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O Papa Francisco, um novo João XXIII

por Thynus, em 16.06.13

 


1. Quando naquele dia 28 de Outubro de 1958 Angelo Giuseppe Roncalli foi eleito papa, escolhendo o nome de João XXIII, pensou-se que, atendendo à idade, seria um papa de transição. Rapidamente, porém, os mais atentos se aperceberam de que ele chegara para renovar a Igreja. Concretamente, convocando o Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos decisivos na história do século XX - houve quem o considerasse até o acontecimento mais importante do século -, operou uma verdadeira revolução na Igreja Católica, com consequências fundamentais para o mundo inteiro.
Era um homem bom, generoso, simples, cristão. Próximo das pessoas - na noite da abertura do Concílio Vaticano II, em 11 de Outubro de 1962, observou que até à Lua o acontecimento não passara indiferente e saudou a todos, solicitando que fôssemos bons uns para com os outros e pedindo aos pais que levassem um beijo do papa para os filhos -, era ao mesmo tempo um conhecedor do mundo: a carreira diplomática levou-o, em tempos conturbados, à Bulgária, Grécia, Turquia e França.
Na inauguração do Concílio, tinha dito que "devemos discordar dos profetas de desgraças, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo". A Igreja, que quer servir a humanidade com a luz de Cristo e aprender a discernir "os sinais dos tempos", "prefere nos nossos dias usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que condenando erros".
Seis meses depois dessa abertura e quando já se encontrava gravemente doente, publicou, com a data de 11 de Abril de 1963, a encíclica Pacem in Terris, considerada por alguns como a mais importante da história, com imenso eco na opinião pública mundial. Nela, proclama-se a exigência da paz, fundamentada no reconhecimento da dignidade inviolável e dos direitos inalienáveis de todos os seres humanos.
Pelo seu sorriso, bondade, humildade, simpatia, capacidade de renovação a favor da liberdade, verdade e dignidade, ficou conhecido como o "Papa bom". Morreu no dia 3 de Junho de 1963 - neste ano de 2013 celebra-se o cinquentenário da sua morte e da publicação da Pacem in Terris - e foi chorado por todos, crentes e não crentes, políticos e intelectuais de várias ideologias e gente do povo.
2. Quando no passado dia 13 de Março o Papa Francisco apareceu à multidão, simples, quase tímido, inclinando-se e pedindo a bênção e a oração dos fiéis, muitos pensaram que podia vir aí um novo João XXIII. E não têm faltado sinais a confirmar a intuição. Ficou na Casa de Santa Marta, evitando os apartamentos pontifícios; não se esquece dos pobres; anuncia sem cessar o amor, a misericórdia e o perdão de Deus; quer a transparência na Igreja; critica o carreirismo eclesiástico; beija as crianças e os deficientes; recebe sem pompa e senta-se no meio do povo, depois de celebrar a Missa; lavou os pés a mulheres, incluindo uma muçulmana... Pela simplicidade, cordialidade, serviço, Francisco conquistou a simpatia de todos, crentes e não crentes. O Evangelho avança como notícia boa e felicitante.
Mas a Igreja, uma estrutura complexa, também precisa, e urgentemente, de reformas. E Francisco está na disposição de implementá-las, apesar das dificuldades. Os media fizeram-se eco da notícia em todo o mundo. "Reflexión y Liberación", esclareceu entretanto que as declarações atribuídas ao Papa podem não ser completamente textuais, mas exprimem "o seu sentido geral". Numa conversa cordial com a Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos (CLAR), Francisco disse o que já se sabia, mas agora é dito por ele: "Na Cúria há gente santa, mas também uma corrente de corrupção. Fala-se do lóbi gay, e é verdade: está aí." E advertiu contra certos grupos restauracionistas. "A reforma da Cúria romana é algo que quase todos os cardeais pedimos, nas congregações que precederam o conclave. Eu também a pedi. A reforma não posso fazê-la eu." Mas confia na comissão de oito cardeais de todo o mundo, nomeada por ele: "Vão levá-la por diante."

(Anselmo Borges)

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publicado às 01:54

 

A reforma da Cúria romana, defendida por "quase todos os cardeais" nas reuniões preparatórias do último conclave, é um projeto "difícil", admite o Papa Francisco.

"Na Cúria há pessoas santas, verdadeiramente, mas também há uma corrente de corrupção", adnite o Papa Francisco
 
O Papa reconheceu a dificuldade da reforma da Cúria romana ao referir-se a uma "corrente de corrupção" e à existência de um "lóbi gay" durante um encontro com religiosos latino-americanos, noticia hoje a agência I.Media. 
A reforma da Cúria, o Governo da Igreja católica, defendida por "quase todos os cardeais" nas reuniões preparatórias do último conclave, é um projeto "difícil", reconheceu o Papa numa reunião, mantida a 6 de junho, com responsáveis da Confederação latino-americana e das Caraíbas dos religiosos e religiosas (CLAR). 
Segundo uma síntese do que foi discutido nesse encontro de quase uma hora, hoje revelada pelo site católico progressista Reflexão e Libertação, o Papa acrescentou: "Na Cúria há pessoas santas, verdadeiramente, mas também há uma corrente de corrupção".  
"Fala-se de lóbi gay e é verdade, ele existe", reconheceu ainda. "Não posso fazer eu a reforma", continuou o chefe da Igreja Católica, que se confessou "desorganizado".  
Esse será o trabalho da comissão de oito cardeais que o Papa nomeou e que deverá reunir-se pela primeira vez oficialmente em Roma no mês de outubro, acrescentou. 
O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que a audiência era privada e, portanto, não faria comentários.
As primeiras notícias sobre um suposto lobby gay apareceram na revista italiana "Panorama" e no diário romano "La Repubblica", pouco após o anúncio da renúncia do papa Bento 16. Os relatos, sem fontes declaradas, afirmavam que um grupo engajado em atividades homossexuais na Cúria deixavam a instituição sujeita a chantagem.
Na época, o Vaticano considerou os relatos como difamatórios, "não aferidos, não aferíveis ou completamente falsos".
O relato da reunião foi publicado nesta terça pelo veículo chileno "Reflexión y Liberación", que tem orientação progressista.
(Folha de S. Paulo)

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publicado às 14:47

HANS KÜNG é seguramente um dos maiores teólogos católicos e de toda a cristandade. Escreveu dezenas de livros sobre os mais diversos temas da teologia e da filosofia. Foi colega de Joeph Ratzinger na Universidade de Tübingen, na Alemanha. Questionou o uso indevido que se fazia da infalibilidade do Papa e foi condenado pela Congregação da Doutrina da Fé. Tiraram-lhe o título de teólogo católico mas continuou na Universidade lecionando temas ligados à mundialização, à etica global, ao ecumenismo e ao estudo das religiões. Escreveu livros fundamentais sobre o islamismo e o judaismo. Criou um Instituto sobre Ethos Mundial, onde se fazem minuciosos estudos sobre  economia,  globalização, ecologia  e  ética Durante anos trabalhamos juntos na revista internacional Concilium da qual, por 20 anos, fui responsável por sua edição em portugues. Companheiros de destino e de tribulação, nos tornamos velhos amigos com intercâmbio frequente de correspondência. O artigo que agora publicamos dele vai na linha daqueles que eu escrevi nesse blog. Vale a pena ler esse texto, extremamente bem fundado historicamente, cheio de esperança e, ao memo tempo, com grande senso de realismo, sabendo como correm as coisas dentro da Igreja Católica. O Papa Francisco pode representar o melhor que podemos ter na Igreja, na esteira do espírito de Francisco de Assis. Não lhe é permitido fracassar. Todos devemos secundá-lo. Caso contrário a Igreja Católica corre risco de se tarnsformar numa grande seita ocidental, cada vez mais acidental. Isso não pode acontecer, pois se romperia a Tradição de Jesus e de seu sonho de uma humanidde de libertos que descobriram através da experiência do Nazareno que todos somos filhos e filhas de Deus no Filho e por issso todos irmãos e irmãs uns dos outros. 
(LBoff)

 

 

¿Quién lo iba a pensar? Cuando tomé la pronta decisión de renunciar a mis cargos honoríficos en mi 85º cumpleaños, supuse que el sueño que llevaba albergando durante décadas de volver a presenciar un cambio profundo en nuestra Iglesia como con Juan XXIII nunca llegaría a cumplirse en lo que me quedaba de vida.

 

Y, mira por dónde, he visto cómo mi antiguo compañero teológico Joseph Ratzinger —ambos tenemos ahora 85 años— dimitía de pronto de su cargo papal, y precisamente el 19 de marzo de 2013, el día de su santo y mi cumpleaños, pasó a ocupar su puesto un nuevo Papa con el sorprendente nombre de Francisco.

 

¿Habrá reflexionado Jorge Mario Bergoglio acerca de por qué ningún papa se había atrevido hasta ahora a elegir el nombre de Francisco? En cualquier caso, el argentino era consciente de que con el nombre de Francisco se estaba vinculando con Francisco de Asís, el universalmente conocido disidente del siglo XIII, el otrora vivaracho y mundano vástago de un rico comerciante textil de Asís que, a la edad de 24 años, renunció a su familia, a la riqueza y a su carrera e incluso devolvió a su padre sus lujosos ropajes.

 

Resulta sorprendente que el papa Francisco haya optado por un nuevo estilo desde el momento en el que asumió el cargo: a diferencia de su predecesor, no quiso ni la mitra con oro y piedras preciosas, ni la muceta púrpura orlada con armiño, ni los zapatos y el sombrero rojos a medida ni el pomposo trono con la tiara. Igual de sorprendente resulta que el nuevo Papa rehúya conscientemente los gestos patéticos y la retórica pretenciosa y que hable en la lengua del pueblo, tal y como pueden practicar su profesión los predicadores laicos, prohibidos por los papas tanto por aquel entonces como actualmente. Y, por último, resulta sorprendente que el nuevo Papa haga hincapié en su humanidad: solicita el ruego del pueblo antes de que él mismo lo bendiga; paga la cuenta de su hotel como cualquier persona; confraterniza con los cardenales en el autobús, en la residencia común, en su despedida oficial; y lava los pies a jóvenes reclusos (también a mujeres, e incluso a una musulmana). Es un Papa que demuestra que, como ser humano, tiene los pies en la tierra.

 

El pontífice no quiso ni la mitra con oro, ni los zapatos, ni el pomposo trono con la tiara Todo eso habría alegrado a Francisco de Asís y es lo contrario de lo que representaba en su época el papa Inocencio III (1198-1216). En 1209, Francisco fue a visitar al papa a Roma junto con 11 hermanos menores (fratres minores) para presentarle sus escuetas normas compuestas únicamente de citas de la Biblia y recibir la aprobación papal de su modo de vida “de acuerdo con el sagrado Evangelio”, basado en la pobreza real y en la predicación laica.

 

 

Inocencio III, conde de Segni, nombrado papa a la edad de 37 años, era un soberano nato: teólogo educado en París, sagaz jurista, diestro orador, inteligente administrador y refinado diplomático. Nunca antes ni después tuvo un papa tanto poder como él. La revolución desde arriba (Reforma gregoriana) iniciada por Gregorio VII en el siglo XI alcanzó su objetivo con él. En lugar del título de “vicario de Pedro”, él prefería para cada obispo o sacerdote el título utilizado hasta el siglo XII de “vicario de Cristo” (Inocencio IV lo convirtió incluso en “vicario de Dios”). A diferencia del siglo I y sin lograr nunca el reconocimiento de la Iglesia apostólica oriental, el papa se comportó desde ese momento como un monarca, legislador y juez absoluto de la cristiandad… hasta ahora.

 

 

Pero el triunfal pontificado de Inocencio III no solo terminó siendo una culminación, sino también un punto de inflexión. Ya en su época se manifestaron los primeros síntomas de decadencia que, en parte, han llegado hasta nuestros días como las señas de identidad del sistema de la curia romana: el nepotismo, la avidez extrema, la corrupción y los negocios financieros dudosos. Pero ya en los años setenta y ochenta del siglo XII surgieron poderosos movimientos inconformistas de penitencia y pobreza (los cátaros o los valdenses). Pero los papas y obispos cargaron libremente contra estas amenazadoras corrientes prohibiendo la predicación laica y condenando a los “herejes” mediante la Inquisición e incluso con cruzadas contra ellos.

 

Pero fue precisamente Inocencio III el que, a pesar de toda su política centrada en exterminar a los obstinados “herejes” (los cátaros), trató de integrar en la Iglesia a los movimientos evangélico-apostólicos de pobreza. Incluso Inocencio era consciente de la urgente necesidad de reformar la Iglesia, para la cual terminó convocando el fastuoso IV Concilio de Letrán. De esta forma, tras muchas exhortaciones, acabó concediéndole a Francisco de Asís la autorización de realizar sermones penitenciales. Por encima del ideal de la absoluta pobreza que se solía exigir, podía por fin explorar la voluntad de Dios en la oración. A causa de una aparición en la que un religioso bajito y modesto evitaba el derrumbamiento de la Basílica Papal de San Juan de Letrán —o eso es lo que cuentan—, el Papa decidió finalmente aprobar la norma de Francisco de Asís. La promulgó ante los cardenales en el consistorio, pero no permitió que se pusiera por escrito.

 

Francisco de Asís representaba y representa de facto la alternativa al sistema romano. ¿Qué habría pasado si Inocencio y los suyos hubieran vuelto a ser fieles al Evangelio? Entendidas desde un punto de vista espiritual, si bien no literal, sus exigencias evangélicas implicaban e implican un cuestionamiento enorme del sistema romano, esa estructura de poder centralizada, juridificada, politizada y clericalizada que se había apoderado de Cristo en Roma desde el siglo XI.

 

Con Inocencio III se manifestaron los primeros síntomas de nepotismo y corrupción del Vaticano. Puede que Inocencio III haya sido el único papa que, a causa de las extraordinarias cualidades y poderes que tenía la Iglesia, podría haber determinado otro camino totalmente distinto; eso habría podido ahorrarle el cisma y el exilio al papado de los siglos XIV y XV y la Reforma protestante a la Iglesia del siglo XVI. No cabe duda de que, ya en el siglo XII, eso habría tenido como consecuencia un cambio de paradigma dentro de la Iglesia católica que no habría escindido la Iglesia, sino que más bien la habría renovado y, al mismo tiempo, habría reconciliado a las Iglesias occidental y oriental.

 

 

De esta manera, las preocupaciones centrales de Francisco de Asís, propias del cristianismo primitivo, han seguido siendo hasta hoy cuestiones planteadas a la Iglesia católica y, ahora, a un papa que, en el aspecto programático, se denomina Francisco: paupertas (pobreza),humilitas (humildad) y simplicitas (sencillez).

 

Puede que eso explique por qué hasta ahora ningún papa se había atrevido a adoptar el nombre de Francisco: porque las pretensiones parecen demasiado elevadas.

 

Pero eso nos lleva a la segunda pregunta: ¿qué significa hoy día para un papa que haya aceptado valientemente el nombre de Francisco? Es evidente que tampoco se debe idealizar la figura de Francisco de Asís, que también tenía sus prejuicios, sus exaltaciones y sus flaquezas. No es ninguna norma absoluta. Pero sus preocupaciones, propias del cristianismo primitivo, se deben tomar en serio, aunque no se puedan poner en práctica literalmente, sino que deberían ser adaptadas por el Papa y la Iglesia a la época actual.

 

Las enseñanzas de Francisco de Asís de altruismo y fraternidad deberían ser actualizadas:

 

 1. ¿Paupertas, pobreza? En el espíritu de Inocencio III, la Iglesia es una Iglesia de la riqueza, del advenedizo y de la pompa, de la avidez extrema y de los escándalos financieros. En cambio, en el espíritu de Francisco, la Iglesia es una Iglesia de la política financiera transparente y de la vida sencilla, una Iglesia que se preocupa principalmente por los pobres, los débiles y los desfavorecidos, que no acumula riquezas ni capital, sino que lucha activamente contra la pobreza y ofrece condiciones laborales ejemplares para sus trabajadores.

 

2. ¿Humilitas, humildad? En el espíritu de Inocencio, la Iglesia es una Iglesia del dominio, de la burocracia y de la discriminación, de la represión y de la Inquisición. En cambio, en el espíritu de Francisco, la Iglesia es una Iglesia del altruismo, del diálogo, de la fraternidad, de la hospitalidad incluso para los inconformistas, del servicio nada pretencioso a los superiores y de la comunidad social solidaria que no excluye de la Iglesia nuevas fuerzas e ideas religiosas, sino que les otorga un carácter fructífero.

 

3. ¿Simplicitas, sencillez? En el espíritu de Inocencio, la Iglesia es una Iglesia de la inmutabilidad dogmática, de la censura moral y del régimen jurídico, una Iglesia del miedo, del derecho canónico que todo lo regula y de la escolástica que todo lo sabe. En cambio, en el espíritu de Francisco, la Iglesia es una Iglesia del mensaje alegre y del regocijo, de una teología basada en el mero Evangelio, que escucha a las personas en lugar de adoctrinarlas desde arriba, que no solo enseña, sino que también está constantemente aprendiendo.

 

De esta forma, se pueden formular asimismo hoy día, en vista de las preocupaciones y las apreciaciones de Francisco de Asís, las opciones generales de una Iglesia católica cuya fachada brilla a base de magnificentes manifestaciones romanas, pero cuya estructura interna en el día a día de las comunidades en muchos países se revela podrida y quebradiza, por lo que muchas personas se han despedido de ella tanto interna como externamente.

 

Es poco probable que los soberanos vaticanos permitan que se les quite el poder acumulado. No obstante, ningún ser racional esperará que una única persona lleve a cabo todas las reformas de la noche a la mañana. Aun así, en cinco años sería posible un cambio de paradigma: eso lo demostró en el siglo XI el papa León IX de Lorena (1049-1054), que allanó el terreno para la reforma de Gregorio VII. Y también quedó demostrado en el siglo XX por el italiano Juan XXIII (1958-1963), que convocó el Concilio Vaticano II. Hoy debería volver a estar clara la senda que se ha de tomar: no una involución restaurativa hacia épocas preconciliares como en el caso de los papas polaco y alemán, sino pasos reformistas bien pensados, planificados y correctamente transmitidos en consonancia con el Concilio Vaticano II.

 

Hay una tercera pregunta que se planteaba por aquel entonces al igual que ahora: ¿no se topará una reforma de la Iglesia con una resistencia considerable? No cabe duda de que, de este modo, se provocarían unas potentes fuerzas de reacción, sobre todo en la fábrica de poder de la curia romana, a las que habría que plantar cara. Es poco probable que los soberanos vaticanos permitan de buen grado que se les arrebate el poder que han ido acumulando desde la Edad Media.

 

El poder de la presión de la curia es algo que también tuvo que experimentar Francisco de Asís. Él, que pretendía desprenderse de todo a través de la pobreza, fue buscando cada vez más el amparo de la “santa madre Iglesia”. Él no quería vivir enfrentado a la jerarquía, sino de conformidad con Jesús obedeciendo al papa y a la curia: en pobreza real y con predicación laica. De hecho, dejó que los subieran de rango a él y a sus acólitos por medio de la tonsura dentro del estatus de los clérigos. Eso facilitaba la actividad de predicar, pero fomentaba la clericalización de la comunidad joven, que cada vez englobaba a más sacerdotes. Por eso no resulta sorprendente que la comunidad franciscana se fuera integrando cada vez más dentro del sistema romano. Los últimos años de Francisco quedaron ensombrecidos por la tensión entre el ideal original de imitar a Jesucristo y la acomodación de su comunidad al tipo de vida monacal seguido hasta la fecha.

 

En honor a Francisco, cabe mencionar que falleció el 3 de octubre de 1226 tan pobre como vivió, con tan solo 44 años. Diez años antes, un año después del IV Concilio de Letrán, había fallecido de forma totalmente inesperada el papa Inocencio III a la edad de 56 años. El 16 de junio de 1216 se encontraron en la catedral de Perugia el cadáver de la persona cuyo poder, patrimonio y riqueza en el trono sagrado nadie había sabido incrementar como él, abandonado por todo el mundo y totalmente desnudo, saqueado por sus propios criados. Un fanal para la transformación del dominio en desfallecimiento papal: al principio del siglo XIII, el glorioso mandatario Inocencio III; a finales de siglo, el megalómano Bonifacio VIII (1294-1303), que fue apresado de forma deplorable; seguido de los cerca de 70 años que duró el exilio de Aviñón y el cisma de Occidente con dos y, finalmente, tres papas.

 

Menos de dos décadas después de la muerte de Francisco, el movimiento franciscano que tan rápidamente se había extendido pareció quedar prácticamente domesticado por la Iglesia católica, de forma que empezó a servir a la política papal como una orden más e incluso se dejó involucrar en la Inquisición.

 

Al igual que fue posible domesticar finalmente a Francisco de Asís y a sus acólitos dentro del sistema romano, está claro que no se puede excluir que el papa Francisco termine quedando atrapado en el sistema romano que debería reformar. ¿Es el papa Francisco una paradoja? ¿Se podrán reconciliar alguna vez la figura del papa y Francisco, que son claros antónimos? Solo será posible con un papa que apueste por las reformas en el sentido evangélico. No deberíamos renunciar demasiado pronto a nuestra esperanza en un pastor angelicus como él.

 

Por último, una cuarta pregunta: ¿qué se puede hacer si nos arrebatan desde arriba la esperanza en la reforma? Sea como sea, ya se ha acabado la época en la que el papa y los obispos podían contar con la obediencia incondicional de los fieles. Así, a través de la Reforma gregoriana del siglo XI se introdujo una determinada mística de la obediencia en la Iglesia católica: obedecer a Dios implica obedecer a la Iglesia y eso, a su vez, implica obedecer al papa, y viceversa. Desde esa época, la obediencia de todos los cristianos al papa se impuso como una virtud clave; obligar a seguir órdenes y a obedecer (con los métodos que fueran necesarios) era el estilo romano. Pero la ecuación medieval de “obediencia a Dios = obediencia a la Iglesia = obediencia al papa” encierra ya en sí misma una contradicción con las palabras de los apóstoles ante el Gran Sanedrín de Jerusalén: “Hay que obedecer a Dios más que a las personas”.

 

Por tanto, no hay que caer en la resignación, sino que, a falta de impulsos reformistas “desde arriba”, desde la jerarquía, se han de acometer con decisión reformas “desde abajo”, desde el pueblo. Si el papa Francisco adopta el enfoque de las reformas, contará con el amplio apoyo del pueblo más allá de la Iglesia católica. Pero si al final optase por continuar como hasta ahora y no solucionar la necesidad de reformas, el grito de “¡indignaos! indignez-vous!” resonará cada vez más incluso dentro de la Iglesia católica y provocará reformas desde abajo que se materializarán incluso sin la aprobación de la jerarquía y, en muchas ocasiones, a pesar de sus intentos de dar al traste con ellas. En el peor de los casos —y esto es algo que escribí antes de que saliera elegido el actual Papa—, la Iglesia católica vivirá una nueva era glacial en lugar de una primavera y correrá el riesgo de quedarse reducida a una secta grande de poca monta.

 

(Hans Küng)

 

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publicado às 23:33

 

 

São Francisco foi um produto à parte da Igreja, mas Dante foi seu produto mais perfeito. O catolicismo de São Francisco nada tinha a ver com a grandeza da Igreja. Tivesse ele sido um maometano, um budista, ou um judeu, de qualquer maneira poderia ter produzido o divino poema de sua vida. O catolicismo de Dante, porém, fazia parte integrante de toda a sua pompa. Tivesse Dante sido qualquer coisa, menos católico,nunca poderia ter escrito o seu Inferno. São Francisco e Dante representam, respectivamente, a humanidade e o catolicismo em seus melhores aspectos. São Francisco tentou salvar todos os homens, tanto os católicos, como os não-católicos, dos sofrimentos deste mundo. Dante tentou mandar todo o mundo, exceto alguns poucos católicos piedosos, ao fogo perpétuo e aos sofrimentos do outro mundo.
São Francisco fala por todas as épocas. Dante é meramente o porta-voz da Idade Média. É a voz da Igreja medieval. Seu poema é a melhor apologia da Igreja e sua pior acusação. É um quadro completo da beleza e da beatice do espírito medieval. Este espírito, em sua melhor forma, isto é, o espírito de Dante e o da Igreja Católica em geral, amava intensamente e odiava ainda com mais intensidade. Amava tudo dentro dos limites da Igreja, e odiava tudo fora desses limites. Seu ódio era, na verdade, devido ao seu amor. Ensinava-se a todo católico que Deus punia os filhos transviados, a fim de corrigi-los porque Ele os amava, e, tentando ser êmulos da bondade de Deus, os católicos da Idade Média resolveram corrigir os filhos desencaminhados neste mundo, torturando-os e matando-os, se necessário, porque eles os amavam. G. K. Chesterton, a voz do catolicismo hodierno, diz em um trecho de seu livro sobre São Francisco, que “não há nada incompatível entre amar uma pessoa e matá-la”. O espírito medieval de Chesterton compreende perfeitamente o espírito medieval do século XIII. Dante compadecia-se dos pecadores do Inferno, e, em alguns casos, como no de Francesca de Rimini, a quem conhecera desde a infância — amava-os. Contudo, também gostava de vê-los pagar pelos seus pecados, porque supunha serem esses sofrimentos da vontade de Deus. Dante, como a Igreja que representava, procurou não só ser o intérprete de Deus, mas também o seu promotor. Era um homem com o coração de um poeta universal e com o espírito de um padre medieval.
Demorei-me um pouco mais discorrendo sobre este pensamento, porque é de grande importância compreender o espírito de Dante se quisermos compreender o espírito da Idade Média, pela simples razão de que Dante é o próprio espírito dessa época.

Nasceu em 1265, trinta e nove anos depois da morte de São Francisco, e trinta e quatro depois da adoção oficial da Inquisição como um argumento convincente na pregação do evangelho. Seu pai era um próspero advogado na cidade de Florença. Quando criança, aprendeu três coisas acima de todas as outras: adorar a Deus, ser leal à sua cidade e lutar pela sua Igreja. Ensinaram-lhe que havia neste mundo duas espécies de indivíduos: os cristãos, a quem Deus amava, e os não-cristãos, a quem Ele odiava, aprendendo porém a amá-los se eles fossem induzidos ou forçados a se tornarem cristãos. Para aqueles que amava, Deus tinha seu Paraíso. Para os que odiava, Deus tinha o Inferno. E, entre estes dois, levantava-se a montanha do Purgatório, como uma espécie de degrau entre Seu ódio e Seu amor. Para Dante, todas essas coisas não eram contos de fadas: eram reais. Céu, Inferno e Purgatório tinham uma localização definida num mapa fixo. Segundo os melhores conhecimentos de Dante, quando as pessoas morriam, iam infalivelmente para um destes três lugares. O Inferno para Dante era tão certo quanto o é a Austrália para aqueles que nunca estiveram lá, mas que leram a seu respeito nos compêndios de Geografia. A Bíblia, para Dante, era uma fonte infalível de Geografia.
Além da Bíblia, Dante foi educado na infalibilidade de Aristóteles. Os católicos da Idade Média tinham simpatizado com as obras de Aristóteles e de Platão. Sob alguns aspectos, de fato, o catolicismo medieval não foi mais do que o platonismo batizado. Os cristãos tinham que agradecer aos maometanos e judeus pelo seu conhecimento dos filósofos gregos, visto que os maometanos traduziram para o árabe os manuscritos gregos, e os judeus, do árabe para o latim, a única língua clássica compreendida pelos católicos romanos. Assim, Dante estudou Aristóteles, e muitas vezes interpretou-o erroneamente em terceira mão, isto é, em uma tradução feita de outra tradução.
Dante aprendeu de Aristóteles e de Platão que a alma descia do céu e que aspirava a voltar para lá “como a água caída das nuvens em forma de chuva, sobe novamente em forma de vapor”. Uma vez descida, a alma torna-se rude pelo seu contato com a dureza do corpo. A vida, portanto, é um campo de batalha entre os apetites do corpo e a felicidade da alma. Negar os sentidos do corpo é purificar as aspirações da alma. Em outras palavras, devemos almejar a felicidade do céu, renunciando aos prazeres da terra. Se vivemos muito agradavelmente cá embaixo, nossa alma tornar-se-á tão coberta de inutilidades, que terá de ser purificada nos fogos do Inferno, antes de poder voltar ao céu e à santa presença de Deus.
Assim a filosofia de Aristóteles e de Platão tornara-se sutilmente metamorfoseada na moral do cristianismo medieval. Esta doutrina do Céu e do Inferno, tendo a alma humana como prêmio pelo qual ambos disputavam eternamente, ficou profundamente gravada no espírito do jovem Dante. Recebeu bons ensinamentos de Teologia Católica e Filosofia grega. Quanto à ciência, aprendeu-a da Bíblia. Sabia muito pouco acerca do mundo que habitava, mas pensava saber muito acerca do mundo em que ia morrer. Como os outros católicos fervorosos de seu tempo, Dante se interessava muito mais por Dite, a capital do Inferno, e por Jerusalém Dourada, capital do Céu, do que por Florença, cidade onde vivia. Mesmo assim, tomou parte ativa na política de sua cidade.
No século XIII, Florença era um campo de batalha entre os Guelfos, partidários do Papa, e os Gibelinos, sectários do imperador. Dante começou sua carreira como Guelfo, pela simples razão de que seu pai já o fora também. Com a idade, porém, desgostou-se com a desonestidade e a pequenez de alguns Papas. Trocou de campo, unindo-se ao partido dos Gibelinos.
Dante deu largos passos em sua carreira política. Com 35 anos apenas foi eleito um dos principais magistrados de Florença. Dois anos depois, porém, seu partido foi derrotado. Nesses dias de paixões absurdas e cruzadas históricas, uma derrota política quase sempre significava não só desgraça, mas também exílio e morte. O ódio da Idade Média era perseverante. Dante foi expulso de Florença e sentenciado a ser “queimado vivo”, onde quer que fosse encontrado.
Tornou-se um homem sem pátria. “O mundo terrestre atira-o para fora de sua órbita”, e sua imaginação sombria começou a morar no mundo mais hospitaleiro da morte. Impossibilitado de se vingar de seus inimigos na Itália, consolou-se imaginando as torturas mais engenhosas para seus inimigos no Inferno. Todos esses indivíduos foram feitos para sofrer pelo prazer de Dante e para a glória de Deus. Dividiu o Inferno em vinte e quatro círculos, cada qual aparelhado com seus instrumentos de tortura apropriados para os tipos particulares dos pecadores. A visão do Inferno de Dante é tão cheia de vícios quanto magnífica. É a obra de uma imaginação sublime e amargurada. “Ele escreveu muitas vezes”, para citar Santayana, “com uma paixão não esclarecida pelo raciocínio.” Contudo, nunca nos devemos esquecer de que ele também escreveu como um cidadão da Idade Média, filho da Igreja Católica. Pôs nas câmaras de tortura do Inferno tanto os seus
inimigos pessoais como os inimigos da Igreja, e, por inimigos da Igreja, Dante classificava todos aqueles que não eram católicos. Nada exemplifica a intolerância da Igreja medieval tão claramente como o fato de Dante negar a quaisquer dos antigos pagãos a entrada no Céu. Seu único pecado consistia no fato de eles terem nascido cedo demais para serem batizados! O amor infinito a Deus, segundo Dante, não era suficientemente grande para incluir outros que não fossem católicos. Até Virgílio, o grande mestre que guiara Dante através dos complicados labirintos do Inferno, e o trouxera são e salvo às portas do Céu, teve de permanecer, ele também, no limbo do desejo eterno sem esperança, pois Virgílio também tinha nascido cedo demais para ser um cristão.
Essa intolerância e essa insensibilidade egoísta aos sofrimentos de todos aqueles que por acaso não conseguiram alcançar as doutrinas da Igreja estão mais adiante ilustradas em diversas passagens espantosas da Divina Comédia, das quais mencionarei somente duas. A primeira delas está no segundo canto do Inferno; Beatriz, que goza a eterna felicidade no Céu, diz a Virgílio (linha 91) que, devido à graça de Deus, as misérias dos pecadores do Inferno não a tocam. Isso estava de pleno acordo com o temperamento selvagem da Idade Média. Mesmo um dos mais piedosos dos escritores medievais, Santo Tomás de Aquino, chegou a ponto de dizer que Deus em sua bondade intensifica a felicidade dos santos do Céu, permitindo-lhes contemplar as torturas dos pecadores no Inferno. A outra passagem que mencionarei está no último canto do Purgatório. Virgílio está descrevendo o limbo do Inferno (linhas 28 a 34) a Sordello, uma das almas do Purgatório. “Lá embaixo”, diz-lhe Virgílio, “moro com as crianças inocentes arrancadas da vida pelas garras da morte, antes de terem sido eximidas do pecado humano.” Em outras palavras, de acordo com a doutrina de Dante, não somente os hereges, infiéis e pagãos, mas até as crianças indefesas deviam sofrer para sempre o Inferno, se tivessem a infelicidade de morrer antes de serem batizadas. O mundo em que Dante vivia era vicioso, estreito, estúpido, ignorante e vergonhosamente intolerante. Se compreendermos o espírito de Dante, também compreenderemos facilmente o espírito das Cruzadas e as inquisições da Idade Média. Era um espírito que se comprazia em criar beleza e destruir a vida humana. A Idade Média foi bela. É um fato que não pode nem necessita ser negado. Mas a beleza só não basta. Um terremoto é belo, como o é também uma avalancha, uma tempestade no oceano, uma erupção vulcânica, os raios dum relâmpago, um assassínio cuidadosamente planejado, ou uma batalha entre dois exércitos selvagens. Há uma grandiosidade no horror e uma beleza mesmo na morte. Mas é a grandiosidade e a beleza da desarmonia, da destruição, da loucura, de um mundo doentio dividido contra si próprio. Esta é a beleza do poema de Dante e do. século xiii em que ele viveu. Durante mil anos a Europa prosseguiu com ardor, sob a ilusão, louca de que Deus desejava que todos os seus filhos fossem cristãos ou amaldiçoados. Dante herdou essa ilusão e assim sucedeu com os membros da Inquisição: Dante exprimiu-a num poema e os inquisidores usavam o poema como uma fonte de informações para os seus próprios intentos destruidores. Dante assassinou os inimigos da Igreja apenas em sua imaginação, mas os inquisidores, homens práticos e não poetas, queimaram-nos realmente. De acordo com o cálculo de Voltaire, nada menos de dez milhões de hereges foram queimados vivos “por instigação da Igreja”.
O poema de Dante é a “Divina Comédia” de um dos supremos sonhadores do mundo. É a tragédia humana de um de seus mais lamentáveis consumadores de erros clamorosos.

Dante morreu em 1317, e com ele, assim dizem, terminou a Idade Média. Contudo, tais afirmações arbitrárias estão historicamente incorretas. Infelizmente para a paz e o progresso da espécie humana, muitos milhões de homens e de mulheres do mundo inteiro ainda vivem na intolerância e na disputa da Idade Média.

(Henry Thomas - "A HISTÓRIA DA RAÇA HUMANA")

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publicado às 07:42

 

Existem diferentes versões sobre quem foi o verdadeiro fundador da chamada Santa Aliança, o serviço de espionagem do Vaticano. Mas terá sido o papa Pio V (1566-1572) quem, em 1566, organizou o primeiro serviço de espionagem papal no sentido de lutar contra o protestantismo representado por Isabel I de Inglaterra.
Protegido pelo poderoso cardeal Juan Pedro Caraffa (o futuro papa Paulo IV), Miguel Ghislieri foi chamado a Roma para assumir a direcção de uma missão especial. Ghislieri foi encarregado pelo papa de criar uma espécie de serviço de contra-espionagem, que se ocuparia, de forma piramidal, em obter informações de todos aqueles que pudessem violar os preceitos papais e os dogmas da Igreja e por isso pudessem ser julgados pela Inquisição.
O jovem presbítero era muito devotado às sociedades secretas e o Santo Ofício era para ele uma das ”sociedades secretas” com maior poder no seu tempo. O trabalho realizado pelos agentes de Ghislieri nas regiões de Como e de Bergamo chamaram a atenção dos poderosos de Roma. Em menos de um ano, quase mil e duzentas pessoas, desde agricultores a nobres, foram julgadas pelo tribunal da Inquisição e mais de duas centenas foram consideradas culpadas, depois de serem submetidas a terríveis torturas e executadas.
A tortura da corda consistia em atar as mãos do presumido herege atrás das costas e o preso era levantado através de uma outra corda presa no tecto. Com o corpo suspenso, era solto por breves momentos para que caísse com o seu próprio peso. O preso ficava a um metro do solo e com essa violenta sacudidela as extremidades deslocavam-se.
Uma outra das torturas mais utilizadas era a da água. Os carrascos estendiam a vítima num cepo de madeira em forma de canal e colocavam um abraço, lenço fino molhado na garganta, enquanto lhe tapavam o nariz para que não pudesse respirar. Um dos verdugos enfiava-lhe água pela boca e pelas narinas e assim o preso não tinha nenhuma possibilidade de respirar. Quando o médico da Inquisição mandava parar com esse tormento, muitos dos réus já estavam mortos.
Em 1551, Miguel Ghislieri, devido aos serviços prestados, foi promovido por Caraffa, que o nomeou geral da Inquisição em Roma, sob o pontificado de Júlio III (1550-1555). Com Ghislieri como geral, a Congregação do Santo Ofício dispôs de todas as condições para alcançar os objectivos a que se propunha. Em primeiro lugar, foi realizada uma reforma do chamado Conselho da Suprema, e o papa nomeou um grupo de cardeais para o controlarem. Os purpurados faziam ao mesmo tempo de juizes e de conselheiros do Pontífice no caso de levar a juízo pessoas relevantes da sociedade romana.
Foi Ghislieri quem, no início de 1552, estabeleceu as sete classes de delitos susceptíveis de serem julgados pelo tribunal do Santo Ofício: os hereges; os suspeitos de heresia; os que protegiam os hereges; os magos, bruxos e feiticeiros; os blasfemos; os que resistissem às autoridades ou agentes da Inquisição; e os que quebrassem, ofendessem ou violassem os selos ou símbolos do Santo Ofício.
A partir desse mesmo ano, Ghislieri criou em toda a cidade uma autêntica rede de espiões, que operavam desde os lupanares da cidade até às cozinhas dos palácios dos nobres de Roma. Todas as informações de qualquer natureza recolhidas pelos agentes da Inquisição eram entregues pessoalmente a Ghislieri por intermédio de dois sistemas: de viva voz e pelo chamado Informi Rosso (Relatório Vermelho). Este último consistia num pequeno pergaminho enrolado numa cinta vermelha com o escudo do Santo Ofício. Segundo as leis vigentes, o rompimento do selo era punido imediatamente com a morte. Os agentes de Ghislieri registavam nesses pergaminhos todas as informações com que acusavam, e muitas vezes sem nenhuma prova, qualquer cidadão de Roma de violar as normas da Igreja e que podiam ser apreciadas por um tribunal da Inquisição. O Informi Rosso era depositado num pequeno vaso de bronze colocado para esse efeito na sede romana do Santo Ofício.
Durante anos, o geral da Inquisição criou uma das maiores e mais eficazes redes de espiões e um dos melhores arquivos de dados pessoais dos cidadãos de toda a Roma. Ninguém se movimentava ou falava nas ruelas ou praças da cidade sem que Ghislieri o não soubesse. Ninguém se movimentava ou falava dentro do Vaticano sem que o geral da Inquisição o não conhecesse.
A 23 de Maio de 1555, e depois de um breve pontificado com menos de um mês do papa Marcelo II, o cardeal Juan Pedro Caraffa, sem a oposição do sector imperial nem do sector francês, foi eleito papa no conclave. O embaixador de Veneza, Giacomo Navagero, definia assim o novo papa de setenta e nove anos: ”Caraffa é um papa de um temperamento violento e fogoso. É demasiado impetuoso no tratamento dos assuntos da Igreja e por isso o velho Pontífice não tolera que ninguém o contradiga”.
Caraffa, já como papa Paulo IV, chegou a temer o grande poder de Ghislieri. Em Roma, a populaça chegou mesmo a definir o geral da Inquisição como ”o papa na sombra”, mas apesar de tudo o pontífice concedeu a Miguel Ghislieri a púrpura cardinalícia. A partir daí Ghislieri o inquisidor tornar-se-ia mais perigoso e mais poderoso. Muitos membros do Colégio Cardinalício não permitiriam que, a partir do posto ocupado na temível Inquisição, ele dirigisse os destinos da Igreja Católica.
Os agentes de Ghislieri vangloriavam-se muito e impunham o terror nas ruas de Roma. Os espiões do cardeal, conhecidos como os ”monges negros”, escolhiam uma vítima e esperavam que ela seguisse por uma rua isolada. Nesse momento, era assaltada e metida numa carruagem fechada hermeticamente e levada para uma sala da Inquisição. Um frade que foi testemunha disso relatou a chegada dos sequestrados ao palácio do Santo Ofício em Roma, assim publicada na obra de Leonardo Gallois, Historia General de la Inquisition, de 1869:
Deixava-se a vítima num piso inferior do primeiro pátio, ao lado da porta principal. A vítima começava ali a sua iniciação numa sala circular onde dez esqueletos pregados na parede lhe anunciavam que por vezes naquela hospedaria se cravava em vida os hóspedes para os deixar esperar a morte com calma. Depois de um aviso tão santo, encontrava numa galeria contígua mais dois esqueletos humanos, não colocados de pé e na atitude de receber as visitas, mas estendidos em forma de mosaico ou de estrado.
Na mesma galeria podia distinguir claramente à direita um forno manchado por várias nódoas de gordura e consagrado a substituir em segredo as fogueiras das praças públicas, caídas em desuso por causa da picardia do século corrompido. (...) Poucos calabouços propriamente ditos se encontram neste primeiro corpo de edifícios, mas em contrapartida no segundo piso à direita encontra-se a sala do Santo Tribunal protegida por duas portas. Uma delas coroada por um letreiro que indica stanza del primo padre compagno e a segunda coroada por um letreiro que indica stanza del secando padre compagno. Assim se chamavam os dois inquisidores encarregados da dupla missão de ajudar a Suprema a procurar descobrir os criminosos e converter definitivamente o réu.
Mas essa situação mudaria por completo para o cardeal Ghislieri quando na noite de 18 de Agosto de 1559 o papa Paulo IV faleceu de repente. Após ser conhecida a notícia da morte, espalhou-se a sedição nas ruas de Roma; a captura e prisão dos agentes de Ghislieri converteu-se numa das principais motivações das massas. Muitos dos que serviram fielmente a Santa Inquisição eram assassinados pela população e os seus cadáveres lançados nas cloacas. Os distúrbios não acabaram aí. O povo de Roma assaltou o palácio que albergava o Tribunal da Inquisição e foi derrubada a estátua do pontífice falecido.
O cardeal Ghislieri e alguns dos seus homens conseguiram pôr a salvo uma grande parte dos arquivos secretos, levados em oito carruagens na sua fuga de Roma. Por fim, a situação voltou à normalidade em 25 de Dezembro de 1559 quando o cardeal Giovanni Angelo Medíeis, que era inimigo do anterior papa, se converteu no novo pontífice com o nome de Pio IV.
O papa era um homem de carácter firme, hábil diplomata e estava disposto a limpar a Igreja Católica de todos os vestígios do pontífice anterior, Paulo IV. Para essa tarefa rodeou-se de dois fiéis cardeais e seus sobrinhos, Marcos Sittich de Altemps e Carlos Borromeo. O primeiro era um mestre com a espada e na arte da guerra. O segundo era um mestre da diplomacia.
Borromeo foi nomeado arcebispo de Milão, legado papal em Bolonha e Romagna, responsável do governo dos Estados Pontifícios e finalmente secretário pessoal do papa. Como primeira medida, ordenou a detenção e reclusão no castelo de Sant’Angelo dos cardeais Carlo e Alfonso Caraffa, bem como de Juan Caraffa, duque de Paliano, e outros cavaleiros do séquito ducal acusados do assassínio da esposa daquele.
Como segunda medida, o papa Pio IV, aconselhado por Carlos Borromeo, decidiu reabilitar o cardeal Morone e o bispo Fiescherati que antes tinham sido acusados de heresia pelo Santo Ofício por ordem de Paulo IV. Como terceira medida, o papa ordenou o ”desterro” do cardeal Miguel Ghislieri, então geral da Inquisição, e a dissolução dos ”monges negros”. O cardeal, que se refugiou num mosteiro isolado, retomou o seu trabalho pastoral no antigo bispado, o que o fez ser visto com bons olhos quando o conclave voltou a reunir-se após o falecimento do papa Pio IV a 9 de Dezembro de 1565. Curiosamente, e depois de três semanas de conclave, o cardeal Carlos Borromeo, homem de confiança do papa falecido, decidiu defender a candidatura do cardeal Ghislieri, que contava com o apoio do rei Filipe II e desde há alguns anos recebia da Coroa de Espanha uma subvenção de 800 ducados.
A 7 de Janeiro de 1566, o cardeal Ghislieri era eleito papa e adoptou o nome de Pio V. O então embaixador de Espanha disse: ”Pio V é o papa que os tempos exigem”. Filipe II também aprovava a chegada de um aliado ao trono de São Pedro. A sua nomeação supunha a vitória de todos os que desejavam um pontífice austero e piedoso, mas por sua vez capaz de lutar e actuar com grande energia contra a Reforma protestante. O que era certo é que o papa Pio V utilizaria a sua ampla experiência à frente da Inquisição para criar um verdadeiro serviço de espionagem, implacável e de cega obediência às ordens supremas do pontífice.
A primeira função dos agentes da Santa Aliança, nome dado pelo próprio papa ao seu serviço secreto em honra da aliança entre o Vaticano e a rainha católica Maria Stuart, era sobretudo a de obter informações dos possíveis movimentos políticos e das intrigas dirigidas a partir da corte de Londres. As informações que obtinham eram enviadas àqueles poderosos monarcas que apoiavam o catolicismo e o poder pontifício em face do cada vez mais alargado protestantismo. O principal objectivo dos espiões do papa era prestar os seus serviços à rainha Maria Stuart com o intuito de procurar restaurar o catolicismo na Escócia, que se tinha declarado presbiteriana no ano de 1560, e lutar contra o protestantismo. O papa Pio V entendia que o seu principal inimigo era a Igreja cismática de Inglaterra, representada pela rainha Isabel, filha de Henrique VIII e de Ana Bolena.
O rei Henrique VIII havia rompido com a Igreja Católica em 1532, quando pediu a Clemente VII (19-XI-1523 / 25-IX-1534) autorização para se divorciar da rainha Catarina de Aragão, que era filha dos reis católicos e tia do imperador Carlos I de Espanha e V da Alemanha, para se poder casar com a sua amante Ana Bolena. O pontífice estudou a carta enviada pelo rei de Inglaterra, um velho pergaminho de sessenta por noventa centímetros e com a assinatura, como aval, de setenta e cinco altas personalidades do reino. Desse documento pendiam setenta e cinco cintas de seda vermelha com setenta e cinco selos de lacre.
No texto, Henrique VIII exprimia o desejo de contrair casamento com a sua amante e pedia a autorização papal para se divorciar da sua esposa, a rainha Catarina de Aragão. Essa petição foi negada pelo papa Clemente VII, o que provocou a ira e o afastamento de Henrique VIII da Igreja Católica. Mas o monarca de Inglaterra decidiu contrair matrimónio com Ana Bolena e anulou assim o seu casamento com Catarina, apesar da recusa de Roma.
O cisma definitivo aconteceu a 15 de Janeiro de 1535, sob o pontificado de Paulo III, quando, para dar uma base jurídica à sua nova supremacia eclesiástica, Henrique VIII convocara os sábios de todas as universidades do reino e o clero para que declarassem publicamente que o papa romano não tinha nenhum direito divino ou autoridade alguma sobre a Inglaterra. As bases reais da nova Igreja eram as de uma Igreja Católica anglicana, sob a autoridade da Coroa.
Os cinco anos de reinado de Maria Tudor até à sua morte, ocorrida a 17 de Novembro de 1558, foram muito intensos. Guerras, execuções, rebeliões internas, golpes de Estado e conflitos religiosos espalharam-se pelo reino. Na própria noite da morte da rainha Maria, a sua irmã Isabel, filha de Henrique VIII e Ana Bolena, foi proclamada rainha de Inglaterra.
Grande parte da população recebeu com júbilo a chegada da nova rainha, em parte pela má recordação deixada por Maria Tudor, a quem popularmente baptizaram como Maria, a Sanguinária (Bloody Mary). Desde a sua chegada ao trono, Maria tinha-se mostrado decidida, com o apoio de Paulo IV e a resistência do embaixador de Espanha, a implantar a sangue e fogo o catolicismo, mas para isso devia antes cortar as cabeças dos que haviam defendido a Reforma.
Muitos dos bispos protestantes, que Maria Tudor definia como ”maus pastores que conduziram as suas ovelhas à perdição”, seriam os primeiros a ser queimados na fogueira por crime de heresia. O ex-bispo de Londres, Ridley, o mesmo que pouco tempo antes tinha proclamado Jane Grey como rainha de Inglaterra e considerado Maria Tudor como bastarda, foi queimado vivo a 16 de Outubro de 1555 numa praça da cidade de Oxford. Na fogueira também o acompanharia o ex-bispo de Worcester, Latimer. Uma outra execução ordenada pela rainha, e que causaria viva surpresa mesmo em Roma e no Parlamento da Inglaterra, seria o suplício, a 21 de Março de 1556, de Thomas Cranmer, ex-bispo de Canterbury, e que no passado declarara a anulação do casamento do rei Henrique VIII com Catarina de Aragão e consumara a ruptura definitiva com o poder papal de Roma.
A 15 de Janeiro de 1559, Isabel I foi coroada como rainha de Inglaterra e a 8 de Maio inaugurava a sessão do Parlamento, onde pedia a aprovação das leis que permitiam o restabelecimento do protestantismo em todo o reino e nos seus domínios. Roma e a Igreja Católica, dirigida por um ancião de oitenta e três anos, o papa Paulo IV, já não tinham força para fazer pressão face à mudança religiosa que novamente se avizinhava na Inglaterra.

(Eric Frattini -  "A santa aliança, cinco séculos de espionagem do Vaticano)

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publicado às 07:41

 


A ICAR é uma instituição castradora:
• Castradora através do Celibato Obrigatório que, sendo uma imposição contra-natura, tem-se manifestado em gravíssimos desvios sexuais (padres pedófilos, taxas elevadas de homossexualismo entre o clero). Eugene Drew
ermann (ex-padre) reconhece, fruto da sua experiência de psicoterapeuta, que a percentagem de homossexuais dentro da Igreja católica é grande, como consequência principal da sua moral repressiva e da atitude quanto ao celibato, quer entre religiosos de sexo masculino como do sexo feminino, chegando aos 25% os jovens seminaristas que, de forma permanente ou esporádica, se dedicam a práticas homossexuais. Homossexualidade que era considerada pela Igreja como uma das formas mais graves de pecado (os acusados pelo "crime nefando" eram sentenciados à fogueira pela Santa Inquisição). Se fosse agora, muito havia que queimar!
• Castradora através de seus Dogmas que cerceiam a liberdade de expressão. Quem tem medo do diálogo franco e aberto, escuda-se nos dogmas e na disciplina eclesiástica.

A Igreja Católica, continua Drewermann (“Funcionários de Deus“), «falsifica a neurose em santidade, a doença em eleição divina e a angústia em confiança em Deus», separando, como realidades opostas, o pensamento da sensibilidade, a actividade intelectual da vivência emocional. Filosofia própria de uma religião que «é inimiga da natureza e oposta ao amor» e que tem como objectivo não a sua libertação, mas a subjugação do homem: a sua destruição como indivíduo livre e senhor do seu destino.

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publicado às 14:47

 


"Os homens nunca fazem o mal
tão plenamente e com tanto entusiasmo
como quando o fazem por convicção religiosa"
(Pascal
Esse zelota do vídeo fala assim porque vive numa sociedade tolerante, caso contrário, já teria sido queimado na fogueira. Ele e a ideia que pretende passar de que todos nós seríamos maus, se não nos apegássemos à religião cristã/católica. Concordo plenamente com Bertrand Russel:
"Parece-me que as pessoas que se apegaram a ela (religião cristã) foram, em sua maioria, extremamente más. Tendes este fato curioso: quanto mais intensa a religião em qualquer época, e quanto mais profunda a crença dogmática, tanto maior a crueldade e tanto pior o estado das coisas. Nas chamadas Idades da Fé, quando os homens realmente acreditavam na religião cristã em toda a sua inteireza, houve a Inquisição, com as suas torturas; houve milhares de infelizes queimadas como feiticeiras – e houve toda a espécie de crueldade praticada sobre toda a espécie de gente em nome da religião. Constatareis, se lançardes um olhar pelo mundo, que cada pequenino progresso verificado nos sentimentos humanos, cada melhoria no direito penal, cada passo no sentido da diminuição da guerra, cada passo no sentido de um melhor tratamento das raças de cor, e que toda diminuição da escravidão, todo o progresso moral havido no mundo, foram coisas combatidas sistematicamente pelas Igrejas estabelecidas do mundo. Digo, com toda convicção, que a religião cristã, tal como se acha organizada em suas Igrejas, foi e ainda é a principal inimiga do progresso no mundo."
Esse padre é um exemplo vivo do que é e pode fazer o fundamentalismo religioso. Defender a tese de que a Inquisição foi um "ato de caridade" para com os católicos, além de aberrante, é, no mínimo, desonestidade inteletual com pretensão de branquear o verdadeiro móbil inquisitorial. Será que o Sol ainda gira em volta da Terra? Só um cromo seria capaz de defender tal tese. Por outro lado, pretender reduzir a Inquisição a uma mera questão de disciplina interna da ICAR e desafiar a que alguém lhe prove que a Inquisição não actuou  apenas por questões heréticas, é no mínimo patético. É uma tentativa da branquear a perseguição inquisitorial aos judeus, maometanos e seguidores de outras igrejas.Só Hitler conseguiu ser tão farsante e irónico! Cito Henry Thomas - "A HISTÓRIA DA RAÇA HUMANA":
"A Inquisição tomou a si o encargo de perseguir não somente os hereges, isto é, os cristãos que se desviassem do caminho ortodoxo, mas também os maometanos e os judeus. Os maometanos e os judeus que viviam na Europa cristã e particularmente na Espanha eram considerados bons combustíveis para a santa fogueira... não tanto porque seus corações se achassem repletos de pecados, mas porque seus cofres se achavam cheios de ouro. Primeiro, eram eles compelidos a aceitar a religião cristã, e depois eram assados vivos, na suposição de que fossem “maus” cristãos.
O homem que mais sobressaiu em zelo nas incinerações de maometanos e judeus foi Tomás de Turrecremata, ou como é mais geralmente conhecido, Tomás de Torquemada. Se Gregório IX foi o pai da Inquisição, Torquemada foi o seu produto mais perfeita. Tinha paixão por três coisas: oração, dinheiro e assassínios. Era um beato convicto — um dos animais humanos mais perigosos. Pensava que satisfazia a vontade de Deus matando seus semelhantes. Era um louco piedoso, investido pelo Papa com poder de dar vazão a toda sua loucura. Durante sua presidência da Inquisição, queimou cerca de dois mil homens e mulheres (alguns calculam o número em oito ou nove mil), e quebrou os ossos de dezenas de milhares de seres, com instrumentos de tortura. Servia igualmente de acusador, testemunha e juiz, e freqüentemente “dava uma ajudazinha” na câmara de tortura."
 A tolerância apreende-se do Evangelho de Jesus Nazaré. Em que "Evangelho" se inspira quem defende tais ideias? Como é possível que as autoridades eclesiásticas ou civis ainda concedam tempo de antena a alguém que advoga e é porta-voz do famigerado obscurantismo medieval da Igreja? Quem espalha a semente do Diabo presta um péssimo serviço à sociedade e ao Evangelho. Não me admiraria nada que este cromo estivesse incluído na lista de personalidades a acolher o Papa Francisco, na próxima visita ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude!

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publicado às 23:43


Os escândalos e a renúncia do papa

por Thynus, em 02.05.13

 

 

Em meio aos infindáveis papéis dos Arquivos Secretos do Vaticano é possível encontrar pérolas que podem esclarecer (e muito) como funciona a máquina do estado católico.
O que mais intriga é saber o real valor que os documentos do secretariado, que são arquivados lá e não veem a luz do sol por muitas décadas, são tão cobiçados a ponto de protagonizar escândalos difíceis de ser esquecidos, como o famoso caso Vatileaks, apontado como uma das principais razões que levaram à renúncia do hoje papa emérito Bento XVI.

Vatileaks
Por muitos anos, Joseph Ratzinger teve de lidar com três fatores principais que resultaram em seu ato, que há muito não acontecia na história da Igreja Católica. Os boatos, muito antes de anunciar sua renúncia, eram que ele sofreria de uma doença terminal ou que estava sendo vítima de chantagem originada pelo roubo dos documentos do citado Vatileaks, que veio ao conhecimento público graças à ação da mídia em 2012.
Mas o que vem a ser esse caso? Em resumo: vários documentos secretos (que muitos pesquisadores e jornalistas acreditam terem sido enterrados nos Arquivos Secretos longe dos olhos públicos) revelaram a existência de uma ampla rede de corrupção, nepotismo e favoritismo relacionados a contratos super faturados, que beneficiavam a Cúria Romana, "o aparato burocrático do Vaticano, interessado em desestabilizar um grupo de cardeais", segundo a revista Veja (edição de 20 de fevereiro de 2013). O caso recebeu a denominação de Vatileaks de seu porta-voz oficial, Federico Lombardi, que comparou a repercussão com o fenômeno Wikileaks (de vazamento de informações confidenciais e delicadas de diversos governos e empresas).
O escândalo apareceu pela primeira vez quando o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi publicou cartas de Cario Maria Viganò, anteriormente o segundo administrador do Vaticano, em que ele implorava para não ser transferido por ter exposto uma suposta corrupção, que custou ao Vaticano "um aumento de milhões nos preços do contrato", segundo o site Euronews.
Nos meses que se seguiram, o escândalo aumentou com o vazamento de documentos para jornalistas italianos, que mostravam a existência de uma luta pelo poder no Vaticano. Foi mais ou menos nessa época que uma carta anônima apareceu e revelou uma ameaça de morte contra Bento XVI, conforme revelou o jornal The Independent. Em maio de 2012 foi publicado o livro Sua Santidade, as Cartas Secretas de Bento XVI, composto por cartas confidenciais e memorandos trocados entre o Papa Bento XVI e seu secretário pessoal.
Essa correspondência revela um Vaticano como foco de intrigas, confabulações e confrontos entre facções secretas. O livro revelou ainda detalhes sobre as finanças pessoais do então papa e incluiu alguns contos sobre subornos feitos para obter uma audiência com ele, segundo alguns sites como o Queerty, especializado na comunidade homossexual.

O mordomo e o escândalo financeiro
O jornalista Gianluigi Nuzzi, que publicou o citado livro descrito, teve um parceiro essencial nesse vazamento de informações: o mordomo do papa emérito, Paolo Gabriele, que exercia o cargo desde 2006. O mordomo foi preso em 23 de maio de 2012, depois que as cartas e os documentos foram encontrados em seu apartamento, no Vaticano. Ele alegou que encontrou os tais documentos no apartamento que dividia com sua esposa e três filhos.
Gabriele foi preso em julho e depois removido para uma prisão domiciliar. O juiz do Vaticano, Piero Antonio Bonnet, analisou as evidências do caso e decidiu que havia material suficiente para prosseguir com a realização de um julgamento. O mordomo foi indiciado pelos magistrados em 13 de agosto de 2012 por roubo agravado, mas teve indulto do papa emérito em 22 de dezembro. Em sua última apelação, ele declarou, segundo a agência Associated Press: "O que sinto mais fortemente dentro de mim é a convicção de que agi exclusivamente por amor, eu diria um amor visceral, pela Igreja de Cristo e seu representante".
Os problemas que levaram à renúncia do hoje papa emérito não se resumiram apenas aos documentos do Vatileaks que, caso não tivessem vazado, teriam encontrado refúgio nos recônditos Arquivos Secretos. Outro fator que está ligado aos documentos roubados é o escândalo de 2010, quando a Justiça italiana abriu uma investigação sobre o IOR (Instituto de Obras Religiosas), o nome oficial do banco central do Vaticano, e bloqueou 23 milhões de euros de suas contas por "suspeita de violação das normas do sistema financeiro contra lavagem de dinheiro".
O secretário do estado, que aparentemente esteve envolvido nessas falcatruas e que faz a Igreja parecer voltar ao tempo dos Bórgias, é o cardeal Tarcísio Bertone, descrito por muitos como ambicioso e em total discordância com as intenções de Bento XVI. O secretário, que seria o principal nome para gerar os documentos que fatalmente são arquivados nos Arquivos Secretos, está na mira de boa parte dos cardeais italianos, que o teriam responsabilizado por interesses ou omissão em casos como o do IOR ou do Vatileaks.

Bento XVI, o nazismo e os Arquivos Secretos
A decisão de canonizar Pio XII, apesar dos protestos da comunidade judaica, deu uma publicidade muito negativa para o então papa Bento XVI. O ex-papa esteve no Arquivo Secreto analisando a situação em junho de 2007, quando proferiu um discurso no qual defendeu o papel do Arquivo ante a polêmica do período da Segunda Guerra Mundial.
Segundo notícia divulgada pelo site ACI Digital, a Biblioteca Apostólica fechou as portas ao público durante três anos para restauração de uma ala localizada em um edifício renascentista, o que causou outra onda de comentários sobre os reais motivos de tal fechamento. Sobre o Arquivo Secreto, Bento XVI disse na ocasião:

Podem-se realizar não só pesquisas eruditas, em si mesmas muito dignas, concernentes a períodos longínquos, mas também relativas a épocas e tempos recentes, muito próximos a nós. Prova disso são os primeiros frutos da recente abertura que decidi em junho de 2006 aos pesquisadores do pontificado de Pio XII.

Ainda comentando o caso de Pio XII, Bento XVI afirmou que a abertura dos arquivos referentes ao seu antecessor teria sido pedida pelos "caluniadores judeus do pontífice, especialmente a controvertida Liga Antidifamação dos Estados Unidos". Esta última é uma referência a uma organização na ativa desde 1913, que se dedica a lutar contra o antissemitismo em todas as suas formas.
O ex-papa lembrou que seu antecessor direto, João Paulo II, havia aprovado a abertura de tais arquivos embora o período de reserva ainda não tivesse transcorrido por completo. Tais documentos foram colocados à disposição de um comitê de estudiosos católicos e judeus. Os envolvidos que pertenciam à comunidade judaica não encontraram nenhum tipo de prova incriminatória que impediria o processo de canonização de Pio XII, mesmo assim acusaram o Arquivo Secreto de retenção de provas.
O site ACI Digital afirma, na citada notícia, que Bento XVI elogiou "o serviço desinteressado e equânime" dos Arquivos Secretos. Disse que os envolvidos tinham deixado "a um lado estéreis e freqüentemente débeis conceitos unilaterais" e oferecido aos investigadores, "sem prejuízos, a documentação que possuem, ordenada com seriedade e competência".
Dom Pagano falou sobre o caso do polêmico papa quando o livro sobre Galileu foi publicado. Segundo ele, os documentos sobre o período totalizariam cerca de 700 caixas com papéis da Secretaria de Estado e das nunciaturas, que deixariam clara a caridade exercida por Pio XII durante a II Guerra Mundial. Para o prefeito dos Arquivos Secretos, a opinião sobre o papa polêmico é clara:

Todos aqueles que se dirigiram a ele (papa Pio XII) — militares, prisioneiros, párocos que tiveram suas igrejas destruídas, professores que haviam perdido o trabalho — o papa os ajudou com uma caridade incrível. A Santa Sé enviou grandes quantidades de dinheiro para obras de caridade, durante e depois da guerra.

Em meio a várias polêmicas, discussões e brigas para saber se aquele papa deveria ou não ser canonizado, o processo prossegue a passos largos. Dom Pagano disse também que entre os documentos estão incluídos um organograma de todos os italianos, das condições da guerra nos campos de prisão, além de cartas dos núncios que descrevem a situação dos prisioneiros, bem como textos que evidenciam as tais obras de caridade que foram citadas por ele e realizadas pela Igreja durante e depois da guerra.
A mais recente notícia sobre o caso relata que a abertura de tais arquivos será benéfica para melhorar a imagem de Pio XII junto ao grande público. Essa iniciativa partiu de uma organização chamada Pave the Way Foundation, "surgida para eliminar os obstáculos entre religiões, fomentar a cooperação e acabar com o abuso da religião para fins partidaristas".
Seus componentes entregaram para o Vaticano uma petição para digitalizar e colocar à disposição pela internet cerca de 5.125 documentos dos Arquivos Secretos, datados entre março de 1939 e maio de 1945. Gary Krupp, fundador e presidente da Pave the Way Foundation, anunciou que as Actes et Documents du Saint Siège relatifs a la Seconde Guerre Mondiale [Atas e Documentos da Santa Sede relativos à Segunda Guerra Mundial)] estarão disponíveis em breve para o estudo on-line, sem custo algum, no site da organização e na página oficial do Vaticano. Krupp, um judeu de Nova York, declarou:

No desenvolvimento da nossa missão, constatamos que o papado de Pio XII (Eugênio Pacelli) durante a Segunda Guerra Mundial é um motivo de atritos, provocando um impacto em mais de um bilhão de pessoas. A controvérsia se centra em se ele fez o suficiente para prevenir o massacre dos judeus nas mãos dos nazistas.


Pedofilia
Além dos citados fatos, há a abundância de casos recorrentes de pedofilia que Bento XVI tentou combater, mas acabou por se sentir abandonado por cardeais, bispos e padres em seus esforços para dar um basta nessa situação. "O corporativismo foi mais forte que o papa", afirmou o repórter Mário Sabino, revista Veja. Segundo a reportagem, são milhares de casos ocorridos entre 1996 e 2009 que chegaram a envolver, inclusive, crianças surdas-mudas. Inúmeros processos chegaram a ser abertos no Vaticano, mas nenhum deles segue com a velocidade que se esperava.
Em maio de 2010, o ex-papa Bento XVI recebeu bispos belgas para, juntos, analisarem medidas para "evitar abusos sexuais de clérigos a menores" no país correspondente, segundo relatório oficial do Vaticano datado de 21 de março de 2012.
Quem acompanha as notícias vai se lembrar que acusações de pedofilia passaram a ser relativamente comuns quando o assunto era a Igreja Católica, sendo possível mesmo traçar uma linha cronológica mostrando quais e quantos casos aconteceram. Porém, a onda de acusações passou a assumir proporções inimagináveis até mesmo para a própria Igreja. Um dos casos mais graves aconteceu na Bélgica, quando o bispo de Bruges, Roger Vangheluwe, foi cassado pelo então papa por pedofilia. O religioso reconheceu que havia abusado de um jovem quando era sacerdote.
Os bispos que encontraram o papa estavam lá para discutir não apenas as acusações de pedofilia, mas também falar sobre os eternos assuntos polêmicos com os quais a Igreja discute quase infinitamente, mas não chega a uma conclusão, como eutanásia e diálogo inter-religioso.
Segundo os jornais, a Bélgica é o segundo país europeu a aprovar uma lei para a eutanásia. Porém, o L'Obsservatore Romano diz que aquela nação "sofre" com os escândalos de abusos sexuais por parte de clérigos. E o país registrou, segundo o jornal, uma queda de 30% dos católicos. O chefe dos bispos belgas, André Joseph Leonard, afirmou que a Igreja belga adotou diferentes medidas para acabar com esses casos e pediu às vítimas que os denunciem perante a magistratura.
Entre outras medidas para impedir que os casos continuem a aparecer, há "uma formação mais profunda dos sacerdotes e seminaristas, começando com discernir se são confiáveis para o sacerdócio", segundo declaração oficial do relatório emitido pela comissão oficial do papa em 5 de maio de 2010.
Por mais que a Igreja se esforce para controlar as denúncias, muitos outros casos foram registrados até hoje. No final do mesmo mês de abril de 2010, um jornal belga divulgou a denúncia de um homem que assegurou ter sido "violado" quando tinha 15 anos, na década de 1980, por um sacerdote da diocese de Namur, e que o atual chefe da Igreja Católica belga teria encoberto o caso. Essa acusação, que está nos tribunais belgas, se juntou a outros casos registrados que acusavam as Igrejas dos Estados Unidos, Irlanda, Alemanha, Áustria, Holanda e Itália.
Há quem jure que os Arquivos Secretos do Vaticano possuem relatórios completos sobre as atividades dos pedófilos. Há, até hoje, suspeitas de que o próprio Vaticano sabia dessas atividades, mas as escondia de todos, para que ninguém soubesse como seus padres realmente agiam. Esse material, que até hoje é discutido à exaustão em fóruns de internet, gerou muitas lendas, ou seja, fatos não confirmados, que apresentam os padres de diversas maneiras, incluindo depravados que se valiam da confiança de jovens, a maioria do sexo masculino, para obter sexo de maneira ilícita.
Segundo notícias, o monsenhor Charles J. Scicluna, promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé, teria afirmado que houve 3 mil denúncias de abusos contra menores nos últimos dez anos, mas que não sabia afirmar o que teria acontecido com as denúncias, nem quantos religiosos foram considerados culpados e punidos.
É claro que ninguém jamais conseguiu uma prova concreta sobre as supostas atividades ilícitas, ou mesmo saber se haveria, de alguma forma, um arquivo no Vaticano que registrasse quem é pedófilo e onde atuaria. Porém, a fama de tal história está incontrolavelmente espalhada por todo o mundo.
O jornal The New York Times afirmou em reportagem que "o Vaticano havia sido informado a respeito dos abusos cometidos pelo padre Lawrence Murphy, que molestou cerca de 200 crianças de uma escola para surdos no estado do Wisconsin, ao longo de 24 anos, mas não tomou nenhuma providência".
Talvez a prova da culpa dos pedófilos esteja arquivada de fato nos Arquivos Secretos. Porém, essa será uma informação que poderá ser divulgada daqui a muitos anos ainda.

A renúncia do papa
A estratégia escolhida pelo papa emérito, ou seja, a renúncia, o tira da liderança da igreja e o coloca atrás das paredes de um convento para freiras no Vaticano, chamado mosteiro Mater Ecclesiae (Mãe da Igreja), construído em 1992, já usado antes por Ratzinger quando ele precisava fazer reflexões e leituras durante o papado de João Paulo II.
Os escândalos que vieram à tona foram listados a partir de uma investigação encomendada por Bento XVI a três cardeais octogenários fidelíssimos a ele, Julián Heranz Casado, JozefTomko e Salvatore De Giorgi. Os três cardeais investigadores escrutinaram documentos e recolheram depoimentos de dezenas de padres e leigos na Itália e em outros países, inicialmente por um questionário único enviado para todos os entrevistados e, depois, por meio de entrevistas individuais devidamente cruzadas.
Segundo matéria publicada na revista Veja, eles "concluem que altos integrantes da cúria eram chantageados por homossexuais beneficiados com dinheiro da Igreja e a nomeação para cargos de destaque na estrutura do Vaticano ou próximos dela". O relatório está dividido em dois volumes de mais de 300 páginas cada um. Bento XVI queria entregá-los ao seu sucessor, mas passou a considerar a divulgação de seu conteúdo antes mesmo que o conclave começasse. Com isso, ele tencionava neutralizar a influência de Bertone na eleição do novo papa, que queria eleger um "papa confiável" e continuar em seu posto.
O novo papa, ciente dos relatórios, deverá tomar as devidas providências sobre o assunto enquanto Bento XVI pairará como uma presença invisível. Se isso será o suficiente para livrá-lo da influência da "banda podre", como se passou a denominar os corruptos da Igreja, ninguém sabe. Porém, se consultarmos os Arquivos Secretos e voltarmos no tempo, poderemos ver que não é a primeira vez que ocorrem fatos dessa natureza na Santa Sé.

Os renunciantes
Bento XVI é o oitavo papa a renunciar em toda a história da Igreja Católica. Os outros sete estão listados no Dictionnaire Historique de La Papauté [Dicionário Histórico do Papado], obra assinada pelo eminente historiador francês Phillippe Levillain.
Pela ordem, os renunciantes são:
1. Martinho I (649-655)
2. Bento IV (900-903)
3. João XVIII (1003-1009)
4. Silvestre III (1045)
5. Bento IX (1047-1048)
6. Celestino V (1294)
7. Gregório XII (1406-1415)

A abdicação aceita
Um fato curioso é que, pouco antes de abdicar, Bento XVI esteve na Basílica Santa Maria di Colemaggio, em Aquila, para visitar o túmulo de Celestino V, um ídolo pessoal, um dos papas que abdicou. Sua renúncia foi a primeira a ter alguma controvérsia jurídico-teológica, pois a legitimidade de seu sucessor, Bonifácio VIII, teria sido questionada pela poderosa família romana Colonna, sob alguns argumentos: A autoridade pontifícia conferida por Deus por meio do Espírito Santo nos conclaves só pode ser retirada pelo próprio Deus. O "casamento" que une o papa à Igreja é indissolúvel. A renúncia de um pontífice não pode ser permitida porque abre flancos na Igreja.
Segundo registros oficiais, muitos dos quais estão nos Arquivos Secretos, Bonifácio VIII teve um papado sem maiores problemas.
A renúncia de um papa passou a ser prevista no Código de Direito Canônico, regulamento promulgado por João Paulo II que estabelece que o papa pode deixar o trono de Pedro apenas por vontade própria, como fez Ratzinger.
Os documentos referentes aos escândalos do pontificado de Bento XVI estão fatalmente fadados a ser trancados nos Arquivos Secretos. Quando eles vierem a público, talvez se esclareça de uma vez por todas o que levou um papa ao extremo de renunciar.
Porém, talvez já não estejamos mais vivos quando isso acontecer.

(Sérgio Pereira Couto - "Os arquivos secretos do Vaticano")

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publicado às 12:58


TORQUEMADA E A SANTA INQUISIÇÃO

por Thynus, em 29.04.13

 

 


Com o intuito de ser mais justo possível para com a Inquisição, tentei examiná-la através de seus próprios depoimentos. Confiei, exclusivamente, em fontes católicas ao colher o material para este capítulo, e, por conseguinte, considerarei a Inquisição sob o ângulo daqueles que a patrocinaram, que a defenderam no passado e estão prontos, em teoria ao menos, a defendê-la hoje.
Os primeiros cristãos, fiéis aos ensinamentos de Cristo, opunham-se a qualquer espécie de violência. Tertuliano negava o direito a qualquer cristão de servir no exército. “Certamente não faz parte da religião”, dizia ele, “forçar a religião. Ela deve ser abraçada livremente e não por coação.” Era esta também a doutrina de Orígenes e de Lactâncio. “Não há justificação para a violência”, escrevia Lactâncio, “pois a religião não pode ser imposta pela força.”
No século IV, contudo, houve uma mudança nos corações dos cristãos. Agostinho assegurava que em “alguns” casos era permitido matar descrentes. Optato estendia a pena de morte a “todos” os hereges, Agostinho e Optato são, hoje, venerados como santos. Na cidade de Verona queimaram vivos cerca de sessenta homens num mês.
Os bispos tinham ordens de assalariar informantes, cujo dever era denunciar todos os cristãos suspeitos, isto é, todos aqueles cuja maneira de viver divergia da dos católicos. Os bispos, então, examinavam estes cristãos e os puniam como achavam conveniente. Os bispos que deixassem de contribuir com suas quotas de hereges queimados eram, por ordem do Papa, depostos de seus cargos; quando mostravam muita clemência para com suas vítimas, eram ameaçados de prisão, sob a acusação de heresia. Deste modo, assegurava o Papa um constante fornecimento de seres humanos “para a glória do Senhor”, e casualmente também para a sua riqueza pessoal, pois que a Igreja confiscava a propriedade dos condenados. Os bispos, com todo o seu zelo, não eram nem suficientemente sedentos de sangue, nem bastante eficazes para satisfazer ao Papa.
A fim de descobrir todos os pecadores e exterminar todo o pecado da cristandade, eram necessários espiões treinados. De acordo com esse preceito, o Papa aceitou o auxílio de dominicanos. Estes, como estão lembrados, eram os sectários de Domingos, que santamente advogava o batismo pela espada. Agora, o Papa Gregório IX tirava vantagem desse treinamento dos dominicanos na arte da selvageria eclesiástica, e, com a sua ajuda, transformou a Inquisição num negócio poderoso e lucrativo. Numa carta que Gregório dirigiu aos dominicanos, delineava os seus deveres do seguinte modo:

“Logo ao chegar a uma cidade, convoquem os bispos, o clero e o povo, e preguem um solene sermão de fé; depois, façam uma seleção de certos homens de boa reputação para estes os ajudarem no julgamento dos hereges e de suspeitos denunciados nos seus tribunais. Todos os que, em exame, forem achados culpados ou suspeitos de heresia, serão obrigados a prometer obediência absoluta aos comandos da Igreja. Se eles recusarem, devem processá-los.”

Por que estava o Papa tão sedento de hereges? Só por uma razão: os hereges se opunham ao esplendor do Papa. Representavam os socialistas cristãos e os anarquistas filosóficos do mundo medieval. Foram os antepassados espirituais de Emerson e de Tolstoi. Havia vários grupos, tendo todos uma coisa em comum: acreditavam na doçura de Cristo e odiavam a arrogância dos padres. “Cristo”, diziam “não tinha onde descansar a cabeça, ao passo que os Papas vivem num palácio. Cristo rejeitava domínios terrestres, enquanto os Papas os exigem. O que tem o papado romano, com sua sede de riquezas e honrarias, em comum com o evangelho de Cristo?” Como aconteceu mais tarde com a seita dos quacres, os hereges pregavam contra a opressão, o ódio, a pena capital e a guerra. Suas teorias radicais, escreve Vacandard, “não eram só anticatólicas, mas antipatrióticas e anti-sociais”. E, assim, matando todos esses amantes da paz a Igreja agia simplesmente em defesa própria o crescimento de suas idéias devia ser embargado a todo custo. Ainda que fosse à custa da morte!

É interessante notar que esta não é a opinião de um padre medieval, e sim de um historiador católico moderno. O espírito da Inquisição, como parece, ainda está bem vivo em certos lugares, mesmo em nossos dias.

A Inquisição tomou a si o encargo de perseguir não somente os hereges, isto é, os cristãos que se desviassem do caminho ortodoxo, mas também os maometanos e os judeus. Os maometanos e os judeus que viviam na Europa cristã e particularmente na Espanha eram considerados bons combustíveis para a santa fogueira... não tanto porque seus corações se achassem repletos de pecados, mas porque seus cofres se achavam cheios de ouro. Primeiro, eram eles compelidos a aceitar a religião cristã, e depois eram assados vivos, na suposição de que fossem “maus” cristãos.
O homem que mais sobressaiu em zelo nas incinerações de maometanos e judeus foi Tomás de Turrecremata, ou como é mais geralmente conhecido, Tomás de Torquemada. Se Gregório IX foi o pai da Inquisição, Torquemada foi o seu produto mais perfeita. Tinha paixão por três coisas: oração, dinheiro e assassínios. Era um beato convicto — um dos animais humanos mais perigosos. Pensava que satisfazia a vontade de Deus matando seus semelhantes. Era um louco piedoso, investido pelo Papa com poder de dar vazão a toda sua loucura. Durante sua presidência da Inquisição, queimou cerca de dois mil homens e mulheres (alguns calculam o número em oito ou nove mil), e quebrou os ossos de dezenas de milhares de seres, com instrumentos de tortura. Servia igualmente de acusador, testemunha e juiz, e freqüentemente “dava uma ajudazinha” na câmara de tortura. Examinemos, rapidamente, o processo da Inquisição sob a direção de Torquemada.
Para começar, o inquisidor expedia uma intimação geral, ordenando que os hereges aparecessem à sua presença e abjurassem suas heresias dentro do prazo de trinta dias. Bem poucos, naturalmente, denunciavam-se espontaneamente. Ao findar o “período de graça”, todo católico era incitado a denunciar todos os habitantes da cidade que suspeitasse de heresia. Para culpar alguém, bastavam duas testemunhas e essas testemunhas podiam ser ladrões ou assassinos, desde que fossem cristãos confessos. Ao acusado, porém, não era permitido ter nem advogados, nem testemunhas. E, ainda mais, os nomes dos espiões e das testemunhas para a Inquisição não eram revelados ao acusado. Com todas as cartas assim dispostas contra ele, o prisioneiro achava-se virtualmente impossibilitado de provar a falsidade da acusação. Se se confessava cristão, era mandado para a prisão; se, por outro lado, insistisse em sua inocência, era levado à câmara de tortura.
Poder-se-ia escrever um livro interessante, embora bem pouco agradável, sobre os instrumentos de tortura empregados pelos inquisidores a serviço do Senhor. Mencionarei, rapidamente, apenas dois ou três.
Primeiro havia o Strappado. Vacandard, o moderno apologista da Inquisição, descreve-o como segue: “O prisioneiro, com as mãos amarradas para trás, era levantado por uma corda que passava por uma roldana, e guindado até o alto do patíbulo ou do teto da câmara de tortura; em seguida, deixava-se cair o indivíduo e travava-se o aparelho ao chegar o seu corpo a poucas polegadas do solo. Repetia-se isso várias vezes. Os cruéis carrascos, às vezes, amarravam pesos nos pés da vítima, a fim de aumentar o choque da queda.
“Depois havia a tortura pelo fogo. Colocavam-se os pés da vítima sobre carvão em brasa e espalhava-se por cima uma camada de graxa, a fim de que este combustível estalasse ao contato com o fogo. Os inquisidores estavam ali enquanto o fogo martirizava a vítima, e incitavam-na, piedosamente, a aceitar os ensinamentos da Igreja em cujo nome ela estava sendo tratada tão delicadamente e tão misericordiosamente. Para que houvesse um contraste com a tortura pelo fogo, também praticavam a da água.

“Amarrando as mãos e os pés do prisioneiro com uma corda trançada que lhe penetrava nas carnes e nos tendões, abriam a boca da vítima à força, despejando dentro dela água até que chegasse o ponto de sufocação ou confissão.”

Em suma, todas as imaginações bárbaras do espírito de Dante, quando escreveu o Inferno, foram incorporadas em máquinas reais que cauterizavam as carnes, esticavam os corpos e quebravam os ossos de todos aqueles que recusavam crer na branda misericórdia dos Inquisidores.
E agora citemos mais uma vez o Sr. Vacandard:

“De acordo com a lei, tortura só podia ser infligida uma vez, mas essa regulamentação era burlada facilmente ... quando desejavam fazer repetir a tortura, mesmo depois de um intervalo de alguns dias, infringiam a lei, não alegando que fosse uma repetição, mas simplesmente uma continuação da primeira tortura... Esse jogo de palavras dava margem à crueldade e ao zelo desenfreado dos inquisidores.”

Se, por fim, sob a dor que a tortura causava, a vítima prometesse ser um bom católico, era posta, geralmente, em prisão perpétua. Se, porém, recusasse a atirar-se nos braços da Igreja, era entregue às chamas. Teoricamente, como já observei, a Igreja fazia questão de dizer que nada tinha com o assassínio de suas vítimas. Apenas “retirava sua proteção” dessas criaturas e entregava-as à justiça. Tecnicamente falando, suas mãos ficavam limpas. Mesmo os historiadores modernos tentam salvá-la de todas as vergonhas em relação aos assassínios de homens e mulheres que cometeu. José de Maistre, escrevendo no século XIX, foi suficientemente ingênuo para fazer a seguinte observação surpreendente:

“Quando examinarmos a Inquisição, é preciso separar e distinguir muito cuidadosamente o papel da Igreja e o do Estado. Tudo o que há de horrível e cruel neste Tribunal, especialmente sua pena de morte, é devido ao Estado... Toda a clemência, por outro lado, que tem um papel tão preponderante no tribunal da Inquisição deve ser atribuída à Igreja.”

Na realidade, infelizmente, a Igreja não só condenava as suas vítimas, como também insistia sobre suas mortes. De acordo com uma lei estabelecida pelo Papa Inocêncio IV, o Estado era obrigado a queimar, dentro de um período de cinco dias, todos os prisioneiros condenados que a Igreja lhe confiasse. Todos aqueles príncipes que se recusassem a matar os condenados hereges eram prontamente excomungados pela Igreja.
Mas a mancha mais negra da Inquisição era o tratamento bárbaro dos filhos dos condenados. Quando queimava um homem, a Igreja confiscava suas propriedades. Não permitia aos filhos herdar um único vintém. A esta regra, contudo, far-se-ia uma exceção importante. E esta exceção era ainda mais desumana do que a regra. Os filhos de pais hereges podiam herdar uma parte de suas propriedades, desde que espionassem e denunciassem seus progenitores à Inquisição. Esta lei incrível, estabelecida por Frederico II, foi reforçada no texto da carta por muitos inquisidores e particularmente por Torquemada. De fato, os pais da Igreja não só acreditavam nesta lei, como também se orgulhavam dela. O Papa Gregório IX dizia que fazia bem a seu coração ver como as crianças se voltavam contra seus pais, por amor a Deus. “Deixai vir a mim os pequeninos”, dizia Cristo. E a santa irmandade da Inquisição respondia: “Sim, na verdade, Senhor! Nós deixaremos sofrer os pequeninos, de maneira que eles possam ir a Vós!”

Um dos principais atos da Inquisição, e o acontecimento culminante na vida de Torquemada, foi a expulsão dos judeus da Espanha. Em sua juventude, Torquemada foi o confessor da Princesa Isabel, que mais tarde veio a ser esposa do Rei Fernando. Tal como seu confessor fanático, Isabel era vingativa, estúpida, bárbara e devota. Prometera a Torquemada que devotaria sua vida inteira à exterminação da heresia.
Quando se tornou rainha da Espanha, encontrou um aliado entusiástico em seu marido. Fernando foi um dos reis mais cobiçosos. Era ávido em queimar os judeus porque suas propriedades, quando confiscadas pela Igreja, eram divididas entre os padres e ele. Quando Torquemada veio queixar-se a ele de que todos os judeus deviam ser expulsos da Espanha, escutouo avidamente, pois a expulsão dos judeus significaria uma pilhagem, por atacado, aos seus bens e ao seu ouro, uma parte substancial da qual tornar-se-ia ,sua propriedade pessoal. Com um simples golpe de pena poderia tornar-se o homem mais rico da Europa. Isabel, não sendo mais do que uma argila maleável nas mãos de um velho padre confessor,aderiu prontamente a seus planos. O decreto da expulsão dos judeus foi elaborado e apresentado aorei para ser assinado.
Entrementes, os judeus lançavam mão de tudo o que estava ao seu alcance para abrandar o coração do rei. Jogados de um lado para outro pelos ventos da intolerância religiosa, eles eram expulsos de uma região para outra. Tudo o que pediam agora ao Rei Fernando era que os deixasse em paz. Mandaram-lhe os oradores mais eloqüentes. Lembraram-lhe que eles o tinham ajudado a pagar as despesas de suas guerras com os mouros. Ofereceram-lhe um presente de 30.000 ducados — uma soma tentadora aos olhos do cobiçoso príncipe. Fernando, nada inclinado a escutar seus argumentos, estava pronto a considerar o ouro, quando Torquemada, precipitando-se no palácio real, segurando um crucifixo no ar, em suas mãos enrugadas — nesse tempo ele já tinha mais de setenta anos — berrou: “Eis aqui aquele Judas, que vendeu Jesus por 30 moedas de prata! Estais vós porventura pronto a vendê-lo por 30.000 moedas de prata novamente?” Não, trinta mil não era bastante. Torquemada subjugara a vontade do rei e da rainha. O edito contra os judeus foi assinado em 31 de março de 1492. De acordo com este edito, todo judeu residente em território espanhol deveria ser batizado dentro de quatro meses ou deixar o país para sempre. Trezentos mil preferiram o, exílio ao cristianismo. Permitia-se-lhes vender suas propriedades, mas os compradores esperavam astuciosamente até o último momento, quando podiam ditar seus próprios preços. Bernaldes, um autor contemporâneo, afirma ter visto judeus deixarem um palácio por um burro, e um vinhedo por uma peça de linho. Aos exilados era proibido levar qualquer porção de ouro consigo.
Tendo assim roubado os judeus e os lançado para fora do país, os cristãos regozijaram-se com suas barbaridades. “Eis aqui”, gritava o irmão dominicano Bleda, “o acontecimento mais glorioso da Espanha, desde o tempo dos apóstolos; agora a unidade da religião está assegurada; uma era de prosperidade está, realmente, para chegar.” Mas a esperada alvorada de prosperidade jamais chegou. Pelo contrário, a expulsão dos judeus marcou o começo do ocaso da prosperidade espanhola.
Ao serem expulsos da Espanha, os judeus não sabiam então para onde se dirigir, em busca de proteção. Um grande número deles lançou-se sob a misericórdia de Manuel, rei de Portugal. Mas o rei chamava-se a si próprio de cristão piedoso, Pilhou o que os judeus conseguiram salvar e ordenou-lhes então que deixassem o país. Esse “rei misericordioso” fez a sua manobra bem-feita. Roubou não só os bens dos judeus, como também seus filhos, pois expediu uma ordem secreta para seqüestrar todas as crianças judias menores de 14 anos, a fim de que fossem batizadas e educadas como cristãos.

Quanto a Torquemada, alimentava os fogos sagrados lançando nas chamas várias centenas de hereges, “Sua crueldade”, dizem seus admiradores, “explica-se pelo seu sincero desejo de salvar os hereges.” Tal como seu amado Tomás de Aquino, “ele consolava seu coração entristecido, refletindo que agia pelo bem da Igreja”. Pois convém notar que Torquemada ignorava que fosse cruel. Como todos os outros inquisidores, ele mutilava e assassinava suas vítimas misericordia et justitia — com misericórdia e justiça. Essa era a frase dos inquisidores quando sentenciavam suas vítimas a morrer queimadas.
Torquemada retirou-se da Inquisição com setenta e quatro anos e morreu dois anos depois, em 1498.
A Inquisição, porém, continuou até o século, XIX.

(Henry Thomas - "A HISTÓRIA DA RAÇA HUMANA")

 

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publicado às 20:51

 

O Papado, a suprema autoridade da Igreja Católica, é a mais antiga organização do Mundo e a única instituição que floresceu na Idade Média. Foi um actor privilegiado no Renascimento, foi um dos protagonistas da Reforma e da Contra-Reforma, da Revolução Francesa e da era industrial, da ascensão e queda do comunismo. Ao longo dos séculos, os papas, com base na sua famosa ”infalibilidade”, centralizaram o impacto social que os acontecimentos históricos produziam em todo o Mundo. O historiador Thomas Babington, no seu estudo sobre a história do protestantismo, afirmava que os papas souberam centralizar a Igreja, assim como souberam amortecer o seu impacto nos eventos históricos. Este autor acentuava mesmo a habilidade da Igreja para se apropriar ou se adaptar aos novos movimentos sociais que se formaram durante os séculos.
O imperador Napoleão Bonaparte considerava o Papado como ”um dos melhores ofícios do Mundo”, e Adolf Hitler dizia ser ”um dos mais perigosos e delicados da política mundial”. Napoleão comparava a força de um único papa com a força de um exército de duzentos mil homens. Na verdade, o Papado actuou sempre com duas caras ao longo de toda a História: a de cabeça da Igreja Católica em todo o Mundo e a de uma das maiores organizações políticas do planeta. Por um lado, os papas abençoavam os seus fiéis, por outro, recebiam embaixadores e chefes de Estado de diversos países e enviavam núncios e legados em missões especiais.

Este poder levou muita gente a encarar os papas mais como ”pais dos príncipes” do que como ”vigários de Cristo”. Os pontífices clamavam desde o século VIII a primazia e a jurisdição universal para os seus actos, até que, em 1931, com a criação da Rádio Vaticano, se tornou possível essa primazia e essa jurisdição ao estabelecer um permanente contacto com o Mundo. Ao longo da Reforma, Lutero atacava o Papado como um mal humano desnecessário. O historiador católico lorde Acton criticava a excessiva centralização do Papado e, após uma viagem a Roma, afirmava que ”o poder corrupto e o poder absoluto corrompem absolutamente”.
A história da Santa Aliança - o serviço de espionagem do Vaticano - não pode ser relatada sem se contar a história dos papas e a história dos papas não pode ser descrita sem se contar a história da Igreja Católica. O que está claro é que sem o catolicismo o papa não existiria e, como disse Paulo VI na sua encíclica Ecclesiam suam, ”sem o papa a Igreja Católica talvez não fosse católica”. O que é realmente verdade é que sem o poder real que os papas tiveram não existiria a Santa Aliança ou o Sodalitium Pianum, a contra-espionagem. Ambos fizeram parte dessa engrenagem que ajudaram a construir: a Santa Aliança desde a sua fundação em 1566 por ordem do papa Pio V e o Sodalitium Pianum (S. P.) desde a sua criação em 1913 por ordem do papa Pio X. 
Um outro historiador, Cario Castiglioni, autor de uma das melhores enciclopédias sobre os papas, chegou a escrever: ”A tripla tiara que os pontífices usam simboliza, sem dúvida, o poder destes no céu, na terra e no mundo terreno (underworld)”. É fácil explicar esta afirmação: no céu, o papa tem Deus, na terra, o papa basta-se a si mesmo e na clandestinidade (underworld) (1) o papa tem a Santa Aliança.

Apesar de a autoridade papal se ter alterado com as modernizações e renovações, tanto políticas como económicas, os interesses da Igreja foram sempre o motivo pelo qual se movimentaram os espiões do Vaticano. Os peritos vaticanistas asseguram que a Igreja e as estruturas papais nunca abandonaram a sua imagem de Império, ao mesmo tempo que observam que os aspectos de culto pela figura de um imperador foram simplesmente transferidos para a figura do papa.

Os quarenta papas que governaram, ou melhor, ”reinaram” desde a criação da Santa Aliança, desde Pio V até João Paulo II, tiveram de se confrontar com as descristianizações e cismas, revoluções e ditadores, colonizações e expulsões, perseguições e atentados, guerras civis e guerras mundiais, assassínios e sequestros. A política dos papas era um objectivo e a Santa Aliança apenas um poderoso instrumento para a levar a cabo. Do século XVI ao século XVIII, os inimigos com os quais o Papado e a Santa Aliança tiveram realmente de se debater foram os liberalismos, os constitucionalismos, as democracias, os republicanismos ou os socialismos. Mas nos séculos XIX e XX esses inimigos converteram-se em darwinismo, americanismo, modernismo, racismo, fascismo, comunismo, totalitarismo ou revolução sexual. No século XXI será a intromissão dos cientistas nas próprias questões religiosas, o bloco político único, a superpopulação, o feminismo ou o agnosticismo social.

Este facto vem demonstrar que, muitas vezes, a política vaticana e o seu serviço secreto andaram em paralelo, utilizando diferentes métodos com o único propósito de alcançar um mesmo objectivo. Por um lado, o papa negociava a paralisação de medidas contrárias a Roma e, por outro, a Santa Aliança e a ”Ordem Negra” intervinham na destruição dos seus inimigos.
 David Rizzio, Lamberto Macchi, Roberto Ridolfi, William Parry, James Fitzmaurice, Marco António Massia, Giulio Alberoni, Alexandre de Médicis, Giulio Guarnieri, Tebaldo Fieschi, Charles Tournon, John Bell ou Giovanni DaNicola foram alguns dos agentes da Santa Aliança que, através das suas operações, mudaram o curso da História desde meados do século XVI até ao século XXI.

Ludovico Ludovisi, Lorenzo Maggaloti, Olimpia Maidalchini, Sforza Pallavicino, Paluzzo Paluzzi, Bartolomeo Pacca, Giovanni Battista Caprara, Annibale Albani, Pietro Fumasoni Biondi ou Luigi Poggi foram alguns dos poderosos chefes da espionagem pontifícia que decidiram e realizaram, sempre em defesa da fé, várias operações encobertas, crimes políticos e de Estado ou meras ”liquidações” de figuras secundárias que interferiam na política do papa vigente e na de Deus no mundo.

Foram assassinados reis, envenenados diplomatas, apoiados grupos em conflito como norma da diplomacia pontifícia, fecharam-se os olhos a catástrofes e holocaustos, foram financiados grupos terroristas e ditadores sul-americanos, protegeram-se criminosos de guerra e lavou-se dinheiro da Máfia, manipularam-se mercados financeiros e falências bancárias, condenaram-se os conflitos enquanto se vendiam armas aos combatentes, e tudo isso em nome de Deus. A Santa Aliança e o Sodalitium Pianum foram os seus instrumentos.

Desde que o inquisidor Pio V, santificado anos depois, fundou a espionagem do Vaticano no século XVI com o único objectivo de acabar com a vida da herege Isabel I de Inglaterra e de apoiar a católica Maria Stuart, o Estado Vaticano nunca reconheceu a existência da Santa Aliança ou da contra-espionagem, o Sodalitium Pianum, embora se possa dizer que as suas operações foram um ”segredo público”. Simon Wiesenthal, o famoso caça-nazis, disse numa entrevista que ”o melhor e mais efectivo serviço de espionagem que eu conheço no Mundo é o do Vaticano”. O cardeal Luigi Poggi, que era conhecido como ”o espião do Papa” (João Paulo II), foi quem levou a cabo uma das maiores modernizações da Santa Aliança devido aos estreitos contactos com o Mossad israelita. Graças à sua importância, o serviço secreto israelita pôde desarticular um atentado contra a primeira-ministra Golda Meir na sua visita a Itália. Poggi seria também o responsável por utilizar os fundos do Vaticano necessários, através do IOR de Paul Marcinkus, para financiar o sindicato ”Solidariedade” dirigido por Lech Walesa, que seria uma operação conjunta entre a CIA de William Casey e a Santa Aliança.

Nos seus cinco séculos de história, a extensa sombra da Santa Aliança tornou-se visível nas lutas contra a rainha Isabel I de Inglaterra ou na carnificina na noite de São Bartolomeu; na aventura da Armada Invencível, no assassínio de Guilherme de Orange e do rei Henrique IV de França; na Guerra de Sucessão espanhola ou na crise com a França dos cardeais Richelieu e Mazarino; no atentado contra o rei dom José I de Portugal; na Revolução Francesa e em Austerlitz; na ascensão e queda de Napoleão, na guerra de Cuba e na de Secessão americana; nas relações secretas com o kaiser Guilherme II durante a Primeira Guerra Mundial ou com Adolf Hitler na Segunda Guerra Mundial; com o ”Oiro da Croácia” e com a organização ”Odessa”; na luta contra o grupo terrorista ”Setembro Negro”, Carlos o Chacal ou o comunismo; nas obscuras finanças do IOR e nas muito mais obscuras relações com a Maçonaria, a Máfia e o tráfico de armas; na criação de empresas financeiras em paraísos fiscais ou no financiamento de ditadores de direita como Anastasio Somoza ou Jorge Videla.

Durante os últimos cinco séculos da sua existência, as sociedades secretas dependentes da Santa Aliança, como o ”Circulo Octogonus” ou a ”Ordem Negra”, realizaram várias operações encobertas para serviços de espionagem de outros países, como o Mossad israelita ou a CIA norte-americana. Enquanto lutavam contra um inimigo claro, o terrorismo árabe ou o ”maléfico” comunismo, a Santa Aliança adaptou-se aos tempos e às situações que marcaram os Sumos Pontífices, porque, como disse um dia o todo-poderoso cardeal Paluzzo Paluzzi, chefe da Santa Aliança em meados do século XVII, ”se o Papa ordena liquidar alguém na defesa da fé, faz-se isso sem fazer perguntas. Ele é a voz de Deus e nós [a Santa Aliança] somos a sua mão executora”.

Este livro é apenas um breve ”trajecto”, feito durante cinco séculos de história, através das operações encobertas do poderoso serviço de espionagem do Estado da Cidade do Vaticano. Os sacerdotes-agentes do serviço de espionagem papal, a Santa Aliança, e da contra-espionagem, o Sodalitium Pianum, mataram, roubaram, conspiraram e atraiçoaram em nome de Deus e da fé católica às ordens do Sumo Pontífice. Os espiões do papa foram o símbolo perfeito da simbiose sob cujo lema actuaram: ”Pela Cruz e pela Espada”. Todos os factos que nestas páginas se relatam são reais, tal como o são todas as personagens que nelas se referem.

(1) - A palavra inglesa underworld significa também, para lá do mundo terreno ou clandestino, inferno, gente de má vida, mundo do vício ou de baixa moral.


(Eric Frattini -  "A santa aliança, cinco séculos de espionagem do Vaticano)

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publicado às 15:39


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