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Também o ateísmo é uma crença

por Thynus, em 04.09.13

 "Dizer que um crente é mais feliz do que um cético

é como dizer que um bêbado é mais feliz que um sóbrio."
George Bernard Shaw

 

 

 

Tem-se frequentemente a ideia de que, à partida, o ateu, quando nega a existência de Deus ou quando afirma que, com a morte, acaba tudo, tem do seu lado a razão, ficando o crente sob a suspeita de não-racional, de tal modo que é a ele apenas que compete ter de apresentar razões da sua fé.
Ora, as coisas não são assim, de modo nenhum. Por paradoxal que pareça, também o ateu assenta a sua negação da existência de Deus ou da vida depois da morte num acto de fé, melhor, numa crença. "Em qualquer das suas formas, o ateísmo é uma crença e não uma evidência, escreve o filósofo Pedro Laín Entralgo, um 'creio que Deus não existe' e não um 'sei que Deus não existe'".
O chamado crente e o ateu encontram-se exactamente no mesmo plano: o crente não pode demonstrar a existência de Deus nem a vida eterna (diga-se, de passagem, que um deus demonstrável não seria Deus, mas um ídolo, que a razão constrói e destrói), exactamente como o ateu não pode demonstrar que Deus não existe ou que a morte é o termo definitivo da existência da pessoa. No que se refere a Deus ou à vida depois da morte, as posições do crente, do agnóstico ou do ateu assentam na crença.
Evidentemente, sendo humanos e, portanto, seres racionais, todos - o crente, o agnóstico, o ateu - têm de apresentar razões para a sua crença, pois esta, se quiser ser verdadeiramente humana, não pode ser cega. Sublinhe-se, porém, que se trata, para todos, de um acto de fé, certamente com razões, mas sempre de um acto de fé, e não da conclusão de uma demonstração. Por isso é que Pedro Laín Entralgo se não cansa de repetir que o objecto da ciência é penúltimo, mas o último é objecto da crença, seguindo-se daí que "o certo será sempre penúltimo, e o último será sempre incerto".

 Assim, o crente, o agnóstico, o ateu, em vez de se excluírem, devem encontrar-se e enriquecer-se mutuamente num conflito dialógico de razões, e, por paradoxal que pareça, num diálogo sincero e aberto, concluirão que há entre eles muito mais sintonias do que poderiam supor à primeira vista. Quantos crentes, por exemplo, não ficarão surpreendidos ao ler em Santo Tomás de Aquino que o saber da fé, não podendo ser evidente, convive com a dúvida, a opinião, a suspeita... E o grande teólogo Karl Barth dizia que conhecia muito bem um certo descrente: ele próprio!
Fé religiosa e dúvida não se excluem. Pelo contrário, a fé está sempre acompanhada de perguntas. Estas perguntas humanizam a religião, pois impedem todo o tipo de funda-mentalismo, abrem ao diálogo não só com os crentes de outras religiões mas também com os ateus e agnósticos, obrigando a uma reformulação constante das fórmulas doutrinais, que ao mesmo tempo que tentam dizer o Mistério também o ocultam.
Por outro lado, é bem possível que também ateus e agnósticos aceitem que há um Mistério inominável que a todos envolve...
Neste sentido, como escreve o filósofo Juan António Estrada, "haveria que fazer um elogio da dúvida em relação com as crenças. Só quando há capacidade de crítica é que a adesão ao religioso adquire valor. Pelo contrário, a identificação com uma religião determinada carece de validade última, quando não é possível expressar a dissidência ou indagar criticamente o valor das crenças assumidas".
De qualquer modo, nunca poderá esquecer-se que Jesus morreu na cruz fazendo uma pergunta (a pergunta é a piedade do pensamento, dizia Heidegger): "Meu Deus, meu Deus, por que é que me abandonaste?"

(Anselmo Borges - Janela do (In)Visível)

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publicado às 19:42


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