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A maior parte de seu DNA, em outras palavras, não se dedica a você, mas a ele próprio: você é uma máquina para reproduzi-lo, e não vice-versa. A vida, lembre-se, simplesmente deseja ser, e o DN A é o que permite isto.
Mesmo quando o DNA inclui instruções para produzir ggenes – quando os codifica, como dizem os cientistas –, nem sempre é visando ao bom funcionamento do organismo. Um dos genes mais comuns que possuímos é para uma proteína chamada transcriptase reversa, sem nenhuma função benéfica conhecida nos seres humanos. A única coisa que ela faz é permitir que retrovírus, tais como o vírus da aids, invadam sorrateiramente o sistema humano.
Em outras palavras, nossos corpos dedicam energias consideráveis à produção de uma proteína que nada faz de benéfico, e às vezes nos derruba. Nossos corpos não têm outra opção senão obedecer, porque os genes ordenam. Somos os instrumentos de seus caprichos. No todo, quase metade dos genes humanos – a maior proporção já encontrada em qualquer organismo – não faz absolutamente nada, ao que sabemos, além de reproduzir-se.{Woolfson}
Todos os organismos são, em certo sentido, escravos de seus genes. Por isso o salmão, as aranhas e um sem-número de outros tipos de animais estão dispostos a morrer no processo de acasalamento. O desejo de procriar, de dispersar os próprios genes, é o impulso mais poderoso da natureza. Nas palavras de Sherwin B. Nuland: “Impérios caem, ids explodem, grandes sinfonias são compostas, e por detrás de tudo isso está um único instinto que requer satisfação”.{Nuland} De um ponto de vista evolucionista, o sexo não passa de um mecanismo de recompensa para nos encorajar a transmitir nosso material genético.
Os cientistas mal haviam absorvido a notícia surpreendente de que quase todo o nosso DNA não faz nada, quando descobertas ainda mais inesperadas começaram a aparecer. Primeiro na Alemanha e depois na Suíça, pesquisadores realizaram alguns experimentos bem estranhos que produziram resultados curiosamente normais. Em um deles, retiraram o gene que controlava o desenvolvimento do olho de um camundongo e inseriram-no na larva de uma mosca-das-frutas. A expectativa era de que gerasse algo interessantemente grotesco. Na verdade, o gene do olho do camundongo não apenas produziu um olho viável na mosca-das-frutas, como produziu um olho de mosca. Dois animais que não compartilharam nenhum ancestral comum por 500 milhões de anos podiam permutar material genético como se fossem irmãos.{“Hopeful monsters”, documentário da séri e Horizon da BBC, transmitido originalmente em 1998.}
A história era a mesma onde quer que os pesquisadores olhassem. Eles descobriram que podiam inserir DNA humano em certas células de moscas, e as moscas o aceitariam como se fosse delas próprias. Mais de 60% dos genes humanos, ao que se revela, são fundamentalmente iguais aos encontrados em mocas-das-frutas. Pelo menos 90% têm algum nível de correlação com aqueles encontrados em camundongos.{Nature, “Sorry, dogs — man’s got a newbest friend”, 19-26 de dezembro de 2002, p. 734.} (Chegamos a possuir os mesmos genes para produzir uma cauda, só que estão inativos.) Em um campo após o outro, os pesquisadores descobriram que, qualquer que fosse o organismo em que estivessem trabalhando – de vermes nematódeos a seres humanos –, estavam muitas vezes estudando essencialmente os mesmos genes. Parecia que a vida se formara a partir de um único conjunto de projetos.
Sondagens adicionais revelaram a existência de um agregado de genes de controle principais, cada um supervisionando o desenvolvimento de uma parte do corpo, que foram chamados de genes homeóticos (da palavra grega que significa “semelhante”).{“Hopeful monsters”, documentário da séri e Horizon da BBC, transmitido originalmente em 1998} Os genes homeóticos responderam à velha e intrigante indagação de como bilhões de células embriônicas, todas surgindo de um único óvulo fertilizado e portando de DNA idêntico, sabem aonde ir e o que fazer: que esta deve se tornar uma célula do fígado, aquela um neurônio comprido, a outra uma bolha de sangue, outra ainda, parte da ondulação de uma asa. São os genes homeóticos que as instruem, e o fazem para todos os organismos mais ou menos da mesma maneira.
O interessante é que a quantidade de material genético e o modo como ele está organizado não refletem necessariamente, nem mesmo garalmente, o nível de sofisticação do animal que o contém. Possuímos 46 cromossomos, mas alguns fetos possuem mais de seiscentos.{Gribbin e Cherfas, Thefirst chimpanzee, p. 53.} O peixe dipnóico, um dos menos evoluídos dentre todos os animais complexos, tem quarenta vezes mais DNA do que nós.{Schopf, Cradle of life, p. 240} Mesmo o tritão comum é cinco vezes mais esplendoroso geneticamente do que os seres humanos.
O que importa não é o número de genes que você possui, mas o que você faz com eles. Essa é uma boa notícia, porque o número de genes dos seres humanos sofreu um grande baque ultimamente. Até pouco tempo atrás, pensava-se que tivéssemos pelo menos 100 mil genes, possivelmente bem mais, mas o número foi drasticamente reduzido pelos primeiros resultados do Projeto Genoma Humano, que revelou uma cifra na faixa de 20 mil a 25 mil genes – quase o mesmo número encontrado na relva. Isso foi recebido com surpresa e desapontamento.
Você já deve ter observado que os genes costumam ser culpados por uma série de fragilidades humanas. Cientistas exultantes revelaram, em diferentes épocas, ter descoberto os genes responsáveis pela obesidade, esquizofrenia, homossexualismo, criminalidade, violência, alcoolismo, até cleptomania e mendicância. Talvez o apogeu (ou nadir) dessa fé no biodeteminismo tenha sido um estudo, publicado na revista Science em 1980, alegando que as mulheres são geneticamente ciclicamente inferiores em matemática.{Lewontin, op. cit., p. 215} Na verdade, sabemos agora que as coisas não são tão simples assim.
Em certo sentido importante, isso é uma pena porque, se genes individuais determinassem a altura, a propensão à diabetes ou à calvície, ou qualquer outro traço distintivo, seria fácil – relativamente fácil, pelo menos – isolá-los e modificá-los. Infelizmente, 35 mil genes funcionando de forma independente não são suficientes para produzir a complexidade física que constitui um ser humano satisfatório. Os genes, portanto, precisam cooperar entre si. Algumas doenças – hemofilia, mal de Parkinson, doença de Huntington, fibrose cística, por exemplo – são causadas por genes defeituosos solitários, mas em regra os genes destruidores são extirpados pela seleção natural bem antes de conseguirem ameaçar uma espécie ou população. Na maior parte, nosso destino e nosso conforto – e até a cor de nossos olhos – não são determinados por genes individuais, e sim por complexos de genes funcionando em aliança. Daí a dificuldade de descobrir como tudo se encaixa, e por isso não estaremos produzindo bebés sob medida tão cedo. De fato, quanto mais novidades surgiram nos últimos anos, mais complicadas as coisas tenderam a se tornar. Descobriu-se que até o pensamento afeta o funcionamento dos genes. O crescimento da barba do homem, por exemplo, é uma parte uma função de quanto ele pensa em sexo (porque pensar em sexo produz luz um aumento da testosterona).{Wall Street Journal, “What distinguishes us from the chimps? Actualy, not much”, 12 de abril de 2002, p. 1} No início da década de 1990, os cientistas fizeram uma descoberta ainda mais profunda, quando constataram que podiam neutralizar genes supostamente vitais de camundongos embriônicos. Estes não só nasciam muitas vezes saudáveis, como podiam ser mais aptos que seus irmãos e irmãs que haviam sido poupados. Quando certos genes importantes eram destruídos, outros intervinham para preencher a lacuna. Essa foi uma ótima notícia para o nosso organismo, porém não tão boa para nossa compreensão do funcionamento das células, pois introduziu um nível de complexidade extra em algo que já era complicado de saída.
É em grande parte devido a esses fatores complicadores que o deciframento do genoma humano passou a ser visto apenas como um início. O genoma, na analogia de Eric Lander, do MIT, é como uma lista de peças para o corpo humano: informa de que somos feitos, mas não diz como funcionamos. O que se precisa agora é do manual de operação – instruções de como fazê-lo funcionar. Ainda estamos longe disso.
O objetivo passou a ser decifrar o proteoma humano – um conceito tão novo que o termo proteoma nem sequer existia uma década atrás. Trata-se da biblioteca de informações que cria proteínas. “Infelizmente”, obervou a Scientific American na primavera de 2002, “o proteoma é bem mais complicado que o genoma.”{Scientific American, “Move over, human genome”, abril de 2002, pp. 44-5}
Isso no mínimo. Você deve se lembrar de que as proteínas são os burros de carga de todos os sistemas vivos. Até 100 milhões delas podem estar em atividade em qualquer célula em dado momento. É atividade demais para tentarmos entender. O pior é que o comportamento e as funções das proteínas não se baseiam simplesmente em sua química, como ocorre com os genes, mas também em suas formas. Para funcionar, uma proteína precisa além dos componentes químicos certos, reunidos de maneira apropriada, ser dobrada de uma forma extremamente específica. “Dobrar” é o termo empregado, apesar de ser uma palavra enganosa, pois sugere uma arrumação geométrica que não se aplica nesse caso. As proteínas dão voltas, se enrolam e se enrugam em formas ao mesmo tempo extravagantes e complexas. São mais como cabides furiosamente deformados do que como toalhas dobradas.
Além do mais, as proteínas são as entidades mais “maleáveis” do mundo biológico. Dependendo do humor e da circunstância metabólica, elas se deixarão fosforilar, glicosilar, acetilar, ubiquitinar, farnesilar, sulfatar e ligar a âncoras de glicofosfatidilinositol, entrevarias outras coisas.{The Bulletin, “The human enigma code”, 21 de agosto de 2001, p. 32} Muitas vezes, parece simples colocá-las em movimento. Basta que você beba um cálice de vinho, como observa a Scientific American, para alterar substancialmente o número e os tipos de proteínas como um todo em seu sistema.{Scientific American, “Move over, human genome”, abril de 2002, pp. 44-5.} Essa é uma boa notícia para os bebedores, mas não para os geneticistas que estão tentando entender o que está acontecendo.
Tudo pode começar a parecer impossivelmente complicado, ou em alguns aspectos é impossivelmente complicado. Mas existe também uma simplicidade subjacente, devido a uma unidade subjacente igualmente básica no funcionamento da vida. Todos os processos químicos minúsculos e hábeis que animam as células – os esforços cooperativos de nucleotídeos, a trancrição do DNA em RNA – evoluíram uma só vez e permaneceram relativamente fixos desde então, por toda a natureza. Como disse o falecido geneticista francês Jacques Monod, apenas em parte brincando: “Tudo o que é verdadeiro para o E.coli deve ser verdadeiro para o elefante, só que ainda mais”.{Nature, “From E. coli to elephants”, 2 de maio de 2002, p. 22}
Todo ser vivo é um aprimoramento de um plano original único. Como seres humanos, somos meros incrementos – cada um de nós é um arquivo bolorento de ajustes, adaptações, modificações e reformulações providenciais retrocendendo 3,8 bilhões de anos. O notável é que estamos ainda mais intimamente relacionados com frutas e legumes. Cerca de metade das funções químicas que ocorrem em uma banana são fundamentalmente semelhantes às funções químicas que ocorrem em você.
Nunca é demais dizer: todas as formas de vida têm algo em comum. Essa é, e suspeito que sempre será, a afirmação mais profundamente verdadeira que existe.

( BILL BRYSON - Breve história de quase tudo)

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