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TÉTIS E AQUILES

por Thynus, em 30.11.15
... tudo, na natureza, é cíclico. O
dia vem sempre após a noite; a bonança acaba sempre sucedendo à tempestade, como o
verão à primavera e o outono ao verão. Todo ano, as árvores perdem as folhas com as
primeiras brumas frias e, também todo ano, voltam a despontar com os dias bonitos, de
forma que os principais acontecimentos que pontuam a vida do mundo natural nos
impõem, por assim dizer, a sua lembrança. Para falar ainda mais simplesmente: não há
a menor possibilidade de os esquecermos, e se porventura tal ocorresse, eles nos
voltariam por si só ao pensamento. No mundo humano, pelo contrário, tudo passa, tudo
é perecível, tudo acaba sendo levado pela morte e pelo esquecimento: as palavras que
pronunciamos, assim como as ações que executamos. Nada dura... exceto o escrito!
Isso mesmo! Os livros se conservam melhor do que as palavras, melhor do que os fatos
e os gestos, e se, por suas ações heroicas, pela glória que estas ocasionam, um dos
nossos heróis — Aquiles, Hércules, Ulisses ou outro qualquer — conseguir se tornar o
tema principal de uma obra histórica ou literária, ele, então, vai sobreviver, de certa
maneira, ao desaparecimento, nem que seja como lembrança em nossas mentes. Prova
disso? Ainda hoje são feitos filmes sobre a guerra de Troia ou os trabalhos de
Hércules, e alguns de nós, toda noite ou quase, contamos as aventuras de Aquiles, de
Jasão ou de Ulisses a nossos filhos, e isso porque um punhado de poetas e de filósofos,
muitos séculos antes de Jesus Cristo, deixou por escrito as suas façanhas.
Mesmo assim, apesar da força da convicção subjacente a essa apologia da glória
perenizada pelo Escrito, a questão da salvação, no sentido etimológico do termo — o
que pode nos salvar da morte ou, pelo menos, dos medos que ela suscita —, continua
na verdade não resolvida.
Concordo, evoquei ainda há pouco o nome de Aquiles, e alguns dirão que, neste
sentido, ele não está totalmente morto... Em nossas memórias, sem dúvida, mas e na
realidade? Perguntem à sua mãe, Tétis, o que acha! É claro, é uma imagem, pois esses
personagens não são reais — são apenas lendários. Mas imaginemos um pouco: tenho
certeza de que ela trocaria todos os livros da Terra e todas as glórias do mundo para
poder apertar nos braços seu menino. Para ela, sem sombra de dúvida, o filho está pura
e simplesmente morto, e o fato de se “conservar” sob forma impressa, nas estantes das
nossas bibliotecas, certamente lhe dá pouco consolo. E o próprio Aquiles, o que
pensa? Se dermos ouvidos a Homero, parece que aos olhos do próprio herói a morte
gloriosa, no decorrer de combates de grande bravura, não valia tanto a pena! Pelo
menos é o que ensina uma surpreendente passagem da Odisseia.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)

Ulisses exprimiu a ideia que acabei de expor, aquela que anima todo o heroísmo
grego, essa concepção da glória salvadora de que fala Hannah Arendt: mesmo tendo
morrido jovem, o herói, tirado do anonimato pela fama e transformado em quase deus,
não poderia ser infeliz! Por quê? Porque não pode ser esquecido, justamente, de forma
que ele escapa do terrível destino do comum dos mortais que, uma vez mortos, se
tornam “sem nome” e perdem, com isso, ao mesmo tempo que a vida, todo tipo de
individualidade ou, no sentido próprio, de personalidade. Hélas, a resposta de Aquiles
aniquila as ilusões ligadas à glória:
Ah! não me venha enfeitar a morte, meu nobre Ulisses! Preferiria viver como
pequeno criado que guarda os bois, estar a serviço de um miserável camponês,
desprovido de qualquer fortuna, do que reinar sobre os mortos, sobre todo esse
povo extinto!

Balde de água fria no amigo Ulisses! Com três frases, o mito do herói vitorioso
explode em estilhaços. E a única coisa que ainda interessa a Aquiles é ter notícias do
pai e, mais ainda, do filho, com quem ele se preocupa. Como são excelentes, ele volta
às sinistras profundezas do inferno com o coração um pouco menos pesado, como
qualquer pai de família tragado pela vida cotidiana — no extremo oposto do herói
extraordinário e glorioso que ele foi em vida! Pode-se dizer que passou a estar
absolutamente desinteressado pela glória e pelos esplendores passados.
(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)
 

Grandes expectativas
O primeiro de nossos mitos da família fala-nos de como os pais esperam de seus filhos nada menos do que tudo. O tema mais importante dessa lenda grega talvez seja a ambição de Tétis a respeito do filho: ela quer que ele seja um deus. A história tem um final triste, mas transmite um discernimento profundo sobre as esperanças, sonhos e anseios secretos que, sem nos apercebermos, pedimos a nossos filhos para realizar — às vezes, em prejuízo deles.

 
Olhar o passado
Tétis era a grande deusa do mar e dominava tudo o que se movia em suas profundezas. Mas chegou o momento de ela se casar e Zeus, o rei dos deuses, tinha ouvido uma profecia prevendo que, se Tétis desposasse um deus, teria um filho maior do que o próprio Zeus. Preocupado com a possibilidade de perder sua posição, Zeus casou a deusa do mar com um mortal chamado Peleu. Esse casamento misto não foi mal, e os dois se acomodaram com relativa harmonia — embora Peleu às vezes se ressentisse dos poderes sobrenaturais da mulher e, vez por outra, Tétis julgasse haver-se casado com um homem abaixo de sua posição.
Com o tempo, Tétis teve um filho, a quem deu o nome de Aquiles. Como o pai dele era mortal, Aquiles era um menino mortal, que teria seu tempo na terra ditado pelas Parcas, como todos os seres mortais. Mas Tétis não estava satisfeita com essa perspectiva; sendo imortal, não queria permanecer eternamente jovem, vendo seu filho envelhecer e morrer. Assim, em segredo, levou o recém-nascido até o rio Estige, em cujas águas residia o dom da imortalidade. Segurou o menino por um dos calcanhares e o mergulhou na água, acreditando que com isso tinha tornado-o imortal. Mas o calcanhar pelo qual ela o segurou não foi tocado pelas águas do Estige, e Aquiles ficou vulnerável nesse ponto.
Ao chegar à idade adulta e combater na Guerra de Troia, Aquiles foi mortalmente ferido ao ser atingido por uma flecha no calcanhar. Embora ele tenha conquistado grande glória e viesse a ser lembrado para sempre, Tétis não conseguiu enganar as Parcas nem transformar o que era humano na matéria de que são feitos os deuses.
 
O calcanhar de Aquiles
COMENTÁRIO: Inconscientemente, muitos pais desejam que seus filhos sejam divinos — ainda que, em geral, não tão literalmente quanto Tétis. Não temos a expectativa de que nossos filhos vivam eternamente, mas podemos querer que sejam melhores do que as outras crianças, mais bonitos, mais talentosos, mais brilhantes, únicos e especiais, e livres das limitações corriqueiras da vida. Nenhuma criança consegue ficar à altura dessas expectativas inconscientes, e qualquer uma pode sofrer por ter sua humanidade comum relegada a segundo plano nos enormes esforços dos pais para produzir algo sobre-humano. Também podemos ter a esperança de que nossos filhos nos redimam de algum modo — que consertem o que estragamos, ou vivam aquilo que nos foi negado. É possível que façamos sacrifícios, na esperança de que os filhos deem sentido à nossa vida, em vez de permitirmos que vivam a deles. E quando eles tropeçam e caem, como acontece com todos os seres humanos, ou quando demonstram uma gratidão insuficiente por nossos esforços, talvez nos sintamos ofendidos e decepcionados. Pode-se ver tudo isso na história de Tétis e Aquiles.
Tétis, a deusa-mãe que quer que o filho tenha a divindade dela, em vez de ser mortal como o pai, é também a imagem de uma certa atitude perante a maternidade. Quando uma mãe deseja possuir seu filho por inteiro e não se dispõe ou não consegue partilhar o amor da criança, muitos problemas podem surgir. O casamento de Tétis e Peleu, cuja prole foi Aquiles, retrata um casamento em que há um desequilíbrio entre os pais. Tétis sente-se superior a Peleu e espera que o filho se pareça com ela. Esse é um dilema bastante comum: às vezes fantasiamos secretamente a identidade de um filho, em vez de reconhecer que duas pessoas contribuíram para sua existência. Isso pode acontecer quando o casamento é infeliz ou não traz realização. O pai também pode idealizar as filhas, como Tétis fez com o filho, e esforçar-se inconscientemente para separar mãe e filha, para que nenhuma pessoa de fora venha prejudicar a união do laço pai-filha. (Ver Órion e Enopião)
Todos esses dilemas da função de pai e mãe, em vez de patológicos, são meramente humanos. Mas os mitos são sobre seres humanos, mesmo quando seus personagens principais são deuses. De que maneira lidamos com essas questões da expectativa e da possessividade exageradas? Quando trazemos filhos ao mundo, devemos a eles imparcialidade e justiça na maneira como os tratamos afetivamente. Se tivermos consciência de que estamos esperando demais de nossos filhos, poderemos demonstrar-lhes amor mesmo quando eles não conseguirem o que esperamos, e poderemos também incentivá-los a seguir o caminho ditado por seu coração e sua alma, e não o que nós gostaríamos de ter seguido. Os sentimentos conhecidos e refreados não provocam destruição. Os inconscientes, que resultam em comportamentos inconscientes, podem causar grandes danos a um filho. A vida dos pais nunca é perfeita e todos acalentamos esperanças pouco realistas a respeito de nossos filhos. Isso é humano e natural. Mas eles não são divinos, nem tampouco estão na terra para nossa glorificação ou para a redenção de nossa própria vida. No casamento de Tétis e Peleu, criado pela sabedoria de Zeus, há uma imagem profunda da mescla de humano e divino que está por trás da origem de todo ser humano. Toda criança partilha de ambos. Se pudermos lembrar-nos disso e permitir que nossos filhos sejam os seres humanos que são, esse antigo mito poderá ajudar-nos a sermos pais mais sensatos e mais generosos.

(Liz Greene & Juliet Sharman-Burke - Uma Viagem através dos Mitos)

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publicado às 06:08



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