mais adiante.” (Episódio 3 da primeira temporada, Lord Snow [Lorde Snow].) Cersei tenta ensinar ao filho a importância de manter a aparência de ser uma boa pessoa, agindo como se fosse um governante justo e cultivando a reputação de um indivíduo moral. Segundo este conselho, não há problema em fazer tudo o que quiser em segredo, mas agir abertamente como um vilão significa fazer inimigos rapidamente e criar o cenário para uma imensa queda.
Cersei obviamente não tem um anel mágico como Giges. Ela precisa recorrer à linguagem ambígua, ao amante que empurra crianças de janelas e outras estratégias maquiavélicas para esconder seus verdadeiros motivos. Mas, supondo que ela tenha sucesso em manter as aparências de ser uma rainha nobre e justa, Cersei tem algum motivo para ser moral na vida particular? Visto que ela fez sua parte para garantir que jamais precisará enfrentar punições, ela tem algum motivo para ser moral? O medo de vingança é o único motivo para ser isso?

Você tem uma longa viagem pela frente, e em má companhia
Talvez Cersei e Joffrey tenham que ser morais devido ao contrato social do qual todos nós fazemos parte como integrantes de comunidades. Obviamente, é do interesse de ambos viver numa sociedade em que as pessoas ajam de forma moral, respeitando os direitos e interesses alheios. Afinal, se Cersei tivesse a garantia de que todos em Porto Real agissem moralmente, desde que ela também se comportasse bem, a rainha teria muito menos motivos para armar esquemas. Na mesma linha, se a única maneira de Joffrey garantir que seus súditos não tentassem usurpar-lhe o trono fosse que ele se transformasse num governante justo e nobre, ele também teria um bom motivo para agir moralmente.
O teórico do contrato social Thomas Hobbes (1588-1679) concordaria. Hobbes se preocupava com o perigo dos humanos competirem uns com os outros a fim de satisfazer os próprios desejos. Ele reconhecia que, num mundo sem controles legais, morais e sociais sobre o que se pode ou não fazer, nada impediria o envolvimento num conflito mortal. É uma dura realidade, mas humanos em busca dos próprios objetivos e interesses inevitavelmente entrarão em conflito direto uns com os outros. Também é uma verdade óbvia que mesmo o mais fraco de nós pode representar uma ameaça ao mais forte. Hobbes estava bastante ciente que um duende sempre pode contratar um mercenário, uma rainha sempre pode recorrer à traição ou ao veneno e até um guerreiro forte como Drogo pode ser abatido por uma simples ferida. Quando todos nós buscamos os próprios objetivos e desejos sem o controle da moralidade e da sociedade, nós competimos. E, quando competimos, acabamos matando uns aos outros.
Esse medo da destruição mútua dá uma motivação poderosa para encontrar um jeito de garantir que todos se comportem da melhor maneira possível. Racionalmente, devemos estar dispostos a fazer qualquer coisa para garantir um ambiente sem a constante ameaça de competição mortal. E um jeito de fazer isso é aceitar viver de acordo com um conjunto de regras. Se eu concordo em ser uma pessoa moral e justa desde que você concorde em ser uma pessoa moral e justa, e você concorde em fazer o mesmo, ambos temos a garantia de que somos capazes de cooperar e viver em paz. Assim, o motivo pelo qual Joffrey e Cersei precisam agir moralmente seria para garantir a preservação do contrato social e que todo mundo também aja moralmente.
À primeira vista, isso parece ser uma resposta poderosa à pergunta “Por que ser moral?”. Dá até à pessoa mais desvirtuada e psicopata um motivo convincente para se comportar bem. Se você sair da linha e ceder ao desejo de cometer atos imorais, estará quebrando o contrato com seus companheiros cidadãos. E, se você não cumprir as regras, eles também não terão motivos para fazê-lo. Quando não é mais possível ter certeza de que os vizinhos agirão de modo moral, fica-se com medo de qualquer sombra, temendo uma punhalada pelas costas.
Os homens da Patrulha da Noite adotam uma filosofia que segue bastante o espírito desse motivo de Hobbes para ser moral. A Patrulha da Noite é uma espécie de colônia penal composta por assassinos, estupradores, ladrões e os que não têm para onde ir. A maioria acaba se juntando à Patrulha da Noite contra a própria vontade. Eles recebem uma escolha entre “vestir-se de negro”, isto é, jurar defender Westeros com a vida dos horrores inenarráveis para lá da Muralha, ou a morte. Obviamente, quando se está vivendo entre ladrões e assassinos, é de vital importância ter alguma garantia de que seu vizinho não vai cortar sua garganta enquanto você dorme. A Patrulha da Noite consegue isso ao deixar claro para seus integrantes que, se eles saírem da linha, serão mortos.
Mas Porto Real é um lugar bem diferente da Muralha, e a corte de Joffrey é bem menos honrada que o bando de vagabundos que compõe a Patrulha. Mesmo se Joffrey e Cersei concordassem com Hobbes que o desejo de uma sociedade moral e estável dá motivos para as pessoas se comportarem bem, essa obrigação só dura enquanto os outros cumprirem sua parte no contrato. E não é preciso ser Eddard Stark para saber que não existe contrato na corte de Joffrey. Agir moralmente não é uma boa estratégia de sobrevivência em Porto Real.
Porto Real se assemelha mais à civilização dothraki do que ao tipo de comunidade honrada da qual fazem parte os homens da Patrulha da Noite. Agir “moralmente” nos dois ambientes é visto como um tipo de fraqueza. Entre os dothraki, só os fortes sobrevivem. Drogo é khal, o líder do povo, mas não por ser um pilar de virtude, e sim porque ele é um assassino sanguinário e implacável, disposto a cortar gargantas dos súditos se eles desafiarem sua autoridade ou ficarem em seu caminho. Da mesma forma, Mindinho e Varys, dois atores fundamentais na política de Porto Real, sobreviveram tanto tempo porque ambos são assassinos implacáveis dispostos a esmagar os oponentes. É verdade que eles usam métodos mais sutis e indiretos do que derramar ouro derretido na cabeça dos inimigos, mas o resultado final é o mesmo. Em Porto Real e nas terras selvagens dos dothraki, o jogo é para valer. Então, Porto Real não é exatamente o tipo de ambiente propício a respeitar um contrato social.
Mesmo se a cidade fosse uma comunidade mais admirável em termos morais, Joffrey não necessariamente teria um motivo para agir de forma moral. Parando para pensar, Joffrey não está interessado em agir moralmente. O que realmente lhe interessa é que todos os outros respeitem os direitos e interesses alheios e pensem que ele está se comportando bem.
Se todos acreditassem na teoria do contrato social, o rei estaria em franca vantagem. Os cidadãos de seu reino seriam presas fáceis. Ned e Sansa foram enganados por Cersei justamente por acharem que ela jogaria de acordo com as regras. Se Joffrey tivesse ouvido o conselho da mãe e fosse um pouco mais discreto, ele poderia pegar carona no bom comportamento de seus cidadãos e ceder aos desejos mais loucos e imorais em segredo.
A solução do contrato social para a pergunta “Por que ser moral?” não dá a Joffrey um motivo convincente para agir moralmente. Pode dar um motivo pelo qual grupos de pessoas em geral deveriam agir moralmente, mas este não é o tipo de razão que motivaria um imoralista como Joffrey. Ele certamente tem interesse que todos os outros se comportem bem, mas precisamos mesmo é de um motivo para que ele também se comporte bem.

Nosso costume é antigo
Segundo Platão, imoralistas como Joffrey são incapazes de ter a verdadeira felicidade, porque a felicidade é mais do que apenas satisfazer seus desejos e obter tudo que se quer. Ela está relacionada à vida interior, ao estado da alma. Dessa forma Joffrey deve ser um rei moral e justo, porque está perdendo a felicidade ao se recusar a agir moralmente.
Você pode pensar que há algum ilusionismo acontecendo aqui. Claro que Joffrey parece estar perdendo algumas coisas boas na vida, mas isso acontece porque ele é um cretino imoral? Os pais de Joffrey, Cersei e Jaime, também têm motivos bem questionáveis (pelo menos durante a primeira temporada de Game of Thrones), mas ambos parecem ter encontrado um pouco de felicidade um no outro. Eles podem empurrar uma criança da janela de vez em quando ou se envolver num arroubo incestuoso ocasional, mas a vida e a alma deles são realmente caóticas e desorganizadas devido a seus atos?
Joffrey e sua família parecem ter muitas coisas boas na vida, e várias delas certamente foram obtidas por meio de atos imorais. Os Lannister são uma família extremamente rica, e essa riqueza e poder acumulados lhes permitem comprar todo tipo de prazeres. Sejam lautos banquetes, fácil acesso a prostitutas ou celebrações extravagantes, eles parecem ter uma vida bem confortável quando comparada a vários habitantes dos Sete Reinos. Então, seria mesmo verdade que as pessoas imorais nunca são verdadeiramente felizes?
Talvez Cersei e Joffrey tenham vidas agradáveis, mas isso é diferente da verdadeira felicidade. Platão tem em mente um tipo mais profundo desse sentimento. Uma pessoa imoral como Joffrey é infeliz, mesmo obtendo o que deseja e satisfazendo seus desejos. Ele tem uma alma doente e sua vida interior é um caos, além de ter uma existência pequena e egoísta. Joffrey se preocupa apenas consigo mesmo e não tem a capacidade de se conectar de modo significativo a outro ser humano. Afinal, em sua visão, os outros servem apenas como meios para satisfazer seus desejos. Sem quaisquer preocupações com a moralidade, Joffrey não tem, ou pelo menos não demonstra ter, as emoções humanas básicas, como compaixão, amor e consideração, que permitem amizades e relacionamentos verdadeiros. Joffrey está sozinho. Se Platão estiver certo, a vida imoral de Joffrey o impede de vivenciar o que é realmente valioso na vida. Assim, a verdadeira felicidade é algo que pode estar fora do alcance da pessoa imoral.
Alguns filósofos são céticos quanto a essa visão de felicidade definida por Platão, mas existe pelo menos uma pessoa em Westeros que concordaria com ele. Eddard Stark parece pensar que há algo na vida moral que torna o ato de viver de forma honrosa e justa muito mais importante do que qualquer Trono de Ferro. Talvez valha até a pena morrer por isso.

Devo ser um dos poucos homens desta cidade que não quer ser rei
Numa cena reveladora, Ned confronta Cersei e conta ter descoberto que Joffrey não é filho do rei. Ele avisa a Cersei:
— Quando o rei voltar da caçada, direi a ele a verdade. Você já deve ter ido embora, você e seus filhos. Não quero ter o sangue dele em minhas mãos. Vá para o mais longe que puder, com o máximo de homens que puder, porque não importa aonde você vá, a ira de Robert a seguirá.
— E a minha ira, Lorde Stark? Você deveria ter tomado a coroa para si. Jaime me contou sobre o dia em que Porto Real caiu. Ele estava sentado no Trono de Ferro e você o fez abrir mão dele. Bastava apenas você subir os degraus. Um erro tão triste.
— Já cometi muitos erros na vida, mas este não foi um deles. — Ah, mas foi. Quando se joga o jogo dos tronos, ganha-se ou morre.
(Episódio 7 da primeira temporada, You Win or You Die [Você ganha ou morre].)
Essa conversa ilustra um contraste fundamental entre Ned Stark e Cersei Lannister. Cersei vê a vida em Porto Real como uma competição. Ela ama o irmão Jaime e os filhos e está disposta a fazer de tudo para obter poder para si e sua família. Ela não tem tempo para honra ou moralidade. Apenas o Trono de Ferro e o poder que vem com ele importam para Cersei. O poder, especialmente o quase ilimitado que vem com o trono, traz também segurança. Para ela, o erro mais idiota que alguém pode cometer seria perder uma oportunidade de tomar o poder, garantir esse privilégio e essa segurança para si e para a família.
Ned pensa de modo diferente. Ele pode concordar com Cersei que o jogo dos tronos é jogado para valer, mas não está disposto a participar de um jogo em que a única forma de vencer é sacrificando a própria moralidade. Para ele, existem coisas mais importantes que o poder, e a honra e a moralidade têm mais valor até mesmo do que uma vida longa e segura.
Essa relutância em abrir mão dos ideais é um dos principais motivos pelos quais Ned acredita ter sido inteligente ao recusar o trono. Na juventude, ele já sabia que subir ao trono e garantir a permanência lá significaria abrir mão de sua honra repetidamente. Seria viver em constante medo de ser destronado, ter uma vida de competição e concessões morais eternos. E para Ned não há felicidade nem glória nesse tipo de vida.
A decisão de Ned de rejeitar o trono está de acordo com a resposta de Platão à pergunta “Por que ser moral?”. Afinal, Ned rejeitou o trono para voltar ao norte e viver com a esposa. Ele continuou firme em seu compromisso com a honra e a virtude e conseguiu uma vida surpreendentemente feliz e realizada para alguém em Westeros. O patriarca dos Stark passou décadas num lar amoroso e feliz, criando os filhos e governando sua parte do reino de modo justo e sábio. Ele cultivou relacionamentos profundos e verdadeiros com as pessoas de quem mais gostava e transmitiu sua sabedoria aos filhos. Se não fosse pela insistência de Robert para se juntar a ele em Porto Real, Ned teria levado uma vida honrosa até o fim. Essa felicidade é algo que Cersei, sua família e todos os que lutam pelo poder em Porto Real jamais terão. Foi o compromisso de Ned com a moralidade que lhe permitiu encontrar a verdadeira felicidade, independentemente de sua total consciência de que o inverno está chegando.
Como reconhecia a futilidade da vida imoral, Ned relutou em aceitar a oferta de Robert para ser Mão do Rei. Ele sabia que seu compromisso com a honra fazia dele uma pessoa particularmente inadequada para competir com o ninho de cobras de Porto Real. Forçado a entrar no jogo dos tronos, Ned o joga como viveu, com honra e justiça. Mas um homem honrado posto contra gente como Cersei, Mindinho e Varys é um homem morto. Ned estava fadado ao fracasso assim que aceitou a oferta de Robert. Depois de poucas semanas em Porto Real, ele se vê preso por traição, vítima das manobras políticas daqueles que não se veem impedidos por restrições morais.
Após Cersei mandar prender Ned, Varys lhe faz uma visita a fim de oferecer uma forma de evitar a execução. Se Ned estiver disposto a manter em segredo que Joffrey não é filho legítimo do falecido rei, Varys garante que Ned será capaz de convencer Cersei a deixá-lo se vestir de negro e entrar para a Patrulha da Noite. Tudo que Ned precisa fazer é contar uma pequena mentira e guardar o segredo da rainha.
Ned responde: “Você pensa que minha vida é algo precioso para mim, que eu trocaria minha honra por mais alguns anos... de que mesmo? Você foi criado com atores, aprendeu o ofício deles e aprendeu bem. Mas eu fui criado com soldados. Aprendi a morrer há muito tempo.” (Episódio 9 da primeira temporada, Baelor.)
Varys tenta mais uma tática a fim de persuadir Ned a ceder em seus valores. Ele pergunta: “E a vida de sua filha, meu senhor? É algo precioso para você?” Essa ameaça velada na forma de pergunta enfim motiva Ned a ceder. Ele troca a honra pela vida das filhas e o adiamento da própria execução. Mas isso acaba sendo inútil. Ned sacrifica a honra, alega falsamente que conspirou a fim de roubar o Trono de Ferro para si e proclama Joffrey como herdeiro legítimo e de direito de Robert. É a deixa para o jovem monarca mostrar sua noção distorcida de justiça: Ned perde a cabeça e Sansa passa a ser prisioneira, com a vida ainda em perigo. A morte de Ned é trágica porque ele sacrificou sua moralidade e honra por nada.
Apesar desse fim trágico e do momento de fraqueza, Ned pode na verdade estar certo quanto ao valor da moralidade. Talvez Cersei e Joffrey estejam perdendo algo que a honra de Ned lhe permite vivenciar. A resposta dele à pergunta “Por que ser moral?” é semelhante à de Platão. O motivo para ser moral não consiste em evitar punição, escárnio, desaprovação ou ser chamado a responder por mau comportamento. O inverno inevitavelmente chegará, e não devemos ser motivados a renunciar à moralidade por medo de que algo de mau nos aconteça. Devemos nos ater à moralidade porque ser moral é o único jeito de ter o melhor que a vida pode oferecer. Diante de Cersei e Joffrey, Ned e Platão teriam, sim, uma resposta. Vocês perdem a vida boa ao serem imorais. Há mais na vida do que o mero prazer.(Dedicado a Karen Haas, minha mãe, por ter me criado como um Stark e ensinado que ter uma vida boa significa mais do que sempre obter o que deseja.)

(A guerra dos tronos e a filosofia / editado por Henry Jacoby) 

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publicado às 08:34



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