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Bergoglio e a Igreja do ‘não’

por Thynus, em 15.04.13
 
Nada como um dia após o outro, ensina a sabedoria popular. Com o novo papa, começam a aparecer indicativos consistentes de a renúncia de Ratzinger não decorrer apenas da falta de condições físicas e da situação de ingovernabilidade de uma Cúria mergulhada em escândalos e lutas intestinas pelo poder. Pelos indícios, Ratzinger parece ter-se conscientizado de estar fora de época e, assim, inadaptado para governar a Igreja.
Ratzinger mergulhou no obscurantismo e nada sobrou do jovem e renovador teólogo que auxiliou na elaboração dos trabalhos preparatórios do Concílio Vaticano II. Para Hans-Jürgen Schlamp, do Der Spiegel, o papado de Ratzinger foi trágico “pela sua incapacidade de entender os tempos”.
Durante o seu pontificado, prevaleceu a Igreja do “não” e a enfadonha repetição da condenação ao relativismo. Trocando em miúdos, a não aceitação, mundo afora, daquilo entendido por ele como princípios imutáveis e definitivos. No particular, Ratzinger levou a sério a infalibilidade estabelecida, em 1868, no Concílio Vaticano I e, também, o étimo do termo latino pontifex, ou seja, o de único guia capaz de conduzir por um caminho reto.
O emérito Ratzinger percebeu não possuir o carisma do antecessor Wojtyla para manter a Igreja do “não”. Além disso, escolheu o trapalhão Tarcisio Bertone para, como secretário de Estado, cuidar da Cúria. Para se ter uma ideia, Bertone, a misturar homofobia e ignorância, sustentou a correlação entre homossexualidade e pedofilia ( Veja: "O sol ainda gira em volta da terra?" ). Só para exemplificar, a Igreja do “não” de Ratzinger é aquela que nega a Eucaristia aos divorciados. De nada adiantou a pressão do Episcopado da Alemanha para a mudança. Mais ainda, é a Igreja do “não” à inseminação artificial, às pílulas anticoncepcional e do dia seguinte. A do “não” ao uso da camisinha e ao casamento de clérigos.
Também é a Igreja dos vetos ao testamento biológico, ao sacerdócio feminino (o antigo Santo Ofício, sob o cardeal Ratzinger, proibiu a divulgação, nos Estados Unidos, do livro Mulheres no Altar, da então sóror Lavinia Byner), à masturbação entre os adolescentes, ao sexo antes do casamento e à união homossexual. A que, segundo os prelados norte-americanos, adotou expressões inadequadas no novo “Catequismo da Igreja”. É aquela em que o papa Ratzinger reprova a nova tradução inglesa da Bíblia e de textos litúrgicos, por entendê-los “modernos e muito feministas”.
Nessa Igreja do “não” prevaleceu, durante anos, a lei do silêncio a encobrir crimes de pedofilia. A respeito, o teólogo Hans Küng frisou ter o então cardeal Ratzinger, em 28 de maio de 2001, recordado aos bispos do mundo todo que para as questões de ética sexual valia o segredo pontifício. E Küng: “Durante anos, e como pontífice, Ratzinger não mudou uma vírgula dessa praxe infeliz. Esse homem foi o responsável pela ocultação desses abusos em nível mundial e tinha o dever de pronunciar um mea-culpa”.
Para o lugar de Ratzinger buscou-se um papa de perfil diverso, humilde, popular, contra o fausto e a favor dos pobres. Muitos estão a comparar o papa Francisco ao saudoso Albino Luciani. Em agosto de 1978, com 101 votos dados por 111 participantes, Luciani, com o nome de João Paulo I, aboliu a missa de coroação e se recusava a sentar no trono nas cerimônias solenes. Luciani disse, sendo criticado por uma Cúria que o tachava de inadequado ao encargo, termos um Deus pai e mãe. E ele trombou com a Cúria ao afirmar que a Igreja não deveria contar com poder ou com riqueza. Sua intenção era, inicialmente, distribuir aos pobres 1% da riqueza da Igreja. A irritar o secretário de Estado Jean Villot, Luciani sustentou que não se deve proibir de modo simplista os anticoncepcionais, isso a contrariar a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI.
O pontificado de Luciani durou 33 dias. Na cabeceira do leito de morte estava um exemplar do Il Mondo, com novos escândalos do Banco do Vaticano, dirigido por Paul Marcinkus. Pouco antes, Luciani havia se inteirado de uma lista de clérigos inscritos na Loja Maçônica P2, protagonista do escândalo do Banco Ambrosiano. Do elenco constava Jean Villot, o secretário de Estado. (Veja:  "Às 9:30 da noite fechou a porta de seu quarto e o sonho acabou...")
A causa-morte de Luciani foi atestada como infarto do miocárdio. Mas cardiologistas registraram que o falecido não apresentava na face a expressão da dor que acomete todos os infartados. Não houve autópsia e correu a suspeita de envenenamento. Existem contradições sobre quem teria por primeiro ingressado no quarto papal. Em nota oficial, informou-se ter sido o secretário particular, John Magee. Na véspera, fora apontada a sóror-camareira Vincenza Taffarel. Uma terceira voz indicava Jean Villot, o dissidente secretário de Estado. Para o escritor investigativo inglês David Yallop, autor do livro Em Nome de Deus (6 milhões de cópias vendidas), a morte não foi natural.
Pano rápido. Vamos esperar para ver se Bergoglio, como tentou Luciani, será capaz de mudar a Igreja do “não” para a Igreja do “sim”.

(Wálter Maierovitch)
 

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publicado às 12:13

Porque há tantos padres pedófilos? Muitos pensam que este é um dos efeitos do celibato forçado, mas se fosse simplesmente isso, deveríamos verificar semelhanças estatísticas em situações similares de castidade obrigatória, que não confirmam esta tese. Além disso, se a condição de celibato tornou-se insustentável para o padre, porque não replicar na normal heterossexualidade adulta normal, mais ou menos clandestina?
Não, o comportamento pedófilo não pode ser explicado apenas pela repressão sexual, mesmo se exagerada e prolongada ao longo dos anos.
Embora a pedofilia seja um crime particularmente hediondo porque afeta as vítimas mais impotentes e indefesas, deve ser dito que ela evidencia um estado de regressão psíquica por parte de quem a pratica.
Um pedófilo não é nunca totalmente adulto, mas tenta, a nível inconsciente, re-evocar simbolicamente a sua própria infância. A falta de maturidade sexual da parte dos padres, marcada pela experiência do seminário, pode ter "fixado" o estado evolutivo psíquico num estádio pré-adolescencial.
Esta interpretação narcisista do comportamento pedófilo dos padres é confirmada pela observação da idade média das vítimas, geralmente entre 8 e 12 anos. Também deve ser notado que em quase todos os casos se trata de pedofilia homossexual, e também este elemento faz-nos compreender como o padre pedófilo tem conflitos pesados a resolver consigo mesmo, com a própria sexualidade, com a sua história e, especialmente, com a sua identidade .
A pedofilia é de qualquer maneira um fenômeno extremamente complexo, e não simplesmente uma expressão de tendências regressivas infantis em adultos (de outra forma os pedófilos seriam milhões!).
Deve ser considerado outro aspecto crucial: a relação sado-masoquista. Mesmo que não haja violência, é inegável que o pedófilo, para subjugar a vítima, se aproveita da sua autoridade como adulto e da sua superioridade física e psicológica.
É também evidente que o propósito do pedófilo não é dar prazer, mas obtê-lo, usando mesmo a própria presa como um brinquedo inofensivo. Portanto, há uma notável componente ideologicamente autoritária na pedofilia. Um autoritarismo que é expresso como uma necessidade de possessão doentia, invencível, de que não se pode escapar.
É muito significativo que, em muitos incidentes relatados nos mídia, se nota que os padres pedófilos geralmente não costumam tomar precauções especiais para esconder o seu comportamento perverso. No seu delírio de omnipotência (também ele de origem infantil) eles preferem confiar no silêncio das suas vítimas ao invés de implementarem os comportamentos desviantes em ambientes protegidos, talvez longe de seu ambiente.
Neste ponto, podemos avançar uma hipótese que talvez possa dar um sentido lógico a tudo o que foi exposto anteriormente, e que poderia, pelo menos em parte, explicar a relação recorrente entre comportamento pedófilo e condição de padre.
Em resumo, foram analisadas as principais componentes da pedofilia e encontramos regressão, autoritarismo, possessão doentia. Que coincidência: trata-se da essência mais íntima da teologia católica!
O catolicismo, entre todas as religiões do mundo, é de facto a única que oferece ao povo o maior número de símbolos infantis: não por acaso a personagem mais proposta, mais reverenciada, mais representada e respeitada é uma mãe. Então, como se faz com as crianças, são constantemente servidas promessas, ameaças, recompensas e punições. Raramente, ou talvez nunca, se fala de responsabilidade pessoal ou de decisões livres, comportamentos que são muito adultos. Os católicos só devem observar, seguir, acreditar, aderir, obedecer, confessar, arrepender-se, etc. Ser acéfalos!
Ainda falando de regressão infantil, note-se que o principal rito católico, bem como o comportamento mais meritório e santo, é um comportamento "oral", que é a Eucaristia. Que os bons cristãos deveriam comungar todos os domingos, lembra, por incrível que pareça, um velho clichê muito comum: "os bons meninos comem a papinha toda!". Mas não só: na liturgia católica insistiu-se, não por acaso, que a hóstia deveria ser recebida na boca das mãos do sacerdote, e não recebida nas mãos pelo comungante. Tal como acontece com uma mãe que alimenta a criança que não sabe ainda segurar na mão a colher.
Poucos notaram que, na época, houve um apelo do Papa João Paulo II sobre este tema, ou seja, o acolhimento da hóstia recebida do sacerdote na boca, uma vez que muitas igrejas estavam sem preconceitos a sofrer um processo de “protestantização” devido a esta formalidade aparentemente trivial, distribuindo a hóstia nas mãos dos fiéis. Mas alguns detalhes não escapam à igreja, porque conhece a sua enorme importância psicológica.
E é de facto assim que a igreja quer que sejam os seus súbditos: impotentes, inconscientes, crianças que se abandonam cegamente nas mãos de uma entidade protetora e reconfortante. Crianças que não podem sequer usar as mãos. Não por acaso, também os pedófilos precisam de sujeitos passivos e inconscientes. Curioso, não é?
O facto é que a criança violentada, vítima de um pedófilo, talvez o padre-pedófilo, é, assim, uma metáfora do católico perfeito: submisso, temeroso, silencioso, confiante de que o que acontece é para seu próprio bem.

O padre pedófilo não deixa de ser padre ("Tu es sacerdos in aeternum"), pelo contrário, talvez manifeste na forma mais eloquente e explícita a ideologia que a sua mente absorveu durante anos e anos, acabando por identificar-se com ela. Vejamos bem: os padres pedófilos, se descobertos, nunca “abandonam” o sacerdócio, ao contrário dos padres que tiveram "triviais" relações com mulheres. Além disso, dificilmente são suspensos das suas celebrações religiosas, no máximo, são transferidos "para evitar o escândalo."

Agora sabemos a razão: a pedofilia manifesta, na verdade, funções e significados profunda e intimamente "católicos", embora o padre pedófilo tenha o papel paradoxal de ser tanto vítima (seja dos seus problemas pessoais, seja de uma ideologia que é objectivamente nociva para o equilíbrio psíquico) como carrasco (porque comete abusos sem se preocupar com os danos indeléveis que causa nos outros).

A dinâmica "padre pedófilo-criança" é, portanto, uma metáfora eficaz para o relacionamento entre a igreja e os seus fiéis, entre a instituição possessiva e autoritária, e os seus seguidores ingênuos e "crianças".

Por outro lado, a igreja, batizando crianças inconscientes e “indoutrinando-as” desde a infância, observando bem, implementa as mesmas técnicas de aliciamento usadas pelos pedófilos, que, de facto, baseiam a sua sedução propriamente sobre o não conhecimento, sobre a não consciência e, finalmente, sobre o sentimento de temor reverencial que a vítima adverte "depois" do "batismo" ocorrido (neste caso, o termo deve ser interpretado com duplo sentido).

Em ambos os casos, estas crianças "vítimas" (seja de pedófilos, seja de igrejas pedófilas) conseguem apenas provar sentimentos de culpa, e não o oportuno e sacrossanto direito à sua integridade física e mental. Como todos os psicoterapeutas sabem muito bem, por experiência profissional, receber uma educação rigidamente católica não deixa menos efeitos adversos na personalidade do que os efeitos dos traumas psicológicos decorrentes do sofrimento de episódios de pedofilia. Antes, talvez os últimos, sendo mais circunscritos, possam ser superados mais facilmente.

Outra analogia simbólica entre pedofilia e catolicismo encontramo-la, nada mais nada menos, na Missa. O que é a Missa? A re-evocação do sacrifício de uma vítima inocente! O ritual do assim chamado “cordeiro” que é sacrificado no altar para “expiação dos nossos pecados."

Portanto, um padre que celebra a Missa, simbolicamente dramatiza (para a teologia católica, mesmo fisicamente) o "sacrifício de uma vítima inocente." Poderíamos dizer que, paradoxalmente, também os pedófilos "sacrificam vítimas inocentes." Isto é muito importante porque é o coração da ideologia católica. Acostumar a própria mente a pensar que sacrificar vítimas inocentes é um ritual sagrado, positivo, expiatório, purificador e do qual deriva o bem, pode certamente confundir o inconsciente, “habituando-o” a idéias subtilmente perversas e sacralizadas.

O padre pedófilo, estuprando crianças, por mais desviante e assustador que possa parecer, não faz outra coisa que “celebrar uma missa”, usando símbolos diferentes, mas evocando significados semelhantes, a saber: a vítima inocente acaba sacrificada. O seu sangue não é prova de violência humana, pelo contrário, ele "lava-nos” e purifica-nos! Além disso, coisas semelhantes aconteciam também em muitos antigos ritos religiosos. Quantos pobres animais foram torturados, mortos e sangrados para que os sacerdotes se iludissem, assim, de lavar a sua consciência e a dos outros!

Podemos assim concluir que o pedófilo, seja padre ou não, é uma pessoa com graves problemas, que de modo irracional, desviante e, sem dúvida, prejudicial para os outros, procura apenas a si mesmo e a sua identidade sexual. No caso em que o pedófilo é um padre, a situação é ainda mais complicada por causa da influência psíquica perniciosa da teologia que foi objeto dos seus estudos, da sua formação e da sua vida.

O silêncio da igreja, e as suas negações usuais da evidência, além disso, impedem a esses padres de serem curados, apoiados por especialistas em psicologia, talvez encaminhados a uma psicoterapia. E, porque não, mais estudados, para prevenir a contínua repetição destes fenómenos.

Obviamente a igreja preferiu manter os padres pedófilos, que continuariam a fazer vítimas inocentes, em vez de correr o risco de confrontar-se com mentes livres.

Só agora, depois de décadas de silêncio cúmplice ou ocultação de provas e após forte pressão (das vítimas ou de seus familiares, da sociedade e dos tribunais civis), a Igreja parece "disposta" a acabar com a omertà e a purgar os padres pedófilos. Mas, uma pergunta, não menos inquietante, paira no ar: o que deve mudar na Igreja para resolver a fundo esta "lixeira" no seu seio? É que não basta “excomungar” os padres pedófilos, também eles "vítimas" do obscurantismo católico.

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publicado às 11:01

Se Bento XVI, civilmenente Joseph Ratzinger, fosse conhecido como papa Francisco I ou Zeferino I, ao povo da Irlanda teria escrito a seguinte carta:
Senhoras e Senhores, mulheres e homens de Irlanda, não vos chamo «Caríssimas e carissimos filhas e filhos» como é uso adocicado nos documentos eclesiásticos e também porque não posso dirigir-me a vós com espressões afetuosas como se nada tivésse sucedido. Dirijo-me a vós, não com destaque, mas com temor e tremor, com respeito, mantendo a devida distância, em bicos de pés e consciente de que nenhuma palavra pode aliviar a vossa raiva, a vossa dor e a marca indelével que foi impressa na vossa carne viva. Não sou digno de dirigir-me a vós com palavras de afecto.
Escrevo para dizer-vos que em breve irei encontrar-vos, irei só, sem séquito e sem alardes: descalço e com a cabeça descoberta, humilde e penitente, sim, como convém a um "servo dos servos de Deus". Irei para ajoelhar-me diante de vós e pedir-vos perdão do fundo do coração porque sobre uma coisa não podemos, vós e eu, ter dúvidas: a responsabilidade de tudo o que envolveu os vossos filhos e filhas, rebentos inocentes, arruinados para sempre, é minha, só minha, exclusivamente minha. Assumo totalmente a responsabilidade da culpa de pedofilia de que se mancharam muitos padres e religiosos em institutos e colégios sob a jurisdição da Igreja católica.
Como bispo da Igreja Universal não tenho palavras e sentimentos para aliviar o trágico jugo que foi posto sobre as vossas costas. Fui por mais de um quarto de século chefe da congregação da doutrina da fé e não soube avaliar a gravidade do que estava acontecendo em todo o mundo: nos USA, na Irlanda, na Alemanha e agora também na Itália e, certamente, também em todos os outros países do mundo. A ferida é grande, generalizada e galopante e eu não fui capaz de ver a sua gravidade, o perigo e a ignomínia.
Preferi salvar o rosto da Instituição e, com este fim, em 2001 emanei um decreto em que advogava a mim os casos de pedofilia e impunha o «silêncio papal»: isto significa que quem falasse era excomungado «ipso facto», ou seja, imediatamente. Se houve “omertà” (silêncio imposto), se houve cumplicidade dos padres, religiosos, bispos e leigos, a culpa é minha e só minha. Para salvar a face da Igreja, acabei por condenar homens e mulheres, meninos e meninas que foram abatidos pela ignomínia do abuso sexual que é grave quando acontece entre adultos, mas é terrível, horrível, blasfema e delinquencial quando acontece sobre menores.

Não foram poucas pessoas que erraram. Iludi-me que assim fosse, mas agora noto amargamente que a responsabilidade está principalmente naquela estrutura que se chama «seminário», cujos critérios de formação, eu e outros líderes da Igreja lançamos, mantivemos e pretendemos que fossem actuados. Com os nossos métodos de educação pouco humanos e desencarnados, fizémos padres e religiosos devotos, mas divorciados da vida e da sua problemáta, homens e mulheres inconsistentes, prontos a obedecer porque sem espinha dorsal e sem personalidade.
Numa palavra criámos monstros sagrados que foram lançados sobre vítimas inocentes, apenas entraram em choque com a realidade que não souberam aguentar e com que não puderam confrontar-se. Personalidades infantis que abusaram de crianças sem sequer tomarem consciência do facto.
Hoje acho que uma grande responsabilidade está relacionada com o celibato obrigatório dos padres e religiosos, un sistema que hoje não funciona, como nunca funcionou na história da Igreja: por trás da fachada formal, muito poucos observaram este estato que em si mesmo é um valor, mas apenas se desejado por opção de vida, livre e consciente. Neste ponto, tomo o compromisso de colocar na ordem do dia o significado do celibato para que se chegue a um clero casado, mas também célibe por opção e apenas por opção.
Chego até vós, privado de toda a autoridade porque a perdi e de maõs vazias a pedir-vos perdão e em seguida, na cúria romana e nas igrejas locais, despedirei todos os que de qualquer modo estão implicados neste drama. Finalmemente, enquanto a justiça humana fará o seu papel, confiarei as pessoas responsáveis por estas ignomínias a um tratamento de saúde porque trata-se de mentes e corações doentes.

Finalmente, resignarei do cargo de papa e o farei desde a Irlanda, o país, talvez mais atingido. Retirar-me-ei num mosteiro para fazer penitência durante os dias que me restam porque falhei como padre e como papa. Não vos peço que esqueçais, suplico-vos que olheis em frente, sabendo que o Senhor que é Pai amoroso, de quem fomos indignos representantes, não abandona alguém e não permite que a angústia e o sofrimento tenham vantagem. Que Deus me perdoe, e com Ele, se puderdes, fazei-o vós também.
Com estima e tremor.
Roma, 19 de Março de 2010, memória de S. José, pai adotivo de Jesus
Francisco I, papa (ainda que por pouco tempo) da Igreja católica.

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publicado às 12:26

Foi quebrado o silêncio sobre o fenômeno da pedofilia entre os padres. As pessoas querem saber. Este livro recolhe as vozes e é o resultado do trabalho daqueles que durante anos trabalharam para recolher a verdade e denunciá-la. Contra uma conspiração de silêncio também apoiada pela hierarquia da Igreja preocupada antes de mais em não fazer emergir o fenômeno, e muito menos em pará-lo ou e em ajudar as vítimas. Dois dados, entre outros: em Itália os casos conhecidos de abusos de clérigos são cerca de cinqüenta, mas os relatórios e pedidos de ajuda são centenas. Menos de 10% do clero observa o celibato. A lista dos padres condenados por pedofilia é longa e está disponível. No livro são citados muitos desses episódios com nomes e sobrenomes. O de Don Pierangelo Bertagna (Abadia de Farneta, Arezzo) é o mais grave e chocante: em 2005, confessou ter abusado de 30 crianças entre 8 e 15 anos. Mas a intenção da autora (psicóloga e jornalista) é entender por que esta tragédia aconteceu. E dá a palavra a quem de dentro da Igreja vive de maneira contaditória o problema da sexualidade. Como é a educação nos seminários, quais são os hábitos, o que se faz. E eis que surge um quadro alarmante: a ausência de um desenvolvimento psico-sexual normal pode explicar a tendência à pedofilia. Não é uma coincidência que todas as dioceses dos E.U.A recentemente tenham fechado os seminários menores. A Convenção da ONU sobre os Direitos da criança (nunca assinada pelo Vaticano), proíbe o recrutamento fora do ambiente familiar. Mas, entretanto, em Itália, há ainda 123 seminários menores. O mesmo acontece em quase todos os países do Mundo onde a Igreja Católica se instalou.

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publicado às 07:43


Sexo e confessionário

por Thynus, em 24.05.10

" Querendo arrebatar-me a alma, o Divino Esposo mandou-me cerrar as portas da morada: perdi o fôlego, não pude absolutamente falar, perdi os sentidos, esfriaram-se-me as mãos e o corpo. O toque divino produziu-me dor aguda, ao mesmo tempo saborosa..." (Religião e sociedade)

Em PADRES, CELIBATO E CONFLITO SOCIAL: UMA HISTORIA DA IGREJA CATOLICA NO BRASIL, Kenneth P. Serbin afirma: O sacramento de penitência e o sexo estiveram no centro dos esforços do Concílio de Trento para reformar o clero... criou o confessionário moderno, que separa o padre do penitente por uma tela... Ironicamnete, a missa, as procissões e outras cerimónias religiosas tornaram-se ocasião para o flerte. O confessionário proporcionava a melhor oportunidade de iniciar uma ligação sexual. Só um padre tinha total acesso ao confessionário. Testemunhas da Inquisição mencionaram grande variedade de estratégias para marcar encontros. Freiras, prostitutas, escravas, mulheres pobres brancas e negras, assim como as donas e donzelas de elite, tinham com padres encontros românticos iniciados no confessionário. Ocasionalmente,padres e mulheres já se entregavam às preliminares ou se mastrubavam no confessionário. Padres ofereciam dinheiro ou absolvição dos pecados a mulheres em troca de sexo. Em outras ocasiões, simulavam praticar magia para encantar mulheres. Alguns faziam comentários sádicos ou persuadiam mulheres a falar sobre suas experiências sexuais.

E conclui: "Muitos padres faziam propostas sexuais a mulheres (e ocasionalmente a homens) na intimidade do confessionário. Alguns tinham as suas escravas como amantes .

O confessionário aparece pois como um local possível de sedução. "Mesmo que um penitente denunciasse um padre, a corte eclesiástica geralmente pegava leve com ele. Em Fevereiro de 1535, o,padre da paróquia de Almodóver foi acusado de vários abusos sexuais. Estes incluíam frequentar bordéis e praticar assédios no confessionário. Ele recusou-se a dar absolvição a uma jovem a té que ela fizesse sexo com ele. Seu castigo foi uma multa ridícula e o confirmamento em sua casa durante 30 dias... Com heresias, a coisa era bem diferente. (VIDA SEXUAL DOS PAPAS, por NIGEL CAWTHORNE). Afinal, a omertà da igreja de roma já vem de longe: o importante é salvaguardar a face, escondendo ou negando os crimes de seu clero.

"O sexo tornou-se de fato o ponto principal de um confessionário moderno. Segundo Foucault, o confessionário católico foi sempre um meio de controle da vida sexual dos fiéis. Envolvia muito mais que apenas as indiscrições sexuais, e tanto o padre quanto o penitente interpretavam a confissão de tais pequenos delitos em termos de uma ampla estrutura ética."

Mas o mesmo não acontece com a psicanálise?, perguntamo-nos. "A comparação da psicanálise com o confessionário é demasiado forçada para ser convincente. No confessionário assume-se que o indivíduo é prontamente capaz de fornecer a informação requerida. A psicanálise, contudo,supõe que os bloqueios emocionais, derivados do passado, inibam um autoconhecimento e uma autonomia de ação por parte do indivíduo." (A TRANSFORMAÇAO DA INTIMIDADE: SEXUALIDADE, AMOR E EROTISMO NAS SOCIEDADES ...por Anthony Giddens).

"Quem sabe, se dentro do confessionário, o padre não está com o pau na mão? E, depois, tudo em nome do Espírito Santo..." (Bernardo Elias Lahdo)

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publicado às 00:42

 

Uma carta de Paolo Farinella (padre)


Se Bento XVI, civilmenente Joseph Ratzinger, fosse conhecido como papa Francisco I ou Zeferino I, ao povo da Irlanda teria escrito a seguinte carta:
Senhoras e Senhores, mulheres e homens de Irlanda, não vos chamo «Caríssimas e caríssimos filhas e filhos» como é uso adocicado nos documentos eclesiásticos e também porque não posso dirigir-me a vós com espressões afetuosas como se nada tivésse sucedido. Dirijo-me a vós, não com destaque, mas com temor e tremor, com respeito, mantendo a devida distância, em bicos de pés e consciente de que nenhuma palavra pode aliviar a vossa raiva, a vossa dor e a marca indelével que foi impressa na vossa carne viva. Não sou digno de dirigir-me a vós com palavras de afecto.
Escrevo para dizer-vos que em breve irei encontrar-vos, irei só, sem séquito e sem alardes: descalço e com a cabeça descoberta, humilde e penitente, sim, como convém a um "servo dos servos de Deus". Irei para ajoelhar-me diante de vós e pedir-vos perdão do fundo do coração porque sobre uma coisa não podemos, vós e eu, ter dúvidas: a responsabilidade de tudo o que envolveu os vossos filhos e filhas, rebentos inocentes, arruinados para sempre, é minha, só minha, exclusivamente minha. Assumo totalmente a responsabilidade da culpa de pedofilia de que se mancharam muitos padres e religiosos em institutos e colégios sob a jurisdição da Igreja católica.
Como bispo da Igreja Universal não tenho palavras e sentimentos para aliviar o trágico jugo que foi posto sobre as vossas costas. Fui por mais de um quarto de século chefe da congregação da doutrina da fé e não soube avaliar a gravidade do que estava acontecendo em todo o mundo: nos USA, na Irlanda, na Alemanha e agora também na Itália e, certamente, também em todos os outros países do mundo. A ferida é grande, generalizada e galopante e eu não fui capaz de ver a sua gravidade, o perigo e a ignomínia.
Preferi salvar o rosto da Instituição e, com este fim, em 2001 emanei um decreto em que advogava a mim os casos de pedofilia e impunha o «silêncio papal»: isto significa que quem falasse era excomungado «ipso facto», ou seja, imediatamente. Se houve “omertà” (silêncio imposto), se houve cumplicidade dos padres, religiosos, bispos e leigos, a culpa é minha e só minha. Para salvar a face da Igreja, acabei por condenar homens e mulheres, meninos e meninas que foram abatidos pela ignomínia do abuso sexual que é grave quando acontece entre adultos, mas é terrível, horrível, blasfemo e delinquencial quando acontece sobre menores.

Não foram poucas pessoas que erraram. Iludi-me que assim fosse, mas agora noto amargamente que a responsabilidade está principalmente naquela estrutura que se chama «seminário», cujos critérios de formação, eu e outros líderes da Igreja lançamos, mantivemos e pretendemos que fossem actuados. Com os nossos métodos de educação pouco humanos e desencarnados, fizémos padres e religiosos devotos, mas divorciados da vida e da sua problemáta, homens e mulheres inconsistentes, prontos a obedecer porque sem espinha dorsal e sem personalidade.
Numa palavra criámos monstros sagrados que foram lançados sobre vítimas inocentes, apenas entraram em choque com a realidade que não souberam aguentar e com que não puderam confrontar-se. Personalidades infantis que abusaram de crianças sem sequer tomarem consciência do facto.
Hoje acho que uma grande responsabilidade está relacionada com o celibato obrigatório dos padres e religiosos, un sistema que hoje não funciona, como nunca funcionou na história da Igreja: por trás da fachada formal, muito poucos observaram este estato que em si mesmo é um valor, mas apenas se desejado por opção de vida, livre e consciente. Neste ponto, tomo o compromisso de colocar na ordem do dia o significado do celibato para que se chegue a um clero casado, mas também célibe por opção e apenas por opção.
Chego até vós, privado de toda a autoridade porque a perdi e de maõs vazias a pedir-vos perdão e em seguida, na cúria romana e nas igrejas locais, despedirei todos os que de qualquer modo estão implicados neste drama. Finalmemente, enquanto a justiça humana fará o seu papel, confiarei as pessoas responsáveis por estas ignomínias a um tratamento de saúde porque trata-se de mentes e corações doentes.

Finalmente, resignarei do cargo de papa e o farei desde a Irlanda, o país, talvez mais atingido. Retirar-me-ei num mosteiro para fazer penitência durante os dias que me restam porque falhei como padre e como papa. Não vos peço que esqueçam, suplico-vos que olheis em frente, sabendo que o Senhor que é Pai amoroso, de quem fomos indignos representantes, não abandona alguém e não permite que a angústia e o sofrimento tenham vantagem. Que Deus me perdoe, e com Ele, se puderdes, fazei-o vós também. Com estima e trepidação.
Francesco I, papa (ainda por pouco tempo) da Igreja católica.

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