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Um dia na vida de Adão e Eva

por Thynus, em 02.02.16
A tolerância não é uma marca registrada dos sapiens. Nos tempos modernos, uma pequena
diferença em cor de pele, dialeto ou religião tem sido suficiente para levar um grupo de sapiens a
tentar exterminar outro grupo. Os sapiens antigos teriam sido mais tolerantes para com uma espécie
humana totalmente diferente? É bem possível que, quando os sapiens encontraram os neandertais, o
resultado tenha sido a primeira e mais significativa campanha de limpeza étnica na história.
O que quer que tenha acontecido, os neandertais (e outras espécies humanas) apresentam um
dos grandes “e ses” da história. Imagine o que poderia ter acontecido se os neandertais ou
denisovanos tivessem sobrevivido ao lado do Homo sapiens. Que tipos de cultura, sociedade e
estrutura política teriam surgido em um mundo em que várias espécies humanas diferentes
coexistissem? Como, por exemplo, as fés religiosas teriam se desenvolvido? O livro do Gênesis
teria declarado que os neandertais descenderam de Adão e Eva, Jesus teria morrido pelos pecados
dos denisovanos, e o Corão teria reservado lugares no Paraíso para todos os humanos corretos,
independentemente da espécie? Os neandertais teriam recebido um lugar no sistema de castas hindu,
ou na vasta burocracia da China imperial? A Declaração da Independência dos Estados Unidos teria
considerado como uma verdade evidente que todos os membros do gênero Homo foram criados
iguais? Karl Marx teria instado os trabalhadores de todas as espécies a se unirem?


PARA ENTENDER NOSSA NATUREZA, NOSSA HISTÓRIA E NOSSA PSICOLOGIA, DEVEMOS entrar na cabeça dos nossos ancestrais caçadores-coletores. Durante praticamente toda a história da nossa espécie, os sapiens viveram como caçadores-coletores. Os últimos 200 anos, durante os quais um número cada vez maior de sapiens ganham o pão de cada dia como trabalhadores urbanos e funcionários administrativos, e os 10 mil anos precedentes, durante os quais a maioria dos sapiens vivia como agricultores e pastores, são um piscar de olhos em comparação com as dezenas de milhares de anos durante os quais nossos ancestrais foram caçadores e coletores.
O campo próspero da psicologia evolutiva afirma que muitas de nossas características psicológicas e sociais do presente foram moldadas durante essa longa era pré-agrícola. Ainda hoje, afirmam especialistas da área, nosso cérebro e nossa mente são adaptados para uma vida de caça e coleta. Nossos hábitos alimentares, nossos conflitos e nossa sexualidade são todos consequência do modo como nossa mente de caçadores-coletores interage com o ambiente pós-industrial de nossos dias, com megacidades, aviões, telefones e computadores. Esse ambiente nos dá mais recursos materiais e vida mais longa do que a desfrutada por qualquer geração anterior, mas também nos faz sentir alienados, deprimidos e pressionados. Para entender por quê, apontam os psicólogos evolutivos, precisamos nos aprofundar no mundo de caçadores-coletores que nos moldou, o mundo que, subconscientemente, ainda habitamos.
Por que, por exemplo, as pessoas se regalam com alimentos altamente calóricos que tão pouco bem fazem a seus corpos? As sociedades afluentes de hoje estão tomadas por uma praga de obesidade, que está rapidamente se alastrando para países em desenvolvimento. É intrigante tentar entender por que nos empanturramos com os alimentos mais doces e mais gordurosos que conseguimos encontrar, até considerarmos os hábitos alimentares dos nossos ancestrais caçadorescoletores. Nas savanas e florestas que eles habitavam, alimentos doces e calóricos eram extremamente raros, e a comida em geral era escassa. Um caçador-coletor típico de 30 mil anos atrás só tinha acesso a um tipo de comida doce: frutas maduras. Se uma mulher da Idade da Pedra se deparasse com uma árvore repleta de figos, a coisa mais razoável a fazer era ingerir o máximo que pudesse imediatamente, antes que um bando de babuínos comesse tudo. Hoje, podemos morar em apartamentos com geladeiras abarrotadas, mas nosso DNA ainda pensa que estamos em uma savana. É isso o que nos motiva a comer um pote inteiro de sorvete quando encontramos um no freezer e fazêlo descer com uma Coca-Cola grande.
Essa teoria do “gene guloso” é amplamente aceita. Outras teorias são muito mais controversas. Por exemplo, alguns psicólogos evolutivos afirmam que bandos antigos de caçadores-coletores não eram compostos de famílias nucleares centradas em casais monogâmicos. Em vez disso, eles viviam em comunidades onde não havia propriedade privada, relações monogâmicas ou mesmo paternidade. Em um bando como esse, uma mulher podia ter relações sexuais e formar laços íntimos com vários homens (e mulheres) ao mesmo tempo, e todos os adultos do bando cooperavam para cuidar das crianças. Os homens mostravam igual preocupação por todas as crianças, uma vez que nenhum sabia ao certo quais eram definitivamente filhos seus.
Tal estrutura social não é uma utopia aquariana. É bem documentada entre animais, notadamente entre nossos parentes mais próximos, os chimpanzés e os bonobos. Há, inclusive, uma série de culturas humanas nos dias de hoje em que se pratica a paternidade coletiva, como, por exemplo, entre os índios barés. De acordo com as crenças de tais sociedades, uma criança não nasce do esperma de um único homem, mas da acumulação de esperma no útero de uma mulher. Uma boa mãe trata de ter relações sexuais com vários homens diferentes, sobretudo enquanto está grávida, para que seu filho receba as qualidades (e os cuidados paternos) não só do melhor caçador como também do melhor contador de histórias, do guerreiro mais forte e do amante mais atencioso. Se isso parece estúpido, tenha em mente que antes do desenvolvimento dos estudos embriológicos modernos as pessoas não tinham provas concretas de que os bebês invariavelmente são concebidos por um único pai, e não por vários.
Os defensores dessa teoria da “comunidade antiga” afirmam que as infidelidades frequentes que caracterizam os casamentos modernos e o índice elevado de divórcios, sem falar da profusão de complexos psicológicos que acometem crianças e adultos, todos resultam de forçar os humanos a viver em famílias nucleares e relações monogâmicas, que são incompatíveis com nosso programa biológico.(Christopher Ryan e Cacilda Jethá, Sex at Dawn: The Prehistoric Origins of Modern Sexuality (Nova York: Harper, 2010); S. Beckerman e P. Valentine (orgs.), Cultures of Multiple Fathers. The Theory and Practice of Partible Paternity in Lowland South America (Gainesville: University Press of Florida, 2002))
Muitos acadêmicos rejeitam veementemente essa teoria, insistindo que a monogamia e a formação de famílias são comportamentos essencialmente humanos. Esses pesquisadores afirmam que, embora as antigas sociedades caçadoras-coletoras tendessem a ser mais comunais e igualitárias do que as sociedades modernas, eram, no entanto, constituídas de células separadas, cada uma delas contendo um casal ciumento e os filhos que eles tinham em comum. É por isso que hoje as relações monogâmicas e as famílias nucleares são a norma na grande maioria das culturas, que homens e mulheres tendem a ser muito possessivos com relação a seus parceiros e filhos e que até mesmo em Estados modernos como a Coreia do Norte e a Síria a autoridade política passa de pai para filho. A fim de resolver essa controvérsia e entender nossa sexualidade, nossa sociedade e nossa política, precisamos saber algumas coisas sobre as condições de vida de nossos ancestrais, a fim de examinar como viviam os sapiens entre a Revolução Cognitiva de 70 mil anos atrás e o começo da Revolução Agrícola, há cerca de 12 mil anos.
Infelizmente, há poucas certezas a respeito da vida de nossos ancestrais caçadores-coletores. O debate entre os defensores da “comunidade antiga” e os da “monogamia eterna” se baseia em indícios escassos. Obviamente, não temos registros escritos da época dos caçadores-coletores, e as evidências arqueológicas consistem basicamente de ossos fossilizados e ferramentas de pedra. Artefatos feitos de materiais mais perecíveis – como madeira, bambu ou couro – só sobrevivem em condições especiais. A impressão comum de que os humanos pré-agrícolas viveram em uma idade da pedra é um conceito equivocado baseado nessa tendência arqueológica. Seria mais adequado chamar a Idade da Pedra de Idade da Madeira, pois a maioria das ferramentas usadas pelos antigos caçadores-coletores era feita de madeira.
Toda reconstrução da vida dos antigos caçadores-coletores com base nos artefatos remanescentes é extremamente problemática. Uma das diferenças mais gritantes entre eles e seus descendentes agrícolas e industriais é que, para começar, os caçadores-coletores tinham pouquíssimos artefatos, e estes exerciam um papel comparativamente modesto em suas vidas. Ao longo de sua vida, um típico membro de uma sociedade moderna afluente possui vários milhões de artefatos – de carros e casas a fraldas descartáveis e caixas de leite. Dificilmente há uma atividade, uma crença ou mesmo uma emoção que não seja mediada por objetos concebidos por nós mesmos. Nossos hábitos alimentares são mediados por uma coleção impressionante de tais itens, de colheres e copos a laboratórios de engenharia genética e navios transoceânicos gigantes. Para brincar, usamos uma série de brinquedos, de cartas de plástico a estádios com 100 mil lugares. Nossas relações românticas e sexuais são equipadas por anéis, camas, roupas bonitas, lingeries sensuais, camisinhas, restaurantes da moda, motéis baratos, salas de espera de aeroporto, salões de festa e empresas de catering. As religiões trazem o sagrado à nossa vida com igrejas góticas, mesquitas muçulmanas, ashrams hindus, rolos de Torá, rodas de oração tibetanas, batinas eclesiásticas, velas, incenso, árvores de natal, lápides e ícones.
Mal percebemos o quanto nossos objetos são onipresentes até precisarmos nos mudar para uma casa nova. Os caçadores-coletores se mudavam todo mês, toda semana e, às vezes, todo dia, carregando nas costas o que quer que possuíssem. Não havia empresas de mudança, carroças e nem mesmo animais de carga para dividir o fardo. Consequentemente, eles tinham de se virar apenas com as posses essenciais. É razoável presumir, portanto, que a maior parte de sua vida mental, religiosa e emotiva fosse conduzida sem a ajuda de artefatos. Um arqueólogo trabalhando daqui a 100 mil anos seria capaz de recompor um cenário razoável da crença e da prática muçulmana com base nos vários objetos encontrados em escavações nas ruínas de uma mesquita. Mas, hoje, estamos praticamente perdidos tentando compreender as crenças e os rituais dos antigos caçadores-coletores. É, em grande medida, o mesmo dilema que um futuro historiador enfrentaria se tivesse de retratar o mundo social dos adolescentes do século XXI unicamente com base no que sobrevivesse das cartas trocadas entre eles – já que não restariam registros de conversas telefônicas, e-mails, blogs e mensagens de texto. A dependência dos artefatos, portanto, resulta em um relato tendencioso da vida dos antigos caçadores-coletores. Uma maneira de remediar isso é observar as sociedades caçadoras-coletoras modernas. Estas podem ser estudadas diretamente, por meio de observação antropológica. Mas há boas razões para ser cauteloso ao fazer inferências a partir das sociedades caçadoras-coletoras modernas sobre as antigas.
Em primeiro lugar, todas as sociedades caçadoras-coletoras que sobreviveram até nossos dias foram influenciadas por sociedades agrícolas e industriais adjacentes. Portanto, é arriscado presumir que o que é verdade sobre elas também foi verdade há dezenas de milhares de anos.
Em segundo lugar, as sociedades caçadoras-coletoras modernas sobreviveram principalmente em áreas com condições climáticas difíceis e terreno inóspito, inadequado para a agricultura. As sociedades que se adaptaram às condições extremas de lugares como o deserto de Kalahari, no sul da África, podem muito bem fornecer um modelo um tanto enganoso para entender sociedades antigas em áreas férteis como o vale do rio Yangtzé. Em particular, a densidade populacional em uma área como o deserto de Kalahari é muito mais baixa do que foi na região do antigo Yangtzé, e isso tem implicações profundas para questões essenciais sobre o tamanho e a estrutura dos bandos humanos e a relação entre eles.
Em terceiro lugar, a característica mais notável das sociedades caçadoras-coletoras é o quanto elas são diferentes umas das outras. Diferem não só de uma parte do mundo a outra como inclusive na mesma região. Um bom exemplo é a enorme variedade que os primeiros colonizadores europeus encontraram entre os povos aborígenes da Austrália. Logo antes da conquista britânica, entre 300 mil e 700 mil caçadores-coletores viviam no continente distribuídos em 200 a 600 tribos, cada uma dividida em vários bandos.(Noel G. Butlin, Economics and the Dreamtime: A Hypothetical History (Cambridge: Cambridge University Press, 1993), 98-101; Richard Broome, Aboriginal Australians (Sydney: Allen & Unwin, 2002), 15; William Howell Edwards, An Introduction to Aboriginal Societies (Wentworth Falls, N.S.W.: Social Science Press, 1988), 52.) Cada tribo tinha seu próprio idioma, religião, normas e costumes. Perto do que hoje é Adelaide, no sul da Austrália, viviam vários clãs patrilineares, que se baseavam na descendência por parte de pai. Esses clãs se uniam em tribos por razões estritamente territoriais. Por sua vez, algumas tribos no norte da Austrália davam mais importância à ancestralidade materna de uma pessoa, e sua identidade tribal não se baseava em território, e sim em seu totem.
É razoável pensar que a variedade étnica e cultural entre os antigos caçadores-coletores fosse igualmente impressionante e que os 5-8 milhões de caçadores-coletores que povoaram o mundo à véspera da Revolução Agrícola se dividissem em milhares de tribos com milhares de idiomas e culturas diferentes.(Fekri A. Hassan, Demographic Archaeology (Nova York: Academic Press, 1981), 196-199; Lewis Robert Binford, Constructing Frames of Reference: An Analytical Method for Archaeological Theory Building Using Hunter Gatherer and Environmental Data Sets (Berkeley: University of California Press, 2001), 143.) Esse, afinal, foi um dos principais legados da Revolução Cognitiva. Graças ao surgimento da ficção, até mesmo pessoas com a mesma composição genética e vivendo em condições ecológicas similares foram capazes de criar realidades imaginadas muito diferentes, que se manifestavam em diferentes normas e valores.
Por exemplo, temos todas as razões para acreditar que um bando de caçadores-coletores que viveram há 20 mil anos na região da atual Lisboa teria falado uma língua diferente daquele que viveu onde hoje se situa a cidade do Porto. Um bando pode ter sido beligerante e o outro, pacífico. Talvez o bando de Lisboa fosse comunal, e o do Porto se baseasse em famílias nucleares. O povo de Lisboa talvez passasse horas esculpindo estátuas de madeira de seus espíritos guardiães, ao passo que seus contemporâneos do Porto mostravam sua devoção por meio da dança. Os primeiros talvez acreditassem em reencarnação, enquanto os últimos consideravam isso absurdo. Em uma sociedade, relações homossexuais podem ter sido aceitas, ao passo que na outra eram um tabu.
Em outras palavras, embora as observações antropológicas dos caçadores-coletores modernos possam nos ajudar a entender algumas das possibilidades disponíveis para os caçadores-coletores antigos, o horizonte de possibilidades daquela época era muito mais amplo e, em sua maior parte, é desconhecido para nós.[Um “horizonte de possibilidades” significa todo o espectro de crenças, práticas e experiências que se apresentam diante de determinada sociedade, considerando suas limitações ecológicas, tecnológicas e culturais. Cada sociedade e cada indivíduo normalmente explora apenas uma pequena fração de seu horizonte de possibilidades] Os debates acalorados sobre o “estilo de vida natural” do Homo sapiens perdem de vista a questão principal. Desde a Revolução Cognitiva, não existe um único estilo de vida natural para os sapiens. Há apenas escolhas culturais, dentro de um conjunto assombroso de possibilidades.

  (Yuval Noah Harari - Sapiens, uma breve história da humanidade)

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