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Pergunta: Tenho só 21 anos. Preciso usar o Niôsome Système contra o envelhecimento?
Resposta: Claro que sim. As causas do envelhecimento já começaram, mesmo que os sinais ainda não estejam visíveis.
Pergunta: Tenho mais de 45 anos. Já não é tarde demais para usar o Niôsome Système contra o envelhecimento?
Resposta: Nunca é tarde demais.

 

 

Os Ritos da Beleza redefinem o pecado original, não mais por se nascer mortal, mas por se nascer mulher. Antes da reação do sistema, as meninas e as velhas eram dispensadas de participar na adoração, ficando, portanto, fora das fileiras de consumidoras em potencial. Os Ritos, no entanto, reformularam o pecado original de modo que nenhuma jovem pudesse achar ser cedo demais para se preocupar com as marcas da feiúra feminina — envelhecimento ou gordura — invisíveis em seu interior desde o nascimento, esperando o momento de se revelarem. Nem pode a mulher mais velha considerar os Ritos coisa do seu passado. Os cremes para a pele e os livros de regimes recorrem à linguagem da parábola do filho pródigo para extrair sua moral. Apesar da vida desregrada da pecadora, ela nunca é abandonada, e nunca é tarde demais para que se arrependa. Se nunca é cedo demais nem tarde demais para ignorar os Ritos, não existe nenhum ponto na vida de uma mulher em que ela possa viver sem culpa, pronta para contaminar outras mulheres com seu comportamento relaxado.
Um exemplo desse ardil teológico está na tabela "científica" da Clinique, que relaciona as seguintes categorias sob o título "Rugas": Muitas, Algumas, Poucas, Muito Poucas. Não existe uma categoria para Nenhuma. É inconcebível a idéia de que alguma jovem possa estar ilesa. O fato de existir como mulher, mesmo como menina adolescente, significa estar em deterioração.
O efeito de'vendas dessa condição eqüivale ao da doutrina cristã. Só se pode contar com as contribuições de um devoto para sustentar uma igreja se ele se sentir culpado. Não se pode confiar que uma mulher vá gastar dinheiro com "consertos" se ela não se sentir deteriorada. O pecado original é a fonte da culpa. A culpa e o sacrifício que lhe é conseqüente formam o eixo central também desse novo sistema religioso. Os anúncios direcionados aos homens são eficazes por adularem seu amorpróprio, enquanto os anúncios desses produtos rituais funcionam, como o fazem os anúncios dirigidos para as mulheres em geral, fazendo com que as mulheres se sintam tão culpadas quanto possível. Dizem eles que a única responsabilidade moral pelo seu envelhecimento ou pela sua silhueta está nas suas próprias mãos. "Mesmo as expressões mais inocentes — incluindo apertar os olhos, piscar e sorrir — têm seu preço" (Clarins). "Desde 1956, não há mais desculpas para a pele seca" (Revlon). "Você ri, chora, franze a testa, se preocupa, fala? (Clarins). "Não está óbvio o que você deveria fazer pela sua pele agora?" (Terme di Saturnia). "Pare de maltratar a sua pele" (Elizabeth Arden). "Um busto melhor depende de você" (Clarins). "Assuma o controle da sua silhueta" (Clarins).
Outros escritores também mencionaram a seguinte comparação. Kim Chernin em The Obsession faz a pergunta, "É então possível que nós nos nossos dias nos preocupemos com a alimentação e o peso da forma que nossas avós e seus médicos se preocupavam com a sexualidade feminina?" O que ainda não foi investigado, porém, é a elevada fonte dessas ansiedades e sua verdadeira função. A cultura moderna reprime o apetite oral da mulher da mesma forma que a cultura vitoriana, através dos médicos, reprimia o apetite sexual feminino: do alto da estrutura do poder para baixo, com um objetivo político. Quando a atividade sexual feminina perdeu seus valiosos castigos, os Ritos tomaram o lugar do medo, da culpa e da vergonha que as mulheres sabiam que deveriam sempre acompanhar o prazer.
O pecado original nos deixou a culpa de natureza sexual. Quando a revolução sexual se uniu ao consumismo para criar a nova geração de mulheres sexualmente disponíveis, tornou-se necessária uma imediata relocalização física da culpa feminina. Os Ritos da Beleza suplantam praticamente todas as proibições judaico-cristãs com relação ao apetite sexual através de um tabu equivalente com relação ao apetite oral. Todo o drama do desejo, da tentação, da capitulação, do pavor de que "apareça", dos esforços desesperados de eliminar as "provas" do corpo e em última análise de ódio a si mesma pode ser imaginado quase sem alterações como a realidade sexual da maioria das moças solteiras até a legalização do aborto e da prática anticoncepcional bem como a perda do estigma do sexo pré-conjugal; ou seja, até há uma geração antes desta.
Na igreja, muito embora os homens sofressem a tentação do desejo sexual, as mulheres eram descritas como sua perversa encarnação. Da mesma forma, embora os homens tenham apetite e engordem, o apetite oral da mulher é a concretização social da vergonha.
"Os tabus relacionados à menstruação", escreve Rosalind Miles. "... significavam que durante um quarto de suas vidas adultas, uma semana a cada quatro, as mulheres dos tempos antigos eram regularmente estigmatizadas e isoladas, consideradas incapazes e barradas da vida na sua sociedade." O período menstrual definia as mulheres como impuras, repugnantes sob o aspecto sexual durante "aqueles dias", irracionais e inadequadas para cargos públicos. As mulheres hoje em dia se sentem diminuídas e excluídas pelos "dias gordos" do seu ciclo do peso, o que serve ao mesmo objetivo por caracterizar as mulheres mesmo para si mesmas como seres sem força de vontade, depravadas e sem atração sexual. Enquanto os tabus relacionados à menstruação mantinham as mulheres fora da vida pública, hoje em dia elas se escondem. No judaísmo ortodoxo, uma mulher em niddah, impureza menstrual, é proibida de fazer as refeições com a sua família. A impureza da gordura funciona de forma idêntica.
As leis de impureza sexual em geral cederam lugar a tabus quanto a impureza oral. As mulheres se mantinham genitalmente castas para Deus; agora elas se mantêm oralmente castas para o Deus da Beleza. O sexo dentro do casamento para a procriação era aceitável, enquanto o sexo pelo prazer era pecaminoso. As mulheres hoje fazem a mesma distinção entre comer para sobreviver e comer por prazer. Os dois pesos, duas medidas, que permitiam ao homem maior liberdade sexual do que às mulheres se transformou num critério em que os homens têm maior liberdade oral. Uma moça sexualmente impura era uma "caída"; hoje as mulheres têm uma "recaída" de seus regimes. As mulheres "enganavam" os maridos; agora "trapaceiam" nas suas dietas. Uma mulher que come algo "proibido" está "se comportando mal". Ela poderá dizer "É só por essa noite". A expressão "Pequei no meu coração" se transforma em "É só eu olhar para um". "Eu simplesmente não sei dizer não", declara a modelo no anúncio de gelatina Jell-O, o que "faz com que eu me sinta bem dizendo sim." Com as bolachas Wheat Thin, "Você não precisa se detestar pela manhã". O rosário se transformou num contador de calorias. As mulheres costumam dizer, "Tenho estrias para mostrar que pequei". Enquanto antigamente ela podia comungar se cumprisse uma penitência sincera e completa, agora uma mulher pode fazer alguma coisa "desde que tenha sinceramente se esforçado no regime e na ginástica". O estado da sua gordura, como no passado o estado do seu hímen, é uma preocupação da comunidade. "Oremos por nossa irmã" se transformou em "Nós todos vamos incentivá-la a perder esse excesso de peso".

(Naomi Wolf - "O mito da beleza - como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres")

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publicado às 14:13

É sempre arriscado nomear um teólogo para a função de Papa. Ele pode fazer de sua teologia particular, a teologia universal da Igreja e impô-la a todo o mundo. Suspeito que esse foi o caso de Bento XVI, primeiramente enquanto Cardeal, nomeado Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Inquisição) e depois Papa. Tal fato não goza de legitimidade  e se transforma em fonte de condenações injustas. Efetivamente condenou mais cem teólogos e teólogas  por não se enquadrarem em sua leitura teológica da Igreja e do mundo.        
Razões de saúde e o sentimento de impotência face à gravidade da crise na Igreja, o levaram a renunciar. Mas não só. No texto de sua renúncia dá conta da “diminuição  de vigor do corpo e do espírito”e de “sua incapacidade” de enfrentar as questões que dificultavam o exercício de sua missão. Por detrás desta formulação, estimo que se oculta a razão mais profunda de sua renúncia: a percepção do colapso de sua teologia e do fracasso do modelo de Igreja que quis implementar.  Uma monarquia absolutista não é tão absoluta a ponto de dobrar a inércia de envelhecidas estruturas curiais.
As teses centrais de sua teologia sempre foram problemáticas para a comunidade teológica. Três delas  acabaram refutadas pelos fatos: o conceito de Igreja como “pequeno mundo reconciliado”; a Cidade dos Homens só ganha valor diante de Deus passando pela mediação da Cidade de Deus; e o famoso “subsistit” que significa: só na Igreja Católica subsiste a  verdadeira Igreja de Cristo; todas as demais “igrejas’ não podem ser designadas igrejas. Esta compreensão estreita de uma inteligência aguda mas refém de si mesma, não tinha a força intrínseca suficiente e a adesão para ser implementada. Bento XVI teria reconhecido  o colapso e coerentemente renunciado?  Há razões para esta hipótese.
O Papa emérito teve em Santo Agostinho seu mestre e inspirarador, objeto aliás de algumas conversas pessoais com ele.  De Agostinho assumiu a perspectiva de base, começando com sua exdrúxula teoria do pecado original (se transmite pelo ato sexual da geração). Isso faz  com que  toda a humanidade seja uma “massa condenada”. Mas dentro dela, Deus por Cristo, instaurou uma célula salvadora, representada pela Igreja. Ela é “um pequeno mundo reconciliado” que tem a representação (Vertretung) do resto da humanidade perdida. Não é necessário que tenha muitos membros. Basta poucos, contanto que sejam puros e santos. Ratzinger incorporou esta visão. Completou-a com a seguinte reflexão: a Igreja é constituida por Cristo e os Doze Apóstolos. Por isso é apostólica. Ela é apenas este pequeno grupo. Desconsidera os discípulos, as mulheres e  as massas que seguiam Jesus. Para ele não contam. São atingidas pela representação (Vertretung) que “o pequeno mundo reconciliado” assume. Esse modelo eclesiológico não dá conta do vasto mundo globalizado. Quis então fazer da Europa “o mundo reconciliado” para reconquistar a humanidade. Fracassou porque o projeto não foi assumido por ninguém e até posto a ridículo.        
A segunda tese tirada também de Santo Agostinho é sua leitura da história: o confronto entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Na Cidade de Deus está a graça e a salvação: ela é o único pedágio que dá acesso à salvação. A Cidade dos Homens é construída pelo esforço humano. Mas como já é contaminado, todo o seu humanismo e demais valores,  não conseguem salvar porque porque não passaram pela mediação da Cidade de Deus (Igreja). Por isso que ela é eivada de relativismos. Consequentemente o Card. Ratzinger condena duramente a teologia da libertação porque esta buscava a libertação pelos pobres mesmos, feitos sujeitos autônomos de sua história. Mas como não se articula com a Cidade de Deus e sua célula, a Igreja,  é insuficiente e  vã.
A terceira é uma interpretação pessoal que dá do Concílio Vaticano II quando fala da Igreja de Cristo. A primeira elaboração conciliar dizia que a Igreja Católica é  a Igreja de Cristo. As discussões, visando o ecumenismo, substituíram o é pelo subsiste para dar lugar a que outras Igrejas cristãs, a seu modo, realizassem também a Igreja de Cristo. Essa interpretação sustentada na minha tese doutoral, mereceu uma explícita condenação do Card.Ratzinger no seu famoso documento Dominus Jesus (2000). Afirma que susbsiste vem de “subsistência” que só pode ser uma e se dá na Igreja Católica. As demais “igrejas” possuem “somente” elementos eclesiais. Esse “somente” é um acréscimo arbitrário que fez ao texto oficial do Concílio.  Tanto eu quanto outros notáveis teólogos mostramos que este sentido essencialista não existe no latim. O sentido é sempre concreto: “ganhar corpo”, “realizar-se objetivamente”. Esse era o “sensus Patrum” o sentido dos Padres conciliares.
Estas três teses centrais foram refutadas pelos fatos: dentro do “pequeno mundo reconciliado” há demasiados pedófilos até entre cardeais e ladrões de dinheiros do Banco Vaticano. A segunda, de que a Cidade dos Homens não tem densidade salvadora diante de Deus, labora num equívoco ao restringir a ação da Cidade de Deus apenas ao campo da Igreja. Dentro da Cidade dos Homens, se encontra também a Cidade de Deus, não sob a forma de consciência religiosa mas sob a forma de ética e de valores humanitários. O Concílio Vaticano II garantiu a autonomia das realidades terrestres (outro nome para secularaização) que tem valor independentemente da Igreja. Contam para Deus. A Cidade de Deus (Igreja) se realiza pela fé explícita, pela celebração e pelos sacramentos. A Cidade dos Homens pela ética e pela política.
A terceira de que somente a Igreja Católica é a única e exclusiva Igreja de Cristo e ainda mais, que fora dela não há salvação, tese medieval ressuscitada pelo Card. Ratzinger, foi simplesmente ignorada como ofensiva às demais Igrejas. Ao invés do “fora da Igreja não há salvação” se introduziu no discurso dos Papas e dos teólogos “o universal oferecimento da salvação a todos os seres humanos e ao mundo”.
Nutro a séria suspeita de que, tal fracasso e colapso de seu edifício teológico, lhe tirou “o necessário vigor do corpo e do espírito” a ponto de, como confessa “sentir incapacidade” de exercer seu ministério. Cativo de sua própria teologia, não lhe restou outra alternativa senão honestamente renunciar.

(Leonardo Boff)

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publicado às 15:52

Aos trinta anos, depois das loucuras que fez na adolescência e no início da idade adulta, quando teve um filho com uma amante, Agostinho converteu-se ao cristianismo e acabou tornando-se bispo de Hipona. É sabido que ele pediu a Deus para deixar de ter desejos sexuais, “mas não agora”, pois ainda apreciava muito os prazeres mundanos. Em um estágio mais avançado da vida, Agostinho escreveu muitos livros, incluindo Confissões, A cidade de Deus e quase mais cem outros, baseando-se fortemente na sabedoria de Platão, mas conferindo-lhe traços cristãos.
A maioria dos cristãos pensa que Deus tem poderes especiais: que ele ou ela é o supremo bem, sabe tudo e pode fazer tudo. Tudo isso faz parte da definição de “Deus”, que não seria Deus sem essas qualidades. Deus é descrito de formas semelhantes em muitas outras religiões, mas Agostinho só tinha interesse na perspectiva cristã.
Quem acredita nesse Deus terá ainda de admitir que existe muito sofrimento no mundo. Seria muito difícil negar isso. Parte desse sofrimento é o resultado do mal natural, como terremotos e doenças. Parte deve-se ao mal moral: o mal causado pelos seres humanos. Assassinato e tortura são dois exemplos claros do mal moral. Muito antes de Agostinho começar a escrever, o filósofo grego Epicuro reconheceu que isso apresenta um problema. Como poderia um Deus bom e todopoderoso tolerar o mal? Se Deus não pode impedir que isso aconteça, então não pode ser verdadeiramente todo-poderoso. Há limites no que ele pode fazer. Mas, se Deus é todo-poderoso e parece não querer deter o mal, como pode ser ele o supremo bem? Isso não parecia fazer sentido, e é algo que confunde muitas pessoas até hoje.
Agostinho concentrou-se no mal moral. Percebeu que a ideia de um Deus que sabe do acontecimento desse tipo de mal e não faz nada para evitá-lo é difícil de entender. Ele não se satisfazia com a ideia de que Deus age de maneira misteriosa, que está além da compreensão humana. Ele queria respostas.
Imagine um assassino prestes a matar sua vítima; ele está diante dela com uma faca afiada. Um ato verdadeiramente mau está prestes a acontecer. Contudo, sabemos que Deus é poderoso o suficiente para deter essa ação. Para isso, bastariam algumas alterações mínimas nos neurônios do pretenso assassino. Ou Deus poderia deixar todas as facas moles e borrachudas toda vez que alguém tentasse usá-las como arma mortal. Desse modo, as facas resvalariam na vítima, e ninguém ficaria ferido. Deus tem de saber o que está acontecendo, pois ele sabe absolutamente tudo. Nada lhe escapa. E tem de não desejar que o mal aconteça, pois isso faz parte do que significa ser o bem supremo. Mesmo assim, assassinos matam suas vítimas. Facas de aço não viram borracha. Não há nenhum lampejo de luz, nenhum trovão, a arma não cai milagrosamente da mão do assassino, nem o assassino muda de ideia no último minuto.
O que acontece, então? Este é o clássico problema do mal, o problema de explicar por que Deus permite tais acontecimentos. Presume-se que, se tudo vem de Deus, então o mal deve vir de Deus também. Em certo sentido, Deus deve ter desejado que isso acontecesse.
Quando era mais jovem, Agostinho tinha uma maneira de evitar a crença de que Deus queria que o mal acontecesse. Ele era maniqueísta. O maniqueísmo foi uma religião que surgiu na Pérsia (hoje, Irã). Os maniqueístas acreditavam que Deus não era onipotente. Ao contrário, havia uma luta eterna entre forças idênticas, o bem e o mal. Portanto, nessa visão, Deus e Satã estavam presos numa batalha contínua pelo controle. Os dois eram extremamente fortes, mas nenhum deles era poderoso o suficiente para destruir o outro. Em determinados lugares e determinados momentos, o mal se sobressaía, mas nunca durante muito tempo. A bondade acabaria retornando,  triunfante, mais uma vez. Isso explicava por que essas coisas terríveis aconteciam: o mal é proveniente das forças obscuras, e a bondade, das forças da luz. Os maniqueístas acreditavam que a bondade surgia dentro de nós, que ela vinha da alma. Já o mal vinha do corpo, com todos os seus pontos fracos, desejos e a tendência de nos levar para o mau caminho. Isso explicava por que as pessoas, às vezes, voltavam-se para as más ações. O problema do mal não era tão grande para os maniqueístas porque eles não aceitavam a ideia de que Deus fosse tão poderoso a ponto de controlar todos os aspectos da realidade. Se Deus não tinha poder sobre tudo, então, além de não ser responsável pela existência do mal, ninguém poderia culpá-lo por não conseguir evitar o mal. Os maniqueístas teriam explicado as ações do assassino como forças das trevas agindo dentro dele, levando-o na direção do mal. Essas forças seriam tão poderosas no indivíduo que as forças da luz não poderiam derrotá-las.
Em uma idade mais avançada, Agostinho rejeitou a abordagem maniqueísta. Ele não conseguia entender por que a luta entre o bem e o mal seria interminável. Por que Deus não vencia a batalha? Não era certo que as forças do bem eram mais fortes que as do mal? Por mais que os cristãos aceitassem a possível existência de forças do mal, elas nunca são tão grandes quanto a força de Deus. Mas se Deus era verdadeiramente todo-poderoso, como Agostinho passou a acreditar, os problemas do mal permaneceriam. Por que Deus permitia o mal? Por que havia tanto mal? A solução não é nada fácil. Agostinho pensou exaustivamente sobre esses problemas, e sua principal solução baseou-se na existência do livre-arbítrio: a capacidade humana de decidir o que fazer. Esse argumento costuma ser chamado de defesa do livre-arbítrio e trata-se de uma teodiceia – a tentativa de explicar e defender a ideia de como um Deus bom permitia o sofrimento.
Deus concede-nos o livre-arbítrio. Você pode escolher, por exemplo, se vai ou não ler a próxima frase. Esta é a sua escolha. Se não há ninguém forçando você a continuar lendo, então você é livre para parar. Agostinho considerava que ter livrearbítrio é bom, já que nos permite agir moralmente. Nós podemos decidir ser bons; para ele, isso significava seguir os mandamentos de Deus, principalmente os dez mandamentos, além do “amor ao próximo” pregado por Jesus Cristo. Porém, a consequência de termos livre-arbítrio é que podemos decidir fazer o mal. Podemos ser desencaminhados e praticar más ações, como mentir, roubar, ferir ou até matar as pessoas. Isso costuma acontecer quando nossas emoções subjugam a razão. Desenvolvemos fortes desejos por objetos e por dinheiro. Cedemos à luxúria e somos distanciados de Deus e seus mandamentos. Agostinho acreditava que o nosso lado racional deveria manter as paixões sob controle, visão que ele compartilhava com Platão. Os seres humanos, ao contrário dos animais, têm o poder da razão e deveriam usá-lo. Se Deus tivesse nos programado de modo a sempre escolhermos o bem sobre o mal, não causaríamos nenhum dano, mas também não seríamos livres e não poderíamos usar a razão para decidir o que fazer. Deus poderia ter-nos feito desse modo. Agostinho argumentava que foi muito melhor termos escolha. Do contrário, seríamos como marionetes nas mãos de Deus, que controlaria nossos fios para que sempre nos comportássemos bem. Não haveria sentido nenhum em pensar sobre como se comportar, pois sempre escolheríamos automaticamente a opção do bem.
Então, Deus é poderoso o suficiente para evitar todo o mal, mas a existência do mal não está diretamente ligada a Deus. O mal moral é resultado das nossas escolhas. Agostinho acreditava que ele também era parcialmente o resultado de escolhas de Adão e Eva. Assim como muitos cristãos daquela época, ele estava convencido de que as coisas deram terrivelmente errado no Jardim do Éden, tal como descrito no primeiro livro da Bíblia, o Gênesis. Quando Adão e Eva comeram o fruto da árvore do conhecimento e traíram a Deus, trouxeram o pecado para o mundo. Esse pecado, chamado de pecado original, não foi algo que afetou apenas suas próprias vidas. Agostinho afirmava que o pecado original era transmitido de geração a geração pelo ato da reprodução sexual. Até mesmo uma criança, em seus primeiros momentos de vida, carrega traços desse pecado. O pecado original nos torna mais propensos ao pecado.
Para muitos leitores de hoje, essa ideia de que devemos nos culpar e ser punidos por ações cometidas por outros é muito difícil de aceitar. Isso parece injusto. No entanto, a ideia de que o mal é resultado do nosso livre-arbítrio, e não diretamente de Deus, ainda convence muitos fiéis – ela permite que estes acreditem em um Deus onipotente, onipresente, que só faz o bem.
Boécio, um dos escritores mais conhecidos da Idade Média, acreditava nesse Deus, mas travou combate com uma outra questão sobre o livre-arbítrio: a questão de como podemos escolher fazer tudo se Deus já sabe o que vamos escolher.
 
(Nigel Warburton - "Uma breve história da filosofia")

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publicado às 01:49

"O velho Deus, todo “espírito”, todo grão-padre, todo perfeição, passeia pelo seu jardim: está entediado e tentando matar tempo. Contra o enfado até os Deuses lutam em vão. O que ele faz? Cria o homem – o homem é divertido... Mas então percebe que o homem também está entediado. A piedade de Deus para a única forma da aflição presente em todos os paraísos desconhece limites: então em seguida criou outros animais. Primeiro erro de Deus: para o homem esses animais não representavam diversão – ele buscava dominá-los; não queria ser um “animal”. – Então Deus criou a mulher. Com isso erradicou enfado – e muitas outras coisas também! A mulher foi o segundo erro de Deus. – “A mulher, por natureza, é uma serpente: Eva” – todo padre sabe disso; “da mulher vem todo o mal do mundo” – todo padre sabe disso também. Logo, igualmente cabe a ela a culpa pela ciência... Foi devido à mulher que o homem provou da árvore do conhecimento. – Que sucedeu? O velho Deus foi acometido por um pavor mortal. O próprio homem havia sido seu maior erro; criou para si um rival; a ciência torna os homens divinos – tudo se arruína para padres e deuses quando o homem torna-se científico! – Moral: a ciência é proibida per se; somente ela é proibida. A ciência é o primeiro dos pecados, o germe de todos os pecados, o pecado original. Toda a moral é apenas isto: “Tu não conhecerás” – o resto é deduz-se disso. – O pavor de Deus, entretanto, não o impediu de ser astuto. Como se proteger contra a ciência? Por longo tempo esse foi o problema capital. Resposta: expulsando o homem do paraíso! A felicidade e a ociosidade evocam o pensar – e todos pensamentos são maus pensamentos! – O homem não deve pensar. – Então o “padre” inventa a angústia, a morte, os perigos mortais do parto, toda a espécie de misérias, a decrepitude e, acima de tudo, a enfermidade – nada senão armas para alimentar a guerra contra a ciência! Os problemas não permitem que o homem pense... Apesar disso – que terrível! – o edifício do conhecimento começa a elevar-se, invadindo os céus, obscurecendo os Deuses – que fazer? – O velho Deus inventa a guerra; separa os povos; faz com que se destruam uns aos outros (– os padres sempre necessitaram de guerras...). Guerra – entre outras coisas, um grande estorvo à ciência! – Inacreditável! O conhecimento, a emancipação do domínio sacerdotal prosperam apesar da guerra! – Então o velho Deus chega à sua resolução final: “O homem tornou-se científico – não existe outra solução: ele precisa ser afogado”..."

(in "O Anticristo", Friedrich Nietzsche)

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publicado às 19:19

De acordo com os ensinamentos cristãos, o estado coletivo normal da humanidade é de "pecado original". A palavra "pecado" tem sido incompreendida ao longo dos séculos. Traduzida de forma literal do grego antigo, idioma em que o Novo Testamento foi escrito originalmente, ela significa errar o alvo, como na situação de um arqueiro que falha em atingir ponto de mira. Assim, pecar quer dizer errar o sentido da existência humana. Corresponde a viver de maneira desorientada, cega e, portanto, sofrer e causar sofrimento. Uma vez mais, essa palavra, despojada da sua bagagem cultural e de sentidos equivocados, indica o distúrbio inerente à condição humana.
As conquistas da civilização são admiráveis e inegáveis. Criamos obras sublimes de música, literatura, pintura, arqui-tetura e escultura. Mais recentemente, a ciência e a tecnologia estabeleceram mudanças radicais na maneira como vivemos e nos capacitaram a produzir inventos que teriam sido considerados miraculosos até mesmo 200 anos atrás. Não há dúvida: a mente humana possui um altíssimo grau de inteligência. Ainda assim, essa inteligência é tingida pela loucura. A ciência e a tecnologia aumentaram o impacto destrutivo que o distúrbio da mente humana tem sobre o planeta, sobre as outras formas de vida e sobre as próprias pessoas. Por isso é na história do século XX que essa disfunção, ou essa insanidade coletiva, pode ser reconhecida com mais nitidez. Um fator adicional é que essa perturbação está de fato se intensificando e se acelerando.
A Primeira Guerra Mundial eclodiu em 1914. Lutas destruidoras e cruéis, motivadas por medo, cobiça e desejo de poder, são ocorrências comuns em toda a história da nossa espécie, assim como foram a escravidão, a tortura e a violência disseminada infligidas por motivos religiosos e ideológicos. Os seres humanos sofreram mais nas mãos uns dos outros do que em decorrência de desastres naturais. Em 1914, a mente humana altamente inteligente inventou não só o motor de combustão interna como também bombas, metralhadoras, submarinos, lança-chamas e gases venenosos. A inteligência a serviço da loucura! Nas trincheiras estáticas da guerra na França e na Bélgica, milhões de homens pereceram para ganhar alguns poucos quilômetros de lama. No fim do conflito, em 1918, os sobreviventes observaram horrorizados e incrédulos o saldo da devastação: 10 milhões de pessoas mortas e muitas mais mutiladas ou desfiguradas. Nunca antes a loucura humana tivera conseqüências tão devastadoras e deixara efeitos tão evidentes. Mal sabiam eles que aquilo era apenas o começo.
No fim do século XX, o número de pessoas mortas violentamente pela mão de outras chegou a mais de 100 milhões. Essas mortes foram causadas não apenas por guerras entre países, mas também pelo extermínio em massa e o genocídio, como a execução de 20 milhões de "inimigos de classe, espiões e traidores" na União Soviética, durante o governo de Stalin, e o Holocausto na Alemanha nazista, que deixou um registro de horrores indescritíveis. Além disso, muitos morreram em incontáveis conflitos mais restritos, como a guerra civil espanhola e o massacre de 1/4 da população do Camboja durante o regime do Khmer Vermelho.
Basta assistirmos ao noticiário para ver que a loucura não arrefeceu, ela continua no século XXI. Um dos aspectos do distúrbio coletivo da mente humana é a violência sem prece-dentes que estamos infligindo a outras formas de vida e ao próprio planeta - a destruição de florestas, que produzem oxigênio, e de outros seres vegetais e animais; os maustratos aplicados a animais em propriedades rurais voltadas à produção comercial; e o envenenamento de rios e oceanos e do ar. Motivados pela cobiça, ignorantes da nossa interdependência do conjunto como um todo, persistimos num comportamento que, se continuar indiscriminadamente, resultará na nossa própria destruição.
As manifestações coletivas de insanidade que se encontram na essência da condição humana constituem a maior parte da historia da nossa espécie. E, em grande medida, essa historia é de loucura. Se ela fosse o relato do caso clínico de urna única pessoa, o diagnóstico seria: ilusões paranoicas crônicas, propensão patológica para cometer assassinato e atos de extrema violência e crueldade contra "inimigos" imaginados - sua própria consciência projetada exteriormente. Uma insanidade criminosa com breves intervalos de lucidez.
Medo, cobiça e desejo de poder são as forças motivadoras psicológicas que estão por trás não só dos conflitos armados e da violência envolvendo países, tribos, religiões e ideologias, mas também do desentendimento incessante nos relacionamentos pessoais. Elas produzem uma distorção na percepção que temos dos outros e de nós mesmos. Por meio delas, interpretamos erroneamente todas as situações, o que nos leva a adotar uma ação equivocada para nos livrarmos do medo e satisfazermos nossa necessidade interior de alcançar mais, um poço sem fundo que nunca pode ser preenchido.
É importante que você compreenda, porém, que o medo, a cobiça e o desejo de poder não são o distúrbio de que estou falando, embora sejam criados por essa disfunção, que é uma ilusão coletiva profundamente arraigada na mente de todo ser humano. Numerosos ensinamentos espirituais nos dizem para abandonar o medo e o desejo. Mas, em geral, esses métodos espirituais não atingem seu objetivo. Não chegam à verdadeira causa do distúrbio. Medo, cobiça e desejo de poder não são os fatores causais supremos. Tentar ser uma pessoa boa ou melhor parece algo recomendável e evoluído a fazer; ainda assim, não é um empreendimento que alguém consiga realizar com total sucesso, a não ser que ocorra uma mudança em sua consciência. Isso acontece como parte da mesma disfunção, uma forma mais sutil e rarefeita de destaque pessoal, do desejo por mais e do fortalecimento da identidade conceituai do indivíduo, da sua imagem. Ninguém se torna bom tentando ser bom, e sim encontrando a bondade que já existe dentro de si mesmo e permitindo que ela sobressaia. No entanto, essa qualidade só se distingue quando algo fundamental muda no estado de consciência da pessoa.
A história do comunismo, inspirado originalmente por ideais nobres, ilustra com clareza o que acontece quando as pessoas tentam alterar a realidade externa - no caso, criar um novo mundo - sem realizar nenhuma modificação prévia essencial na sua realidade interior, no seu estado de consciência. Elas fazem planos sem levar em conta o "modelo" de distúrbio que todo ser humano traz dentro de si: o ego.

(ECKHART TOLLE - "O Despertar de uma Nova Consciência")

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publicado às 09:37

O relato bíblico sobre a origem humana possui duas versões diferentes no livro da Gênese. Numa delas, Deus criou o mundo em seis dias, descansando no sétimo. Os humanos foram criados no sexto dia, coroando a obra da Criação. É dito que Deus criou os humanos ”à sua imagem e semelhança”, abençoou-os e lhes disse: ”Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a”. Nesse relato, nada sugere nem prepara o pecado original, pois se este estiver relacionado com a descoberta do sexo, o relato narra que Deus fez os humanos fecundos e, portanto, abençoou a sexualidade; e se o pecado for o desejo de dominar o mundo, também não aparece no relato, visto que Deus disse aos humanos que submetessem a terra e tudo que nela existe, dando-lhes poder. Os que redigiram esse relato, ao que consta, segundo os estudos bíblicos, também redigiram a narrativa do Dilúvio e a iniciam dizendo que Deus olhou a terra e a viu toda pervertida, sem que houvesse explicação para o fato. Tanto assim que, desgostoso, prepara-se para destruir sua obra, só não o fazendo integralmente em decorrência dos rogos de Noé. Curiosamente, as perversidades e perversões vistas por Deus são todas sexuais.
Em contrapartida, o segundo relato, feito no mesmo livro, mas, ao que parece, escrito por autores que possuíam uma perspectiva messiânica, isto é, de que o povo de Deus, ainda que perdendo o rumo certo, seria salvo pelo Enviado Divino (Messias), está centrado no advento do pecado original. É o relato mais conhecido: Deus faz o primeiro homem (Adão) modelando-o no barro, faz a primeira mulher (Eva) retirando uma costela do homem, oferece-lhes o jardim do Éden para que dele vivessem, dá-lhes o direito de comer o fruto da árvore da vida (da imortalidade) e os proíbe de comer o fruto da árvore do bem e do mal (prova da inocência originária, pois inocente (não ciente) é aquele que desconhece o bem e o mal, sendo naturalmente bom).

Tanto assim, narra o autor bíblico, que estavam nus e não se envergonhavam. Adão e Eva são sexuados, pois Adão afirma não haver maior alegria e delícia do que homem e mulher se tornarem ”uma só carne”. Afirmação que será transformada num dos mais belos trechos do poema Paraíso Perdido, escrito pelo poeta inglês Milton.
A questão que os dois relatos bíblicos nos deixam é a seguinte: se Deus fez os humanos sexuados, se o prazer sexual existe no Paraíso como uma de suas delícias (talvez a maior), como entender a condenação do sexo pelo cristianismo? Para tentar respondê-la, examinemos o pecado original.
O pecado original possui duas faces: é o deixar-se seduzir (tentação) pela promessa de bens maiores do que os possuídos (como se houvesse alguém mais potente do que Deus para distribuí-los) e é transgressão de um interdito concernente ao conhecimento do bem e do mal. Seu primeiro efeito: a descoberta da nudez e o sentimento da vergonha, de um lado, e o medo do castigo, de outro. Seu segundo efeito: a perda do Paraíso.


(Marilena Chaui – “Repressão Sexual”)

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publicado às 07:44


...

por Thynus, em 11.12.12

Na Gênese bíblica, o mito da origem combina a idéia de origem divina com a de origem autóctone, pois Deus, que criara todas as coisas apenas pela Palavra (”Faça-se”), no caso dos humanos, modelou no barro o primeiro homem (e, no momento da condenação lhe dirá: ”Tu és pó e ao pó retornarás”). A deformidade aparece, então, visto haver um elemento de autoctonia: a perda de uma costela. E também aparece um monstro ctônico: a serpente que rasteja. A diferença sexual também é enfrentada: olhando os animais, Deus decide dar ao homem uma companheira, porém como até essemomento estamos no reino da Natureza, lemos: ”Esta sim é osso de meus ossos e carne da minha carne!”, portanto o mesmo vem do mesmo. ”Ela será chamada mulher (em hebraico, mulher = ishshà) porque foi tirada do homem (em hebraico, homem = ish)”, a diferença sexual sendo obtida por uma extração do corpo feminino do interior do corpo masculino, sem procriação. Também encontramos a supervalorização do parentesco: ”Sede fecundos, multiplicai-vos e cobri a terra”; e a superdesvalorização: Caim mata Abel. E, por fim, aparece a lei do incesto quando Deus, olhando a terra povoada, viu ”que estava toda pervertida porque toda carne tinha uma conduta perversa” e enviou a purificação: o Dilúvio e a distribuição dos seres na Arca por casais.
O advento da Cultura aparece em dois momentos de ruptura: na expulsão do Paraíso e no Dilúvio.
A expulsão do Paraíso é a saída do estado natural de inocência, ocorrendo no momento em que, tendo pecado, os humanos ”perceberam que estavam nus e se envergonharam, cobrindo-se com folhas de figueira”, isto é, percebem a diferença sexual e a diferença entre seus corpos e os dos animais, donde o sentimento cultural da vergonha, pois, como escreveu o filósofo Merleau-Ponty, os humanos não se cobrem porque tenham medo das intempéries e do frio, mas porque sabem que estão nus. A ruptura se consumacom a condenação divina: o homem deve trabalhar a terra estéril para obter frutos e a mulher deve passar pela dor no trabalho do parto. Duplo cultivo, cultura.
O Dilúvio decorre da queda dos humanos pelo retorno a uma naturalização, impossível após o pecado original: poligamia, sodomia, fratricídio e incesto. Mas a Arca é reposição da ordem cultural: não só é produto de cálculos e de trabalho] mas em seu interior estarão casais de animais (que posteriormente praticarão ”incesto”, pois são animais) e a família de Noé, esposa, filhos e noras. E sua descendência será abençoada, quando nos céus aparecer o arco da aliança.


(Marilena Chaui – “Repressão Sexual”)

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publicado às 23:53


Sexo e morte no cristianismo

por Thynus, em 11.12.12

Que é perder o Paraíso? Tornar-se mortal, separar-se de Deus e conhecer a dor (lavrar a terra estéril, parir no sofrimento). O pecado original (tanto no sentido de primeiro pecado quanto no de pecado da origem) é uma queda: separarse de Deus, descobrir a morte e a dor, conhecer a carência e a falta. É nessa constelação de sentidos que se desenvolverá a meditação dos primeiros Padres da Igreja sobre o sexo.
A queda, o distanciar-se para sempre de Deus, é o sentimento de um rebaixamento real e do qual a descoberta do sexo como vergonha e dor futura é o momento privilegiado. Com ele, os humanos descobrem o que é possuir corpo. Corporeidade significa carência (necessidade de outra coisa para ”sobreviver), desejo (necessidade de outrem para viver), limite (percepção de obstáculos) e mortalidade (pois nascer significa que não se é eterno, é ter começo e fim). O pecado original é originário porque descobre a essência dos humanos: somos seres finitos. A finitude é a queda.
Separar-se de Deus é descobrir os efeitos de não possuir atributos divinos: eternidade, infinitude, incorporeidade, auto-suficiência e plenitude. Ora, pelo sexo, os humanos não somente reafirmam sem cessar que são corpóreos e carentes, mas também não cessam de reproduzir seres finitos. O sexo é o mal porque é a perpetuação da finitude. Nele, está inscrita a morte como diria, séculos mais tarde, Freud. Ou o poeta, respondendo à pergunta: o que é o homem? com a resposta: ”cadáver adiado que procria”.
Os primeiros cristãos, julgando que a morte e ressurreição de Cristo eram sinais de que logo viria o Juízo final e a imortalidade seria reconquistada, graças à Redenção, consideraram desnecessárias as relações sexuais, pois já não havia por que nem para que perpetuar a espécie humana, inúmeras seitas proibindo o sexo. Essa idéia ressurgiu com a aproximação do ano 1.000, o primeiro milênio; reapareceu na grande crise do Papado e do Sacro Império Romano-Germano, no século XIII, quando muitos esperavam a vinda do AntiCristo; e parece estar recomeçando em vários lugares agora, com a aproximação do segundo milênio, o ano 2.000.
A vinculação do sexo com a morte e, conseqüentemente, do sexo com a procriação, faz com que na religião cristã a sexualidade se restrinja à função reprodutora. Embora o sexo esteja essencialmente atado ao pecado, todas as atividades sexuais que não tenham finalidade procriadora são consideradas ainda mais pecaminosas, colocadas sob a categoria da concupiscência e da luxúria e como pecados mortais. Além disso, como o sexo é função vital de um ser decaído, quanto menor a necessidade sexual sentida, tanto menos decaído alguém se torna, purificando-se cada vez mais. Donde toda uma pedagogia cristã que incentiva e estimula a prática da continência (moderação) e da abstinência (supressão) sexuais, graças a disciplinas corporais e espirituais, de tal modo que a elevação espiritual traz como conseqüência o abaixamento da intensidade do desejo e, conforme à mesma mecânica, a elevação da intensidade do desejo sexual traz o abaixamento espiritual.


(Marilena Chaui – “Repressão Sexual”) 

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publicado às 18:59



"A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse a mulher: É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?”
A mulher respondeu-lhe: Podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis d
ele, nem o tocareis, para que não morrais.”

“Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis! Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.”
A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente." (Gén,3,1-6)


Normalmente atribui-se a culpa do primeiro pecado a Eva, mas mesmo entre os cristãos nunca houve unanimidade sobre quem foi o culpado do pecado original. Os cristãos cátaros colocavam "a culpa do pecado original (a "transgressão") em parte na mulher, mas principalmente no demônio; os cristãos, ao contrário, descarregaram todas as acusações sobre o odiado sexo frágil. Durante a Idade Média, essa crença misógina foi em parte minimamente modificada. Santo Ambrósio, no De Paraíso, sustentava que Eva não tinha excessivamente culpa no pecado original (em virtude do qual a sociedade cristã, sexofóbica e machista, tem sempre culpado o outro sexo): "Deus disse: não tocareis no fruto proibido. Foi Adão quem recebeu a ordem de Deus, não Eva; a mulher, na verdade, não tinha sido criada ainda". Isso não impede que, em pleno Renascimento, "sábios" inquisidores acusassem a mulher de ser a causa e receptáculo de toda maldade; os caçadores de bruxas Jakob Sprenger e Heinrich Kramer "Institoris" chegaram até a falsificar a língua latina afirmando que o termo "foemina", fêmea, viesse de "fé minus", fé menor (do que o homem). Hoje sabemos que o pecado original não envolveu somente um casal (até os cátaros salientavam a presença de mais "corpos de barro"), mas mais pessoas; que a mulher não teve nenhuma culpa e que o mito da "queda" envolveu apenas algumas figuras vindas dos céus (na verdade, do espaço e, portanto, os astronautas) que "corromperam" as mulheres da Terra ensinando a elas, dizem os textos rabínicos, "como criar mundos". Em outras palavras, o "pecado original" foi a descoberta da ciência, diante de uma santa ignorância imposta pelos nossos criadores e patrões! E
sempre se soube que, na ignorância, se domina melhor o homem..." ("Os Códigos Poibidos", Alfredo Lissom)

A maçonaria sustenta uma leitura semelhante:
... "se feita uma rápida análise da fábula do Jardim do Eden poderá se inferir que "a aceitação do fruto proibido", contrariamente ao que se convencionou chamar de a gênese do pecado original, em realidade, resultou em uma grande conquista do homem: a conquista da inteligência, da mente, do poder de discernimento, da razão e do livre-arbítrio (a liberdade de escolha). Portanto, o Espírito Santo ou Lúcifer é, também, o próprio homem, em si mesmo!
A serpente, que representa a luz da inteligência, a mente e a razão (o Logos; Lúcifer) e que sempre é utilizada como símbolo da eterna sabedoria, oferece a Adão (o homem virginal, sem vontade própria) o fruto da árvore do conhecimento: "Aprendendo a diferença entre o bem e o mal (a dualidade), sereis como deuses", disse a serpente.
Ao aceitar a oferta (tentado por Eva; o desejo; a emoção), Adão (a mente; a razão) é, então, juntamente com sua contraparte, vestido com peles de animais (corpo físico) e expulso do Paraíso (porque pensou por si mesmo, contrariando assim, a vontade de Deus).
Vale lembrar que tão logo tomou consciência de sua nova situação, Adão e sua contraparte Eva, envergonharam-se por estar nus, e cobriram seus órgãos genitais com folhas de figueira (numa demonstração da perda da pureza original).
Dessa forma o homem, "caindo no abismo" (o mundo inferior), inicia a sua jornada evolutiva nas esferas da dualidade (a árvore do conhecimento ou árvore da vida). ("Regnum", Carlos A. Gonçalves)
"A serpente do Gênesis chamada Nahash significa “a vida universal quando está em círculo”. A luz astral é o agente mágico dessa vida universal. Tem também outro sentido, mais profundo: Nahash é a força que põe esta vida em movimento, a atração do corpo para outro corpo. Os gregos a chamavam Eros, isto é, Amor ou Desejo.
Desse modo, o pecado original se transforma na vasta espiral da natureza divina, universal, com seus reinos, seus gêneros e suas espécies, no círculo formidável e inevitável da vida. Logo, a queda simbólica era uma lei necessária para a evolução infinita do Universo... ("Do Sexo à Divindade", J. Adoum)

Muito pertinentre e acutilante é a visão do filósofo F. Nietzhe:
“O velho Deus, todo “espírito”, todo grão-padre, todo perfeição, passeia pelo seu jardim: está entediado e tentando matar tempo. Contra o enfado até os Deuses lutam em vão (Paráfrase de Schiller, “Contra a estupidez até os Deuses lutam em vão.”). O que ele faz? Cria o homem – o homem é divertido... Mas então percebe que o homem também está entediado. A piedade de Deus para a única forma da aflição presente em todos os paraísos desconhece limites: então em seguida criou outros animais. Primeiro erro de Deus: para o homem esses animais não representavam diversão – ele buscava dominá-los; não queria ser um “animal”. – Então Deus criou a mulher. Com isso erradicou enfado – e muitas outras coisas também! A mulher foi o segundo erro de Deus. – “A mulher, por natureza, é uma serpente: Eva” – todo padre sabe disso; “da mulher vem todo o mal do mundo” – todo padre sabe disso também. Logo, igualmente cabe a ela a culpa pela ciência... Foi devido à mulher que o homem provou da árvore do conhecimento. – Que sucedeu? O velho Deus foi acometido por um pavor mortal. O próprio homem havia sido seu maior erro; criou para si um rival; a ciência torna os homens divinos – tudo se arruína para padres e deuses quando o homem torna-se científico! – Moral: a ciência é proibida per se; somente ela é proibida. A ciência é o primeiro dos pecados, o germe de todos os pecados, o pecado original. Toda a moral é apenas isto: “Tu não conhecerás” – o resto é deduz-se disso. – O pavor de Deus, entretanto, não o impediu de ser astuto. Como se proteger contra a ciência? Por longo tempo esse foi o problema capital. Resposta: expulsando o homem do paraíso! A felicidade e a ociosidade evocam o pensar – e todos pensamentos são maus pensamentos! – O homem não deve pensar. – Então o “padre” inventa a angústia, a morte, os perigos mortais do parto, toda a espécie de misérias, a decrepitude e, acima de tudo, a enfermidade – nada senão armas para alimentar a guerra contra a ciência! Os problemas não permitem que o homem pense... Apesar disso – que terrível! – o edifício do conhecimento começa a elevar-se, invadindo os céus, obscurecendo os Deuses – que fazer? – O velho Deus inventa a guerra; separa os povos; faz com que se destruam uns aos outros (– os padres sempre necessitaram de guerras...). Guerra – entre outras coisas, um grande estorvo à ciência! – Inacreditável! O conhecimento, a emancipação do domínio sacerdotal prosperam apesar da guerra! – Então o velho Deus chega à sua resolução final: “O homem tornou-se científico – não existe outra solução: ele precisa ser afogado”...
...O padre deprecia e profana a natureza: esse é o preço para que possa existir. – A desobediência a Deus, ou seja, a desobediência ao padre, à lei, agora porta o nome de “pecado”; os meios prescritos para a “reconciliação com Deus” são, é claro, precisamente os que induzem mais eficientemente um indivíduo a sujeitar-se ao padre; apenas ele “salva”. Considerados psicologicamente, os “pecados” são indispensáveis em toda sociedade organizada sobre fundamentos eclesiásticos; são os únicos instrumentos confiáveis de poder; o padre vive do pecado; tem necessidade de que existam “pecadores”... Axioma Supremo: “Deus perdoa a todo aquele que faz penitência” – ou, em outras palavras, a todo aquele que se submete ao padre.” (“O Anti cristo”, F. Nietzche)

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publicado às 14:10


O ILUMINISMO forneceu boa parte do fermento intelectual de eventos políticos que se revelariam de extrema importância para a constituição do mundo moderno, tais como a Revolução Francesa, a Constituição polaca de 1791, a Revolução Dezembrista na Rússia em 1825, o movimento de independência na Grécia e nos Balcãs, bem como, naturalmente, os di
versos movimentos de emancipação nacional ocorridos no continente americano a partir de 1776.


Muitos autores associam ao ideário iluminista o surgimento das principais correntes de pensamento que caracterizariam o século XIX, a saber, liberalismo, socialismo, e social-democracia.

“Pois bem, onde fica o iluminismo? A estratégia iluminista, penso, é o avesso radical do ideal estóico. Em vez de buscar a libertação da tirania dos desejos sobre o espírito dos homens, tratava-se de libertar os desejos, ou seja, insuflar e dar livre curso a certos impulsos e fantasias dos homens, especialmente no campo das aspirações de ganho monetário e consumo material, e de transformar o mundo para garantir a sua máxima satisfação. O ideal iluminista reflete, em suma, uma barganha faustiana — vender a alma ao demônio em troca de poder sobre o mundo. Ele representa uma aposta monumental na conquista da felicidade pela crescente, violenta e sistemática subjugação do mundo natural aos propósitos e caprichos humanos. A palavra de ordem é dominar a natureza. “No princípio era a ação.”
... Foi na filosofia renascentista de Bacon e Giordano Bruno que surgiu esta idéia terrível de que torturando e bulindo experimentalmente com a natureza nós conseguiríamos arrancar dela os seus segredos; de que ao possuí-la e subjugá-la nós poderíamos vencer a escassez e submeter o mundo aos nossos desígnios e vontades; e de que desse modo poderíamos recriar pelo engenho e sagacidade um novo “jardim das delícias”, um paraíso tecnológico de turbinas, robôs, viagras e disneylândias no qual “o homem se faria a si próprio um deus sobre a Terra” (Bruno). As sementes plantadas no renascimento vingaram e medraram nesta ejaculação vulcânica da libido dominandi que foi o iluminismo europeu. A colheita, porém, não deu os frutos pretendidos.
O erro capital do projeto iluminista foi dar uma ênfase desmesurada à transformação e à conquista do mundo objetivo em detrimento de uma atenção maior à questão dos desejos e ao lado contemplativo da realização humana. Não se trata, é claro, de ir para o tudo ou nada. Não estou defendendo um estoicismo ou budismo universais. Mas se o quietismo fatalista dos estóicos e orientais tem sérias deficiências na vida prática, o voluntarismo faustiano que herdamos do projeto iluminista — e que a globalização está espalhando pelo mundo com a ferocidade de uma praga — deixa muito a desejar, para dizer o mínimo, no plano espiritual.
E na verdade, pensando bem, nem só nele. Vejam no que deu brincar de aprendiz de feiticeiro na manipulação do meio ambiente e no consumo pantagruélico de recursos naturais. A ameaça de uma catástrofe ecológica não deixa de ser um espantoso paradoxo desta civilização que fez da racionalidade e do progresso os seus grandes princípios unificadores. O que era para ser a salvação secular do homem, a reparação dos males oriundos do pecado original, acabou se tornando uma ameaça concreta de extinção biológica da espécie. E tudo isso em nome do quê? Da felicidade geral? O resultado aí está: “Especialistas sem espírito, sensualistas sem coração — e esta nulidade se considera, ainda por cima, o supra-sumo da civilização”. Vivemos em meio a um aterrador crepúsculo espiritual.” (Eduardo Gianetti, in “Felicidade”)

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publicado às 17:19


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