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Padres gays, orgias e filhos clandestinos são parte da rotina do Vaticano, descreve jornalista italiano em livro

"Os dois acompanhantes lhe homenageiam, espremendo-o no meio, em um sanduíche. Envolvem-no em uma dança muito sensual. Esfregam-se, rodeiam, esmagam-se, abrem a sua camisa, o acariciam, tocam nele. Dirty dancing a três em uma variação homossexual. O grupo olha para eles de cima a baixo. Apreciam. Aplaudem. Incitam. Assobiam. Cutucam. O francês [no meio dos acompanhantes] é um padre. Poucos dias antes havia celebrado a missa da manhã na basílica de São Pedro. No Vaticano."
A cena é de uma festa em Roma, uma entre as muitas nas qual padres, bispos e cardeais exercem a sexualidade que as regras da sua própria Igreja Católica restringem e condenam, de acordo com a descrição feita pelo jornalista italiano Carmelo Abbate em seu novo livro, "Sex and the Vatican -  viaggio segreto nel regno dei casti" (em tradução livre, "Sexo e o Vaticano - viagem secreta no reino dos castos").
O fenômeno da sexualidade na Igreja Católica, segundo o autor, é gigantesco e complexo. Fazem parte deste mundo os padres gays que optam por uma vida dupla; os sacerdotes que se relacionam com mulheres clandestinamente; e mesmo os filhos desses relacionamentos, que são abortados, escondidos ou privados de um pai pela vida inteira, para que se evite escândalos.
“Entre os sacerdotes que não respeitam a castidade, há muitos que têm uma verdadeira vida paralela, uma companhia fixa com a qual não apenas fazem sexo, mas com quem vivem uma vida escondida, como marido e mulher", afirmou Abbate, em uma entrevista exclusiva ao UOL Notícias.
O jornalista conta que a investigação, nascida de uma reportagem publicada na revista italiana "Panorama", terminou como um extenso mergulho nesse mundo, munido de uma câmera escondida para garantir "provas sobre aquilo que iria contar".
E apesar de ter seu foco em Roma, Abbate garante que o cenário que ele descreve não está restrito ao núcleo do Vaticano. "Da Alemanha à França, da Espanha à Irlanda, da Suíça à Áustria, da Polônia à África, da América Latina aos Estados Unidos e ao Canadá. Acontece a mesma coisa em toda parte do mundo", afirma.
Procurada pela reportagem, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) disse que não tinha conhecimento do livro e por isso não poderia comentar os temas citados.

Acompanhe os principais trechos da entrevista.

UOL Notícias: Em seu livro, o senhor denuncia vários casos de padres que têm uma vida religiosa tradicional ao mesmo tempo em que também exercem sua sexualidade. Como o senhor fez a investigação para chegar a essas histórias? Qual era o seu objetivo em publicar o livro?
Carmelo Abbate: Realizei a reportagem com uma câmera escondida, isso com o objetivo de ter provas sobre aquilo que iria contar. O objetivo do meu trabalho é trazer à tona a vida escondida de grande parte do clero católico, como padres que têm uma vida sexual secreta, tanto homossexuais quanto heterossexuais. Há padres que têm uma companhia fixa e até mesmo filhos.
E me choca especialmente a atitude da alta hierarquia eclesiástica, o comportamento dos bispos, quando tomam conhecimento das relações secretas dos religiosos, as tentativas de convencer as mulheres a abortarem, dar o filho para adoção, os contratos que garantem o sustento e compram o silêncio das mães com relação à identidade dos pais destas crianças.
UOL Notícias: O senhor diz que o Vaticano conhece a questão dos padres gays e mesmo dos abortos. Quais são as verdadeiras dimensões do fenômeno?
Abbate: Coletar dados para dimensionar o fenômeno é uma tarefa difícil. Difícil porque, como é óbvio, não há estudos e tabelas oficiais, é preciso se contentar com estimativas parciais, que não têm a pretensão de trazer a verdade científica, mas que podem ajudar a entender quão grande é o terreno sobre o qual caminhamos.
As tentativas mais articuladas vêm dos Estados Unidos. Segundo vários estudos do psiquiatra Richard Sipe, ex-monge beneditino e ex-sacerdote, 25% dos padres americanos tiveram relações com mulheres depois da ordenação. Outros 20% estiveram envolvidos em relações homossexuais ou se identificam como homossexuais ou se sentiram em conflito com essa questão.
No Brasil, o Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) realizou uma pesquisa anônima com 758 padres católicos: 41% admitiram ter tido relações sexuais. Metade se diz contrária ao celibato.
Vamos à Europa. Eugene Drewermann, escritor, crítico, teólogo e ex-padre, afirma que na Alemanha, em um total de 18 mil sacerdotes, pelo menos seis mil vivem com uma mulher.
O jornal “The Guardian” fala de milhares de casos de filhos de padres católicos no Reino Unido. Segundo Pat Buckley, bispo irlandês que fundou um grupo de apoio para amantes de padres, pelo menos 500 mulheres na Irlanda têm uma relação com um padre católico.
E na Itália? Nada de nada. Ninguém nunca tentou esboçar qualquer levantamento. E tente entrar em contato com os psiquiatras que acompanham os casos mais difíceis de padres envolvidos em affaires sexuais. Evitam você como se fosse a peste.
UOL Notícias: Então seria possível afirmar que este é um fenômeno presente no mundo inteiro?
Abbate: Da Alemanha à França, da Espanha à Irlanda, da Suíça à Áustria, da Polônia à África, da América Latina aos Estados Unidos e ao Canadá. Acontece a mesma coisa em toda parte do mundo, não só em Roma e nas vizinhanças do Vaticano.
UOL Notícias: O seu livro conta de padres que procuram espaços para expressar a sexualidade, seja em bares, seja na internet, com perfis secretos no Facebook nos quais assumem a homossexualidade, mas que ao mesmo tempo não desejam abandonar a vida religiosa. Depois de tudo que o senhor conheceu, como vê exigência do celibato?
Abbate: O celibato não funciona, é óbvio. Nunca funcionou. O sexo é onipresente. Estão envolvidos nesses casos não só padres, mas bispos e cardeais. A cultura do sigilo que permeia a Igreja existe há milênios, ditada pelos eclesiásticos. Os eclesiásticos são um círculo restrito que controla toda a igreja e detém todo o poder, e o poder exige um nível de sigilo. O resto do mundo que fique na ignorância.
UOL Notícias: O Vaticano nega os casos? Como reage a Igreja?
Abbate: Para o Vaticano, o centro do problema é o escândalo, não o pecado individual. Porque o escândalo vai além da questão individual e alcança a instituição, alimenta uma série de dúvidas fortes sobre quem é envolvido. O escândalo coloca o problema de uma Igreja que mantém a seu serviço aqueles que não cumprem com sua missão universal, aqueles que traem essa missão. Em resumo, o escândalo afugenta os fiéis da Igreja.
Durante o tempo em que estive envolvido com essa questão, entendi uma coisa: a Igreja não quer problemas. O respeito aos pobres fiéis ingênuos, salvo raríssimas exceções, é fator secundário. Muito diligente nas declarações de princípio, muito hipócrita nas questões práticas: esta é hierarquia vaticana. Esta é a Igreja de Roma. Seu primeiro mandamento é salvaguardar sua espécie, uma espécie a caminho da extinção.
 
Uma pesquisa com câmera escondida, seguida por testes rigorosos e controles cuidadosos. Durante 20 dias Carmelo Abbate, jornalista da revista Panorama, acompanhado por um "cúmplice" gay, se infiltrou nas noites quentes de alguns padres que, em Roma, levam uma vida dupla incrível: de dia são sacerdotes em trajes clericais, e à noite, tirando a batina, são homens perfeitamente integrados nos ambientes homossexuais da capital. Daqui emergiu uma investigação sobre o campo que permitiu descobrir um realidade inédita e deveras inquietante: sacerdotes que participam de festas noturnas com os homens escort; que têm relações homossexuais com parceiros casuais; que frequentar clubes de bate-papo e encontros gay.
 Neste texto a seguir, o autor descreve como Michele, um italiano gay de 25 anos, conhece um padre francês em uma sauna de Roma. (Tradução livre do original)

Michele passa. Olha. Eles se olham. Depois volta. Passa de novo. A mão agarra na toalha e o puxa para dentro de uma cabine.
Beijam-se, tocam-se, amam-se. Não é um encontro de sexo casual como de costume. Tudo é muito suave, tranquilo, educado, leve. Belo. Alcançado o orgasmo, a mão se esgueira até Michele. Aconchega-se ao seu lado, o abraça, em silêncio. Cochilam.
O despertar não é desconfortável. Apresentam-se, a mão quer saber o que Michele faz da vida, onde mora, quantos anos tem.
- "E você, de onde é?", diz Michele.
- "Sou francês", diz a mão.
- "E o que faz em Roma?", diz Michele.
- "Estudo teologia", diz a mão.
- "Ah, vá!", diz Michele.
- "Sim", diz a mão.
- "Legal", diz Michele.
- "Mas você entendeu?", diz a mão.
- "Claro", diz Michele.
- "Se quer me fazer uma pergunta, pode fazer", diz a mão.
- "Você é um padre?", diz Michele.
- "Sim", diz a mão. 
(...)
Michele pergunta como pode um padre não conseguir seguir o ensinamento da Igreja. Como pode não ser coerente com as coisas que prega no púlpito. Não julga. Pergunta. A mão não se esquiva. Responde. Quer ser compreendido. Fala da beleza e da grandeza do Senhor, da importância do credo. E de como um padre é antes de tudo um homem, e só depois um padre.
(Thiago Chaves-Scarelli)


Como é que o lóbi 'gay' conseguiu infiltra-se nos muros do Vaticano? Como é que a Igreja católica romana ficou refém do lóbi 'gay'? Talvez a resposta esteja no relato do livro de Carmelo Abbate.

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publicado às 17:00


Mulheres que se apaixonam por padres

por Thynus, em 16.06.13

 

Mulheres que engravidam de padres e recebem dinheiro para abortar ou encaminhar o filho para adoção. Um jornalista italiano investigou meses o assunto e traz revelações.

 Uma mulher infeliz no casamento abre o coração para alguém bastante confiável. Ele a conforta e os dois criam um laço de amizade que vira ternura, que vira paixão avassaladora. O moço é bastante charmoso e a entende como ninguém. Os encontros se tornam mais e mais frequentes até que ela deixa o marido e acaba engravidando do novo namorado, que pede: “Aborte ou dê a criança para adoção”. Mas a moça não concorda – aliás, sente que o mundo acaba de se abrir sob seus pés. Logo a campainha da casa dela toca. É o superior do rapaz com um envelope em uma das mãos e um contrato na outra. São 50 mil dólares em troca de silêncio. Nunca, em hipótese alguma, ela poderá revelar o nome do pai de seu filho, um padre.
Casos como esse não são incomuns na Igreja, garante Carmelo Abbate, jornalista italiano que lançou em alguns países da Europa e no Canadá o polêmico livro Sex and the Vatican – Viaggio Segreto nel Regno dei Casti (Sexo e o Vaticano – viagem secreta pelo reino dos castos), ainda sem tradução no Brasil. Católico, Abbate fez a reportagem “As noites selvagens dos padres gays” para a revista semanal italiana Panorama, em que fala sobre homens de batina que organizam orgias homossexuais, mantêm famílias fora do Vaticano ou simplesmente engatam romances com jovens sonhadoras e esposas insatisfeitas. Intrigado com o que encontrou, decidiu continuar a investigar o assunto munido de uma câmera escondida, mergulhando em uma investigação que durou meses. Casos de pedofilia e de padres que exercem livremente a sexualidade não são novidade – continuam como feridas expostas da religião. Mas outro dado desconcertante lança mais lenha na fogueira santa: quem são essas mulheres que, em pleno século 21, aceitam viver como criminosas, reféns do amor por um homem ou do medo pela integridade do bebê? Abbate ouviu o relato de várias e também dos “filhos do pecado”, como são chamadas as crianças nascidas desses relacionamentos, que mais parecem ficção.
“Muitas tentam colocar um ponto final no relacionamento, mas têm recaídas. Quando o padre bate à porta no meio da noite, acham difícil resistir”

Amor proibido: mulheres que se apaixonam por padres

 O que leva um católico praticante a expor os podres da própria crença?
Justamente por ser católico, não posso viver como se não fosse, fingindo que os podres não existem. Algumas das coisas que conto no livro me machucam antes de mais nada, mas me lembram também que nunca devemos deixar de lutar por aquilo em que acreditamos. Além disso, sou um repórter. É meu trabalho fazer investigações desse tipo, sejam elas dolorosas ou não.
Por que uma mulher começa a se relacionar com um homem que fez voto de castidade?
Elas se apaixonam de verdade. São jovens que frequentam a igreja local e ficam fascinadas pela figura do padre, geralmente um homem solitário e carente de afeição e de um corpo para amar. Muitas vezes, essas mulheres são casadas e até têm filhos, mas estão infelizes no relacionamento. Elas procuram os homens da Santa Sé em busca de conforto e acabam encontrando alguém que sente o que elas sentem, que as entende como ninguém. Começa então uma vida em segredo, feita de encontros furtivos, promessas e mentiras. Muitas tentam colocar um ponto final no relacionamento, mas têm recaídas. Quando o padre bate à porta no meio da noite, acham difícil resistir. O sentimento é complexo, porque acabam vivendo um misto de paixão intensa e culpa enorme. No fundo, acham que são a causa do sofrimento de um homem que é “forçado” a se esconder e manter vida dupla.
Quando engravidam, recebem de alguém a orientação para que abortem ou encaminhem para adoção?
É comum que os padres, os colegas ou o superior tentem convencê-las a tirar a criança ou encaminhar para adoção. São acompanhadas por enviados da Igreja a clínicas de aborto, mas muitas desistem no último momento. Então, costumam receber ofertas em dinheiro para que os “filhos do pecado” cresçam em silêncio.
E se elas não concordam?
Em geral, não recebem nenhum tipo de intimidação direta. Mas o clero tem um poder de influência extremamente forte na sociedade, especialmente nesses casos em que as vítimas são mulheres que se envolvem em histórias proibidas e saem delas com a autoestima e a autoconfiança devastadas.

Padres podem viver com mulher e filhos

Você se lembra de algum caso mais marcante?
São muitos. A americana Cait Finnegan, que é casada com um ex-padre, fundou no começo dos anos 1980 a ONG Good Tidings (goodtidingsministry.org) para apoiar mulheres nessa situação. Ela já falou com aproximadamente 2 mil e tem cópias dos contratos firmados com a Igreja. Uma das moças, Terri, disse a Cait que, depois do nascimento do filho, o padre alegou estar apaixonado por outra, que “o amava muito mais”. A justificativa: também grávida dele, a mulher não se recusara a dar a criança para a adoção. Outro caso é o de Judy. Ela era professora em Maine, nos Estados Unidos, e tinha 28 anos quando conheceu o reverendo Marcel, oito anos mais velho. Os dois viveram uma história de amor cheia de carinho, atenção e cumplicidade até que ela engravidou e tudo mudou. Marcel a colocou no carro e dirigiu rumo à clínica de aborto em Nova York. No último segundo, Judy decidiu que não faria aquilo. A viagem de volta aconteceu em silêncio absoluto e ela achou que fosse morrer. Dias depois, um colega do padre foi à casa dela levando uma mensagem: “Deixe o estado e dê a criança para adoção. Os custos serão todos pagos pela Igreja”. Outro prelado chegou com 3 mil dólares para pagar as despesas médicas do aborto. Ela recusou todas as ofertas e quando o filho, Christian, hoje com 37 anos, completou 11, recorreu à Justiça e conseguiu ressarcimento financeiro e um valor mensal para ajudar na criação do garoto até que completasse 18 anos.
O que acontece a essas crianças se em algum momento da vida tentam conhecer o pai?
Elas não são assumidas. Por exemplo, Charles, um menino de 3 anos, um dia saiu da escolinha aos prantos: “Mamãe, por que eu tenho de fazer aquelas lembrancinhas chatas de Dia dos Pais se eu nem tenho pai?” A mãe respondeu que tinha, sim, só que ele estava longe. “Vamos ligar!” “Não há telefone lá...” “Então a gente pega um trem.” “Nenhum chega até onde ele mora...” Com o coração apertado, ela ligou para o padre e ouviu que aquilo não era problema dele.
Há padres que vivem com mulher e filhos?
Em países como Alemanha, Áustria e Suíça, muitos padres estão nessa situação porque a sociedade não se sente ofendida – considera normal que mantenham uma família. Na Alemanha, de acordo com uma pesquisa recente, um em cada três. Na Itália, a situação é bem diferente, e as histórias se desenrolam por baixo do pano. Não há dados oficiais. A família dessas mulheres sabe da situação delas? Não, elas mantêm tudo em segredo, para se preservar. São poucas as que tentam transpor o muro do silêncio. Porque a Igreja defende a conduta dos padres, tentando encobrir os escândalos – não se importa com o que acontece com elas nem tenta resolver. Então, o tratamento que recebem é o de amantes do clérigo.
Na sua opinião, um homem consegue abrir mão de sua sexualidade?
Celibato não funciona. É loucura pensar que um ser humano pode suprimir a sexualidade. Só para citar alguns dados, de acordo com estudos do psiquiatra Richard Sipe, ex-padre beneditino, 25% do clero americano teve romances com mulheres depois da ordenação, 30% são gays e outros 20% se envolveram em relacionamentos homossexuais. No Brasil, o Centro de Estatística Religiosa e Investigação Social (Ceris) conduziu uma pesquisa garantindo o anonimato dos participantes. De 758 padres ouvidos, 41% admitiram ter feito sexo – e metade deles se declarou contra o celibato. O jornal inglês The Guardian fez uma reportagem mencionando a existência de milhares de crianças que são fruto de relacionamentos como esses.

O que significa o abandono do voto de castidade

Por que alguém faz um voto de castidade e depois vai contra a própria escolha? Você acha que a primeira intenção é pura?
A maioria tem boas intenções – o problema é o que acontece depois, desde os tempos do seminário. A mortificação dos desejos pregada dentro da Igreja acaba empurrando muitas dessas pessoas para o lado oposto, o da obsessão sexual.
Acredita que seu trabalho vai mudar alguma coisa?
O processo de mudança vai ser bem lento e difícil porque não existe uma resposta favorável da Igreja. Mas, se os problemas relacionados à sexualidade não forem olhados com a atenção que merecem, a credibilidade da Igreja Católica será destruída para sempre.
Alguma vez pensou em abandonar o catolicismo?
Não. Sou e continuarei sendo católico, mas quero viver em uma Igreja mais transparente, sincera e aberta a todos: gays e lésbicas, separados e divorciados. Sonho com um catolicismo que seja realmente a casa de Deus, onde toda forma de amor seja bem-vinda.

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publicado às 02:27


O Papa Francisco, um novo João XXIII

por Thynus, em 16.06.13

 


1. Quando naquele dia 28 de Outubro de 1958 Angelo Giuseppe Roncalli foi eleito papa, escolhendo o nome de João XXIII, pensou-se que, atendendo à idade, seria um papa de transição. Rapidamente, porém, os mais atentos se aperceberam de que ele chegara para renovar a Igreja. Concretamente, convocando o Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos decisivos na história do século XX - houve quem o considerasse até o acontecimento mais importante do século -, operou uma verdadeira revolução na Igreja Católica, com consequências fundamentais para o mundo inteiro.
Era um homem bom, generoso, simples, cristão. Próximo das pessoas - na noite da abertura do Concílio Vaticano II, em 11 de Outubro de 1962, observou que até à Lua o acontecimento não passara indiferente e saudou a todos, solicitando que fôssemos bons uns para com os outros e pedindo aos pais que levassem um beijo do papa para os filhos -, era ao mesmo tempo um conhecedor do mundo: a carreira diplomática levou-o, em tempos conturbados, à Bulgária, Grécia, Turquia e França.
Na inauguração do Concílio, tinha dito que "devemos discordar dos profetas de desgraças, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo". A Igreja, que quer servir a humanidade com a luz de Cristo e aprender a discernir "os sinais dos tempos", "prefere nos nossos dias usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade: julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que condenando erros".
Seis meses depois dessa abertura e quando já se encontrava gravemente doente, publicou, com a data de 11 de Abril de 1963, a encíclica Pacem in Terris, considerada por alguns como a mais importante da história, com imenso eco na opinião pública mundial. Nela, proclama-se a exigência da paz, fundamentada no reconhecimento da dignidade inviolável e dos direitos inalienáveis de todos os seres humanos.
Pelo seu sorriso, bondade, humildade, simpatia, capacidade de renovação a favor da liberdade, verdade e dignidade, ficou conhecido como o "Papa bom". Morreu no dia 3 de Junho de 1963 - neste ano de 2013 celebra-se o cinquentenário da sua morte e da publicação da Pacem in Terris - e foi chorado por todos, crentes e não crentes, políticos e intelectuais de várias ideologias e gente do povo.
2. Quando no passado dia 13 de Março o Papa Francisco apareceu à multidão, simples, quase tímido, inclinando-se e pedindo a bênção e a oração dos fiéis, muitos pensaram que podia vir aí um novo João XXIII. E não têm faltado sinais a confirmar a intuição. Ficou na Casa de Santa Marta, evitando os apartamentos pontifícios; não se esquece dos pobres; anuncia sem cessar o amor, a misericórdia e o perdão de Deus; quer a transparência na Igreja; critica o carreirismo eclesiástico; beija as crianças e os deficientes; recebe sem pompa e senta-se no meio do povo, depois de celebrar a Missa; lavou os pés a mulheres, incluindo uma muçulmana... Pela simplicidade, cordialidade, serviço, Francisco conquistou a simpatia de todos, crentes e não crentes. O Evangelho avança como notícia boa e felicitante.
Mas a Igreja, uma estrutura complexa, também precisa, e urgentemente, de reformas. E Francisco está na disposição de implementá-las, apesar das dificuldades. Os media fizeram-se eco da notícia em todo o mundo. "Reflexión y Liberación", esclareceu entretanto que as declarações atribuídas ao Papa podem não ser completamente textuais, mas exprimem "o seu sentido geral". Numa conversa cordial com a Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos (CLAR), Francisco disse o que já se sabia, mas agora é dito por ele: "Na Cúria há gente santa, mas também uma corrente de corrupção. Fala-se do lóbi gay, e é verdade: está aí." E advertiu contra certos grupos restauracionistas. "A reforma da Cúria romana é algo que quase todos os cardeais pedimos, nas congregações que precederam o conclave. Eu também a pedi. A reforma não posso fazê-la eu." Mas confia na comissão de oito cardeais de todo o mundo, nomeada por ele: "Vão levá-la por diante."

(Anselmo Borges)

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publicado às 01:54

 

O clérigo foi punido após dizer que a Igreja precisa “analisar criticamente aquilo que está acontecendo na sociedade” 

 

 

A Igreja Católica decidiu excomunhar, na segunda-feira 29, o padre de uma paróquia em Bauru (SP) que criticou, durante uma cerimônia, o tratamento oferecido pelo Clero aos homossexuais. O vídeo, hospedado no site Youtube, gerou uma forte repercussão nas redes sociais e causou impacto na Diocese da região.
No vídeo, Roberto Francisco Daniel, mais conhecido como Padre Beto, defendeu que a “hoje em dia não dá mais para enquadrar o ser humano em homossexual, bissexual ou heterossexual” e “que o amor pode surgir em qualquer desses níveis”.
Segundo o padre Beto, a Igreja precisa “analisar criticamente aquilo que está acontecendo na sociedade”. Para ele, é necessário “ter humildade de ver que o Espírito Santo sopra onde Ele quiser”.
As declarações do padre, que é historiador e jornalista, culminaram na exigência de um pedido de retratação e na posterior excomunhão do clérigo por heresia e cisma.
Em seu perfil no Facebook, o padre escreveu que não vai retirar nenhum material postado por ele nas redes sociais, em seu site ou em qualquer outro espaço na internet. E reiterou: “A Igreja precisa ser um espaço dialogal para que as pessoas possam transcender de fato e se tornarem verdadeiros filhos de Deus em nosso universo contemporâneo. Se refletir é um pecado, eu sempre fui e sempre serei um Pecador”.
Segundo ele, o único objetivo de suas falas é fazer com que as pessoas se aproximem mais da vivência do amor pregado por Cristo nos Evangelhos.
Na mesma nota, ele disse preferir se desligar da Igreja a cumprir com a retração exigida pelo Bispo Dom Frei Caetano Ferrari. De acordo com o comunicado da Diocese de Bauru, “em nome da ‘liberdade de expressão’, (o padre Beto) traiu o compromisso de fidelidade à Igreja à qual ele jurou servir no dia de sua ordenação sacerdotal”. A carta elenca como motivos do desligamento do padre a recusa do diálogo e da colaboração.
Apoio. Ao menos mil fiéis lotaram a paróquia de São Benedito no domingo 28 para participar da missa de despedida do padre Beto. Durante a celebração, ele afirmou: “O mandamento do amor não é um mandamento, é algo vivo. Não se força, acontece. Cristo amou o ser humano como ser humano em si. Sem olhar rosto, sem olhar raça, sem olhar religião, sem olhar sexualidade. Cristo amou o ser humano, mas não se prendeu a preconceitos. É justamente assim que devemos amar. Temos que romper os preconceitos da nossa cabeça”.
“Vou continuar minha vida procurando, através de minhas reflexões, contribuir para a construção de uma sociedade mais humana e dialogal”, escreveu em seu perfil no facebook.
Confira a íntegra do comunicado de excomungação de Padre Beto abaixo:

Comunicado ao povo de Deus da Diocese de Bauru


É de conhecimento público os pronunciamentos e atitudes do Reverendo Pe. Roberto Francisco Daniel que, em nome da “liberdade de expressão” traiu o compromisso de fidelidade à Igreja a qual ele jurou servir no dia de sua ordenação sacerdotal. Estes atos provocaram forte escândalo e feriram a comunhão eclesial. Sua atitude é incompatível com as obrigações do estado sacerdotal que ele deveria amar, pois foi ele quem solicitou da Igreja a Graça da Ordenação.

 

O Bispo Diocesano com a paciência e caridade de pastor, vem tentando há muito tempo diálogo para superar e resolver de modo fraterno e cristão esta situação. Esgotadas todas as iniciativas e tendo em vista o bem do Povo de Deus, o Bispo Diocesano convocou um padre canonista perito em Direito Penal Canônico,  nomeando-o como juiz instrutor para tratar essa questão e aplicar a “Lei da Igreja”, visto que o Pe. Roberto Francisco Daniel recusa qualquer diálogo e colaboração. Mesmo assim, o juiz tentou uma última vez um diálogo com o referido padre que reagiu agressivamente, na Cúria Diocesana, na qual ele recusou qualquer diálogo. Esta tentativa ocorreu na presença de 05 (cinco) membros do Conselho dos Presbíteros.

 

O referido padre feriu a Igreja com suas declarações consideradas graves contra os dogmas da Fé Católica, contra a moral e pela deliberada recusa de obediência ao seu pastor (obediência esta que prometera no dia de sua ordenação sacerdotal), incorrendo, portanto, no gravíssimo delito de heresia e cisma cuja pena prescrita no cânone 1364, parágrafo primeiro do Código de Direito Canônico é a excomunhão anexa a estes delitos. Nesta grave pena o referido sacerdote incorreu de livre vontade como consequência de seus atos.

 

A Igreja de Bauru se demonstrou Mãe Paciente quando, por diversas vezes, o chamou fraternalmente ao diálogo para a superação dessa situação por ele criada. Nenhum católico e muito menos um sacerdote pode-se valer do “direito de liberdade de expressão” para atacar a Fé, na qual foi batizado.

 

Uma das obrigações do Bispo Diocesano é defender a Fé, a Doutrina e a Disciplina da Igreja e, por isso, comunicamos que o padre Roberto Francisco Daniel não pode mais celebrar nenhum ato de culto divino (sacramentos e sacramentais, nem mais receber a Santíssima Eucaristia), pois está excomungado. A partir dessa decisão, o juiz instrutor iniciará os procedimentos para a demissão do estado clerical para enviar a Roma o procedimento penal para sua “demissão de estado clerical".

 

Com esta declaração, a Diocese de Bauru entende colocar “um ponto final” nessa dolorosa história.

 

Rezemos para que o nosso Padroeiro Divino Espírito Santo, “que nos conduz”, ilumine o Pe. Roberto Francisco Daniel para que tenha a coragem da humildade em reconhecer que não é o dono da verdade e se reconcilie com a Igreja, que é “Mãe e Mestra”.

 

 

Bauru, 29 de abril de 2013.

 


 

Por especial mandado do Bispo Diocesano, assino os representantes do Conselho Presbiteral Diocesano.

 

 

(Padre que defendeu homossexuais é excomungado)

 

 

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A NÃO ESQUECER


A excomunhão das vozes discordantes do sistema tem sido uma constante da Igreja romana, sobretudo a partir de Inocêncio III (1160-1216) até aos nossos dias. Não admira que essa Igreja, dogmática e preconceituosa, perca cada vez mais seguidores e se converta cada vez mais numa "seita". "A Igreja Católica corre risco de se transformar numa grande seita ocidental" (L. Boff)

 

"Inocêncio III, Conde de Segni, tornou-se Papa com a idade de 37 anos, era um soberano nato: teólogo educado em Paris, jurista astuto, hábil orador, administrador inteligente e refinado diplomata. Nunca antes ou depois teve um papa tanto poder como ele. A revolução desde cima (Reforma Gregoriana) iniciada por Gregório VII, no século XI atingiu seu alvo com ele. Em vez do título de "Vigário de Pedro", ele preferia para  cada bispo ou sacerdote o título usado até ao século XII de "Vigário de Cristo" (Inocêncio IV converteu-o incluso em "Vigário de Deus"). Ao contrário do primeiro século e sem nunca alcançar o reconhecimento da Igreja apostólica Oriental, o Papa se comportou desde então, como um monarca, legislador e juiz de todo o cristianismo ... até agora.
Com Inocêncio III manifestaram-se os primeiros sintomas de nepotismo e corrupção no Vaticano. Pode acontecer que Inocêncio III tenha sido o único papa que, por causa das qualidades extraordinárias e poderes que tinha a Igreja, poderia ter determinado outro caminho completamente diferente; isso poderia poupar-lhe o cisma e o exílio do papado dos séculos XIV e XV, bem a Reforma Protestante da Igreja do século XVI. Não há dúvida de que,no século XII, isso teria tido como consequência uma mudança de paradigma dentro da Igreja Católica que não iria dividir a Igreja, mas sim a teria renovado e, ao mesmo tempo, teria reconciliado as igrejas ocidental e oriental.
O pontificado de Inocêncio III não só acabou sendo uma culminação, mas acima de tudo um ponto de viragem. Já na sua época se manifestaram os primeiros sintomas de decadência que, em parte, têm sobrevivido até hoje como sinais de identidade do sistema da cúria romana: o nepotismo, a extrema ganância, a corrupção e os negócios financeiros duvidosos." (Hans Küng)

 

Não podemos esquecer sequer a vida escandalosa dentro dos muros do Vaticano:
Inocêncio III escutava a leitura do relatório do legado papal Arnaldo Amalric, que informava sobre o assassinato de sete mil albigenses, todos mulheres, crianças e idosos, enquanto fornicava com uma empregada doméstica; Inocêncio IV atiçava o fogo da Inquisição enquanto fornicava com escravos, tanto homens como mulheres, e, depois, mandava açoitá-los; João XII, estuprador de peregrinas, mulheres casadas, viúvas, meninas e crianças, morreu por causa de uma martelada na cabeça acertada por um marido ciumento; Bento VII foi assassinado pelo esposo, ciumento, da mulher com quem ele estava na cama; Inocêncio III entrou para a história como um dos mais famosos colecionadores de objetos e jogos eróticos da época; Inocêncio VIII, o papa que assinou a bula Summis desiderantes affectibus desencadeando uma das mais ferozes perseguições contra as bruxas, apreciava fazer prisioneiras jovens mulheres para depois deflora-las e enviá-las para a fogueira, evitando assim qualquer indiscrição; Leão X, papa homossexual, tinha que montar a cavalo sentado de lado por causa de úlceras anais de que sofria, como resultado de seus muitos encontros amorosos em becos escuros de Roma, e forçou mais de sete mil prostitutas da Cidade eterna a entregar uma parte de seus ganhos à mais alta autoridade da Igreja, ou seja, a ele mesmo; Paulo IV, finalmente, passava seus dias comissionando aos escritores obras eróticas com que preenchia suas longas noites, enquanto uma empregada doméstica ou uma nobre dama o masturbava.
 Não se deve esquecer, nem mesmo os papas que transformaram a tiara em objeto do desejo de familiares e amigos: Bento IX era sobrinho de João XIX, que por sua vez tinha sucedido a seu irmão, Bento VIII, neto de João XII; João XI era filho ilegítimo de Sergio III; João XXIII era o filho ilegítimo de um bispo; Paulo I sucedeu a seu irmão, Estêvão II; o Papa Silvério foi gerado a partir do sémen do papa Hormisdas; Inocêncio I foi fruto do sémen do Papa Anastácio I; Bonifácio VI era o filho de um bispo; o papa Romano era irmão do Papa Martinho e ambos eram filhos de um sacerdote.” (Eric Frattini - I Papi e il Sesso)

 

Salvo raras exceções, é esta cúpula da Igreja de Roma preconceituosa, inquisitorial, discriminatória e persecutória que tem prevalecido até aos nossos dias. Uma Igreja que tem caminhado no sentido contrário ao do avanço da ciência e do conhecimento, bem como de Francisco de Assis e do Evangelho:
  • No espírito de Inocêncio III, a Igreja é uma Igreja da riqueza, do arrivismo e da pompa,  da extrema ganância e dos escândalos financeiros. Em vez disso, no espírito de São Francisco, a Igreja é uma Igreja da política financeira transparente e da vida simples, uma igreja que está mais preocupado com os pobres, os fracos e os mais desfavorecidos, que não acumula riquezas ou capital, mas que luta ativamente contra a pobreza e proporciona condições de trabalho exemplares para seus trabalhadores.
  • No espírito do Papa Inocêncio III, a Igreja é uma Igreja do domínio, da burocracia e da discriminação, da repressão e da Inquisição. Em vez disso, no espírito de São Francisco (1182-1226), a Igreja é uma Igreja do altruísmo, do diálogo, da fraternidade, da hospitalidade, mesmo dos inconformistas, do serviço despretensioso aos superiores e da comunidade social solidária que não exclui da Igreja novas forças e idéias religiosas, mas outorga-lhes um caráter frutífero.
  • No espírito de Inocêncio, a Igreja é uma Igreja da imutabilidade dogmática, da censura moral e do regime legal, uma Igreja do medo, do direito canônico que regula tudo e da escolástica que sabe tudo. Em vez disso, no espírito de Francisco, a Igreja é uma Igreja da mensagem alegre e do regozijo, de uma teologia baseada no Evangelho simples, que escuta as pessoas em vez de as endoutrinar desde cima, que não só ensina, mas também está constantemente aprendendo com elas." (Hans Küng)

Pelo exposto acima, no comunicado de excomunhão do P.e Beto, a Igreja é "Mãe e Mestra". Igreja "Mãe e Mestra" ou Madrasta? Nunca vi uma mãe segregar ou apartar os seus filhos, mas vejo a Igreja romana "excomungar" quem (como P.e Beto e tantos outros), lucidamente, se manifesta contra o preconceito e mentira dessa mesma Igreja. Será que esta Igreja é dona da verdade? Será que apenas existe a verdade da Igreja romana? Ou será que para o bispo de Bauru o Sol ainda gira à volta da Terra? Contrariamente aos ensinamentos de Francisco de Assis e do Evangelho, Dom Caetano, que até é franciscano, pura e simplesmente, renega os princípios da humildade onde cresceu e se formou. É preciso ser muito cara de pau, Dom Caetano! Bem prega frei Tomás... A Declaração de excomunhão por parte do Conselho Presbiteral da Diocese de Bauru acaba por reduzir o seu bispo à sua nulidade e insignificância:

"O padre (ou seja, o bispo) deprecia e profana a natureza: esse é o preço para que possa existir. – A desobediência a Deus, ou seja, a desobediência ao padre, à lei, agora porta o nome de “pecado”; os meios prescritos para a “reconciliação com Deus” são, é claro, precisamente os que induzem mais eficientemente um indivíduo a sujeitar-se ao padre; apenas ele “salva”. Considerados psicologicamente, os “pecados” são indispensáveis em toda sociedade organizada sobre fundamentos eclesiásticos; são os únicos instrumentos confiáveis de poder; o padre vive do pecado; tem necessidade de que existam “pecadores”... Axioma Supremo: “Deus perdoa a todo aquele que faz penitência” – ou, em outras palavras, a todo aquele que se submete ao padre.” (“O Anti cristo”, F. Nietzche).



HIPERLINKS:
* VÍTIMAS DA PEDOFILIA: UMA METÁFORA DO CATÓLICO PERFEITO
* In Hoc Signo Vinces
* A caça às bruxas
* Esquecer 500 anos de massacres?
* A Inquisição e as mulheres
* O Culto à Virgem Maria e a Cultura de Submissão da Mulher
* O inconsciente da Igreja
*A vergonha da Igreja sobre José Saramago
*Sexo e Contradições na Igreja Católica
*A Verdade é a Vida!
*Pedofilia: padres vítimas do estigma
*A CAÇA ÀS BRUXAS (INQUISIÇÃO)
*"Os homens nunca fazem o mal tão plenamente e com tanto entusiasmo como quando o fazem por convicção religiosa". (B. Pascal)
*Deus e dignidade
* Os hereges e a Inquisição
* Budismo versus cristianismo
*Igreja "casta e putana"
*Inquisição
*Inquisição
* TORQUEMADA E A SANTA INQUISIÇÃO
* A Santa Inquisição
* Inquisição - As acusações
*Verdades reveladas e verdades alcançadas
* Celibato obrigatório, o veneno que asfixiou a Igreja romana
* PECADO ORIGINAL, PRINCÍPIO DO "MAL" OU INÍCIO DA "CIÊNCIA"?
* O beijo de Judas e o beijo de Constantino

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publicado às 07:01

HANS KÜNG é seguramente um dos maiores teólogos católicos e de toda a cristandade. Escreveu dezenas de livros sobre os mais diversos temas da teologia e da filosofia. Foi colega de Joeph Ratzinger na Universidade de Tübingen, na Alemanha. Questionou o uso indevido que se fazia da infalibilidade do Papa e foi condenado pela Congregação da Doutrina da Fé. Tiraram-lhe o título de teólogo católico mas continuou na Universidade lecionando temas ligados à mundialização, à etica global, ao ecumenismo e ao estudo das religiões. Escreveu livros fundamentais sobre o islamismo e o judaismo. Criou um Instituto sobre Ethos Mundial, onde se fazem minuciosos estudos sobre  economia,  globalização, ecologia  e  ética Durante anos trabalhamos juntos na revista internacional Concilium da qual, por 20 anos, fui responsável por sua edição em portugues. Companheiros de destino e de tribulação, nos tornamos velhos amigos com intercâmbio frequente de correspondência. O artigo que agora publicamos dele vai na linha daqueles que eu escrevi nesse blog. Vale a pena ler esse texto, extremamente bem fundado historicamente, cheio de esperança e, ao memo tempo, com grande senso de realismo, sabendo como correm as coisas dentro da Igreja Católica. O Papa Francisco pode representar o melhor que podemos ter na Igreja, na esteira do espírito de Francisco de Assis. Não lhe é permitido fracassar. Todos devemos secundá-lo. Caso contrário a Igreja Católica corre risco de se tarnsformar numa grande seita ocidental, cada vez mais acidental. Isso não pode acontecer, pois se romperia a Tradição de Jesus e de seu sonho de uma humanidde de libertos que descobriram através da experiência do Nazareno que todos somos filhos e filhas de Deus no Filho e por issso todos irmãos e irmãs uns dos outros. 
(LBoff)

 

 

¿Quién lo iba a pensar? Cuando tomé la pronta decisión de renunciar a mis cargos honoríficos en mi 85º cumpleaños, supuse que el sueño que llevaba albergando durante décadas de volver a presenciar un cambio profundo en nuestra Iglesia como con Juan XXIII nunca llegaría a cumplirse en lo que me quedaba de vida.

 

Y, mira por dónde, he visto cómo mi antiguo compañero teológico Joseph Ratzinger —ambos tenemos ahora 85 años— dimitía de pronto de su cargo papal, y precisamente el 19 de marzo de 2013, el día de su santo y mi cumpleaños, pasó a ocupar su puesto un nuevo Papa con el sorprendente nombre de Francisco.

 

¿Habrá reflexionado Jorge Mario Bergoglio acerca de por qué ningún papa se había atrevido hasta ahora a elegir el nombre de Francisco? En cualquier caso, el argentino era consciente de que con el nombre de Francisco se estaba vinculando con Francisco de Asís, el universalmente conocido disidente del siglo XIII, el otrora vivaracho y mundano vástago de un rico comerciante textil de Asís que, a la edad de 24 años, renunció a su familia, a la riqueza y a su carrera e incluso devolvió a su padre sus lujosos ropajes.

 

Resulta sorprendente que el papa Francisco haya optado por un nuevo estilo desde el momento en el que asumió el cargo: a diferencia de su predecesor, no quiso ni la mitra con oro y piedras preciosas, ni la muceta púrpura orlada con armiño, ni los zapatos y el sombrero rojos a medida ni el pomposo trono con la tiara. Igual de sorprendente resulta que el nuevo Papa rehúya conscientemente los gestos patéticos y la retórica pretenciosa y que hable en la lengua del pueblo, tal y como pueden practicar su profesión los predicadores laicos, prohibidos por los papas tanto por aquel entonces como actualmente. Y, por último, resulta sorprendente que el nuevo Papa haga hincapié en su humanidad: solicita el ruego del pueblo antes de que él mismo lo bendiga; paga la cuenta de su hotel como cualquier persona; confraterniza con los cardenales en el autobús, en la residencia común, en su despedida oficial; y lava los pies a jóvenes reclusos (también a mujeres, e incluso a una musulmana). Es un Papa que demuestra que, como ser humano, tiene los pies en la tierra.

 

El pontífice no quiso ni la mitra con oro, ni los zapatos, ni el pomposo trono con la tiara Todo eso habría alegrado a Francisco de Asís y es lo contrario de lo que representaba en su época el papa Inocencio III (1198-1216). En 1209, Francisco fue a visitar al papa a Roma junto con 11 hermanos menores (fratres minores) para presentarle sus escuetas normas compuestas únicamente de citas de la Biblia y recibir la aprobación papal de su modo de vida “de acuerdo con el sagrado Evangelio”, basado en la pobreza real y en la predicación laica.

 

 

Inocencio III, conde de Segni, nombrado papa a la edad de 37 años, era un soberano nato: teólogo educado en París, sagaz jurista, diestro orador, inteligente administrador y refinado diplomático. Nunca antes ni después tuvo un papa tanto poder como él. La revolución desde arriba (Reforma gregoriana) iniciada por Gregorio VII en el siglo XI alcanzó su objetivo con él. En lugar del título de “vicario de Pedro”, él prefería para cada obispo o sacerdote el título utilizado hasta el siglo XII de “vicario de Cristo” (Inocencio IV lo convirtió incluso en “vicario de Dios”). A diferencia del siglo I y sin lograr nunca el reconocimiento de la Iglesia apostólica oriental, el papa se comportó desde ese momento como un monarca, legislador y juez absoluto de la cristiandad… hasta ahora.

 

 

Pero el triunfal pontificado de Inocencio III no solo terminó siendo una culminación, sino también un punto de inflexión. Ya en su época se manifestaron los primeros síntomas de decadencia que, en parte, han llegado hasta nuestros días como las señas de identidad del sistema de la curia romana: el nepotismo, la avidez extrema, la corrupción y los negocios financieros dudosos. Pero ya en los años setenta y ochenta del siglo XII surgieron poderosos movimientos inconformistas de penitencia y pobreza (los cátaros o los valdenses). Pero los papas y obispos cargaron libremente contra estas amenazadoras corrientes prohibiendo la predicación laica y condenando a los “herejes” mediante la Inquisición e incluso con cruzadas contra ellos.

 

Pero fue precisamente Inocencio III el que, a pesar de toda su política centrada en exterminar a los obstinados “herejes” (los cátaros), trató de integrar en la Iglesia a los movimientos evangélico-apostólicos de pobreza. Incluso Inocencio era consciente de la urgente necesidad de reformar la Iglesia, para la cual terminó convocando el fastuoso IV Concilio de Letrán. De esta forma, tras muchas exhortaciones, acabó concediéndole a Francisco de Asís la autorización de realizar sermones penitenciales. Por encima del ideal de la absoluta pobreza que se solía exigir, podía por fin explorar la voluntad de Dios en la oración. A causa de una aparición en la que un religioso bajito y modesto evitaba el derrumbamiento de la Basílica Papal de San Juan de Letrán —o eso es lo que cuentan—, el Papa decidió finalmente aprobar la norma de Francisco de Asís. La promulgó ante los cardenales en el consistorio, pero no permitió que se pusiera por escrito.

 

Francisco de Asís representaba y representa de facto la alternativa al sistema romano. ¿Qué habría pasado si Inocencio y los suyos hubieran vuelto a ser fieles al Evangelio? Entendidas desde un punto de vista espiritual, si bien no literal, sus exigencias evangélicas implicaban e implican un cuestionamiento enorme del sistema romano, esa estructura de poder centralizada, juridificada, politizada y clericalizada que se había apoderado de Cristo en Roma desde el siglo XI.

 

Con Inocencio III se manifestaron los primeros síntomas de nepotismo y corrupción del Vaticano. Puede que Inocencio III haya sido el único papa que, a causa de las extraordinarias cualidades y poderes que tenía la Iglesia, podría haber determinado otro camino totalmente distinto; eso habría podido ahorrarle el cisma y el exilio al papado de los siglos XIV y XV y la Reforma protestante a la Iglesia del siglo XVI. No cabe duda de que, ya en el siglo XII, eso habría tenido como consecuencia un cambio de paradigma dentro de la Iglesia católica que no habría escindido la Iglesia, sino que más bien la habría renovado y, al mismo tiempo, habría reconciliado a las Iglesias occidental y oriental.

 

 

De esta manera, las preocupaciones centrales de Francisco de Asís, propias del cristianismo primitivo, han seguido siendo hasta hoy cuestiones planteadas a la Iglesia católica y, ahora, a un papa que, en el aspecto programático, se denomina Francisco: paupertas (pobreza),humilitas (humildad) y simplicitas (sencillez).

 

Puede que eso explique por qué hasta ahora ningún papa se había atrevido a adoptar el nombre de Francisco: porque las pretensiones parecen demasiado elevadas.

 

Pero eso nos lleva a la segunda pregunta: ¿qué significa hoy día para un papa que haya aceptado valientemente el nombre de Francisco? Es evidente que tampoco se debe idealizar la figura de Francisco de Asís, que también tenía sus prejuicios, sus exaltaciones y sus flaquezas. No es ninguna norma absoluta. Pero sus preocupaciones, propias del cristianismo primitivo, se deben tomar en serio, aunque no se puedan poner en práctica literalmente, sino que deberían ser adaptadas por el Papa y la Iglesia a la época actual.

 

Las enseñanzas de Francisco de Asís de altruismo y fraternidad deberían ser actualizadas:

 

 1. ¿Paupertas, pobreza? En el espíritu de Inocencio III, la Iglesia es una Iglesia de la riqueza, del advenedizo y de la pompa, de la avidez extrema y de los escándalos financieros. En cambio, en el espíritu de Francisco, la Iglesia es una Iglesia de la política financiera transparente y de la vida sencilla, una Iglesia que se preocupa principalmente por los pobres, los débiles y los desfavorecidos, que no acumula riquezas ni capital, sino que lucha activamente contra la pobreza y ofrece condiciones laborales ejemplares para sus trabajadores.

 

2. ¿Humilitas, humildad? En el espíritu de Inocencio, la Iglesia es una Iglesia del dominio, de la burocracia y de la discriminación, de la represión y de la Inquisición. En cambio, en el espíritu de Francisco, la Iglesia es una Iglesia del altruismo, del diálogo, de la fraternidad, de la hospitalidad incluso para los inconformistas, del servicio nada pretencioso a los superiores y de la comunidad social solidaria que no excluye de la Iglesia nuevas fuerzas e ideas religiosas, sino que les otorga un carácter fructífero.

 

3. ¿Simplicitas, sencillez? En el espíritu de Inocencio, la Iglesia es una Iglesia de la inmutabilidad dogmática, de la censura moral y del régimen jurídico, una Iglesia del miedo, del derecho canónico que todo lo regula y de la escolástica que todo lo sabe. En cambio, en el espíritu de Francisco, la Iglesia es una Iglesia del mensaje alegre y del regocijo, de una teología basada en el mero Evangelio, que escucha a las personas en lugar de adoctrinarlas desde arriba, que no solo enseña, sino que también está constantemente aprendiendo.

 

De esta forma, se pueden formular asimismo hoy día, en vista de las preocupaciones y las apreciaciones de Francisco de Asís, las opciones generales de una Iglesia católica cuya fachada brilla a base de magnificentes manifestaciones romanas, pero cuya estructura interna en el día a día de las comunidades en muchos países se revela podrida y quebradiza, por lo que muchas personas se han despedido de ella tanto interna como externamente.

 

Es poco probable que los soberanos vaticanos permitan que se les quite el poder acumulado. No obstante, ningún ser racional esperará que una única persona lleve a cabo todas las reformas de la noche a la mañana. Aun así, en cinco años sería posible un cambio de paradigma: eso lo demostró en el siglo XI el papa León IX de Lorena (1049-1054), que allanó el terreno para la reforma de Gregorio VII. Y también quedó demostrado en el siglo XX por el italiano Juan XXIII (1958-1963), que convocó el Concilio Vaticano II. Hoy debería volver a estar clara la senda que se ha de tomar: no una involución restaurativa hacia épocas preconciliares como en el caso de los papas polaco y alemán, sino pasos reformistas bien pensados, planificados y correctamente transmitidos en consonancia con el Concilio Vaticano II.

 

Hay una tercera pregunta que se planteaba por aquel entonces al igual que ahora: ¿no se topará una reforma de la Iglesia con una resistencia considerable? No cabe duda de que, de este modo, se provocarían unas potentes fuerzas de reacción, sobre todo en la fábrica de poder de la curia romana, a las que habría que plantar cara. Es poco probable que los soberanos vaticanos permitan de buen grado que se les arrebate el poder que han ido acumulando desde la Edad Media.

 

El poder de la presión de la curia es algo que también tuvo que experimentar Francisco de Asís. Él, que pretendía desprenderse de todo a través de la pobreza, fue buscando cada vez más el amparo de la “santa madre Iglesia”. Él no quería vivir enfrentado a la jerarquía, sino de conformidad con Jesús obedeciendo al papa y a la curia: en pobreza real y con predicación laica. De hecho, dejó que los subieran de rango a él y a sus acólitos por medio de la tonsura dentro del estatus de los clérigos. Eso facilitaba la actividad de predicar, pero fomentaba la clericalización de la comunidad joven, que cada vez englobaba a más sacerdotes. Por eso no resulta sorprendente que la comunidad franciscana se fuera integrando cada vez más dentro del sistema romano. Los últimos años de Francisco quedaron ensombrecidos por la tensión entre el ideal original de imitar a Jesucristo y la acomodación de su comunidad al tipo de vida monacal seguido hasta la fecha.

 

En honor a Francisco, cabe mencionar que falleció el 3 de octubre de 1226 tan pobre como vivió, con tan solo 44 años. Diez años antes, un año después del IV Concilio de Letrán, había fallecido de forma totalmente inesperada el papa Inocencio III a la edad de 56 años. El 16 de junio de 1216 se encontraron en la catedral de Perugia el cadáver de la persona cuyo poder, patrimonio y riqueza en el trono sagrado nadie había sabido incrementar como él, abandonado por todo el mundo y totalmente desnudo, saqueado por sus propios criados. Un fanal para la transformación del dominio en desfallecimiento papal: al principio del siglo XIII, el glorioso mandatario Inocencio III; a finales de siglo, el megalómano Bonifacio VIII (1294-1303), que fue apresado de forma deplorable; seguido de los cerca de 70 años que duró el exilio de Aviñón y el cisma de Occidente con dos y, finalmente, tres papas.

 

Menos de dos décadas después de la muerte de Francisco, el movimiento franciscano que tan rápidamente se había extendido pareció quedar prácticamente domesticado por la Iglesia católica, de forma que empezó a servir a la política papal como una orden más e incluso se dejó involucrar en la Inquisición.

 

Al igual que fue posible domesticar finalmente a Francisco de Asís y a sus acólitos dentro del sistema romano, está claro que no se puede excluir que el papa Francisco termine quedando atrapado en el sistema romano que debería reformar. ¿Es el papa Francisco una paradoja? ¿Se podrán reconciliar alguna vez la figura del papa y Francisco, que son claros antónimos? Solo será posible con un papa que apueste por las reformas en el sentido evangélico. No deberíamos renunciar demasiado pronto a nuestra esperanza en un pastor angelicus como él.

 

Por último, una cuarta pregunta: ¿qué se puede hacer si nos arrebatan desde arriba la esperanza en la reforma? Sea como sea, ya se ha acabado la época en la que el papa y los obispos podían contar con la obediencia incondicional de los fieles. Así, a través de la Reforma gregoriana del siglo XI se introdujo una determinada mística de la obediencia en la Iglesia católica: obedecer a Dios implica obedecer a la Iglesia y eso, a su vez, implica obedecer al papa, y viceversa. Desde esa época, la obediencia de todos los cristianos al papa se impuso como una virtud clave; obligar a seguir órdenes y a obedecer (con los métodos que fueran necesarios) era el estilo romano. Pero la ecuación medieval de “obediencia a Dios = obediencia a la Iglesia = obediencia al papa” encierra ya en sí misma una contradicción con las palabras de los apóstoles ante el Gran Sanedrín de Jerusalén: “Hay que obedecer a Dios más que a las personas”.

 

Por tanto, no hay que caer en la resignación, sino que, a falta de impulsos reformistas “desde arriba”, desde la jerarquía, se han de acometer con decisión reformas “desde abajo”, desde el pueblo. Si el papa Francisco adopta el enfoque de las reformas, contará con el amplio apoyo del pueblo más allá de la Iglesia católica. Pero si al final optase por continuar como hasta ahora y no solucionar la necesidad de reformas, el grito de “¡indignaos! indignez-vous!” resonará cada vez más incluso dentro de la Iglesia católica y provocará reformas desde abajo que se materializarán incluso sin la aprobación de la jerarquía y, en muchas ocasiones, a pesar de sus intentos de dar al traste con ellas. En el peor de los casos —y esto es algo que escribí antes de que saliera elegido el actual Papa—, la Iglesia católica vivirá una nueva era glacial en lugar de una primavera y correrá el riesgo de quedarse reducida a una secta grande de poca monta.

 

(Hans Küng)

 

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publicado às 23:33


Parabéns, Dom Caetano!

por Thynus, em 16.05.13

 

Parabenizamos Dom Caetano Ferrari, bispo da Diocese de Bauru, que fez prevalecer a coragem e tomou a atitude correta para defender a Igreja local (e universal), da qual é guardião da fé. Há quatro anos ele vem recebendo queixas de fiéis sobre posições do Pe. Roberto Francisco Daniel (Padre Beto) e buscando conversar com o sacerdote no sentido de conter seu afã de idéias “próprias” acerca do Magistério da Igreja, comprometendo assim o ensinamento da doutrina católica aos fiéis. O fato é que Padre Beto começou a agir como um livre pensador, e a dizer tudo o que pensa a respeito da Igreja, de modo contundente, e a gerar escândalo. Posição pessoal crítica e respeitosa, admite-se. Posição exibicionista, personalista e escandalosa é inaceitável em qualquer organização humana, muito mais quando se trata da Fé e da Moral cristãs. Neste caso, assumiu o sacerdócio com o compromisso de submeter-se ao Magistério da Igreja, parte do qual diverge despudoradamente e sem a mímina coerência e consistência intelectuais. Será que pensa ser um Leonardo Boff? Falta-lhe, no mínimo, em termos intelectuais, publicar mais de 80 livros e milhares de artigos,que compõem sua vasta bibliografia.
A crise se agravou quando ele extrapolou (avançou demais o sinal, como disse o Bispo), e começou a gravar vídeos e postar nas redes sociais, opiniões próprias enquanto sacerdote. Padre Beto não apenas falou barbaridades nos vídeos, como também tinha um estilo que chocava muitos fiéis que não esperavam tais comportamentos vindos de um padre. O próprio Bispo o chamou de "filho rebelde", cuja paciência se esgotou quando determinou que ele retirasse todo o material herético da Internet e se retratasse. Padre Beto recusou a retratação, disse que o Bispo não era seu pai (aliás, o Bispo é o “PADRE” maior, pai                traduzido do latim), e que ele manteria tudo o que dissera, porque para ele a "liberdade de expressão" valia mais. Justificou-se dizendo que  todos os seus pensamentos tinham como objetivo levar as pessoas a refletirem sobre questões defendidas pela Igreja. Diante da posição herética e cismática de Padre Beto, Dom Caetano não teve outra alternativa se não o da excomunhão.
Dom Caetano agiu certo, porque o que prevaleceu foi a coerência. Como Bispo ele tinha o dever de evitar que um sacerdote católico saisse por aí pregando coisas que não condizem com o pensamento da Igreja. Se Padre Beto quisesse ser um livre pensador, então tinha mesmo que deixar o sacerdócio (decisão que ele já havia tomado). Que ele fosse ser consultor de alguma organização não governamental, ou se tornasse político, ou mesmo professor e comunicador, onde pode expressar livremente as suas "reflexões", desde que ,obviamente, não enfrentem os interesses dos  detentores dessas instituições mantenedoras. Caso contrário, será posto na rua lá também. Mas não como sacerdote católico. Ao ser ordenado padre, ele havia feito juramento de fidelidade à Igreja, portanto, seu comportamento o expôs a uma situação insustentável. Ele não tinha o direito de como padre falar o que lhe viesse à cabeça, sem refletir sobre as conseqüências de seus atos. Os fiéis vão à Igreja e esperam receber os ensinamentos da doutrina católica. O que o Padre Beto estava pregando feria gravemente muitos princípios e valores da Igreja. Foi coerente então a sua saída, e mais coerente ainda a sua excomunhão, diante do modo herético e cismático com que agiu.
Ao contrário do que ele vem dizendo, a Igreja está aberta a ouvir, a perscrutar as coisas, e aprofundar as questões, nos ambientes e foruns adequados. Quando há graves impasses, o papa convoca concílios para que se chegue a um entendimento. Mas longe do escândalo, das querelas midiáticas e dos narcisismos televisivos. Padre Beto ganhou seus quinze minutos de fama, e agora terá muitas tribunas livres (se fôr conveniente a elas) para dizer o que ele acha disso ou daquilo, mas falará agora como padre excomungado, como um livre pensador. Que ele consiga refletir sobre tudo o que aconteceu e se converta. Parabenizamos Dom Caetano pela sua atitude firme! Zelou pelo seu dever, agiu como um pai que deu o remédio amargo ao filho, por amor a quem ele quer muito bem, como manifestou em sua entrevista quando solicitou a retratação de padre Beto. A Igreja continuará sendo mestra e mãe e Dom Caetano, pai afetuoso de seus padres, freiras e leigos de sua diocese.

(Valmor Bola;, doutor em sociologia; presidente da Conap/Mec-Comissão Nacional de Acompanhamento e Controle Social do Programa Universidade para Todos - Prouni)
NOTA À MARGEM: 
""No espírito do Papa Inocêncio III (1160-1216), a Igreja é uma Igreja do domínio, da burocracia e da discriminação, da repressão e da Inquisição. Em vez disso, no espírito de São Francisco (1182-1226), a Igreja é uma Igreja do altruísmo, do diálogo, da fraternidade, da hospitalidade, mesmo dos inconformistas, do serviço despretensioso aos superiores e da comunidade social solidária que não exclui da Igreja novas forças e idéias religiosas, mas outorga-lhes um caráter frutífero." (Hans Kung)
HYPERLINKS:
*Padre que defendeu homossexuais é excomungado
*Mais padre Beto, menos padre Marcelo
 

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publicado às 20:03

 

 

A despeito do sopro purificador da Renascença, o espírito mau da Idade Média ainda pairava como um miasma sobre a face da Europa Ocidental. No século XV, o ar da Alemanha, da Boêmia, da França, da Itália e da Espanha impregnava-se da fumaça produzida pelas carnes em chama de milhares de homens e mulheres. Os mestres da hipocrisia descobriram que o caminho mais fácil é o de matar a crítica. E, assim, todos aqueles que discordavam da Igreja (ou cuja riqueza despertasse a cobiça voraz dos bispos e Papas) eram queimados vivos e suas propriedades confiscadas.
Tanto os dissidentes da Igreja como os ofensores políticos eram julgados hereges e queimados vivos, visto que os Papas e os príncipes agiam de comum acordo. A desobediência ao Estado era considerada traição ao céu, pois que os governadores do Estado se diziam ungidos de Deus. Opor-se ao governo, reconhecido pela Igreja significava um crime capital, não só contra o governo, mas também contra a Igreja.
É necessário que nos lembremos desta íntima união política entre a Igreja e o Estado, se quisermos compreender a história de Joana D’Arc. Tendo cometido, segundo a Igreja, uma ofensa política, era de prever-se, de acordo com o espírito da época, que ela fosse acusada de um crime “religioso”, julgada e queimada como herege. A um espírito moderno, toda a carreira da virgem de Orléans parece inacreditável. Para o supersticioso espírito do século XV, sua vida nada teve de vulgar, e sua morte era o único desfecho possível naquela circunstância.

Na Idade Média, todo o mundo conversava com anjos e acreditava em milagres. Um certo Irmão Ricardo, interpretando, como dizia, as vozes diretas do céu, agitou toda a cidade de Paris, num frenesi de evangelizador supersticioso. O monge carmelita Tomás Conecta, orientado, como alegava, pela vontade dos santos do céu, pregava na Bélgica e na França a um auditório de quinze mil pessoas de cada vez. Na Bretanha, uma jovem de nome Pierrette, assombrava seus compatriotas, dizendo-lhes que se achava em constante comunicação com o próprio Jesus. Espalhou-se a notícia de que um jovem pastor suava sangue nos dias santificados. Toda a província tinha seus homens e suas mulheres histéricos, que acreditavam e faziam outros acreditarem que eles viam e conversavam com os espíritos do céu.
Todos esses contos miraculosos de comunicação com os espíritos, Joana D’Arc, a pequena camponesa de Domrémy, os ouvira dos lábios piedosos de sua mãe. Nunca lhe ensinaram a 1er nem a escrever. Sua educação consistia quase exclusivamente em contos de fadas e mitos religiosos, nos quais aprendeu a crer como fatos reais. “Nascida sob as muralhas da Igreja” — para citar o historiador francês Michelet — “embalada para dormir ao som dos sinos e alimentada com lendas, ela mesma se tornou uma lenda viva.” Não longe da casa de seu pai, havia uma floresta na qual, como se acreditava, viviam fadas. Em cima, nas nuvens fugazes, ela via os anjos nos seus carros de fogo. Algumas vezes, quando seu pai se achava nos campos e sua mãe trabalhava em casa, sentavase ela na soleira da porta e escutava os ruídos da aldeia. Um murmúrio confuso, sonolento, esquisito — não seriam mesmo as vozes dos anjos a dirigir-lhe a palavra? A linha divisória entre este mundo e o próximo era muito vaga. Anjos e homens, na sua imaginação infantil, podiam confundir-se e conversar, tão naturalmente como dois vizinhos que se encontram na rua. Ouvir um anjo chamar alguém do céu não era mais surpreendente do que ouvir sua mãe chamar alguém da cozinha. Nisso não havia milagre. Pelo contrário, Joana reputaria um milagre se lhe dissessem que os anjos não
falavam aos filhos de Deus na terra.
Em síntese, ela vivia num mundo no qual era impossível distinguir o real do irreal. Os anjos poderiam descer a ela, na terra, e ela, por sua vez, poderia subir, para encontrar-se com eles no céu.
Mesmo assim, nesse mundo fantástico e encantador, existia uma horrível e incontestável realidade — a guerra com os ingleses. Esses ingleses, “amaldiçoados de Deus” (goddams que os franceses pronunciavam goddons) estavam devastando o infeliz reino de França. Os soldados ingleses colhiam as safras dos camponeses franceses. Queimavam suas casas e levavam o gado. Às vezes, no meio da noite, Joana era acordada pelos gritos dos fugitivos de outras aldeias. Uma vez, seus próprios pais foram obrigados a fugir dos invasores. Quando a família voltou ao lar encontrou a aldeia saqueada, a casa pilhada e a igreja em chamas.
A bondade dos santos do céu e a lamentável situação do reino de França — estes eram os dois fatos predominantes na vida da pequena camponesa de Domrémy. A França era querida dos santos — foi a idéia que sua mãe lhe imprimira no espírito, repetindo-a a cada momento — e eles exerciam todo o seu poder para expulsar os ladrões ingleses do solo sagrado. Profetizava-se que uma jovem se tornaria a salvadora de França. Merlin, o mágico, e Maria de Avignon, uma santa mulher que palestrava com os anjos, já tinham, ambos, previsto isso. E, assim, a criança olhava fixamente as nuvens, sonhando com o dia em que os anjos viriam buscar a salvadora para expulsar os ingleses da França.

Certa vez, num dia santo, no meio do verão, quando todas as pessoas piedosas jejuavam, e o céu e a terra pareciam mais próximos do que nunca, Joana julgou ouvir uma voz a falar-lhe através do silêncio. Era a voz do Arcanjo São Miguel que dizia: “Seja uma boa menina, Joana. Vá sempre à igreja.” Ela se assustou, mas não se surpreendeu.
Era sabido que os anjos falavam com outras pessoas. Por que não com ela? Afinal, São Miguel estava longe de ser um estranho para ela. Sabia a sua história e sua figura lhe era familiar; era, portanto, perfeitamente natural que ele lhe dissesse, como o padre da aldeia lhe teria dito, que fosse uma boa menina e que freqüentasse a igreja.
A ilusão de que os anjos lhe falavam crescia cada vez mais. Havia pouco tempo, o Arcanjo São Miguel encontrara-se com Santa Margarida e Santa Catarina. Estas, também, eram figuras familiares a Joana. Quando as via no ar, por cima de sua cabeça, reconhecia-as imediatamente através de seus quadros.
Joana contava treze anos de idade, quando teve seu primeiro encontro com anjos. Eles vinham conversar diariamente com ela e, não raro, várias vezes por dia. Ela os via perfeitamente e ouvia suas vozes mais distintamente quando os sinos da igreja badalavam. A princípio, falavam-lhe de assuntos comuns, mas um dia, São Miguel falou-lhe sobre o assunto que a interessava, isto é, da pena que sentia do reino de França. “Filha de Deus”, disse ele, “chegou o momento de deixares tua aldeia e ires em auxílio da França.” Em outra ocasião insistia para que ela restituísse o reino de França ao verdadeiro rei. A profecia de Merlin estava para cumprir-se.
Joana, a jovem camponesa de Domrémy, foi escolhida pelos poderes do céu para tornar-se a salvadora de França. Pouco a pouco ela se convenceu completamente de sua missão. A excitação de seu próprio desejo era tão viva no espírito da criança ignorante e supersticiosa mas altamente poética da Idade Média, que os seus pensamentos se revestiram de formas visíveis e assumiram a configuração de anjos que lhe transmitiam as ordens do Senhor.
“Deixe o lar e todos os entes queridos, Joana, e vá em auxílio do rei da França.”
“Mas”, replicou ela, toda trêmula, “eu sou apenas uma pobre moça. Não sei montar, nem
combater.”
São Miguel aconselhou-a então a ir ter com Roberto de Baudricourt, o senhor da cidade de Vaucouleurs e da aldeia de Domrémy. Este homem, assegurou-lhe o arcanjo, fornecer-lhe-ia homens e meios para a sua jornada a Chinon, onde o tímido delfim (herdeiro do trono) Carlos VII vivia no palácio real — um rei sem coroa numa terra conquistada.
Joana não foi bem-sucedida com Baudricourt. Ele se mostrava céptico quanto à missão da moça. Mas a plebe veio em seu auxílio. Como eram bons cristãos medievais, acreditavam em sua história de anjos, justamente por ser tão inacreditável. Compraram-lhe um cavalo e deram-lhe uma pequena escolta de homens armados. Baudricourt, movido, finalmente, pelo entusiasmo do povo, presenteou-a com uma espada.
E assim, em princípios da primavera de 1429, a Joana D’Arc de dezessete anos de idade, acompanhada por sua comitiva e vestida em trajes masculinos, partiu em sua estranha missão de curar a “triste miséria que era então a França”.

O delfim, Carlos VII, era uma criatura vacilante, fraca, crédula, ignorante e supersticiosa. Quando Joana D’Arc foi admitida à sua presença, estava cercado de um grupo de cortesãos. Contudo, ela não teve dificuldade alguma em distingui-lo porquanto, em matéria de fealdade, ele superava os demais presentes. Crente, devoto de todas as mascaradas religiosas e milagres do século XV, ouviu atentamente a história de Joana D’Arc. Ele também tinha sido inspirado pela profecia de Merlin e de Maria de Avignon. Uma virgem seria a salvadora da França. Agora, a prometida salvadora se achava diante dele, armada com o comando do Senhor e pronta a conduzi-lo à vitória e à coroa!
O ardente desejo da menina camponesa tornara-se a vontade do Rei Carlos VII.
De acordo com os planos dos anjos, isto é, de acordo com os seus próprios planos, cabia a Joana D’Arc solucionar dois deveres solenes: livrar a cidade de Orléans dos malditos ingleses e conduzir o delfim à Cidade de Reims, para ungi-lo com o óleo sagrado que se usara na coroação do Rei Clóvis, o fundador da realeza em França.
O rei aceitou a missão de Joana D’Arc e nomeou-a comandante-em-chefe do pequeno exército que lhe foi possível reunir sob seu estandarte. Nesse tempo era comum ver as mulheres combaterem lado a lado com os homens. Houve trinta mulheres feridas na Batalha de Amiens. Numerosas mulheres-soldados combateram na Boêmia, entre os partidários de João Huss. Na Idade Média quase não houve combates em que as mulheres não se sobressaíssem por seu heroísmo. Era, portanto, a coisa mais natural do mundo para Carlos aceitar os serviços militares de Joana D’Arc. Ele se lembrava das heroínas do Antigo Testamento, Débora e Judite, que, com o auxílio do céu, conquistaram os inimigos de Israel. Agora, estava uma nova profetisa indicada também pelos mensageiros do céu, para vencer os inimigos da França. Com São Miguel a ensinar-lhe o caminho, Joana D’Arc, a inspiradora donzela de Domrémy, ladeada por Santa Catarina e Santa Margarida, tornaria possível expulsar os goddams para sempre de seu reino!
Levantando um exército de 8.000 homens, uma força considerável para aqueles dias, ela partiu contra os ingleses que sitiavam a cidade de Orléans. O povo se admirava quando via a intrépida provinciana equipada com a armadura alvíssima, montada, à frente da coluna, num cavalo negro como carvão. A seu lado, ela tinha preso um machado de batalha e uma espada, e empunhava o estandarte branco onde se viam pintados Deus e os anjos, sobre um fundo de flor-de-lis. Ela lhes parecia um anjo guerreiro descido do céu. No entanto, não era belicosa por natureza. Preferia, se possível, expulsar os ingleses da França sem lutas. Jurava a si mesma que nunca empregaria sua espada para matar alguém. Quando chegou a Orléans, ditou aos ingleses uma carta de três simples palavras: Allez-vous-en (Ide embora). Os ingleses, naturalmente, não deram atenção a seu ultimato e aguardaram o ataque.
A história da Batalha de Orléans já é por demais sabida e não necessita repetição. A vitória final de Joana D’Arc sobre os ingleses não foi um milagre. O exército inglês, sob o comando do brava mas pouco inteligente Talbot, compunha-se somente de dois ou três mil homens ao todo, e uma boa parte deles era composta de franceses. Esta pequena força estava dispersa sobre as várias fortificações que cercavam a cidade. Não havia, praticamente, comunicação entre estas unidades espalhadas da força sitiada, e foi fácil a Joana entrar na cidade com o seu exército de salvadores. Exército esse que era considerado, tanto pelos franceses como pelos ingleses, um exército inspirado. O seu comandante, porém, não era Joana D’Arc e sim o Arcanjo São Miguel. Era desfecho já previsto que os ingleses cairiam ante o ataque desse terrível guerreiro que descera dos céus para expulsá-los de França.
As tropas francesas, como as inglesas, eram compostas de toda sorte de patifes que não tinham ilusões românticas sobre a glória da guerra. Encaravam-na como uma profissão agradável e lucrativa, idêntica à pirataria ou aos assaltos de estrada. Francamente grosseiros em suas atitudes para com a profissão a que se entregavam, não admitiam a possibilidade de ser um soldado um homem decente e respeitável. Certa ocasião, La Hire, o capitão do exército de Joana, em Orléans, observou que até o próprio Deus, uma vez alistado em seu exército, tornar-se-ia salteador. Mas, a presença de Joana, com seus santos invisíveis, transformou as tropas francesas em salteadores consagrados. Todo soldado do exército francês acreditava piamente que batalhões de anjos combatiam a seu lado. E essa crença era compartilhada pelos ingleses. Alguns destes pensavam que os chamados “auxiliares celestes das tropas” eram demônios e não anjos. Mas de uma coisa estavam certos: combatiam contra poderes insuperáveis. Estavam aptos a competir com as forças da terra, mas contra os poderes do céu ou do inferno nem um inglês poderia.
Em suma, os ingleses foram expulsos de Orléans, não só pelo próprio medo do sobrenatural, como também pelos franceses, mais numerosos.

Depois de ter levantado o cerco de Orléans, Joana D’Arc conseguiu aumentar o efetivo de seu exército para 12.000 homens. Agora, por toda a parte olhavam-na como uma santa, ou como uma feiticeira, de acordo com a causa que cada qual abraçava: inglesa ou francesa. Encontrou-se com o delfim Carlos em Tours, e juntos avançaram, ao longo das margens do Loire, em direção à cidade de Reims. O exército inglês, impelido pelo terror, fugia. Aqui e ali, em Jargeau, Patay, Troyes, fizeram tentativas de resistência, mas os inspirados soldados de Joana D’Arc varreram-nos do caminho por onde passavam. Ela tentava evitar combates sempre que era possível. Queria que os ingleses saíssem da França, mas não os odiava. Não gostava de ver sangue. Lamentava o sofrimento de seus inimigos tanto como o de seus próprios homens. Um soldado ferido, fosse inglês ou francês, significava para ela um irmão cristão em miséria. Após a Batalha de Patay, ela chorou ao ver tantos soldados inimigos mortos no campo. Um de seus companheiros ferira mortalmente um prisioneiro inglês. Apeando-se do cavalo, ajoelhou-se ao lado do inglês agonizante, tomou-lhe a cabeça entre as mãos e murmurou palavras doces enquanto ele expirava.
Mas os seus devotos salteadores, prontos para lutar e morrer por ela, eram incapazes de compreender o seu espírito de misericórdia. Apesar dos protestos, eles mataram a maioria dos prisioneiros das batalhas com os ingleses. O vitorioso exército francês chegou a Reims em 15 de julho de 1429.
Dois dias após, Carlos VII era coroado pelo arcebispo na famosa catedral. Muitos de seus cortesãos e cortesãs estavam presentes à coroação. Sua rainha, Maria d’Anjou, porém, tinha ficado em Chinon, “a fim de poupar a despesa da viagem”. Carlos VII não foi somente um rei sem dinheiro, mas também o menos generoso dos homens.
A tarefa preliminar de Joana D’Arc estava agora finda. Levantara o cerco de Orléans e promovera a coroação do Rei Carlos. Competia-lhe agora acabar de expulsar os ingleses do território nacional. Mas a auréola de sua popularidade começava a se desvanecer. Seus soldados, acostumados agora à sua comunicação diária com os anjos, não se deixavam mais arrebatar por ela. O esplendor de suas visões celestiais decaía à luz do dia. Quanto mais tempo ela se demorasse com os homens, tanto mais estes se impacientavam com ela, pois que ela lhes proibia a pilhagem, privava-os dos prazeres da profanação e condenava-os a uma vida de castidade a ‘que não estavam habituados. Ela procurava, diziam, fazer deles simples mulheres. Muitos de seus soldados se revoltaram e alguns desertaram.
Por outro lado, seus inimigos faziam planos para a sua destruição. Havia quatro grupos distintos que desejavam vê-la eliminada: os ingleses, os franceses aliados a esses, os cortesãos de Carlos, invejosos de sua influência junto ao rei, e os arcebispos e bispos, enciumados de sua familiaridade com os anjos.
Os ingleses, após a Batalha de Azincourt (1415) possuíam a maioria das províncias ao norte do Loire. Estavam ansiosos por estender seu domínio sobre todo o reino de França. Mas Joana D’Arc, a diabólica feiticeira inspirada de Domrémy, não só impedia o progresso inglês, mas ameaçava tirar-lhes o território que já tinham conquistado à custa de tanto esforço e tanto sangue. Estavam, pois, dispostos a impedir sua atividade a qualquer preço.
Aliados a eles, estavam alguns nobres franceses que tinham esperanças de alcançar benefícios próprios com a vitória dos ingleses sobre o Rei Carlos. O principal dentre eles era o Duque de Borgonha, Filipe, o Bom, cujo real nome deveria ser Filipe, o Pouco Bom. (Ele era pai de 18 filhos ilegítimos.) A coroação de Carlos VII foi um golpe terrível pára Filipe. Mais rico, mais capaz e bem mais poderoso que o delfim, sua esperança era tornar-se o senhor de toda a França sob a proteção da Inglaterra. Mas o advento de Joana D’Arc cortou seus planos pela raiz. Junto com os ingleses estava resolvido a puni-la pela sua intromissão.
Mais perigosos ainda do que esses inimigos declarados, eram os que fingiam ser seus amigos. Os insinceros cortesãos de Carlos VII, e particularmente seu Cons. Jorge de La Trémouille, temiam a franqueza e a incorruptível honestidade de Joana D’Arc. La Trémouille era vigoroso, dominador e traiçoeiro. Repudiou sua primeira mulher e casou-se com outra cujo marido matara. Insinuara-se nas boas graças do rei, por meio de mentiras e lisonjas. Era um hipócrita, dos piores. Pronto a trair o seu rei — pois estava secretamente aliado aos ingleses — fez tudo o que pôde para se ver livre da menina camponesa, que percebia claramente suas intenções, e a qualquer momento poderia chamar a atenção do rei sobre a sua traição. Fiel a seu caráter, portanto, tratava Joana com todas as demonstrações de respeito e secretamente tramava sua queda.
Mas de todos os seus inimigos os mais temíveis eram os padres. O arcebispo de Reims, o bispo de Beauvais e a totalidade da faculdade clerical da Universidade de Paris estavam decididos a conseguir a sua morte. Ela ousara comunicar os planos de Deus a seus compatriotas sem haver recebido a permissão da Igreja. Presumindo falar diretamente com os anjos, ela violara a santidade do clero, pois somente ao clero era permitido conversar com os poderes do céu. A Igreja afirmava ser a única intérprete entre Deus e o homem. As revelações de Joana D’Arc, eles pensavam (e se revelavam sinceros em seus pensamentos) , só poderiam ter vindo do diabo, desde que não vinham através da Igreja. Ela era uma herege, uma traidora do céu e uma fonte de perigo para o clero. Por isso, deveria ser morta.
A traição dos inimigos de Joana provou ser mais poderosa do que o patrocínio de seus anjos. Na Batalha de Compiègne caiu em uma cilada armada pelas manobras de alguns de seus compatriotas. Os franceses que a capturaram, venderam-na por 10.000 libras de ouro. Os ingleses, por sua vez, para terem certeza absoluta de sua morte, entregaram-na às mãos da Inquisição. Foi assim que, embora prisioneira de guerra, Joana D’Arc foi julgada e condenada como. herege.
O homem que presidiu seu julgamento foi Pedro Caucron, bispo de Beauvais, Era um cristão devoto. A Universidade de Paris fê-lo comendador publicamente, pela sua “coragem e perseverança nos trabalhos, nas vigílias, nos sofrimentos e tormentos por amor à Igreja”. A última frase de sua comenda deveria ser emendada assim: “e os tormentos que ele infligiu a outros por amor à Igreja”. Era-lhe agradável o cheiro que exalava da carne queimada dos hereges. Foi ele quem no Concílio de Constança, o mesmo Concílio, lembremo-nos, que determinou a morte de João Huss, defendeu a tese de que era permitido em certas ocasiões matar sem as formalidades da justiça.
Quando os ingleses entregaram Joana D’Arc às mãos de Pedro Caucron, para ser julgada, eles realmente assinaram sua sentença de morte. Não tinham intenção alguma de deixá-la viva. Combinaram que, caso ela não fosse condenada como herege pela Igreja, deveria ser devolvida aos ingleses. Era como na aposta: “cara, você perde; coroa, eu ganho”. Ao iniciar o julgamento, dois dos padres presentes, na qualidade de juízes denunciaram todo o processo como ilegal. Um destes padres foi removido prontamente e encarcerado por Cauchon. O outro teve o bom senso de escapar antes que os seus superiores tivessem a oportunidade de puni-la.
O julgamento durou 4 meses. O número de juízes cresceu de 42, no começo, a 63, na parte final. Perseguiram-na como uma matilha de cães. As acusações que faziam contra ela eram, na maioria, absurdas. A principal acusação era o seu pecado de se ter comunicado com o céu, sem o auxílio da Igreja. Em outras palavras, era criminosa porque tinha se submetido à vontade de Deus e não à dos padres. Argumentavam que os poderes sobrenaturais que apareceram a Joana eram demônios em vez de santos. Visto serem os juízes 63 e Joana uma só, aqueles já tinham a questão ganha. Mesmo quando soube que sua sentença estava lavrada, Joana era ainda a única no julgamento que demonstrava uma firme presença de espírito. Numa das sessões, quando todo o bando negro de corvos eclesiásticos começou a falar contra ela, de uma só vez, Joana replicou docemente: “Por favor, bons pais, não falem todos simultaneamente. Estão sujeitos a se confundirem a si próprios.”
A comédia terminou a 30 de maio de 1431. Joana D’Arc foi condenada a ser queimada viva, e Pedro Cauchon foi condecorado mais uma vez, pela Universidade de Paris, pela “grande solenidade e o justo e santo espírito” com que presidira ô julgamento.
Tendo-a condenado à morte, os representantes da Igreja entregaram-na ao braço secular. A Igreja, para traduzir uma de suas frases favoritas em latim, “tinha horror ao derramamento de sangue”. Ela nunca executava diretamente as mortes que desejava. Sentenciava meramente as pessoas à morte, e então orava por suas almas, enquanto o Estado se incumbia de sua execução.
Pouco tempo antes de queimarem Joana D’Arc, o Rev. Prof. Nicolau Midi, da Universidade de Paris, pregou um sermão em sua homenagem. “Quando um membro da Igreja está doente”, começou ele, “a Igreja toda está doente.” E depois tendo-lhe provado que devia morrer “pelo bem da Igreja”, concluiu com as palavras, “Joana, ide em paz; a Igreja não mais pode defender-vos.”
Esta era a fórmula pela qual os padres se absolviam a si próprios de todas as máculas do assassínio de suas vítimas.
Mas Joana D’Arc sabia da verdade. Apontando para Pedro Cauchon, exclamou: “Bispo, eu morro por sua causa!”

O epílogo dessa trágica farsa foi decretado cinco séculos e meio mais tarde, quando o Papa, chegando à conclusão de que os mensageiros de Joana D’Arc eram anjos e não demônios, revogou a sentença de sua morte e transformou-a numa santa.

(Henry Thomas - "A HISTÓRIA DA RAÇA HUMANA")

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publicado às 21:16

 

 

São Francisco foi um produto à parte da Igreja, mas Dante foi seu produto mais perfeito. O catolicismo de São Francisco nada tinha a ver com a grandeza da Igreja. Tivesse ele sido um maometano, um budista, ou um judeu, de qualquer maneira poderia ter produzido o divino poema de sua vida. O catolicismo de Dante, porém, fazia parte integrante de toda a sua pompa. Tivesse Dante sido qualquer coisa, menos católico,nunca poderia ter escrito o seu Inferno. São Francisco e Dante representam, respectivamente, a humanidade e o catolicismo em seus melhores aspectos. São Francisco tentou salvar todos os homens, tanto os católicos, como os não-católicos, dos sofrimentos deste mundo. Dante tentou mandar todo o mundo, exceto alguns poucos católicos piedosos, ao fogo perpétuo e aos sofrimentos do outro mundo.
São Francisco fala por todas as épocas. Dante é meramente o porta-voz da Idade Média. É a voz da Igreja medieval. Seu poema é a melhor apologia da Igreja e sua pior acusação. É um quadro completo da beleza e da beatice do espírito medieval. Este espírito, em sua melhor forma, isto é, o espírito de Dante e o da Igreja Católica em geral, amava intensamente e odiava ainda com mais intensidade. Amava tudo dentro dos limites da Igreja, e odiava tudo fora desses limites. Seu ódio era, na verdade, devido ao seu amor. Ensinava-se a todo católico que Deus punia os filhos transviados, a fim de corrigi-los porque Ele os amava, e, tentando ser êmulos da bondade de Deus, os católicos da Idade Média resolveram corrigir os filhos desencaminhados neste mundo, torturando-os e matando-os, se necessário, porque eles os amavam. G. K. Chesterton, a voz do catolicismo hodierno, diz em um trecho de seu livro sobre São Francisco, que “não há nada incompatível entre amar uma pessoa e matá-la”. O espírito medieval de Chesterton compreende perfeitamente o espírito medieval do século XIII. Dante compadecia-se dos pecadores do Inferno, e, em alguns casos, como no de Francesca de Rimini, a quem conhecera desde a infância — amava-os. Contudo, também gostava de vê-los pagar pelos seus pecados, porque supunha serem esses sofrimentos da vontade de Deus. Dante, como a Igreja que representava, procurou não só ser o intérprete de Deus, mas também o seu promotor. Era um homem com o coração de um poeta universal e com o espírito de um padre medieval.
Demorei-me um pouco mais discorrendo sobre este pensamento, porque é de grande importância compreender o espírito de Dante se quisermos compreender o espírito da Idade Média, pela simples razão de que Dante é o próprio espírito dessa época.

Nasceu em 1265, trinta e nove anos depois da morte de São Francisco, e trinta e quatro depois da adoção oficial da Inquisição como um argumento convincente na pregação do evangelho. Seu pai era um próspero advogado na cidade de Florença. Quando criança, aprendeu três coisas acima de todas as outras: adorar a Deus, ser leal à sua cidade e lutar pela sua Igreja. Ensinaram-lhe que havia neste mundo duas espécies de indivíduos: os cristãos, a quem Deus amava, e os não-cristãos, a quem Ele odiava, aprendendo porém a amá-los se eles fossem induzidos ou forçados a se tornarem cristãos. Para aqueles que amava, Deus tinha seu Paraíso. Para os que odiava, Deus tinha o Inferno. E, entre estes dois, levantava-se a montanha do Purgatório, como uma espécie de degrau entre Seu ódio e Seu amor. Para Dante, todas essas coisas não eram contos de fadas: eram reais. Céu, Inferno e Purgatório tinham uma localização definida num mapa fixo. Segundo os melhores conhecimentos de Dante, quando as pessoas morriam, iam infalivelmente para um destes três lugares. O Inferno para Dante era tão certo quanto o é a Austrália para aqueles que nunca estiveram lá, mas que leram a seu respeito nos compêndios de Geografia. A Bíblia, para Dante, era uma fonte infalível de Geografia.
Além da Bíblia, Dante foi educado na infalibilidade de Aristóteles. Os católicos da Idade Média tinham simpatizado com as obras de Aristóteles e de Platão. Sob alguns aspectos, de fato, o catolicismo medieval não foi mais do que o platonismo batizado. Os cristãos tinham que agradecer aos maometanos e judeus pelo seu conhecimento dos filósofos gregos, visto que os maometanos traduziram para o árabe os manuscritos gregos, e os judeus, do árabe para o latim, a única língua clássica compreendida pelos católicos romanos. Assim, Dante estudou Aristóteles, e muitas vezes interpretou-o erroneamente em terceira mão, isto é, em uma tradução feita de outra tradução.
Dante aprendeu de Aristóteles e de Platão que a alma descia do céu e que aspirava a voltar para lá “como a água caída das nuvens em forma de chuva, sobe novamente em forma de vapor”. Uma vez descida, a alma torna-se rude pelo seu contato com a dureza do corpo. A vida, portanto, é um campo de batalha entre os apetites do corpo e a felicidade da alma. Negar os sentidos do corpo é purificar as aspirações da alma. Em outras palavras, devemos almejar a felicidade do céu, renunciando aos prazeres da terra. Se vivemos muito agradavelmente cá embaixo, nossa alma tornar-se-á tão coberta de inutilidades, que terá de ser purificada nos fogos do Inferno, antes de poder voltar ao céu e à santa presença de Deus.
Assim a filosofia de Aristóteles e de Platão tornara-se sutilmente metamorfoseada na moral do cristianismo medieval. Esta doutrina do Céu e do Inferno, tendo a alma humana como prêmio pelo qual ambos disputavam eternamente, ficou profundamente gravada no espírito do jovem Dante. Recebeu bons ensinamentos de Teologia Católica e Filosofia grega. Quanto à ciência, aprendeu-a da Bíblia. Sabia muito pouco acerca do mundo que habitava, mas pensava saber muito acerca do mundo em que ia morrer. Como os outros católicos fervorosos de seu tempo, Dante se interessava muito mais por Dite, a capital do Inferno, e por Jerusalém Dourada, capital do Céu, do que por Florença, cidade onde vivia. Mesmo assim, tomou parte ativa na política de sua cidade.
No século XIII, Florença era um campo de batalha entre os Guelfos, partidários do Papa, e os Gibelinos, sectários do imperador. Dante começou sua carreira como Guelfo, pela simples razão de que seu pai já o fora também. Com a idade, porém, desgostou-se com a desonestidade e a pequenez de alguns Papas. Trocou de campo, unindo-se ao partido dos Gibelinos.
Dante deu largos passos em sua carreira política. Com 35 anos apenas foi eleito um dos principais magistrados de Florença. Dois anos depois, porém, seu partido foi derrotado. Nesses dias de paixões absurdas e cruzadas históricas, uma derrota política quase sempre significava não só desgraça, mas também exílio e morte. O ódio da Idade Média era perseverante. Dante foi expulso de Florença e sentenciado a ser “queimado vivo”, onde quer que fosse encontrado.
Tornou-se um homem sem pátria. “O mundo terrestre atira-o para fora de sua órbita”, e sua imaginação sombria começou a morar no mundo mais hospitaleiro da morte. Impossibilitado de se vingar de seus inimigos na Itália, consolou-se imaginando as torturas mais engenhosas para seus inimigos no Inferno. Todos esses indivíduos foram feitos para sofrer pelo prazer de Dante e para a glória de Deus. Dividiu o Inferno em vinte e quatro círculos, cada qual aparelhado com seus instrumentos de tortura apropriados para os tipos particulares dos pecadores. A visão do Inferno de Dante é tão cheia de vícios quanto magnífica. É a obra de uma imaginação sublime e amargurada. “Ele escreveu muitas vezes”, para citar Santayana, “com uma paixão não esclarecida pelo raciocínio.” Contudo, nunca nos devemos esquecer de que ele também escreveu como um cidadão da Idade Média, filho da Igreja Católica. Pôs nas câmaras de tortura do Inferno tanto os seus
inimigos pessoais como os inimigos da Igreja, e, por inimigos da Igreja, Dante classificava todos aqueles que não eram católicos. Nada exemplifica a intolerância da Igreja medieval tão claramente como o fato de Dante negar a quaisquer dos antigos pagãos a entrada no Céu. Seu único pecado consistia no fato de eles terem nascido cedo demais para serem batizados! O amor infinito a Deus, segundo Dante, não era suficientemente grande para incluir outros que não fossem católicos. Até Virgílio, o grande mestre que guiara Dante através dos complicados labirintos do Inferno, e o trouxera são e salvo às portas do Céu, teve de permanecer, ele também, no limbo do desejo eterno sem esperança, pois Virgílio também tinha nascido cedo demais para ser um cristão.
Essa intolerância e essa insensibilidade egoísta aos sofrimentos de todos aqueles que por acaso não conseguiram alcançar as doutrinas da Igreja estão mais adiante ilustradas em diversas passagens espantosas da Divina Comédia, das quais mencionarei somente duas. A primeira delas está no segundo canto do Inferno; Beatriz, que goza a eterna felicidade no Céu, diz a Virgílio (linha 91) que, devido à graça de Deus, as misérias dos pecadores do Inferno não a tocam. Isso estava de pleno acordo com o temperamento selvagem da Idade Média. Mesmo um dos mais piedosos dos escritores medievais, Santo Tomás de Aquino, chegou a ponto de dizer que Deus em sua bondade intensifica a felicidade dos santos do Céu, permitindo-lhes contemplar as torturas dos pecadores no Inferno. A outra passagem que mencionarei está no último canto do Purgatório. Virgílio está descrevendo o limbo do Inferno (linhas 28 a 34) a Sordello, uma das almas do Purgatório. “Lá embaixo”, diz-lhe Virgílio, “moro com as crianças inocentes arrancadas da vida pelas garras da morte, antes de terem sido eximidas do pecado humano.” Em outras palavras, de acordo com a doutrina de Dante, não somente os hereges, infiéis e pagãos, mas até as crianças indefesas deviam sofrer para sempre o Inferno, se tivessem a infelicidade de morrer antes de serem batizadas. O mundo em que Dante vivia era vicioso, estreito, estúpido, ignorante e vergonhosamente intolerante. Se compreendermos o espírito de Dante, também compreenderemos facilmente o espírito das Cruzadas e as inquisições da Idade Média. Era um espírito que se comprazia em criar beleza e destruir a vida humana. A Idade Média foi bela. É um fato que não pode nem necessita ser negado. Mas a beleza só não basta. Um terremoto é belo, como o é também uma avalancha, uma tempestade no oceano, uma erupção vulcânica, os raios dum relâmpago, um assassínio cuidadosamente planejado, ou uma batalha entre dois exércitos selvagens. Há uma grandiosidade no horror e uma beleza mesmo na morte. Mas é a grandiosidade e a beleza da desarmonia, da destruição, da loucura, de um mundo doentio dividido contra si próprio. Esta é a beleza do poema de Dante e do. século xiii em que ele viveu. Durante mil anos a Europa prosseguiu com ardor, sob a ilusão, louca de que Deus desejava que todos os seus filhos fossem cristãos ou amaldiçoados. Dante herdou essa ilusão e assim sucedeu com os membros da Inquisição: Dante exprimiu-a num poema e os inquisidores usavam o poema como uma fonte de informações para os seus próprios intentos destruidores. Dante assassinou os inimigos da Igreja apenas em sua imaginação, mas os inquisidores, homens práticos e não poetas, queimaram-nos realmente. De acordo com o cálculo de Voltaire, nada menos de dez milhões de hereges foram queimados vivos “por instigação da Igreja”.
O poema de Dante é a “Divina Comédia” de um dos supremos sonhadores do mundo. É a tragédia humana de um de seus mais lamentáveis consumadores de erros clamorosos.

Dante morreu em 1317, e com ele, assim dizem, terminou a Idade Média. Contudo, tais afirmações arbitrárias estão historicamente incorretas. Infelizmente para a paz e o progresso da espécie humana, muitos milhões de homens e de mulheres do mundo inteiro ainda vivem na intolerância e na disputa da Idade Média.

(Henry Thomas - "A HISTÓRIA DA RAÇA HUMANA")

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publicado às 07:42

 

Existem diferentes versões sobre quem foi o verdadeiro fundador da chamada Santa Aliança, o serviço de espionagem do Vaticano. Mas terá sido o papa Pio V (1566-1572) quem, em 1566, organizou o primeiro serviço de espionagem papal no sentido de lutar contra o protestantismo representado por Isabel I de Inglaterra.
Protegido pelo poderoso cardeal Juan Pedro Caraffa (o futuro papa Paulo IV), Miguel Ghislieri foi chamado a Roma para assumir a direcção de uma missão especial. Ghislieri foi encarregado pelo papa de criar uma espécie de serviço de contra-espionagem, que se ocuparia, de forma piramidal, em obter informações de todos aqueles que pudessem violar os preceitos papais e os dogmas da Igreja e por isso pudessem ser julgados pela Inquisição.
O jovem presbítero era muito devotado às sociedades secretas e o Santo Ofício era para ele uma das ”sociedades secretas” com maior poder no seu tempo. O trabalho realizado pelos agentes de Ghislieri nas regiões de Como e de Bergamo chamaram a atenção dos poderosos de Roma. Em menos de um ano, quase mil e duzentas pessoas, desde agricultores a nobres, foram julgadas pelo tribunal da Inquisição e mais de duas centenas foram consideradas culpadas, depois de serem submetidas a terríveis torturas e executadas.
A tortura da corda consistia em atar as mãos do presumido herege atrás das costas e o preso era levantado através de uma outra corda presa no tecto. Com o corpo suspenso, era solto por breves momentos para que caísse com o seu próprio peso. O preso ficava a um metro do solo e com essa violenta sacudidela as extremidades deslocavam-se.
Uma outra das torturas mais utilizadas era a da água. Os carrascos estendiam a vítima num cepo de madeira em forma de canal e colocavam um abraço, lenço fino molhado na garganta, enquanto lhe tapavam o nariz para que não pudesse respirar. Um dos verdugos enfiava-lhe água pela boca e pelas narinas e assim o preso não tinha nenhuma possibilidade de respirar. Quando o médico da Inquisição mandava parar com esse tormento, muitos dos réus já estavam mortos.
Em 1551, Miguel Ghislieri, devido aos serviços prestados, foi promovido por Caraffa, que o nomeou geral da Inquisição em Roma, sob o pontificado de Júlio III (1550-1555). Com Ghislieri como geral, a Congregação do Santo Ofício dispôs de todas as condições para alcançar os objectivos a que se propunha. Em primeiro lugar, foi realizada uma reforma do chamado Conselho da Suprema, e o papa nomeou um grupo de cardeais para o controlarem. Os purpurados faziam ao mesmo tempo de juizes e de conselheiros do Pontífice no caso de levar a juízo pessoas relevantes da sociedade romana.
Foi Ghislieri quem, no início de 1552, estabeleceu as sete classes de delitos susceptíveis de serem julgados pelo tribunal do Santo Ofício: os hereges; os suspeitos de heresia; os que protegiam os hereges; os magos, bruxos e feiticeiros; os blasfemos; os que resistissem às autoridades ou agentes da Inquisição; e os que quebrassem, ofendessem ou violassem os selos ou símbolos do Santo Ofício.
A partir desse mesmo ano, Ghislieri criou em toda a cidade uma autêntica rede de espiões, que operavam desde os lupanares da cidade até às cozinhas dos palácios dos nobres de Roma. Todas as informações de qualquer natureza recolhidas pelos agentes da Inquisição eram entregues pessoalmente a Ghislieri por intermédio de dois sistemas: de viva voz e pelo chamado Informi Rosso (Relatório Vermelho). Este último consistia num pequeno pergaminho enrolado numa cinta vermelha com o escudo do Santo Ofício. Segundo as leis vigentes, o rompimento do selo era punido imediatamente com a morte. Os agentes de Ghislieri registavam nesses pergaminhos todas as informações com que acusavam, e muitas vezes sem nenhuma prova, qualquer cidadão de Roma de violar as normas da Igreja e que podiam ser apreciadas por um tribunal da Inquisição. O Informi Rosso era depositado num pequeno vaso de bronze colocado para esse efeito na sede romana do Santo Ofício.
Durante anos, o geral da Inquisição criou uma das maiores e mais eficazes redes de espiões e um dos melhores arquivos de dados pessoais dos cidadãos de toda a Roma. Ninguém se movimentava ou falava nas ruelas ou praças da cidade sem que Ghislieri o não soubesse. Ninguém se movimentava ou falava dentro do Vaticano sem que o geral da Inquisição o não conhecesse.
A 23 de Maio de 1555, e depois de um breve pontificado com menos de um mês do papa Marcelo II, o cardeal Juan Pedro Caraffa, sem a oposição do sector imperial nem do sector francês, foi eleito papa no conclave. O embaixador de Veneza, Giacomo Navagero, definia assim o novo papa de setenta e nove anos: ”Caraffa é um papa de um temperamento violento e fogoso. É demasiado impetuoso no tratamento dos assuntos da Igreja e por isso o velho Pontífice não tolera que ninguém o contradiga”.
Caraffa, já como papa Paulo IV, chegou a temer o grande poder de Ghislieri. Em Roma, a populaça chegou mesmo a definir o geral da Inquisição como ”o papa na sombra”, mas apesar de tudo o pontífice concedeu a Miguel Ghislieri a púrpura cardinalícia. A partir daí Ghislieri o inquisidor tornar-se-ia mais perigoso e mais poderoso. Muitos membros do Colégio Cardinalício não permitiriam que, a partir do posto ocupado na temível Inquisição, ele dirigisse os destinos da Igreja Católica.
Os agentes de Ghislieri vangloriavam-se muito e impunham o terror nas ruas de Roma. Os espiões do cardeal, conhecidos como os ”monges negros”, escolhiam uma vítima e esperavam que ela seguisse por uma rua isolada. Nesse momento, era assaltada e metida numa carruagem fechada hermeticamente e levada para uma sala da Inquisição. Um frade que foi testemunha disso relatou a chegada dos sequestrados ao palácio do Santo Ofício em Roma, assim publicada na obra de Leonardo Gallois, Historia General de la Inquisition, de 1869:
Deixava-se a vítima num piso inferior do primeiro pátio, ao lado da porta principal. A vítima começava ali a sua iniciação numa sala circular onde dez esqueletos pregados na parede lhe anunciavam que por vezes naquela hospedaria se cravava em vida os hóspedes para os deixar esperar a morte com calma. Depois de um aviso tão santo, encontrava numa galeria contígua mais dois esqueletos humanos, não colocados de pé e na atitude de receber as visitas, mas estendidos em forma de mosaico ou de estrado.
Na mesma galeria podia distinguir claramente à direita um forno manchado por várias nódoas de gordura e consagrado a substituir em segredo as fogueiras das praças públicas, caídas em desuso por causa da picardia do século corrompido. (...) Poucos calabouços propriamente ditos se encontram neste primeiro corpo de edifícios, mas em contrapartida no segundo piso à direita encontra-se a sala do Santo Tribunal protegida por duas portas. Uma delas coroada por um letreiro que indica stanza del primo padre compagno e a segunda coroada por um letreiro que indica stanza del secando padre compagno. Assim se chamavam os dois inquisidores encarregados da dupla missão de ajudar a Suprema a procurar descobrir os criminosos e converter definitivamente o réu.
Mas essa situação mudaria por completo para o cardeal Ghislieri quando na noite de 18 de Agosto de 1559 o papa Paulo IV faleceu de repente. Após ser conhecida a notícia da morte, espalhou-se a sedição nas ruas de Roma; a captura e prisão dos agentes de Ghislieri converteu-se numa das principais motivações das massas. Muitos dos que serviram fielmente a Santa Inquisição eram assassinados pela população e os seus cadáveres lançados nas cloacas. Os distúrbios não acabaram aí. O povo de Roma assaltou o palácio que albergava o Tribunal da Inquisição e foi derrubada a estátua do pontífice falecido.
O cardeal Ghislieri e alguns dos seus homens conseguiram pôr a salvo uma grande parte dos arquivos secretos, levados em oito carruagens na sua fuga de Roma. Por fim, a situação voltou à normalidade em 25 de Dezembro de 1559 quando o cardeal Giovanni Angelo Medíeis, que era inimigo do anterior papa, se converteu no novo pontífice com o nome de Pio IV.
O papa era um homem de carácter firme, hábil diplomata e estava disposto a limpar a Igreja Católica de todos os vestígios do pontífice anterior, Paulo IV. Para essa tarefa rodeou-se de dois fiéis cardeais e seus sobrinhos, Marcos Sittich de Altemps e Carlos Borromeo. O primeiro era um mestre com a espada e na arte da guerra. O segundo era um mestre da diplomacia.
Borromeo foi nomeado arcebispo de Milão, legado papal em Bolonha e Romagna, responsável do governo dos Estados Pontifícios e finalmente secretário pessoal do papa. Como primeira medida, ordenou a detenção e reclusão no castelo de Sant’Angelo dos cardeais Carlo e Alfonso Caraffa, bem como de Juan Caraffa, duque de Paliano, e outros cavaleiros do séquito ducal acusados do assassínio da esposa daquele.
Como segunda medida, o papa Pio IV, aconselhado por Carlos Borromeo, decidiu reabilitar o cardeal Morone e o bispo Fiescherati que antes tinham sido acusados de heresia pelo Santo Ofício por ordem de Paulo IV. Como terceira medida, o papa ordenou o ”desterro” do cardeal Miguel Ghislieri, então geral da Inquisição, e a dissolução dos ”monges negros”. O cardeal, que se refugiou num mosteiro isolado, retomou o seu trabalho pastoral no antigo bispado, o que o fez ser visto com bons olhos quando o conclave voltou a reunir-se após o falecimento do papa Pio IV a 9 de Dezembro de 1565. Curiosamente, e depois de três semanas de conclave, o cardeal Carlos Borromeo, homem de confiança do papa falecido, decidiu defender a candidatura do cardeal Ghislieri, que contava com o apoio do rei Filipe II e desde há alguns anos recebia da Coroa de Espanha uma subvenção de 800 ducados.
A 7 de Janeiro de 1566, o cardeal Ghislieri era eleito papa e adoptou o nome de Pio V. O então embaixador de Espanha disse: ”Pio V é o papa que os tempos exigem”. Filipe II também aprovava a chegada de um aliado ao trono de São Pedro. A sua nomeação supunha a vitória de todos os que desejavam um pontífice austero e piedoso, mas por sua vez capaz de lutar e actuar com grande energia contra a Reforma protestante. O que era certo é que o papa Pio V utilizaria a sua ampla experiência à frente da Inquisição para criar um verdadeiro serviço de espionagem, implacável e de cega obediência às ordens supremas do pontífice.
A primeira função dos agentes da Santa Aliança, nome dado pelo próprio papa ao seu serviço secreto em honra da aliança entre o Vaticano e a rainha católica Maria Stuart, era sobretudo a de obter informações dos possíveis movimentos políticos e das intrigas dirigidas a partir da corte de Londres. As informações que obtinham eram enviadas àqueles poderosos monarcas que apoiavam o catolicismo e o poder pontifício em face do cada vez mais alargado protestantismo. O principal objectivo dos espiões do papa era prestar os seus serviços à rainha Maria Stuart com o intuito de procurar restaurar o catolicismo na Escócia, que se tinha declarado presbiteriana no ano de 1560, e lutar contra o protestantismo. O papa Pio V entendia que o seu principal inimigo era a Igreja cismática de Inglaterra, representada pela rainha Isabel, filha de Henrique VIII e de Ana Bolena.
O rei Henrique VIII havia rompido com a Igreja Católica em 1532, quando pediu a Clemente VII (19-XI-1523 / 25-IX-1534) autorização para se divorciar da rainha Catarina de Aragão, que era filha dos reis católicos e tia do imperador Carlos I de Espanha e V da Alemanha, para se poder casar com a sua amante Ana Bolena. O pontífice estudou a carta enviada pelo rei de Inglaterra, um velho pergaminho de sessenta por noventa centímetros e com a assinatura, como aval, de setenta e cinco altas personalidades do reino. Desse documento pendiam setenta e cinco cintas de seda vermelha com setenta e cinco selos de lacre.
No texto, Henrique VIII exprimia o desejo de contrair casamento com a sua amante e pedia a autorização papal para se divorciar da sua esposa, a rainha Catarina de Aragão. Essa petição foi negada pelo papa Clemente VII, o que provocou a ira e o afastamento de Henrique VIII da Igreja Católica. Mas o monarca de Inglaterra decidiu contrair matrimónio com Ana Bolena e anulou assim o seu casamento com Catarina, apesar da recusa de Roma.
O cisma definitivo aconteceu a 15 de Janeiro de 1535, sob o pontificado de Paulo III, quando, para dar uma base jurídica à sua nova supremacia eclesiástica, Henrique VIII convocara os sábios de todas as universidades do reino e o clero para que declarassem publicamente que o papa romano não tinha nenhum direito divino ou autoridade alguma sobre a Inglaterra. As bases reais da nova Igreja eram as de uma Igreja Católica anglicana, sob a autoridade da Coroa.
Os cinco anos de reinado de Maria Tudor até à sua morte, ocorrida a 17 de Novembro de 1558, foram muito intensos. Guerras, execuções, rebeliões internas, golpes de Estado e conflitos religiosos espalharam-se pelo reino. Na própria noite da morte da rainha Maria, a sua irmã Isabel, filha de Henrique VIII e Ana Bolena, foi proclamada rainha de Inglaterra.
Grande parte da população recebeu com júbilo a chegada da nova rainha, em parte pela má recordação deixada por Maria Tudor, a quem popularmente baptizaram como Maria, a Sanguinária (Bloody Mary). Desde a sua chegada ao trono, Maria tinha-se mostrado decidida, com o apoio de Paulo IV e a resistência do embaixador de Espanha, a implantar a sangue e fogo o catolicismo, mas para isso devia antes cortar as cabeças dos que haviam defendido a Reforma.
Muitos dos bispos protestantes, que Maria Tudor definia como ”maus pastores que conduziram as suas ovelhas à perdição”, seriam os primeiros a ser queimados na fogueira por crime de heresia. O ex-bispo de Londres, Ridley, o mesmo que pouco tempo antes tinha proclamado Jane Grey como rainha de Inglaterra e considerado Maria Tudor como bastarda, foi queimado vivo a 16 de Outubro de 1555 numa praça da cidade de Oxford. Na fogueira também o acompanharia o ex-bispo de Worcester, Latimer. Uma outra execução ordenada pela rainha, e que causaria viva surpresa mesmo em Roma e no Parlamento da Inglaterra, seria o suplício, a 21 de Março de 1556, de Thomas Cranmer, ex-bispo de Canterbury, e que no passado declarara a anulação do casamento do rei Henrique VIII com Catarina de Aragão e consumara a ruptura definitiva com o poder papal de Roma.
A 15 de Janeiro de 1559, Isabel I foi coroada como rainha de Inglaterra e a 8 de Maio inaugurava a sessão do Parlamento, onde pedia a aprovação das leis que permitiam o restabelecimento do protestantismo em todo o reino e nos seus domínios. Roma e a Igreja Católica, dirigida por um ancião de oitenta e três anos, o papa Paulo IV, já não tinham força para fazer pressão face à mudança religiosa que novamente se avizinhava na Inglaterra.

(Eric Frattini -  "A santa aliança, cinco séculos de espionagem do Vaticano)

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publicado às 07:41


Mais padre Beto, menos padre Marcelo

por Thynus, em 07.05.13

 

O padre-pop é símbolo de uma Igreja que se finge de surda, cega e muda e afasta quem tem coragem de apontar suas contradições

 

 

 

 

Entre os dias 23 e 28 de julho, o Rio de Janeiro sediará a Jornada Mundial da Juventude. Será a primeira viagem internacional do argentino Jorge Mario Bergoglio como papa Francisco. A recepção ficará por conta dos padre-cantores Fábio de Melo, Reginaldo Mazotti e Marcelo Rossi. Serão os cartões de visita de uma igreja que tenta fazer frente à guinada evangélica com música, pirotecnia, esvaziamento político e alienação.
Não é outra a impressão que se tem ao abrir e fechar os jornais da segunda-feira 20. Pela manhã, fui fisgado pela reveladora entrevista à Folha de S.Paulo concedida pelo padre Marcelo Rossi. Nela, o clérigo declarou, entre outras pérolas, que tem como função “animar as pessoas” durante as celebrações; que os evangélicos “invadem” (foi esta a expressão) os horários da tevê; que, para fazer frente aos “rivais”, as comunidades eclesiais de base – pontos de encontro entre o Clero, a periferia e as lideranças locais – são velas que iluminam pouco em comparação aos grandes santuários (ele comparou a igreja católica a um time de futebol que, apesar dos limites, consegue vencer uma partida graças à sua torcida); que o perigo destas comunidades é “cair na política”; e cita a justiça do mundo, que tarda mas chega, ao analisar o ranking de personalidades confiáveis da Folha de S.Paulo, em que apareceria atrás apenas de Lula e William Bonner, enquanto o bispo Edir Macedo figurava “lá em 20º”.
Como não era de se estranhar, ele vestiu as vestes do funcionário-padrão ao se manifestar sobre o casamento gay: “A palavra de Deus é clara: Deus criou o homem e a mulher. A igreja acolhe o pecador, mas não o pecado”. Para ele, a adoção de crianças por casais homossexuais, em discussão em qualquer lugar do mundo, “quebra o sentido do que é família”.
É o retrato perfeito de uma igreja alienada e alienante. Uma igreja que confunde fieis com torcida organizada – e a coexistência de credos com torneio mata-mata – e tem um sonho de consumo: transformar os fiéis em cordeiros passivos, temerosos à destruição da família pelo pecado e aptos a engolir tudo o que é dito sem grandes questionamentos.
Que bom que esta igreja forme cada vez menos padres, atraia cada vez menos gente, e afaste diariamente tantos fieis.
O padre Marcelo Rossi, enquanto canta, bate palma e sorri – e se comporta, portanto, como animador de torcida que não sabe por que canta, bate palma e sorri – parece jogar para o tapete toda a complexidade de um tecido social cruel. Nesse tecido, uma nova ordem se manifesta aos poucos, mas é ignorada por uma igreja que se finge de surda, cega e muda.
Surda porque, em meio a tanta gritaria, não ouve o clamores por paz e a unidade, pilares do Evangelho, expressos na vida real. Clamores que rejeitam a velha dicotomia “nós x eles” – católicos x evangélicos, gays x família, política x retidão – e pregam a comunhão não de velhos dogmas, mas de valores, estes cada vez mais associados às liberdades de escolha e expressão.
Cega porque, ao se distanciar da política, se esquece dos reais métodos de transformação. O apelo à despolitização, em um mundo de soluções negociadas, é um acinte à racionalidade. Mas, para o padre Marcelo, a noção de política é em si nociva; e quanto mais a igreja pensar grande e se afastar das comunidades já afastadas – as pequenas comunidades que não lotam um templo nem saem bem na foto – melhor. O apelo do padre Marcelo à alienação é um grande desserviço: leva o fiel a acreditar que o afastamento da vida política – portanto comunitária – é um atalho para moralidade pública. Não é. Se as comunidades eclesiais de base se afastaram da vocação social transformadora não foi por excesso, mas pela ausência de engajamento. Cantar, dançar e bater palma não moverá montanha nem despertará a atenção das autoridades políticas, religiosas, sociais, econômicas para os desafios do novo e do velho século. O padre Marcelo parece não saber, mas é cobrando, dialogando, propondo caminhos, e não cantando, dançando e batendo palmas, que se universaliza a dignidade e a justiça – que não se expressa apenas em um ranking raso de personalidades do momento.
E muda porque se cala diante das agressões diárias praticadas não pelo Demônio da Bíblia, mas os demônios das ruas de todo santo (ou maldito) dia: as agressões a quem se expressa, a quem pede o direito de existir, de ir e vir, e a quem não tem a plenitude dos direitos civis, políticos, sociais e humanos, enfim. Cantar, dançar e bater palma podem entreter, mas não religam o humano ao que lhe é mais caro. Não mata a fome – nem física nem espiritual. E não será com ovelhas domesticadas, passivas, dóceis, massificadas, despolitizadas e incapazes de refletir sobre o mundo que a Igreja criará a porta para uma fé genuína. Porque fé e transformação não precisam ser valores incompatíveis para se manifestar.

Não parece ser só coincidência o fato de que, no mesmo dia em que foi publicada a entrevista com o padre-símbolo de uma igreja encantada tenha sido anunciada a excomunhão de outro símbolo: o de quem escancara o descolamento desta igreja de sua própria realidade.
Em Bauru, a cerca de 300 km da capital paulista – e a anos-luz de uma discussão que o Vaticano se nega a encaminhar – o padre Roberto Francisco Daniel, conhecido como padre Beto, pagou o preço por ter afirmado, durante suas pregações, que “hoje em dia não dá mais para enquadrar o ser humano em homossexual, bissexual ou heterossexual” e “que o amor pode surgir em qualquer desses níveis”. A igreja, que leva séculos para digerir um mundo novo, levou dias, horas, minutos para acusar a heresia e o cisma.
Era um fim inevitável: dias antes da excomunhão, o padre Beto já havia anunciado que deixava a igreja porque era impossível viver o Evangelho em uma instituição que não respeita a liberdade de reflexão e expressão e se descolou do modelo de Jesus Cristo, que viveu esses direitos plenamente e levou as pessoas a pensarem por si mesmas. “Não é possível ser cristão em uma instituição que cria hipocrisias e mantém regras morais totalmente ultrapassadas da nossa época e do conhecimento da ciência”, disse.
Uma instituição, segundo ele, omissa diante de problemas sociais graves, como o descaso com a educação, com a segurança pública, com o sistema prisional e um sistema de saúde público que só serve ao sistema privado. “Se refletir é um pecado, sou um pecador e sempre serei um pecador”, finalizou.
São duas posturas diametralmente opostas dentro de uma mesma igreja que tem, na base, uma só ordem: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Uma quer que tudo siga como está: que, em nome da ordem natural das coisas, quem sofre siga sofrendo em silêncio, descolado da realidade que pede postura, indignação e transformação. É mais fácil, e menos perigoso, pular e sorrir cantando que os animaizinhos subiram de dois em dois na arca de Noé.
A outra pede mudanças, aceita as liberdades e acredita, como dizia uma música estranhamente desaparecida das celebrações, que comungar é tornar-se um “perigo”; é unir-se numa “luta sofrida de um povo que quer ter voz, ter vez e lugar”. Uma música que avisava: se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão.
Uns falam. Outros erguem as mãos, dão glórias a Deus e, quando a multidão desaparece, apagam as luzes do templo e escondem os cadáveres debaixo do tapete. Se este for o exercício pleno da fé, fiquemos com os pecadores. E com a proposta anti-dogma do cancioneiro popular: amar e mudar as coisas nos interessam mais.

(Matheus Pichonelli - http://www.cartacapital.com.br/politica/mais-padre-beto-menos-padre-marcelo-9933.html )

  Hiperlink: 

* Padre Marcelo Rossi à Folha de São Paulo: “Estamos voltando à Idade Média, o período mais terrível e negro da igreja”.

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publicado às 18:32


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