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Jesus e o Vaticano

por Thynus, em 23.02.16

1- Como se pode andar distraído! Como é que, tendo estado várias vezes na Praça de São Pedro, não fui ler o que está escrito no famoso obelisco, no centro da praça?! Foi preciso lê-lo agora em Jesús Bastante, que lembra que o obelisco veio do Egipto no ano 37 da nossa era, tendo sido trasladado, 15 séculos depois, do circo de Nero para o lugar que agora ocupa, fazendo o Papa Sisto V, em 26 de Setembro de 1586, gravar na sua base de mármore uma antiga fórmula de exorcismo: "Ecce crux Domini" (eis a cruz do Senhor), "Fugite, partes adversas" (Fugi, forças do caos) - um autêntico exorcismo, "Vicit Leo de tribu Juda" (o Leão da tribo de Judá venceu). Desse modo, a Praça de São Pedro delimitaria simbolicamente o enfrentamento entre o Bem e o Mal, "e o exorcismo impediria que o Demónio chegasse à sede de Pedro".

2- Desgraçadamente, não foi nem é assim. Constantemente lemos sobre os escândalos no Vaticano. E, infelizmente, não se trata de meras efabulações romanescas. Por isso, muitos se foram e vão perguntando como é que foi possível chegar até aqui. Gandhi também andou pelo Vaticano, olhou para aquilo tudo e conta-se que terá dito: se nem estes conseguiram acabar com o cristianismo, então o Evangelho de Jesus é verdadeiro. Ele distinguia muito bem entre o Vaticano e Jesus.

3- É urgente evangelizar o Vaticano. Mas há quem pergunte: Será a Cúria Romana reformável? O que é facto é que, após a publicação de documentos secretos, que denunciavam a existência de lutas pelo poder e pelo dinheiro entre membros da Cúria - o célebre VatiLeaks -, Bento XVI, num gesto histórico de imensa coragem, renunciou, pois, disse, já não tinha "forças físicas nem espirituais" para continuar. Na altura, L"Osservatore Romano referiu-se-lhe como "um pastor rodeado de lobos".

Seguiu-se o Papa Francisco, hoje talvez o homem mais popular do mundo e um dos mais influentes. Estimado, amado, querido, acarinhado por causa da sua bondade, da sua humildade, porque ele próprio estima e ama as pessoas, interessa-se por elas, quer a sua felicidade, bate-se por elas, não se poupa a sacrifícios por elas, a começar pelos mais débeis, pobres e abandonados. As pessoas vêem nele a manifestação do que Jesus foi e é, do que Jesus fez e faz, do que Jesus manda.

A Igreja tinha caído demasiado abaixo do que o Evangelho quer. Foi preciso impor tolerância zero para a pedofilia do clero - soube-se agora que a Igreja americana já pagou quatro mil milhões de dólares em indemnizações às vítimas - e caminha-se para reformas estruturais, a começar pela Cúria, que é um cancro na Igreja por causa dos escândalos do poder e do dinheiro. Já em 1965, durante uma entrevista privada, quando Paulo VI lhe propôs uma "oferta de trabalho", dizendo: "Deve confiar em mim", o famoso teólogo Hans Küng respondeu: "Eu tenho confiança em Vossa Santidade, mas não nos que estão à sua volta." O Papa Francisco sabe que há excepções, pessoas excelentes na Cúria, mas também sabe que vive num vespeiro. A quem se escandalizar peço que releia o discurso arrasador de Francisco sobre as doenças da Cúria, que aqui sintetizei. E aí está o VatiLeaks II, com a publicação, na semana passada, de dois livros com documentos secretos, incluindo conversas privadas de Francisco: Via Crucis, de G. Nuzzi, e Avarizia, de E. Fittipaldi.

Por um lado, é uma traição ao Papa, mas, por outro, ficam informações de que os lobos continuam actuantes, lutando pelas suas prerrogativas ameaçadas. Por lá moram ganância, corrupção, gestão danosa, contas milionárias sob suspeita, carreiristas, gente com uma vida dupla. Enquanto o Papa vive num apartamento de 50 metros quadrados, há cardeais e membros da Cúria em apartamentos de luxo até 400 metros quadrados. Os valores do arrendamento de imóveis a amigos podem ficar entre dois e cem euros. O custo das canonizações pode ultrapassar o meio milhão de euros. O pior: destinos obscuros de milhões de euros, que deviam ser para obras de beneficência.

4- No domingo passado, Francisco veio garantir aos fiéis que não cederá: "Sei que muitos estais perturbados com as notícias que circularam sobre os documentos confidenciais da Santa Sé roubados e publicados." Trata-se de "um delito, um acto deplorável que não ajuda. Eu mesmo tinha pedido que se fizesse esse estudo, e os meus colaboradores e eu conhecíamos muito bem esses papéis. De facto, foram tomadas medidas que começaram a dar frutos, alguns visíveis. Por isso, quero assegurar-vos que este triste acontecimento não me desviará do trabalho de reforma que estamos levando a cabo com os meus colaboradores e com o apoio de todos vós".

Esta reforma não apela apenas à conversão pessoal. Ela tem de ser estrutural: exige instâncias de controlo do poder, divisão de poderes. É preciso avançar sinodalmente, isto é, caminhar juntos: o povo todo de Deus, que a hierarquia deve servir.

 


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publicado às 13:26

 

Luís Mendes, de 37 anos, abusou de seis crianças com idades entre os 11 e os 15 anos, cinco das quais alunos em regime de internato no Seminário



O bispo da Guarda ficou «triste» por o ex-vice-reitor do Seminário do Fundão ter sido condenado pelo tribunal a 10 anos de prisão por crimes de abuso sexual de menores.

Manuel Felício disse esta segunda-feira, no final da leitura da mensagem de Natal, que a decisão judicial o «surpreendeu».

«Com certeza que fiquei assim um bocadinho triste», afirmou o prelado diocesano, acrescentando que «a tristeza também pode ser imposta pelos factos».

A pena de 10 anos de prisão foi aplicada em cúmulo jurídico e o tribunal do Fundão deu como provados todos os crimes: abuso sexual de menores, abuso sexual de crianças e coação sexual.

A condenação teve em conta o número de atos praticados (19) e não o número de vítimas envolvidas, como pretendia a defesa.

De acordo com o que ficou provado em Tribunal, Luís Mendes, de 37 anos, abusou de seis crianças com idades entre os 11 e os 15 anos, cinco das quais alunos em regime de internato no Seminário do Fundão.

Os cinco seminaristas foram abusados entre 2011 e 2012 e a sexta vítima - aluno do padre no Colégio Nossa Senhora dos Remédios, Tortosendo, Covilhã - foi abusada em 2008.

A Diocese da Guarda anunciou, em comunicado, que a defesa do sacerdote iria recorrer da decisão, tendo o bispo optado por falar do assunto apenas no dia de hoje.

«Este é o meu primeiro pronunciamento sobre o assunto. Eu não tive nenhum pronunciamento antes, preferi não o fazer no dia, não o fazer no dia a seguir, porque [pretendi] permitir que outras posições fossem tomadas», justificou.

O bispo sublinhou que ficou «triste» com os acontecimentos e disse querer entender os factos com outro significado. «Eu quero assumir estes factos como um convite a mim próprio, a nós padres e a nós Igreja, a aprofundarmos ainda mais a qualidade do nosso serviço.»

Manuel Felício disse ainda que «os tribunais da Igreja estão empenhados em fazer justiça» e que esse empenho já o «obrigou a fazer duas deslocações a Roma para contactos com a Congregação da Doutrina da Fé, dicastério onde está sediado o tribunal que, por superior determinação da Santa Sé, julga estes casos».

«Portanto, a mesma colaboração que, desde a primeira hora garantimos aos tribunais civis e lhes continuaremos a garantir até ao fim, estamos a dá-la também ao tribunal eclesiástico competente para se pronunciar sobre esta matéria», referiu.

Indicou que o processo canónico tem quatro fases - investigação prévia; investigação no terreno; julgamento e sentença - tendo já sido cumprida a primeira.

«Eu comuniquei à Congregação da Doutrina da Fé e agora o processo vai continuar e espero que em tempo útil tenhamos a conclusão final», observou, acrescentando que os elementos que vão julgar o caso serão indicados pelo Vaticano.

O bispo lembrou que o Código de Direito Canónico prevê, para casos desta natureza, a expulsão do estado clerical, considerada «a pena maior».

(TVI24)

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publicado às 13:44

 Manuel Clemente ressalva, porém, que processo ainda está a decorrer, na sequência do recurso da diocese da Guarda


O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa comentou esta terça-feira a condenação do padre do Fundão por abuso sexual de menores, considerando que «a lei é igual para todos».

«Quer seja membro da Igreja ou não, a lei é igual para todos. Todos nós, como cidadãos, temos de ser responsáveis pelos nossos atos», disse o Patriarca de Lisboa e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, Manuel Clemente, à agência Lusa, à margem de uma conferência na Universidade Católica Portuguesa.

O Tribunal do Fundão condenou, na segunda-feira, a dez anos de prisão, o ex-vice-reitor do Seminário do Fundão, que estava acusado de 19 crimes de abuso sexual de menores.

A pena foi aplicada em cúmulo jurídico e o tribunal deu como provados todos os crimes: abuso sexual de menores, abuso sexual de crianças e coação sexual.

Manuel Clemente ressalvou, no entanto, que o processo ainda está a decorrer, uma vez que a diocese anunciou já a intenção de apresentar recurso da decisão judicial.

Paralelamente, segundo o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa(CEP), o processo decorre também dentro dos trâmites jurídicos da Igreja.

«É isso que tem de acontecer. Sempre que há um caso tem de se elucidar, tem de se responder com responsabilidade e levar por diante tudo que apure o que realmente se passou e as consequências a tirar daí», sublinhou o também Patriarca de Lisboa.

Questionado sobre o facto de a Diocese da Guarda ter anunciado a intenção de apresentar recurso, Manuel Clemente considerou que «o apoio da diocese a este recurso com certeza que é fundamentado».

«A Diocese da Guarda, desde o primeiro momento em que o caso foi manifestado, tem-se mostrado muito responsável, quer do ponto de vista civil, quer eclesiástico, para dar seguimento ao assunto», acrescentou.

De acordo com o que ficou provado, Luís Mendes, de 37 anos, abusou de seis crianças com idades entre os 11 e os 15 anos, cinco das quais alunos em regime de internato no Seminário do Fundão.

Não podemos adormecer perante desrespeito pela dignidade humana

O Patriarca de Lisboa defendeu também hoje que não podemos adormecer perante o desrespeito pela dignidade humana, comentando desta forma a recente exortação do Papa, em que criticou o capitalismo selvagem e alertou para o perigo das desigualdades e da injustiça social levarem a uma explosão da violência.

«No que diz respeito à sociedade, o papa Francisco tem encontrado palavras muito justas e muito claras para meter o dedo em muitas feridas que a nossa sociedade manifesta, não só dentro dos países que nos tocam mais de perto, mas entre países ricos e países pobres, de muito desrespeito pela dignidade humana», defendeu Manuel Clemente.

Para o Patriarca de Lisboa, «parece que adormecemos em relação a situações que não podemos manter» e só «acordamos quando há uma Lampedusa em que morre muita gente a tentar chegar à Europa».

«Situações desse género são muito repetidas e não nos podemos habituar a elas. Porque estando em causa a humanidade dos outros está em causa a nossa própria humanidade e se adormecemos aí, depois também adormecemos aqui», sublinhou.

(TVI24)

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publicado às 13:39


Os escândalos e a renúncia do papa

por Thynus, em 02.05.13

 

 

Em meio aos infindáveis papéis dos Arquivos Secretos do Vaticano é possível encontrar pérolas que podem esclarecer (e muito) como funciona a máquina do estado católico.
O que mais intriga é saber o real valor que os documentos do secretariado, que são arquivados lá e não veem a luz do sol por muitas décadas, são tão cobiçados a ponto de protagonizar escândalos difíceis de ser esquecidos, como o famoso caso Vatileaks, apontado como uma das principais razões que levaram à renúncia do hoje papa emérito Bento XVI.

Vatileaks
Por muitos anos, Joseph Ratzinger teve de lidar com três fatores principais que resultaram em seu ato, que há muito não acontecia na história da Igreja Católica. Os boatos, muito antes de anunciar sua renúncia, eram que ele sofreria de uma doença terminal ou que estava sendo vítima de chantagem originada pelo roubo dos documentos do citado Vatileaks, que veio ao conhecimento público graças à ação da mídia em 2012.
Mas o que vem a ser esse caso? Em resumo: vários documentos secretos (que muitos pesquisadores e jornalistas acreditam terem sido enterrados nos Arquivos Secretos longe dos olhos públicos) revelaram a existência de uma ampla rede de corrupção, nepotismo e favoritismo relacionados a contratos super faturados, que beneficiavam a Cúria Romana, "o aparato burocrático do Vaticano, interessado em desestabilizar um grupo de cardeais", segundo a revista Veja (edição de 20 de fevereiro de 2013). O caso recebeu a denominação de Vatileaks de seu porta-voz oficial, Federico Lombardi, que comparou a repercussão com o fenômeno Wikileaks (de vazamento de informações confidenciais e delicadas de diversos governos e empresas).
O escândalo apareceu pela primeira vez quando o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi publicou cartas de Cario Maria Viganò, anteriormente o segundo administrador do Vaticano, em que ele implorava para não ser transferido por ter exposto uma suposta corrupção, que custou ao Vaticano "um aumento de milhões nos preços do contrato", segundo o site Euronews.
Nos meses que se seguiram, o escândalo aumentou com o vazamento de documentos para jornalistas italianos, que mostravam a existência de uma luta pelo poder no Vaticano. Foi mais ou menos nessa época que uma carta anônima apareceu e revelou uma ameaça de morte contra Bento XVI, conforme revelou o jornal The Independent. Em maio de 2012 foi publicado o livro Sua Santidade, as Cartas Secretas de Bento XVI, composto por cartas confidenciais e memorandos trocados entre o Papa Bento XVI e seu secretário pessoal.
Essa correspondência revela um Vaticano como foco de intrigas, confabulações e confrontos entre facções secretas. O livro revelou ainda detalhes sobre as finanças pessoais do então papa e incluiu alguns contos sobre subornos feitos para obter uma audiência com ele, segundo alguns sites como o Queerty, especializado na comunidade homossexual.

O mordomo e o escândalo financeiro
O jornalista Gianluigi Nuzzi, que publicou o citado livro descrito, teve um parceiro essencial nesse vazamento de informações: o mordomo do papa emérito, Paolo Gabriele, que exercia o cargo desde 2006. O mordomo foi preso em 23 de maio de 2012, depois que as cartas e os documentos foram encontrados em seu apartamento, no Vaticano. Ele alegou que encontrou os tais documentos no apartamento que dividia com sua esposa e três filhos.
Gabriele foi preso em julho e depois removido para uma prisão domiciliar. O juiz do Vaticano, Piero Antonio Bonnet, analisou as evidências do caso e decidiu que havia material suficiente para prosseguir com a realização de um julgamento. O mordomo foi indiciado pelos magistrados em 13 de agosto de 2012 por roubo agravado, mas teve indulto do papa emérito em 22 de dezembro. Em sua última apelação, ele declarou, segundo a agência Associated Press: "O que sinto mais fortemente dentro de mim é a convicção de que agi exclusivamente por amor, eu diria um amor visceral, pela Igreja de Cristo e seu representante".
Os problemas que levaram à renúncia do hoje papa emérito não se resumiram apenas aos documentos do Vatileaks que, caso não tivessem vazado, teriam encontrado refúgio nos recônditos Arquivos Secretos. Outro fator que está ligado aos documentos roubados é o escândalo de 2010, quando a Justiça italiana abriu uma investigação sobre o IOR (Instituto de Obras Religiosas), o nome oficial do banco central do Vaticano, e bloqueou 23 milhões de euros de suas contas por "suspeita de violação das normas do sistema financeiro contra lavagem de dinheiro".
O secretário do estado, que aparentemente esteve envolvido nessas falcatruas e que faz a Igreja parecer voltar ao tempo dos Bórgias, é o cardeal Tarcísio Bertone, descrito por muitos como ambicioso e em total discordância com as intenções de Bento XVI. O secretário, que seria o principal nome para gerar os documentos que fatalmente são arquivados nos Arquivos Secretos, está na mira de boa parte dos cardeais italianos, que o teriam responsabilizado por interesses ou omissão em casos como o do IOR ou do Vatileaks.

Bento XVI, o nazismo e os Arquivos Secretos
A decisão de canonizar Pio XII, apesar dos protestos da comunidade judaica, deu uma publicidade muito negativa para o então papa Bento XVI. O ex-papa esteve no Arquivo Secreto analisando a situação em junho de 2007, quando proferiu um discurso no qual defendeu o papel do Arquivo ante a polêmica do período da Segunda Guerra Mundial.
Segundo notícia divulgada pelo site ACI Digital, a Biblioteca Apostólica fechou as portas ao público durante três anos para restauração de uma ala localizada em um edifício renascentista, o que causou outra onda de comentários sobre os reais motivos de tal fechamento. Sobre o Arquivo Secreto, Bento XVI disse na ocasião:

Podem-se realizar não só pesquisas eruditas, em si mesmas muito dignas, concernentes a períodos longínquos, mas também relativas a épocas e tempos recentes, muito próximos a nós. Prova disso são os primeiros frutos da recente abertura que decidi em junho de 2006 aos pesquisadores do pontificado de Pio XII.

Ainda comentando o caso de Pio XII, Bento XVI afirmou que a abertura dos arquivos referentes ao seu antecessor teria sido pedida pelos "caluniadores judeus do pontífice, especialmente a controvertida Liga Antidifamação dos Estados Unidos". Esta última é uma referência a uma organização na ativa desde 1913, que se dedica a lutar contra o antissemitismo em todas as suas formas.
O ex-papa lembrou que seu antecessor direto, João Paulo II, havia aprovado a abertura de tais arquivos embora o período de reserva ainda não tivesse transcorrido por completo. Tais documentos foram colocados à disposição de um comitê de estudiosos católicos e judeus. Os envolvidos que pertenciam à comunidade judaica não encontraram nenhum tipo de prova incriminatória que impediria o processo de canonização de Pio XII, mesmo assim acusaram o Arquivo Secreto de retenção de provas.
O site ACI Digital afirma, na citada notícia, que Bento XVI elogiou "o serviço desinteressado e equânime" dos Arquivos Secretos. Disse que os envolvidos tinham deixado "a um lado estéreis e freqüentemente débeis conceitos unilaterais" e oferecido aos investigadores, "sem prejuízos, a documentação que possuem, ordenada com seriedade e competência".
Dom Pagano falou sobre o caso do polêmico papa quando o livro sobre Galileu foi publicado. Segundo ele, os documentos sobre o período totalizariam cerca de 700 caixas com papéis da Secretaria de Estado e das nunciaturas, que deixariam clara a caridade exercida por Pio XII durante a II Guerra Mundial. Para o prefeito dos Arquivos Secretos, a opinião sobre o papa polêmico é clara:

Todos aqueles que se dirigiram a ele (papa Pio XII) — militares, prisioneiros, párocos que tiveram suas igrejas destruídas, professores que haviam perdido o trabalho — o papa os ajudou com uma caridade incrível. A Santa Sé enviou grandes quantidades de dinheiro para obras de caridade, durante e depois da guerra.

Em meio a várias polêmicas, discussões e brigas para saber se aquele papa deveria ou não ser canonizado, o processo prossegue a passos largos. Dom Pagano disse também que entre os documentos estão incluídos um organograma de todos os italianos, das condições da guerra nos campos de prisão, além de cartas dos núncios que descrevem a situação dos prisioneiros, bem como textos que evidenciam as tais obras de caridade que foram citadas por ele e realizadas pela Igreja durante e depois da guerra.
A mais recente notícia sobre o caso relata que a abertura de tais arquivos será benéfica para melhorar a imagem de Pio XII junto ao grande público. Essa iniciativa partiu de uma organização chamada Pave the Way Foundation, "surgida para eliminar os obstáculos entre religiões, fomentar a cooperação e acabar com o abuso da religião para fins partidaristas".
Seus componentes entregaram para o Vaticano uma petição para digitalizar e colocar à disposição pela internet cerca de 5.125 documentos dos Arquivos Secretos, datados entre março de 1939 e maio de 1945. Gary Krupp, fundador e presidente da Pave the Way Foundation, anunciou que as Actes et Documents du Saint Siège relatifs a la Seconde Guerre Mondiale [Atas e Documentos da Santa Sede relativos à Segunda Guerra Mundial)] estarão disponíveis em breve para o estudo on-line, sem custo algum, no site da organização e na página oficial do Vaticano. Krupp, um judeu de Nova York, declarou:

No desenvolvimento da nossa missão, constatamos que o papado de Pio XII (Eugênio Pacelli) durante a Segunda Guerra Mundial é um motivo de atritos, provocando um impacto em mais de um bilhão de pessoas. A controvérsia se centra em se ele fez o suficiente para prevenir o massacre dos judeus nas mãos dos nazistas.


Pedofilia
Além dos citados fatos, há a abundância de casos recorrentes de pedofilia que Bento XVI tentou combater, mas acabou por se sentir abandonado por cardeais, bispos e padres em seus esforços para dar um basta nessa situação. "O corporativismo foi mais forte que o papa", afirmou o repórter Mário Sabino, revista Veja. Segundo a reportagem, são milhares de casos ocorridos entre 1996 e 2009 que chegaram a envolver, inclusive, crianças surdas-mudas. Inúmeros processos chegaram a ser abertos no Vaticano, mas nenhum deles segue com a velocidade que se esperava.
Em maio de 2010, o ex-papa Bento XVI recebeu bispos belgas para, juntos, analisarem medidas para "evitar abusos sexuais de clérigos a menores" no país correspondente, segundo relatório oficial do Vaticano datado de 21 de março de 2012.
Quem acompanha as notícias vai se lembrar que acusações de pedofilia passaram a ser relativamente comuns quando o assunto era a Igreja Católica, sendo possível mesmo traçar uma linha cronológica mostrando quais e quantos casos aconteceram. Porém, a onda de acusações passou a assumir proporções inimagináveis até mesmo para a própria Igreja. Um dos casos mais graves aconteceu na Bélgica, quando o bispo de Bruges, Roger Vangheluwe, foi cassado pelo então papa por pedofilia. O religioso reconheceu que havia abusado de um jovem quando era sacerdote.
Os bispos que encontraram o papa estavam lá para discutir não apenas as acusações de pedofilia, mas também falar sobre os eternos assuntos polêmicos com os quais a Igreja discute quase infinitamente, mas não chega a uma conclusão, como eutanásia e diálogo inter-religioso.
Segundo os jornais, a Bélgica é o segundo país europeu a aprovar uma lei para a eutanásia. Porém, o L'Obsservatore Romano diz que aquela nação "sofre" com os escândalos de abusos sexuais por parte de clérigos. E o país registrou, segundo o jornal, uma queda de 30% dos católicos. O chefe dos bispos belgas, André Joseph Leonard, afirmou que a Igreja belga adotou diferentes medidas para acabar com esses casos e pediu às vítimas que os denunciem perante a magistratura.
Entre outras medidas para impedir que os casos continuem a aparecer, há "uma formação mais profunda dos sacerdotes e seminaristas, começando com discernir se são confiáveis para o sacerdócio", segundo declaração oficial do relatório emitido pela comissão oficial do papa em 5 de maio de 2010.
Por mais que a Igreja se esforce para controlar as denúncias, muitos outros casos foram registrados até hoje. No final do mesmo mês de abril de 2010, um jornal belga divulgou a denúncia de um homem que assegurou ter sido "violado" quando tinha 15 anos, na década de 1980, por um sacerdote da diocese de Namur, e que o atual chefe da Igreja Católica belga teria encoberto o caso. Essa acusação, que está nos tribunais belgas, se juntou a outros casos registrados que acusavam as Igrejas dos Estados Unidos, Irlanda, Alemanha, Áustria, Holanda e Itália.
Há quem jure que os Arquivos Secretos do Vaticano possuem relatórios completos sobre as atividades dos pedófilos. Há, até hoje, suspeitas de que o próprio Vaticano sabia dessas atividades, mas as escondia de todos, para que ninguém soubesse como seus padres realmente agiam. Esse material, que até hoje é discutido à exaustão em fóruns de internet, gerou muitas lendas, ou seja, fatos não confirmados, que apresentam os padres de diversas maneiras, incluindo depravados que se valiam da confiança de jovens, a maioria do sexo masculino, para obter sexo de maneira ilícita.
Segundo notícias, o monsenhor Charles J. Scicluna, promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, teria afirmado que houve 3 mil denúncias de abusos contra menores nos últimos dez anos, mas que não sabia afirmar o que teria acontecido com as denúncias, nem quantos religiosos foram considerados culpados e punidos.
É claro que ninguém jamais conseguiu uma prova concreta sobre as supostas atividades ilícitas, ou mesmo saber se haveria, de alguma forma, um arquivo no Vaticano que registrasse quem é pedófilo e onde atuaria. Porém, a fama de tal história está incontrolavelmente espalhada por todo o mundo.
O jornal The New York Times afirmou em reportagem que "o Vaticano havia sido informado a respeito dos abusos cometidos pelo padre Lawrence Murphy, que molestou cerca de 200 crianças de uma escola para surdos no estado do Wisconsin, ao longo de 24 anos, mas não tomou nenhuma providência".
Talvez a prova da culpa dos pedófilos esteja arquivada de fato nos Arquivos Secretos. Porém, essa será uma informação que poderá ser divulgada daqui a muitos anos ainda.

A renúncia do papa
A estratégia escolhida pelo papa emérito, ou seja, a renúncia, o tira da liderança da igreja e o coloca atrás das paredes de um convento para freiras no Vaticano, chamado mosteiro Mater Ecclesiae (Mãe da Igreja), construído em 1992, já usado antes por Ratzinger quando ele precisava fazer reflexões e leituras durante o papado de João Paulo II.
Os escândalos que vieram à tona foram listados a partir de uma investigação encomendada por Bento XVI a três cardeais octogenários fidelíssimos a ele, Julián Heranz Casado, JozefTomko e Salvatore De Giorgi. Os três cardeais investigadores escrutinaram documentos e recolheram depoimentos de dezenas de padres e leigos na Itália e em outros países, inicialmente por um questionário único enviado para todos os entrevistados e, depois, por meio de entrevistas individuais devidamente cruzadas.
Segundo matéria publicada na revista Veja, eles "concluem que altos integrantes da cúria eram chantageados por homossexuais beneficiados com dinheiro da Igreja e a nomeação para cargos de destaque na estrutura do Vaticano ou próximos dela". O relatório está dividido em dois volumes de mais de 300 páginas cada um. Bento XVI queria entregá-los ao seu sucessor, mas passou a considerar a divulgação de seu conteúdo antes mesmo que o conclave começasse. Com isso, ele tencionava neutralizar a influência de Bertone na eleição do novo papa, que queria eleger um "papa confiável" e continuar em seu posto.
O novo papa, ciente dos relatórios, deverá tomar as devidas providências sobre o assunto enquanto Bento XVI pairará como uma presença invisível. Se isso será o suficiente para livrá-lo da influência da "banda podre", como se passou a denominar os corruptos da Igreja, ninguém sabe. Porém, se consultarmos os Arquivos Secretos e voltarmos no tempo, poderemos ver que não é a primeira vez que ocorrem fatos dessa natureza na Santa Sé.

Os renunciantes
Bento XVI é o oitavo papa a renunciar em toda a história da Igreja Católica. Os outros sete estão listados no Dictionnaire Historique de La Papauté [Dicionário Histórico do Papado], obra assinada pelo eminente historiador francês Phillippe Levillain.
Pela ordem, os renunciantes são:
1. Martinho I (649-655)
2. Bento IV (900-903)
3. João XVIII (1003-1009)
4. Silvestre III (1045)
5. Bento IX (1047-1048)
6. Celestino V (1294)
7. Gregório XII (1406-1415)

A abdicação aceita
Um fato curioso é que, pouco antes de abdicar, Bento XVI esteve na Basílica Santa Maria di Colemaggio, em Aquila, para visitar o túmulo de Celestino V, um ídolo pessoal, um dos papas que abdicou. Sua renúncia foi a primeira a ter alguma controvérsia jurídico-teológica, pois a legitimidade de seu sucessor, Bonifácio VIII, teria sido questionada pela poderosa família romana Colonna, sob alguns argumentos: A autoridade pontifícia conferida por Deus por meio do Espírito Santo nos conclaves só pode ser retirada pelo próprio Deus. O "casamento" que une o papa à Igreja é indissolúvel. A renúncia de um pontífice não pode ser permitida porque abre flancos na Igreja.
Segundo registros oficiais, muitos dos quais estão nos Arquivos Secretos, Bonifácio VIII teve um papado sem maiores problemas.
A renúncia de um papa passou a ser prevista no Código de Direito Canônico, regulamento promulgado por João Paulo II que estabelece que o papa pode deixar o trono de Pedro apenas por vontade própria, como fez Ratzinger.
Os documentos referentes aos escândalos do pontificado de Bento XVI estão fatalmente fadados a ser trancados nos Arquivos Secretos. Quando eles vierem a público, talvez se esclareça de uma vez por todas o que levou um papa ao extremo de renunciar.
Porém, talvez já não estejamos mais vivos quando isso acontecer.

(Sérgio Pereira Couto - "Os arquivos secretos do Vaticano")

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publicado às 12:58

 


 O arquivamento pelo Ministério Público (MP) de denúncias sobre alegados casos de pedofilia na Igreja Católica "liberta" as instituições e os sacerdotes visados "de graves acusações", disse hoje à Lusa o porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

As declarações do padre Manuel Morujão, que secretaria a CEP, entidade que integra os bispos católicos portugueses, surgem após o anúncio do MP de arquivar acusações feitas pela ex-provedora da Casa Pia, Catalina Pestana, e que envolviam pelo menos cinco sacerdotes da Diocese de Lisboa.
"Naturalmente que esta notícia me alegra", uma vez que as pessoas e as entidades envolvidas veem assim "reabilitada a sua boa fama", sublinhou.
O sacerdote salientou que "é claro que a Igreja [Católica] agradece" a todos os que "ajudam a combater esta grave chaga social que é o abuso sexual de menores", bem como "o alto nível de exigência que é habitual no confronto de padres ou leigos que a representam".
Para o porta-voz da CEP, "essa exigência manifesta o alto conceito que a opinião pública tem dos valores e práticas da Igreja, julgando intolerável que haja casos de contradição", expressando a sua convicção de que "é importante que esta exigência se mantenha, evitando tudo o que possa ser especulação ou calúnia".
O padre Morujão recordou ainda que a CEP "publicou, há um ano, diretrizes muito claras e exigentes para que os clérigos ou pessoas que trabalham em instituições da Igreja tenham adequados comportamentos, sem qualquer condescendência com possíveis abusos de crianças e adolescentes".
O despacho de arquivamento de 16 de abril de 2013, hoje revelado em comunicado pela Procuradoria-Geral da República, esclarece que os factos denunciados pela ex-provedora da Casa Pia "impediriam, na atualidade, o procedimento criminal" por, à luz da legislação aplicável, terem já prescrito os alegados "crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual, parte deles visando menores".
O MP lembra que os factos relatados "ocorreram na década de noventa e reconduziam-se a ilícitos criminais que, à data, assumiam natureza semipública, sem que tenha sido exercido o direito de queixa pelo respetivo titular ou pelo seu representante legal, do que resulta a falta de legitimidade do Ministério Público para o exercício da ação penal".
De qualquer forma, o MP afirma que o inquérito incidiu "sobre factos cujas vítimas não foram identificadas nas denúncias, não tendo sido possível no decurso da investigação, e apesar das diligências desenvolvidas nesse sentido, proceder à sua identificação".
A investigação tentou ainda apurar crimes suscetíveis de configurarem a prática de crimes de pornografia de menores mas não foi "possível recolher indícios suficientes do seu cometimento".
O MP esclarece, no entanto, que prossegue a investigação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP) sobre alegados abusos sexuais de incapazes e de pessoa internada e crimes patrimoniais e fiscais, após denúncias contra a Ordem Hospitaleira de São João de Deus.

Arquivamento liberta sacerdotes de "graves acusações"

Arquivar um processo de acusação contra alguém, NÃO O ABSOLVE como também NÃO O CONDENA! Apenas castra a verdade, colocando-a eternamente a mercê da dúvida: Era culpado? Era inocente? NINGUÉM MAIS SABERÁ, pela esperteza daqueles que detém o poder de julgar, e todavia LAVAM AS MÃOS por meio de uma situação mais cômoda, como um escape da responsabilidade de condenar ou da responsabilidade de absolver! Assim, o acusado fica como um desaparecido, que nunca será sepultado condignamente, e no cemitério seu lugar estará eternamente vazio!  (Lucy)

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publicado às 13:57

O Papa Francisco exigiu que se “atue com determinação” diante dos abusos sexuais cometidos por religiosos, ao receber nesta sexta-feira 5, no Vaticano, os membros da Congregação para a Doutrina da Fé, encarregada de tais denúncias.
“O Santo Padre recomendou, em particular, o prosseguimento da linha de seu antecessor Bento XVI de agir com determinação nos casos de abusos sexuais”, indicou em um comunicado o Vaticano.
É a primeira vez que o pontífice latino-americano se pronuncia sobre as milhares de denúncias em todo o mundo contra padres pedófilos.
O Papa confirmou que preconizará a tolerância zero, como Bento XVI, e convidou a hierarquia da Igreja a promover “acima de tudo medidas de proteção dos menores”, ressalta a nota divulgada pelo gabinete de imprensa da Santa Sé.
Francisco também pediu para que “todos aqueles que foram vítimas de violência no passado sejam ajudados”.
O novo pontífice, eleito no dia 13 de março para substituir Bento XVI após sua renúncia, pediu para que sejam impulsionados “os procedimentos devidos contra os culpados”.
Também convidou as conferências episcopais de todos os países a “formular e cumprir” as diretrizes estabelecidas e reiterou que “reza de modo particular” pelo sofrimento das vítimas de abusos.
O escândalo dos sacerdotes que abusaram de crianças e adolescentes explodiu primeiro nos Estados Unidos no início dos anos 2000. Depois afetou as Igrejas de vários países da Europa, sobretudo da Irlanda, onde foram registrados milhares de casos de abusos.
A maior parte dos casos data das últimas décadas, mas outro crime ainda viria se somar ao cometido pelos sacerdotes: o silêncio que cobria os atos. Alguns padres eram transferidos ou protegidos pelos prelados.
A Igreja da América Latina também conheceu uma série de escândalos. O mais famoso foi o do fundador mexicano do movimento conservador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel, também culpado de abusos sexuais.
O papa Bento XVI pediu perdão em várias ocasiões em nome da Igreja às vítimas e impulsionou a tolerância zero. Em maio de 2011, a Congregação para a Doutrina da Fé deu o prazo de um ano às conferências episcopais do mundo inteiro para adotarem as diretrizes em matéria de luta contra a pedofilia, que envolvem colaborar com a justiça civil.
O promotor para a luta contra os casos de pedofilia, Monsenhor Charles Scicluna, indicou recentemente à Agência de Informações sobre o Vaticano I.Media que “em meados de setembro, 75% das conferências episcopais enviaram uma resposta”.
( http://www.cartacapital.com.br/internacional/papa-exige-determinacao-diante-da-pedofilia/ )

 

 

O celibato imposto, pode até não ser a causa direta dos abusos sexuais por parte dos padres pedófilos, mas que existe uma cultura que leva a casos de desvio sexual (pedofilia, homossexualismo, misoginia,...) na igreja romana, isso parece mais que evidente.
Por outro lado, os episódios de pedofilia que, pouco a pouco, vão-se manifestando por todo o mundo, evidenciam contradições estruturais da instituição Igreja. É claro que cada pedófilo deve responder individualmente perante as vítimas e perante a justiça, mas a responsabilidade individual não absolve a responsabilidade da instituição.
Bento XVI e agora o Papa Francisco, bem como grande parte dos bispos, falam de tolerância zero para com os padres pedófilos, curiosamente utilizando uma linguagem de extrema direita, mas ignoram a procura das raízes do fenômeno na estrutura da própria instituição eclesial. Tinha que ser aí mesmo, na estrutura do sagrado, que se deveria aplicar a tolerância zero.
É por demais conhecida a relação estreita entre sexo e poder. Já para os gregos e romanos o falo era símbolo do poder. Na Roma antiga, as dimensões e a forma do pénis não raramente favoreciam a carreira militar e política. Tudo o que se ergue parece ter uma referência fálica. Obeliscos, campanários, torres, o báculo, a pastoral, a mitra episcopal, que coisa são se não símbolos fálicos?! Não é por acaso que na igreja romana o poder é reservado ao sexo masculino e negado em absoluto às mulheres. A pedofilia é interna a esta relação entre sexo e poder. Quem procura crianças para satisfazer o seu apetite sexual, fá-lo para exprimir a própria sede de domínio para com uma criatura mais frágil. É esta sede de domínio a raiz mais profunda da pedofilia. É esta sede de domínio que deveria ser extirpada da estrutura do sagrado.
É hora de restituir ao cristianismo o sentido da libertação do sagrado, enquanto realidade separada, libertação não apenas de opressões econômicas e políticas, mas também psicológicas, ético-morais, simbólicas. Talvez a pedofilia não desapareça de vez, mas sem dúvida sofrerá um golpe profundo e não apenas os padres pedófilos.

HIPERLINKS:
* VÍTIMAS DA PEDOFILIA: UMA METÁFORA DO CATÓLICO PERFEITO
* A pedofilia é endémica à Igreja romana?
* Pedofilia e contradições estruturais da Igreja Católica Romana
*Pedofilia: Igreja católica entre o silêncio cúmplice e o delírio
* "Religiosos e pedofilia, um pecado de poder"
* Pedofilia na Igreja: o sol ainda gira em volta da terra?
* O pecado da Igreja romana
* O inconsciente da Igreja
*Há correlação entre celibato e pedofilia?
 

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publicado às 15:31


Bergoglio e a Igreja do ‘não’

por Thynus, em 15.04.13
 
Nada como um dia após o outro, ensina a sabedoria popular. Com o novo papa, começam a aparecer indicativos consistentes de a renúncia de Ratzinger não decorrer apenas da falta de condições físicas e da situação de ingovernabilidade de uma Cúria mergulhada em escândalos e lutas intestinas pelo poder. Pelos indícios, Ratzinger parece ter-se conscientizado de estar fora de época e, assim, inadaptado para governar a Igreja.
Ratzinger mergulhou no obscurantismo e nada sobrou do jovem e renovador teólogo que auxiliou na elaboração dos trabalhos preparatórios do Concílio Vaticano II. Para Hans-Jürgen Schlamp, do Der Spiegel, o papado de Ratzinger foi trágico “pela sua incapacidade de entender os tempos”.
Durante o seu pontificado, prevaleceu a Igreja do “não” e a enfadonha repetição da condenação ao relativismo. Trocando em miúdos, a não aceitação, mundo afora, daquilo entendido por ele como princípios imutáveis e definitivos. No particular, Ratzinger levou a sério a infalibilidade estabelecida, em 1868, no Concílio Vaticano I e, também, o étimo do termo latino pontifex, ou seja, o de único guia capaz de conduzir por um caminho reto.
O emérito Ratzinger percebeu não possuir o carisma do antecessor Wojtyla para manter a Igreja do “não”. Além disso, escolheu o trapalhão Tarcisio Bertone para, como secretário de Estado, cuidar da Cúria. Para se ter uma ideia, Bertone, a misturar homofobia e ignorância, sustentou a correlação entre homossexualidade e pedofilia ( Veja: "O sol ainda gira em volta da terra?" ). Só para exemplificar, a Igreja do “não” de Ratzinger é aquela que nega a Eucaristia aos divorciados. De nada adiantou a pressão do Episcopado da Alemanha para a mudança. Mais ainda, é a Igreja do “não” à inseminação artificial, às pílulas anticoncepcional e do dia seguinte. A do “não” ao uso da camisinha e ao casamento de clérigos.
Também é a Igreja dos vetos ao testamento biológico, ao sacerdócio feminino (o antigo Santo Ofício, sob o cardeal Ratzinger, proibiu a divulgação, nos Estados Unidos, do livro Mulheres no Altar, da então sóror Lavinia Byner), à masturbação entre os adolescentes, ao sexo antes do casamento e à união homossexual. A que, segundo os prelados norte-americanos, adotou expressões inadequadas no novo “Catequismo da Igreja”. É aquela em que o papa Ratzinger reprova a nova tradução inglesa da Bíblia e de textos litúrgicos, por entendê-los “modernos e muito feministas”.
Nessa Igreja do “não” prevaleceu, durante anos, a lei do silêncio a encobrir crimes de pedofilia. A respeito, o teólogo Hans Küng frisou ter o então cardeal Ratzinger, em 28 de maio de 2001, recordado aos bispos do mundo todo que para as questões de ética sexual valia o segredo pontifício. E Küng: “Durante anos, e como pontífice, Ratzinger não mudou uma vírgula dessa praxe infeliz. Esse homem foi o responsável pela ocultação desses abusos em nível mundial e tinha o dever de pronunciar um mea-culpa”.
Para o lugar de Ratzinger buscou-se um papa de perfil diverso, humilde, popular, contra o fausto e a favor dos pobres. Muitos estão a comparar o papa Francisco ao saudoso Albino Luciani. Em agosto de 1978, com 101 votos dados por 111 participantes, Luciani, com o nome de João Paulo I, aboliu a missa de coroação e se recusava a sentar no trono nas cerimônias solenes. Luciani disse, sendo criticado por uma Cúria que o tachava de inadequado ao encargo, termos um Deus pai e mãe. E ele trombou com a Cúria ao afirmar que a Igreja não deveria contar com poder ou com riqueza. Sua intenção era, inicialmente, distribuir aos pobres 1% da riqueza da Igreja. A irritar o secretário de Estado Jean Villot, Luciani sustentou que não se deve proibir de modo simplista os anticoncepcionais, isso a contrariar a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI.
O pontificado de Luciani durou 33 dias. Na cabeceira do leito de morte estava um exemplar do Il Mondo, com novos escândalos do Banco do Vaticano, dirigido por Paul Marcinkus. Pouco antes, Luciani havia se inteirado de uma lista de clérigos inscritos na Loja Maçônica P2, protagonista do escândalo do Banco Ambrosiano. Do elenco constava Jean Villot, o secretário de Estado. (Veja:  "Às 9:30 da noite fechou a porta de seu quarto e o sonho acabou...")
A causa-morte de Luciani foi atestada como infarto do miocárdio. Mas cardiologistas registraram que o falecido não apresentava na face a expressão da dor que acomete todos os infartados. Não houve autópsia e correu a suspeita de envenenamento. Existem contradições sobre quem teria por primeiro ingressado no quarto papal. Em nota oficial, informou-se ter sido o secretário particular, John Magee. Na véspera, fora apontada a sóror-camareira Vincenza Taffarel. Uma terceira voz indicava Jean Villot, o dissidente secretário de Estado. Para o escritor investigativo inglês David Yallop, autor do livro Em Nome de Deus (6 milhões de cópias vendidas), a morte não foi natural.
Pano rápido. Vamos esperar para ver se Bergoglio, como tentou Luciani, será capaz de mudar a Igreja do “não” para a Igreja do “sim”.

(Wálter Maierovitch)
 

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publicado às 12:13


Pais e filhos

por Thynus, em 30.03.13

No filme de Robert Bresson, O diabo, provavelmente (1977), os heróis de uma era em que não havia nem sinal da tecnologia de PCs, celulares, iPods e outros meios maravilhosos de socializar/separar, contatar/isolar, conectar/desconectar, são jovens confusos que buscam desesperadamente encontrar um objetivo para suas vidas, para o lugar que lhes foi assinalado e para o significado desse lugar. Eles não recebiam ajuda alguma dos mais velhos. Na verdade, não se vê adulto algum durante os 95 minutos do filme, até seu trágico desfecho. Apenas uma vez, ao longo de toda a projeção, os jovens, completamente absortos no aflitivo e vão esforço de se comunicar uns com os outros, registram a existência de adultos: quando, extenuados de tantas proezas, a rapaziada cheia de fome se reúne ao redor de uma geladeira abarrotada de comida providenciada para tal eventualidade pelos pais, até então personagens ignorados e invisíveis.
As três décadas posteriores ao lançamento do filme serviram para demonstrar e confirmar o caráter profético da obra de Bresson. O cineasta percebeu as verdadeiras consequências da “grande transformação” que ele e seus contemporâneos testemunhavam, embora poucos tivessem perspicácia suficiente para notá-las, sabedoria para examiná-las a fundo e paixão necessária para registrá-las no cinema: a passagem de uma sociedade de produtores – trabalhadores e soldados – para uma sociedade de consumidores – completamente individualizados e, tal como decretado por sua localização histórica, entusiastas de ideias, perspectivas e tarefas de curto prazo.
Na sociedade “sólida moderna”, de produtores e soldados, o papel dos pais consistia em incutir nos filhos, a todo custo, a autodisciplina permanente necessária para suportar a monótona rotina de uma fábrica ou de uma caserna; ao mesmo tempo, os pais tinham a função de representar para os jovens modelos exemplares desse comportamento “regulado por normas”. Michel Foucault analisou a sexualidade infantil e o “medo da masturbação” nos séculos XIX e XX como um exemplo do arsenal de armas disponíveis para a legitimação e o fomento do controle rígido e da vigilância em tempo integral que, naquele tempo, esperava-se dos pais.

Mais que as velhas formas de interdição, essa forma de poder [do papel parental] exige, para se exercer, presenças constantes, atentas e também curiosas; ela implica proximidade; procede por exames e observações insistentes; requer um intercâmbio de discursos por meio de perguntas que extorquem confissões e confidências que superam a Inquisição. Ela envolve uma
aproximação física e um jogo de sensações intensas. (História da sexualidade, v.1, A vontade de saber)

Foucault lembra que, na eterna campanha para fortalecer o papel parental e seu efeito disciplinador, o “vício da criança” era menos um inimigo que um suporte: “Em todo canto onde houvesse o risco de se manifestar, instalaram-se dispositivos de vigilância, construíram-se armadilhas para forçar confissões, impuseram-se discursos inesgotáveis e corretivos.” Os banheiros e os quartos de dormir foram estigmatizados como locais de grande perigo, os terrenos mais férteis para o cultivo das inclinações sexuais mórbidas da criança – por isso mesmo, esses lugares impunham uma vigilância severa, íntima, incessante e, naturalmente, a presença e a intervenção invasiva e atenta dos pais.
Em nossa era de modernidade líquida, a masturbação foi absolvida de seus supostos pecados, e o medo da masturbação substituído pelo medo da agressão sexual ou do “abuso sexual”. A ameaça velada, causa do novo medo, não se localizou na sexualidade das crianças, mas na dos pais. Banheiros e quartos de dormir continuam a ser vistos como antros de vício repugnante, mas hoje os acusados da agressão são os pais (e os adultos em geral, todos suspeitos de serem potenciais molestadores de crianças). Quer de maneira aberta e manifesta, quer de modo latente ou tácito, o fim da guerra declarada aos novos e perseguidos vilões é um abrandamento do controle parental; a renúncia à presença ubíqua e invasiva nas vidas dos filhos; o estabelecimento e manutenção de uma distância entre o “velho” e o “novo”, tanto no âmbito da família quanto nos círculos dos amigos.
Quanto ao pânico atual, o último relatório do Institut National de la Démographie mostra que, entre 2000 e 2006, o número de mulheres e homens entrevistados que se recordavam de situações de abuso sexual quase triplicou (de 2,7% para 7,3% – 16% de mulheres e 5% e homens –, com uma tendência à aceleração) (“Les victimes de violences sexuelles en parlent de plus en plus”, Le Monde, 30 mai 2008). Os autores do relatório sublinham que “o aumento verificado não prova um crescimento da incidência da agressão, mas uma crescente inclinação a relatar casos de estupro em pesquisas científicas, o que reflete um rebaixamento do limite de tolerância à violência”. Mas eu não resisto a acrescentar que isso também é um reflexo,  provavelmente mais forte ainda, das deficiências lógicas e dos problemas das supostas ou reais experiências de assédio e molestamento sexual na infância, e dos complexos de Édipo e de Electra.
Convém deixar claro que a questão não é quantos pais, com ou sem a cumplicidade de outros adultos, realmente tratam os filhos como objetos sexuais e até que ponto eles extrapolam seu poder para tirar proveito da fragilidade das crianças, assim como antigamente o problema não era quantas dessas crianças cediam aos impulsos masturbatórios. O que de fato importa, o que é grave e relevante, é que todos eles foram pública e ruidosamente advertidos de que estreitar a distância que são instruídos a manter entre si e outros adultos e seus filhos pode vir a ser (deve ser e será) interpretado como propício à liberação – aberta, sub-reptícia ou subconsciente – de impulsos pedófilos endêmicos.
A primeira vítima do medo da masturbação foi a autonomia do jovem. Desde a primeira infância, os futuros adultos tinham de ser protegidos contra os próprios instintos e impulsos mórbidos e potencialmente desastrosos (caso não controlados). As principais baixas do pânico do abuso sexual são, ao contrário, os vínculos e a intimidade entre as gerações. Se o medo da masturbação destacou o adulto como melhor amigo, anjo da guarda, guia confiável e sobretudo como guardião dos jovens, o medo do abuso sexual definiu os adultos como “suspeitos habituais”, culpados a priori de crimes que ele ou ela devem ter tido a intenção de cometer, ou pelo menos foram levados a praticar pelo instinto, com ou sem intenção maldosa.
O primeiro pânico teve como consequência um grande fortalecimento do poder parental; mas, por outro lado, induziu os adultos a reconhecerem sua responsabilidade com e para os jovens, a cumprirem com zelo os deveres correspondentes. O novo pânico do abuso sexual, para variar, libera os adultos de seus deveres – ao apresentá-los a priori como agentes responsáveis por um real ou potencial abuso de poder.
Esse novo pânico acrescenta um lustro legitimador a um já adiantado processo de comercialização da relação entre pais e filhos – que por força situa essa relação como se fosse mediada pelo mercado de consumo. Os mercados se propõem a reprimir qualquer remanescente de escrúpulo moral que resista após o recuo dos pais em relação à sua presença atenta e cuidadosa na família; fazem isso pela transformação de cada comemoração familiar, de cada feriado religioso e nacional em ocasião para distribuir presentes caros e luxuosos, com isso ajudando e incentivando, dia após dia, a demonstração de superioridade dos filhos, por meio da violenta competição de sinais adquiridos no comércio da distinção social.
Recorrer à ajuda de uma sedutora indústria de bens de consumo pode ser, no entanto, uma forma de “comprar uma solução para a preocupação” que acaba mais criando do que resolvendo os problemas. Comentando a “desqualificação” dos adultos em sua tarefa de exercer uma autoridade adulta, o professor Frank Furedi indaga: “Se não se confia nos adultos para acompanhar seus filhos de perto, não surpreende que alguns cheguem à conclusão de que, na realidade, não se espera que eles assumam a responsabilidade pelo bem-estar das crianças em sua comunidade?” (“Thou shalt not hug”).“Thou shalt not hug”.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 02:50

Pela primeira vez na história milenar do catolicismo, um papa reinante e seu predecessor se encontraram. Neste sábado 23, o recém-eleito Francisco foi recebido pelo papa emérito Bento XVI no palácio apostólico de Castel Gandolfo.
Dez dias após sua eleição, Francisco foi de helicóptero até a tranquila localidade ao sul de Roma e foi recebido pessoalmente por Bento XVI no heliporto da residência de veraneio papal.
“O abraço no heliporto entre o Papa e o Papa emérito foi muito bonito”, comentou o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi.
Nas imagens distribuídas pela televisão do Vaticano, os dois Papas foram vistos usando a batina branca. Bento XVI caminhava com dificuldade, apoiado por uma bengala.
Os dois papas conversaram em particular por 45 minutos na biblioteca do palácio, enquanto inúmeras pessoas se congregaram na pequena praça central de Castel Gandolfo para aplaudir e gritar os nomes de Francisco e Bento XVI.
Durante o encontro, o papa emérito reiterou “sua reverência e obediência” ao novo pontífice. Francisco, por sua vez, manifestou seu “agradecimento próprio e de toda a Igreja pelo ministério desenvolvido por Bento XVI durante seu pontificado”, informou o porta-voz.
Durante o histórico encontro, os dois líderes religiosos também rezaram na capela do palácio apostólico. “Papa Francisco quis que se sentassem juntos, no mesmo banco, para rezar. Ele disse: ‘somos irmãos’”, contou Lombardi.

Durante o encontro privado na biblioteca, Francisco presenteou seu Bento XVI com uma imagem da “Virgem da humildade”. “Francisco disse que escolheu esta imagem porque pensou nele e em todos os exemplos de humildade que deu durante seu pontificado.”
No total, Francisco permaneceu quase três horas em Castel Gandolfo, e depois regressou ao Vaticano.
Os assuntos que os dois pontífices examinaram não foram divulgados, mas é certo que giraram em torno de temas importantes para uma igreja com 1,2 bilhão de fiéis: a “nova evangelização”, as perseguições contra os cristãos, a reforma da Cúria, as divisões internas, os escândalos envolvendo dinheiro e sexo, incluindo casos de pedofilia.
Relatório do Vatileaks 
O papa emérito entregou ao sucessor o relatório ultrassecreto que pediu para ser elaborado sobre a situação interna da Igreja após o vazamento de documentos secretos conhecido como Vatileaks.
Segundo vaticanistas, o papa argentino seguirá “o mapa do caminho” traçado por Bento XVI de recuperar a autoridade perdida e terminar a limpeza interna na Cúria.
Antes de renunciar, Bento XVI disse que iria se retirar do mundo, mas que estaria pronto para dar conselhos ao novo pontífice.

Estilos diferentes
Os papas têm temperamentos completamente diferentes: enquanto Joseph Ratzinger se mostrava tímido diante da multidão, Jorge Bergoglio é espontâneo e até abraça os fiéis.
O novo pontífice se distingue por um estilo informal e se mostra mais próximo dos pobres e da simplicidade. Ainda sim, é inflexível em sua doutrina. Sobre as questões da sociedade, Joseph Ratazinger e Jorge Bergoglio compartilham posições conservadoras, seja quanto ao casamento homossexual, o aborto ou a eutanásia.
Quanto aos sinais de simplicidade (anel de prata, etc) do novo papa, sua importância não deve ser exagerada, segundo os vaticanistas. Bento XVI quis manter as tradições, mas viveu de forma simples.
Nos arredores do Vaticano, os cartazes e cartões postais com o retrato de Bento XVI tendem a perder espaço para os do sorridente Jorge Bergoglio e do midiático João Paulo II. Karol Wojtyla, beatificado em 2012, sete anos após sua morte, e que pode ser canonizado em breve, continua a ser o “gigante de Deus” aos olhos dos católicos.
A popularidade adquirida por Francisco em apenas uma semana e a insistência sobre seus gestos simbólicos de ruptura com as tradições podem ser vistas com maus olhos por uma parte do Vaticano. “Este pontificado será enraizado nos ensinamentos de Bento XVI, que foi a principal força intelectual da Igreja nos últimos 25 anos. Sua herança continuará a influenciar este pontificado”, considera Samuel Gregg, do instituto de pesquisa americano Aston.
Semelhanças podem ser traçadas entre os discursos dos dois papas, por exemplo, sobre a necessidade de privilegiar aspectos positivos da doutrina ao invés das condenações.
De acordo com o jornalista alemão Peter Seewald, maior especialista de Joseph Ratzinger, “está claro desde o início que o novo Papa se inscreve nos passos de seu predecessor”.
Ao jornal Corriere della Sera, Seewald afirmou que “Bento preparou o caminho (…) Ele é um grande admirador de São Francisco de Assis. Depois de São Bento (fundador do monaquismo ocidental), é Francisco de Assis que está em segundo lugar para ele: dois reformadores da Igreja, cada um em seu território, em seu caminho próprio.”
“João Paulo II estabilizou o barco da Igreja na tempestade, Bento a purificou, deu instruções à tripulação e a recolocou no caminho certo. Agora Francisco irá ligar o motor para fazer a Igreja se mover”, afirma Peter Seewald.
Quando se estabelecer em maio em um antigo monastério na colina do Vaticano, o Papa emérito estará a poucos passos do gabinete de Francisco. Uma coabitação inédita terá início, e os encontros serão possíveis nos jardins.

http://www.cartacapital.com.br/internacional/papas-francisco-e-bento-xvi-oram-juntos-em-encontro-historico/

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publicado às 18:34



Não foi para mim completa surpresa o cardeal argentino Bergoglio, jesuíta. O que constituiu surpresa foi a escolha do nome: Francisco, sugerido pelo colega, cardeal Hummes, de São Paulo, quando o abraçou e lhe disse: "não te esqueças dos pobres." O Papa Francisco explicou: "Essa palavra entrou aqui (apontou para a cabeça): os pobres. Pensei imediatamente em Francisco de Assis. Assim surgiu o nome no meu coração." E exclamou: "Ah, como gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres", provocando a ovação dos jornalistas.
E as suas palavras e gestos têm correspondido ao que o nome de Francisco de Assis representa. A simplicidade não teatral, até no vestir e calçar, inclinar-se perante a multidão, a fala cordial e descomplicada, uma cruz peitoral barata, o desejo de "bom descanso" e "bom almoço", ir pagar as despesas de hospedagem, o humor, palavras de ternura e compaixão: isso aproximou-o das pessoas, que agora se podem aproximar, pois é um homem entre homens e mulheres, como Cristo. "Cristo é o centro; o centro não é o sucessor de Pedro." Afinal, a Constituição da Igreja é mesmo o Evangelho e não o Código de Direito Canónico.
Sublinhe-se o seu respeito pela liberdade de consciência. "Tinha-vos (aos jornalistas) dito que vos daria de todo o coração a minha bênção. Muitos de vós não pertencem à Igreja Católica, outros não são crentes. Dou-vos de coração esta bênção, em silêncio, a cada um de vós, respeitando a consciência de cada um, mas sabendo que cada um de vós é filho de Deus. Que Deus vos abençoe."
No passado dia 12, frente àquela pompa toda dos 115 cardeais a entrar na Capela Sistina, para o conclave, perguntei-me pela simplicidade do Evangelho e sobretudo quem representava as mulheres, as famílias, os jovens, os católicos em geral. A Francisco de Assis pareceu--lhe uma vez, numa pequena ermida, ouvir dos lábios de Cristo crucificado: "Francisco, repara a minha Igreja, que ameaça ruína." Espera-se que o Papa Francisco refaça o rosto da Igreja tão desfigurado. No quadro de uma Igreja-instituição descredibilizada, que reforme a Cúria Romana, tornando-a ágil, transparente e colegial. Significativamente, Francisco tem-se referido a si mesmo como bispo de Roma e não como Papa, transmitindo a mensagem de que quer descentralizar, tornando eficaz a colegialidade dos bispos: ele exerce o ministério da unidade numa Igreja solidariamente co-responsável. Francisco tem força e determinação para acabar com os escândalos da pedofilia, do Vatileaks, do Banco do Vaticano.
O peruano Vargas Llosa, prémio Nobel da literatura, agnóstico, pensa que Francisco "parece moderno" e espera que "inicie o processo de modernização da Igreja, libertando-a de anacronismos como não tratar temas como o sexo e a mulher". Francisco de Assis impôs-se também pela fraternidade. Como poderá então Francisco Papa esquecer mais de metade dos católicos, as mulheres, ainda discriminadas na Igreja, povo de Deus? Um pormenor: dirigiu-se ao povo como irmãos e "irmãs". E como pode não proceder a uma revisão da atitude da Igreja face ao corpo e à sexualidade? Aí está a questão dos anticonceptivos, do celibato obrigatório - neste do- mínio, talvez comece pela ordenação de homens casados. Neste contexto de fraternidade franciscana, pode contar-se com a sua luta pela justiça, pelos direitos dos pobres, dos mais débeis, para que todos possam realizar dignamente a sua humanidade. O meio ambiente, os problemas ecológicos, a preservação da natureza, criação de Deus e habitação da humanidade não serão esquecidos.
Em tempo de cruzadas, Francisco de Assis pôs-se a caminho para ir dialogar com o sultão no Egipto. Francisco Papa não abandonará a urgência da continuação do diálogo ecuménico entre as Igrejas cristãs e do diálogo inter-religioso e intercultural. Francisco Papa, um sul-americano com raízes europeias e o responsável máximo pela Igreja católica, organização verdadeiramente global, ocupa um lugar privilegiado para estabelecer pontes entre nações e povos e culturas, a favor da justiça e da paz, num mundo cada vez mais policêntrico e multipolar.
Há razões para uma esperança paciente.

(Anselmo Borges)
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3125358&seccao=Anselmo%20Borges&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco&page=-1

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publicado às 18:08


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