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TUDO BEM. QUER DIZER QUE O TRIGO ATRAPALHA seu intestino, estimula excessivamente seu apetite e faz de você o alvo de piadas por causa da barriga de cerveja. Mas será que ele é assim tão nocivo?
Os efeitos do trigo chegam ao cérebro na forma de peptídeos opioides. Mas essas exorfinas polipeptídicas responsáveis por aqueles efeitos entram no cérebro e saem dele, dissipando-se com o tempo. As exorfinas fazem com que seu cérebro lhe passe instruções para comer mais, aumentar o consumo de calorias e raspar, em desespero, as bolachas velhas no fundo do pacote, quando não houver mais nada à mão.
No entanto, todos esses efeitos são reversíveis. Pare de comer trigo e os sintomas desaparecem, o cérebro se recupera e você se sente novamente disposto a ajudar seu filho adolescente a encarar equações de segundo grau.
Mas os efeitos do trigo sobre o sistema nervoso não param por aí. Entre os mais perturbadores efeitos do trigo estão os que ele exerce sobre o próprio tecido cerebral – não “simplesmente” sobre pensamentos e comportamento, mas sobre o próprio cérebro, sobre o cerebelo e sobre outras estruturas do sistema nervoso, com consequências que vão desde a falta de coordenação até a incontinência, de convulsões a demência. E, ao contrário dos fenômenos de dependência, esses efeitos não são totalmente reversíveis.
 
CUIDADO ONDE PISA: O TRIGO E A SAÚDE DO CEREBELO
Imagine que eu coloque uma venda sobre os seus olhos e o solte num quarto desconhecido, cheio de ângulos e cantos estranhos, com objetos dispostos de modo aleatório para você tropeçar. Com alguns passos, é provável que você se descubra batendo de cara na sapateira. Dificuldades desse tipo são enfrentadas por portadores de um transtorno conhecido como ataxia cerebelar. Só que essas pessoas enfrentam problemas como esse estando de olhos abertos.
São aquelas pessoas que você costuma ver usando bengalas e andadores, ou tropeçando numa rachadura na calçada, o que resulta na fratura de uma perna ou do quadril. Alguma coisa prejudicou a capacidade delas de se orientar no mundo, fazendo com que perdessem o controle sobre o equilíbrio e a coordenação, funções centralizadas numa região do sistema nervoso central denominada cerebelo.
A maioria das pessoas que sofrem de ataxia cerebelar consulta um neurologista, e muitas vezes seu transtorno é diagnosticado como idiopático, isto é, uma moléstia espontânea sem causa conhecida. Nenhum tratamento é prescrito, nem foi desenvolvido nenhum tratamento. O neurologista simplesmente sugere um andador, recomenda que sejam removidos potenciais riscos para tropeços em casa e examina a possibilidade de uso de fraldas para adultos devido à incontinência urinária, que acabará por se desenvolver. A ataxia cerebelar é progressiva, agravando-se a cada ano que passa, até o paciente tornar-se incapaz de pentear o cabelo, escovar os dentes ou ir ao banheiro sozinho. Finalmente, mesmo as atividades mais básicas de cuidados pessoais precisarão ser realizadas por outra pessoa. A essa altura, o paciente está próximo da morte, pois uma debilitação tão extrema acelera complicações como a pneumonia e escaras infectadas.
Entre 10 e 22,5% dos celíacos têm envolvimento do sistema nervoso1, 2. De todas as formas de ataxia já diagnosticadas, 20% apresentam anticorpos para o glúten. Entre pessoas com ataxia inexplicada – ou seja, em que nenhuma outra causa possa ser identificada – 50% têm anticorpos para o glúten no sangue3.
O problema: a maioria das pessoas que sofre de ataxia deflagrada pelo glúten do trigo não apresenta sinais nem sintomas de doença intestinal, nenhuma advertência do tipo celíaco que indique a ocorrência de sensibilidade ao trigo.
A resposta imunológica destrutiva responsável pela diarreia e pelas cólicas abdominais da doença celíaca também pode ser direcionada contra o tecido cerebral. Embora desde 1966 já se suspeitasse que a relação entre o glúten e o cérebro estava por trás do comprometimento neurológico, acreditava-se que ele fosse decorrente das deficiências nutricionais que acompanham a doença celíaca4. Mais recentemente, tornou-se claro que o envolvimento do cérebro e de outras partes do sistema nervoso resulta de um ataque imunológico direto às células nervosas. Os anticorpos antigliadina deflagrados pelo glúten podem unir-se às células nervosas conhecidas como células de Purkinje, exclusivas do cerebelo5. O tecido nervoso, nesse caso as células de Purkinje, não tem a capacidade de se regenerar. Uma vez lesionadas, as células de Purkinje cerebelares estão destruídas… para sempre.
Além da falta de equilíbrio e de coordenação, na ataxia cerebelar induzida pelo trigo podem se manifestar fenômenos tão estranhos como, no linguajar hermético da neurologia, o nistagmo (movimento lateral involuntário do globo ocular), a mioclonia (contrações musculares involuntárias) e a coreia (movimentos involuntários caóticos e rápidos dos membros). Um estudo de 104 pessoas com ataxia cerebelar também revelou dificuldades com a memória e com a capacidade verbal, sugerindo que a destruição induzida pelo trigo também pode atingir o tecido cerebral, isto é, o tecido nervoso que constitui o cérebro, sede do raciocínio e da memória6.
A faixa de idade típica para a manifestação de sintomas de ataxia cerebelar induzida pelo trigo é entre os 48 e os 53 anos. Em exames de ressonância magnética do cérebro, 60% dos afetados revelam atrofia do cerebelo, refletindo a destruição irreversível de células de Purkinje7.
Quando da eliminação do glúten do trigo, ocorre somente uma recuperação limitada das funções neurológicas, em razão da baixa capacidade de regeneração do tecido nervoso. A maioria das pessoas simplesmente deixa de piorar assim que cessa o fluxo de glúten8.
O primeiro obstáculo no diagnóstico da ataxia provocada pela exposição ao trigo consiste em encontrar um médico que chegue a levar em conta a possibilidade desse diagnóstico. Esse pode ser o pior dos obstáculos, já que grande parte da comunidade médica continua a abraçar a ideia de que o trigo faz bem à saúde. Uma vez que ele seja levado em consideração, porém, o diagnóstico é um pouco mais difícil que o simples diagnóstico da doença celíaca intestinal, especialmente porque alguns anticorpos (a forma IgA, em particular) não estão envolvidos na doença do sistema nervoso induzida pelo trigo. Some-se a isso um pequeno problema: a maioria das pessoas faz séria objeção a uma biópsia de cérebro; além disso, será necessário um neurologista bem informado para fazer o diagnóstico. O diagnóstico pode se apoiar em uma combinação de fatores, como a suspeita do problema e a presença de marcadores positivos de HLA DQ, além da observação de melhora ou estabilização quando da eliminação do trigo e do glúten da dieta9.
A dolorosa realidade da ataxia cerebelar é que, na grande maioria dos casos, você só sabe que está com o problema quando começa a tropeçar sozinho, a colidir com paredes ou a molhar as calças. Uma vez que o transtorno se manifeste, é provável que seu cerebelo já esteja encolhido e danificado. Interromper totalmente a ingestão de trigo e glúten a essa altura talvez apenas consiga mantê-lo fora da casa de repouso.
Tudo isso se deve aos bolinhos e bagels pelos quais você é louco.
 
DA CABEÇA AOS PÉS: O TRIGO E A NEUROPATIA PERIFÉRICA
Enquanto a ataxia cerebelar se deve às reações imunológicas deflagradas pelo trigo no cerebelo, um transtorno paralelo ocorre nos nervos das pernas, da pelve e de outros órgãos. Chama-se neuropatia periférica.
Uma causa comum da neuropatia periférica é o diabetes. A repetição, ao longo de anos, das elevadas taxas de glicose no sangue provoca lesões nos nervos das pernas, o que causa a redução da sensibilidade (permitindo assim que um diabético pise numa tachinha sem perceber), a diminuição do controle sobre a pressão sanguínea e os batimentos cardíacos, bem como a lentidão no esvaziamento do estômago (gastroparesia diabética), entre outras manifestações de um sistema nervoso desorientado.
Um grau semelhante de caos no sistema nervoso ocorre com a exposição ao trigo. A média de idade da manifestação da neuropatia periférica induzida pelo trigo é 55 anos. Como ocorre no caso da ataxia cerebelar, a maioria dos pacientes não apresenta sintomas intestinais que sugiram a doença celíaca10.
Diferentemente das células de Purkinje, que são incapazes de se regenerar, os nervos periféricos possuem certa capacidade de regeneração, ainda que limitada, uma vez que sejam removidos da dieta o trigo e o glúten; nesse caso, a maioria das pessoas tem pelo menos uma reversão parcial da neuropatia. Num estudo com 35 pacientes afetados por neuropatia periférica e sensíveis ao glúten, com resultados positivos para o anticorpo antigliadina, os 25 participantes que adotaram uma dieta sem trigo e sem glúten melhoraram ao longo de um ano, enquanto os dez participantes do grupo de controle, que não retiraram o trigo e o glúten da dieta, tiveram sua situação agravada11. Foram realizados também estudos sistemáticos da condução nervosa, que revelaram melhora da condução nervosa no grupo de pacientes que deixou de consumir trigo e glúten, bem como deterioração dessa função no grupo que continuou a consumi-los.
Como o sistema nervoso humano é uma teia complexa de células e redes nervosas, a neuropatia periférica deflagrada pela exposição ao glúten do trigo pode se manifestar numa variedade de formas, conforme os grupos de nervos afetados. A perda de sensibilidade nas duas pernas, associada ao baixo controle sobre os músculos desses membros, denominada neuropatia periférica axonal sensitivo-motora, é a forma mais comum do transtorno. Com menor frequência, pode ser afetado apenas um lado do corpo (neuropatia assimétrica); ou pode ser afetado o sistema nervoso autônomo, a parte do sistema nervoso responsável por funções automáticas, como a pressão sanguínea, a pulsação cardíaca e o controle do intestino e da bexiga12. Se o sistema nervoso autônomo for afetado, podem resultar fenômenos como a perda de consciência e a sensação de tontura quando se está em pé, decorrentes do controle falho da pressão sanguínea, a incapacidade de esvaziar a bexiga ou o intestino e uma pulsação cardíaca inadequadamente rápida.
A neuropatia periférica, não importa como se manifeste, é progressiva e irá se agravar cada vez mais, a menos que sejam totalmente removidos da dieta o trigo e o glúten.
 
Livre-se do trigo sem esforço
Quando conheci Meredith, ela soluçava. Tinha vindo me consultar em razão de uma questão cardíaca sem importância (uma variação no eletrocardiograma que se revelou benigna).
– Dói tudo. Principalmente meus pés – disse-me ela. – Já me receitaram todos os tipos de medicação. E eu detesto esses remédios, porque tive uma porção de efeitos colaterais. O que comecei a tomar há apenas dois meses me deixa com tanta fome que não consigo parar de comer. Já engordei 7 quilos!
Meredith descreveu o que estava acontecendo em seu trabalho como professora: ela mal conseguia ficar em pé diante da turma por causa da dor nos pés. Mais recentemente, também tinha começado a duvidar de sua capacidade para andar, já que estava começando um pouco de falta de equilíbrio e coordenação. O simples ato de se vestir de manhã estava tomando cada vez mais tempo por causa da dor, assim como o fato de ela estar cada vez mais desajeitada, o que atrapalhava atividades banais como vestir uma calça. Embora estivesse com somente 56 anos, ela era forçada a usar uma bengala.
Perguntei-lhe se seu neurologista tinha alguma explicação para suas incapacidades.
– Nenhuma. Todos eles dizem que não há justificativa para isso. E que a única coisa que posso fazer é me adaptar. Eles podem me dar medicamentos para a dor, mas é provável que a situação piore. – Foi nesse momento que ela se descontrolou e desatou a chorar de novo.
Só de olhar para Meredith, suspeitei que houvesse algum problema com o trigo. Além da dificuldade evidente que ela teve para entrar no consultório, seu rosto estava inchado e vermelho. Ela descreveu sua luta com o refluxo gastroesofágico, as cólicas e a distensão abdominal, diagnosticadas como síndrome do intestino irritável. Estava com quase 30 quilos de excesso de peso e apresentava um volume discreto de edema (retenção de água) nas panturrilhas e tornozelos.
Por isso sugeri a Meredith que enveredasse pelo caminho sem trigo. Àquela altura, ela estava tão desesperada por qualquer conselho positivo que concordou em tentar. Também assumi o risco de marcar para ela um teste de esforço, que exigiria que ela andasse em ritmo moderado numa esteira com elevação.
Meredith voltou duas semanas depois. Perguntei-lhe se achava que conseguiria fazer o teste de esforço.
– Tranquilamente! Parei com todo o trigo de imediato, assim que saí da consulta. Levou uma semana, mas a dor começou a diminuir. Neste instante, estou com mais ou menos 10% da dor que eu sentia duas semanas atrás. Eu diria que ela quase sumiu. Já parei com um dos remédios para dor e acho que vou parar o outro ainda nesta semana. – Também estava claro que ela já não precisava da bengala.
Ela relatou que o refluxo gastroesofágico e os sintomas do intestino irritável também tinham desaparecido totalmente. E que ela havia perdido 4 quilos no período de duas semanas.
Meredith encarou a esteira sem dificuldade, conseguindo chegar, sem esforço, a 6 quilômetros por hora com uma elevação de 14%.
 
CÉREBRO DE GRÃOS INTEGRAIS
Acho que todos nós estamos de acordo a este respeito: as funções cerebrais “superiores”, como o pensamento, o aprendizado e a memória, deveriam ficar fora do alcance de intrusos. Nossa mente é profundamente pessoal, representando a soma de tudo o que é cada um e suas experiências. Quem vai querer que vizinhos enxeridos ou vendedores agressivos ganhem acesso ao domínio privado da mente? Embora seja fascinante pensar na noção de telepatia, é também realmente assustador imaginar que alguém possa ler nossos pensamentos.
Para o trigo, nada é sagrado. Nem seu cerebelo, nem seu córtex cerebral. Apesar de não conseguir ler seus pensamentos, ele sem dúvida consegue influir no que acontece em sua mente.
O efeito do trigo sobre o sistema nervoso vai além de uma simples influência sobre o humor, a energia e o sono. É possível ocorrer lesão real ao tecido nervoso, como vimos na ataxia cerebelar. Entretanto, o córtex cerebral, o centro da memória e do raciocínio, onde estão armazenados quem você é, sua personalidade e suas lembranças, a “massa cinzenta” do cérebro, também pode ser atraído para a batalha imunológica contra o trigo, resultando em encefalopatia, ou doença do cérebro.
A encefalopatia por glúten manifesta-se na forma de enxaquecas e sintomas semelhantes aos de derrames cerebrais, como a perda de controle sobre um braço ou uma perna, a dificuldade para falar ou dificuldades visuais13, 14. No exame de ressonância magnética do cérebro, aparecem evidências características de lesões no tecido cerebral em torno de vasos sanguíneos. A encefalopatia por glúten também provoca muitos dos sintomas relacionados ao equilíbrio e à coordenação que ocorrem na ataxia cerebelar.
Num estudo particularmente perturbador da Clínica Mayo com 13 pacientes recém-diagnosticados com doença celíaca, também foi diagnosticada demência. Dessas 13 pessoas, nem a biópsia do lobo frontal (isso mesmo, biópsia do cérebro) nem o exame necroscópico do tecido nervoso identificaram alguma outra patologia além da que está associada à exposição ao glúten do trigo15. Antes da morte ou da biópsia, os sintomas mais comuns eram perda de memória, incapacidade para fazer cálculos aritméticos simples, confusão e alteração da personalidade. Dos 13 pacientes, 9 morreram em decorrência de comprometimento progressivo da função cerebral. Isso mesmo: demência fatal decorrente do consumo de trigo.
Em que proporção a deterioração da mente e da memória desses pacientes pode ser atribuída ao trigo? Essa pergunta ainda não foi respondida a contento. No entanto, um grupo de pesquisa britânico dedicado à investigação dessa questão diagnosticou até o momento 61 casos de encefalopatia, aí incluída a demência, decorrentes do glúten do trigo16.
O trigo, portanto, com o desencadeamento de uma resposta imunológica que se infiltra e atinge a memória e a mente, está associado à demência e à disfunção cerebral. A pesquisa que investiga a relação entre o trigo, o glúten e as lesões ao tecido nervoso mal começou, e ainda há muitas perguntas sem resposta, mas o que já sabemos é extremamente perturbador. Tremo só de pensar no que ainda podemos descobrir.
A sensibilidade ao glúten pode também se manifestar na forma de convulsões. As convulsões que surgem em resposta ao trigo costumam ocorrer em jovens, com frequência em adolescentes. Essas convulsões costumam ser do tipo do lobo temporal – isto é, originadas no lobo temporal do cérebro, a região desse órgão localizada na altura das têmporas. As pessoas que sofrem convulsões do lobo temporal sofrem alucinações do olfato e do paladar, experimentam sentimentos emocionais estranhos e inadequados como um medo avassalador sem nenhum motivo e comportamentos repetitivos, como estalar os lábios ou movimentar as mãos. Uma síndrome peculiar de convulsões do lobo temporal, que não reage a medicações para convulsões e é deflagrada pela acumulação de cálcio numa região do lobo temporal denominada hipocampo (responsável pela formação de memórias recentes) foi associada tanto à doença celíaca como à sensibilidade ao glúten (resultado positivo para anticorpos antigliadina e marcadores HLA sem doença intestinal)17.
Pode-se esperar que de 1 a 5,5% dos pacientes celíacos também apresentem diagnóstico de convulsões18, 19. As convulsões do lobo temporal deflagradas pelo glúten do trigo são atenuadas depois da eliminação do glúten da dieta20, 21. Um estudo revelou que epilépticos que sofrem de convulsões generalizadas, muito mais graves (grande mal), tinham uma probabilidade duas vezes maior (19,6% em comparação com 10,6%) de apresentar sensibilidade ao glúten, sem a doença celíaca, na forma de níveis mais elevados de anticorpos antigliadina22.
É preocupante a ideia de que o trigo é capaz de penetrar no sistema nervoso humano e causar alterações mentais, comportamentais e estruturais, chegando, de vez em quando, a provocar convulsões.
 
É O TRIGO OU É O GLÚTEN?
O glúten é o componente do trigo associado decisivamente à deflagração de fenômenos imunológicos destrutivos, quer estes se expressem como doença celíaca, como ataxia cerebelar ou como demência. Contudo, muitos efeitos do trigo sobre a saúde, entre eles os exercidos sobre o cérebro e outros órgãos do sistema nervoso, não têm nada que ver com fenômenos imunológicos desencadeados pelo glúten. As propriedades do trigo de gerar dependência, por exemplo, que se expressam como obsessão e tentação avassaladora e podem ser obstruídas por medicação de bloqueio de opiáceos, não decorrem diretamente do glúten, mas das exorfinas, produto da digestão do glúten. Embora ainda não tenha sido identificado o componente do trigo responsável por desvios comportamentais em portadores de esquizofrenia e em crianças que sofrem de autismo ou TDA/H, é provável que esses fenômenos também sejam decorrentes das exorfinas do trigo, e não de uma resposta imunológica deflagrada pelo glúten. Diferentemente da sensibilidade ao glúten, que em geral pode ser diagnosticada por meio de exames para detectação de anticorpos, ainda não se conhece nenhum marcador que possa ser medido para avaliação dos efeitos das exorfinas.
Os efeitos que não resultam do glúten podem somar-se aos efeitos do glúten. A influência psicológica das exorfinas do trigo sobre o apetite e o impulso, os efeitos do trigo sobre o ciclo da glicose e da insulina e talvez outros efeitos desse cereal que ainda estão por ser descritos podem ocorrer independentemente ou em associação com efeitos imunológicos. Alguém que esteja sofrendo de doença celíaca intestinal não diagnosticada pode ter um estranho e insaciável desejo pelo alimento que provoca lesões em seu intestino delgado, mas também pode manifestar, com o consumo do trigo, taxas de glicose no sangue típicas de diabéticos, além de grandes alterações do humor. Outra pessoa, que não tenha a doença celíaca, pode acumular gordura visceral e apresentar comprometimento neurológico decorrente do consumo do trigo. Outros podem se tornar diabéticos, adquirir sobrepeso, sentir-se irremediavelmente cansados, mesmo sem os efeitos imunológicos intestinais do glúten do trigo ou aqueles que atingem o sistema nervoso. O emaranhado de consequências para a saúde decorrentes do consumo do trigo é realmente impressionante.
A tremenda variedade de formas com que os efeitos neurológicos do trigo podem se manifestar complica a obtenção do “diagnóstico”. Efeitos imunológicos em potencial podem ser aferidos com exames de sangue para detecção de anticorpos. Contudo, efeitos não imunológicos não são revelados por nenhum exame de sangue e são, portanto, mais difíceis de identificar e quantificar.
O mundo do “cérebro de trigo” acaba de abrir uma brecha para a entrada de luz. Quanto maior a intensidade da luz, mais feia se apresenta a situação.

(WILLIAM DAVIS - BARRIGA DE TRIGO, LIVRE-SE DO TRIGO, LIVRE-SE DOS QUILOS A MAIS E DESCUBRA SEU CAMINHO DE VOLTA PARA A SAÚDE)

NOTAS:
  1.  Hadjivassiliou, M.; Sanders, D. S.; Grünewald, R. A. et al. “Gluten Sensitivity: from Gut to Brain”. Lancet, mar. 2010; 9:318-30.
  2.  Holmes, G. K. “Neurological and Psychiatric Complications in Coeliac Disease”. In: Gobbi, G., Anderman, F.; Naccarato, S. et al. (orgs.): Epilepsy and other Neurological Disorders in Celiac Disease. Londres: John Libbey; 1997:251-64.
  3.  Hadjivassiliou, M.; Grünewald, R. A.; Sharrack, B. et al. “Gluten Ataxia in Perspective: Epidemiology, Genetic Susceptibility and Clinical Characteristics”. Brain, 2003; 126:685-91.
  4.  Cooke, W.; Smith, W. “Neurological Disorders Associated with Adult Celiac Disease”. Brain, 1966; 89:683-722.
  5.  Hadjivassiliou, M.; Boscolo, S.; Davies-Jones, G. A. et al. “The Humoral Response in the Pathogenesis of Gluten Ataxia”. Neurology, 23 abr. 2002; 58(8):1221-6.
  6.  Bürk, K.; Bosch, S.; Müller, C. A. et al. “Sporadic Cerebellar Ataxia Associated with Gluten Sensitivity”. Brain, 2001; 124:1013-9.
  7.  Wilkinson, I. D.; Hadjivassiliou, M.; Dickson, J. M. et al. “Cerebellar Abnormalities on Proton MR Spectroscopy in Gluten Ataxia”. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry, 2005; 76:1011-3.
  8.  Hadjivassiliou, M.; Davies-Jones, G.; Sanders, D. S.; Grünewald, R. A. “Dietary Treatment of Gluten Ataxia”. Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry, 2003; 74:1221-4.
  9.  Hadjivassiliou et al. Brain, 2003; 126:685-91.
10.  Ibid.
11.  Hadjivassiliou, M.; Kandler, R. H.; Chattopadhyay, A. K. et al. “Dietary Treatment of Gluten Neuropathy”. MuscleNerve, dez. 2006; 34(6):762-6.
12.  Bushara, K. O. “Neurologic Presentation of Celiac Disease”. Gastroenterology, 2005; 128:S92-7.
13.  Hadjivassiliou et al. Lancet, mar. 2010; 9:318-30.
14.  Hu, W. T.; Murray, J. A.; Greenway, M. C. et al. “Cognitive Impairment and Celiac Disease”. Archives of Neurology, 2006; 63:1440-6.
15.  Ibid.
16.  Hadjivassiliou et al. Lancet, mar. 2010; 9:318-30
17.  Peltola, M.; Kaukinen, K.; Dastidar, P. et al. “Hippocampal Sclerosis in Refractory Temporal Lobe Epilepsy is Associated with Gluten Sensitivity”. Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry, jun. 2009; 80(6):626-30.
18.  Cronin, C. C.; Jackson, L. M.; Feighery, C. et al. “Celiac Disease and Epilepsy”. Quartely Journal of Medicine, 1998; 91:303-8.
19.  Chapman, R. W.; Laidlow, J. M.; Colin-Jones, D. et al. “Increased Prevalence of Epilepsy in Celiac Disease”. British Medical Journal, 1978; 2:250-1.
20.  Mavroudi, A.; Karatza, E.; Papastravrou, T. et al. “Successful Treatment of Epilepsy and Celiac Disease with a Gluten-Free Diet”. Pediatric Neurology, 2005; 33:292-5
21.  Harper, E.; Moses, H.; Lagrange, A. “Occult Celiac Disease Presenting as Epilepsy and MRI Changes that Responded to Gluten-Free Diet”. Neurology, 2007; 68:533.
22.  Ranua, J.; Luoma, K.; Auvinen, A. et al. “Celiac Disease-Related Antibodies in an Epilepsy Cohort and Matched Reference Population”. Epilepsy & Behavior, maio 2005; 6(3):388-92.

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