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Mais padre Beto, menos padre Marcelo

por Thynus, em 07.05.13

 

O padre-pop é símbolo de uma Igreja que se finge de surda, cega e muda e afasta quem tem coragem de apontar suas contradições

 

 

 

 

Entre os dias 23 e 28 de julho, o Rio de Janeiro sediará a Jornada Mundial da Juventude. Será a primeira viagem internacional do argentino Jorge Mario Bergoglio como papa Francisco. A recepção ficará por conta dos padre-cantores Fábio de Melo, Reginaldo Mazotti e Marcelo Rossi. Serão os cartões de visita de uma igreja que tenta fazer frente à guinada evangélica com música, pirotecnia, esvaziamento político e alienação.
Não é outra a impressão que se tem ao abrir e fechar os jornais da segunda-feira 20. Pela manhã, fui fisgado pela reveladora entrevista à Folha de S.Paulo concedida pelo padre Marcelo Rossi. Nela, o clérigo declarou, entre outras pérolas, que tem como função “animar as pessoas” durante as celebrações; que os evangélicos “invadem” (foi esta a expressão) os horários da tevê; que, para fazer frente aos “rivais”, as comunidades eclesiais de base – pontos de encontro entre o Clero, a periferia e as lideranças locais – são velas que iluminam pouco em comparação aos grandes santuários (ele comparou a igreja católica a um time de futebol que, apesar dos limites, consegue vencer uma partida graças à sua torcida); que o perigo destas comunidades é “cair na política”; e cita a justiça do mundo, que tarda mas chega, ao analisar o ranking de personalidades confiáveis da Folha de S.Paulo, em que apareceria atrás apenas de Lula e William Bonner, enquanto o bispo Edir Macedo figurava “lá em 20º”.
Como não era de se estranhar, ele vestiu as vestes do funcionário-padrão ao se manifestar sobre o casamento gay: “A palavra de Deus é clara: Deus criou o homem e a mulher. A igreja acolhe o pecador, mas não o pecado”. Para ele, a adoção de crianças por casais homossexuais, em discussão em qualquer lugar do mundo, “quebra o sentido do que é família”.
É o retrato perfeito de uma igreja alienada e alienante. Uma igreja que confunde fieis com torcida organizada – e a coexistência de credos com torneio mata-mata – e tem um sonho de consumo: transformar os fiéis em cordeiros passivos, temerosos à destruição da família pelo pecado e aptos a engolir tudo o que é dito sem grandes questionamentos.
Que bom que esta igreja forme cada vez menos padres, atraia cada vez menos gente, e afaste diariamente tantos fieis.
O padre Marcelo Rossi, enquanto canta, bate palma e sorri – e se comporta, portanto, como animador de torcida que não sabe por que canta, bate palma e sorri – parece jogar para o tapete toda a complexidade de um tecido social cruel. Nesse tecido, uma nova ordem se manifesta aos poucos, mas é ignorada por uma igreja que se finge de surda, cega e muda.
Surda porque, em meio a tanta gritaria, não ouve o clamores por paz e a unidade, pilares do Evangelho, expressos na vida real. Clamores que rejeitam a velha dicotomia “nós x eles” – católicos x evangélicos, gays x família, política x retidão – e pregam a comunhão não de velhos dogmas, mas de valores, estes cada vez mais associados às liberdades de escolha e expressão.
Cega porque, ao se distanciar da política, se esquece dos reais métodos de transformação. O apelo à despolitização, em um mundo de soluções negociadas, é um acinte à racionalidade. Mas, para o padre Marcelo, a noção de política é em si nociva; e quanto mais a igreja pensar grande e se afastar das comunidades já afastadas – as pequenas comunidades que não lotam um templo nem saem bem na foto – melhor. O apelo do padre Marcelo à alienação é um grande desserviço: leva o fiel a acreditar que o afastamento da vida política – portanto comunitária – é um atalho para moralidade pública. Não é. Se as comunidades eclesiais de base se afastaram da vocação social transformadora não foi por excesso, mas pela ausência de engajamento. Cantar, dançar e bater palma não moverá montanha nem despertará a atenção das autoridades políticas, religiosas, sociais, econômicas para os desafios do novo e do velho século. O padre Marcelo parece não saber, mas é cobrando, dialogando, propondo caminhos, e não cantando, dançando e batendo palmas, que se universaliza a dignidade e a justiça – que não se expressa apenas em um ranking raso de personalidades do momento.
E muda porque se cala diante das agressões diárias praticadas não pelo Demônio da Bíblia, mas os demônios das ruas de todo santo (ou maldito) dia: as agressões a quem se expressa, a quem pede o direito de existir, de ir e vir, e a quem não tem a plenitude dos direitos civis, políticos, sociais e humanos, enfim. Cantar, dançar e bater palma podem entreter, mas não religam o humano ao que lhe é mais caro. Não mata a fome – nem física nem espiritual. E não será com ovelhas domesticadas, passivas, dóceis, massificadas, despolitizadas e incapazes de refletir sobre o mundo que a Igreja criará a porta para uma fé genuína. Porque fé e transformação não precisam ser valores incompatíveis para se manifestar.

Não parece ser só coincidência o fato de que, no mesmo dia em que foi publicada a entrevista com o padre-símbolo de uma igreja encantada tenha sido anunciada a excomunhão de outro símbolo: o de quem escancara o descolamento desta igreja de sua própria realidade.
Em Bauru, a cerca de 300 km da capital paulista – e a anos-luz de uma discussão que o Vaticano se nega a encaminhar – o padre Roberto Francisco Daniel, conhecido como padre Beto, pagou o preço por ter afirmado, durante suas pregações, que “hoje em dia não dá mais para enquadrar o ser humano em homossexual, bissexual ou heterossexual” e “que o amor pode surgir em qualquer desses níveis”. A igreja, que leva séculos para digerir um mundo novo, levou dias, horas, minutos para acusar a heresia e o cisma.
Era um fim inevitável: dias antes da excomunhão, o padre Beto já havia anunciado que deixava a igreja porque era impossível viver o Evangelho em uma instituição que não respeita a liberdade de reflexão e expressão e se descolou do modelo de Jesus Cristo, que viveu esses direitos plenamente e levou as pessoas a pensarem por si mesmas. “Não é possível ser cristão em uma instituição que cria hipocrisias e mantém regras morais totalmente ultrapassadas da nossa época e do conhecimento da ciência”, disse.
Uma instituição, segundo ele, omissa diante de problemas sociais graves, como o descaso com a educação, com a segurança pública, com o sistema prisional e um sistema de saúde público que só serve ao sistema privado. “Se refletir é um pecado, sou um pecador e sempre serei um pecador”, finalizou.
São duas posturas diametralmente opostas dentro de uma mesma igreja que tem, na base, uma só ordem: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Uma quer que tudo siga como está: que, em nome da ordem natural das coisas, quem sofre siga sofrendo em silêncio, descolado da realidade que pede postura, indignação e transformação. É mais fácil, e menos perigoso, pular e sorrir cantando que os animaizinhos subiram de dois em dois na arca de Noé.
A outra pede mudanças, aceita as liberdades e acredita, como dizia uma música estranhamente desaparecida das celebrações, que comungar é tornar-se um “perigo”; é unir-se numa “luta sofrida de um povo que quer ter voz, ter vez e lugar”. Uma música que avisava: se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão.
Uns falam. Outros erguem as mãos, dão glórias a Deus e, quando a multidão desaparece, apagam as luzes do templo e escondem os cadáveres debaixo do tapete. Se este for o exercício pleno da fé, fiquemos com os pecadores. E com a proposta anti-dogma do cancioneiro popular: amar e mudar as coisas nos interessam mais.

(Matheus Pichonelli - http://www.cartacapital.com.br/politica/mais-padre-beto-menos-padre-marcelo-9933.html )

  Hiperlink: 

* Padre Marcelo Rossi à Folha de São Paulo: “Estamos voltando à Idade Média, o período mais terrível e negro da igreja”.

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publicado às 18:32

 


A ICAR é uma instituição castradora:
• Castradora através do Celibato Obrigatório que, sendo uma imposição contra-natura, tem-se manifestado em gravíssimos desvios sexuais (padres pedófilos, taxas elevadas de homossexualismo entre o clero). Eugene Drew
ermann (ex-padre) reconhece, fruto da sua experiência de psicoterapeuta, que a percentagem de homossexuais dentro da Igreja católica é grande, como consequência principal da sua moral repressiva e da atitude quanto ao celibato, quer entre religiosos de sexo masculino como do sexo feminino, chegando aos 25% os jovens seminaristas que, de forma permanente ou esporádica, se dedicam a práticas homossexuais. Homossexualidade que era considerada pela Igreja como uma das formas mais graves de pecado (os acusados pelo "crime nefando" eram sentenciados à fogueira pela Santa Inquisição). Se fosse agora, muito havia que queimar!
• Castradora através de seus Dogmas que cerceiam a liberdade de expressão. Quem tem medo do diálogo franco e aberto, escuda-se nos dogmas e na disciplina eclesiástica.

A Igreja Católica, continua Drewermann (“Funcionários de Deus“), «falsifica a neurose em santidade, a doença em eleição divina e a angústia em confiança em Deus», separando, como realidades opostas, o pensamento da sensibilidade, a actividade intelectual da vivência emocional. Filosofia própria de uma religião que «é inimiga da natureza e oposta ao amor» e que tem como objectivo não a sua libertação, mas a subjugação do homem: a sua destruição como indivíduo livre e senhor do seu destino.

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publicado às 14:47

 

 

O primeiro a reagir aos problemas postos por Hume foi Kant, ao declarar que, graças ao filósofo inglês, pôde “despertar do sono dogmático”. O que é o sono dogmático? É tomar como ponto de partida da metafísica a idéia de que existe uma realidade em si (Deus, alma, mundo, infinito, finito, matéria, forma, substância, causalidade), que pode ser conhecida por nossa razão ou, o que dá no mesmo, tomar como ponto de partida da metafísica a afirmação de que as idéias produzidas por nossa razão correspondem exatamente a uma realidade externa, que existe em si e por si mesma.
Dogmático é aquele que aceita, sem exame e sem crítica, afirmações sobre as coisas e sobre as idéias. Hume despertou a metafísica do sono dogmático, porque a forçou a indagar sobre sua própria validade e sua pretensão ao conhecimento verdadeiro.
O que é despertar do sono dogmático? É indagar, antes de tudo, se a metafísica é possível e, se for, em que condições é possível. Despertar do dogmatismo é elaborar uma crítica da razão teórica, isto é, um estudo sobre a estrutura e o poder da razão para determinar o que ela pode e o que ela não pode conhecer
verdadeiramente.
Quando examinamos os conceitos de razão e verdade, vimos que Kant realizou uma “revolução copernicana” em filosofia, isto é, exigiu que, antes de qualquer afirmação sobre as idéias, houvesse o estudo da própria capacidade de conhecer, isto é, da razão. Vimos também que ele distinguira duas grandes modalidades de conhecimento: os conhecimentos empíricos, isto é, baseados nos dados da experiência psicológica de cada um de nós, e os conhecimentos apriorísticos, isto é, baseados exclusivamente na estrutura interna da própria razão, independentemente da experiência individual de cada um. Vimos, além disso, que ele distinguira as duas maneiras pelas quais esses dois tipos de conhecimentos se exprimem: os juízos sintéticos e os juízos analíticos. Finalmente, vimos que a questão do conhecimento estava resumida numa pergunta fundamental: São possíveis juízos sintéticos apriorísticos?
Recordemos a distinção entre os tipos de juízos. O juízo analítico é aquele em que o predicado não é senão a explicitação do conteúdo do sujeito. Por exemplo: “O triângulo é uma figura de três lados”. O juízo sintético é aquele no qual o predicado acrescenta novos dados sobre o sujeito. Por exemplo: “Sócrates é filósofo”.
Um juízo, para ter valor científico e filosófico ou valor teórico, deve preencher duas condições:
1. deve ser universal e necessário;
2. deve ser verdadeiro, isto é, corresponder à realidade que enuncia.
Os juízos analíticos, diz Kant, preenchem as duas condições, mas não os juízos sintéticos. Por quê? Porque um juízo sintético se baseia nos dados da experiência psicológica individual e, como bem mostrou Hume, tal experiência nos dá sensações e impressões que associamos em idéias, mas estas não são universais e necessárias, nem correspondem à realidade.
Ora, um juízo analítico não nos traz conhecimentos, pois simplesmente repete, no predicado, o conteúdo do sujeito. Somente juízos sintéticos são fonte de conhecimento. Portanto, se quisermos realizar metafísica e ciência, temos, primeiro, que provar que são possíveis juízos sintéticos universais, necessários e verdadeiros e, portanto, demonstrar que tais juízos não podem ser empíricos. Dizer que um juízo sintético é universal, necessário e verdadeiro e dizer que não pode ser empírico significa dizer que o juízo sintético filosófico e científico tem que ser um juízo sintético apriorístico ou a priori, isto é, tem que depender de alguma coisa que não seja a experiência.
A pergunta: “É possível a metafísica?” só poderá ser respondida se, primeiro, for provado que há ou que não pode haver juízos sintéticos a priori sobre as realidades metafísicas, isto é, Deus, alma, mundo, substância, matéria, forma, infinito, finito, causalidade, etc.
Vimos que Kant demonstrou a existência e validade dos juízos sintéticos a priori nas ciências, demonstrando que o conhecimento da realidade nada mais é do que a maneira como a razão, através de sua estrutura universal, organiza de modo universal e necessário os dados da experiência. Em outras palavras, vimos que, graças às formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e dos conceitos a priori do entendimento (as categorias de substância, causalidade, relação, quantidade, qualidade, etc.), possuímos uma capacidade de conhecimento inata, universal e necessária que não depende da experiência, mas se realiza por ocasião da experiência sobre os objetos que esta nos oferece.
O que é exatamente um juízo?
Um juízo é uma afirmação ou uma negação referente a propriedades de um sujeito, isto é, a maneira como o conhecimento afirma ou nega o que uma coisa é ou não é. Como a realidade ou o objeto é aquilo que pode ser conhecido através das formas a priori da sensibilidade e dos conceitos a priori do entendimento, um juízo é a afirmação ou a negação da realidade de um objeto pela afirmação ou negação de suas propriedades.
O que é conhecer?
Conhecer é formular juízos que nos apresentem todas as propriedades positivas de um objeto e excluam todas as propriedades negativas que o objeto não pode possuir. Por exemplo, quando digo: “O número 4 é um inteiro par ”, esse juízo afirma que um certo objeto – 4 – é alguma coisa – é um número -, que possui determinadas propriedades positivas – inteiro, par – e, por conseguinte, dele estão excluídas propriedades negativas, diferentes das que possui – fracionário e ímpar.
Quando digo: “Isto é uma mesa, é de madeira, possui quatro pés, está junto à janela, é usada para escrever”, este juízo afirma que um certo objeto – isto – é alguma coisa –mesa -, que possui certas qualidades – madeira, quatro pés, serve para escrever, está junto à janela – e, por conseguinte, dele estão excluídas outras coisas – não é uma cadeira, não é um livro – e a ele são negadas certas propriedades – não é de vidro, não está junto à porta, não serve para deitar, etc.
Um juízo, portanto, nos dá a conhecer alguma coisa, desde que esta possa ser apreendida sob as formas do espaço e do tempo e sob os conceitos do entendimento. Uma coisa passa a existir quando se torna objeto de um juízo. Isso não significa que o juízo cria a própria coisa, mas sim que a faz existir para nós. O juízo põe a realidade de alguma coisa ao colocá-la como sujeito de uma proposição, isto é, ao colocá-la como objeto de um conhecimento. É, portanto, o juízo que põe a qualidade, a quantidade, a causalidade, a substância, a matéria, a forma, a essência das coisas, na medida em que estas existem apenas enquanto são objetos de conhecimento postos pelas formas do espaço, do tempo e pelos conceitos do entendimento.
Em outras palavras, uma coisa existe quando pode ser posta pelo sujeito do conhecimento, entendido não como um sujeito individual e psicológico (João, Pedro, Maria, Ana), mas como o sujeito universal ou estrutura a priori universal da razão humana, aquilo que Kant denomina de Sujeito Transcendental.
Quando o juízo for sintético e a priori, o conhecimento obtido é universal, necessário e verdadeiro.
No entanto, a demonstração de que, graças às formas a priori da sensibilidade e graças aos conceitos a priori do entendimento, os juízos sintéticos a priori são possíveis, é uma demonstração que não ajuda em nada a pergunta sobre a possibilidade da metafísica. Por quê?
Kant distinguiu duas modalidades de realidade. A realidade que se oferece a nós na experiência e a realidade que não se oferece à experiência. A primeira foi chamada por ele de fenômeno, isto é, aquilo que se apresenta ao sujeito do conhecimento na experiência, é estruturado pelo sujeito com as formas do espaço e do tempo e com os conceitos do entendimento, é sujeito de um juízo e objeto de um conhecimento. A segunda foi chamada por ele de nôumeno, isto é, aquilo que não é dado à sensibilidade nem ao entendimento, mas é afirmado pela razão sem base na experiência e no entendimento.
O fenômeno é a coisa para nós ou o objeto do conhecimento propriamente dito, é o objeto enquanto sujeito do juízo. O nôumeno é a coisa em si ou o objeto da metafísica, isto é, o que é dado para um pensamento puro, sem relação com a experiência. Ora, só há conhecimento universal e necessário daquilo que é organizado pelo sujeito do conhecimento nas formas do espaço e do tempo e de acordo com os conceitos do entendimento. Se o nôumeno é aquilo que nunca se apresenta à sensibilidade, nem ao entendimento, mas é afirmado pelo pensamento puro, não pode ser conhecido. E se o nôumeno é o objeto da metafísica, esta não é um conhecimento possível.
Tomemos um exemplo que nos ajude a compreender a argumentação kantiana.
Quando a metafísica se refere a Deus, ela o define como imaterial, infinito, eterno, incausado, princípio e fundamento das essências e existências de todos os seres.
Vejamos cada uma das qualidades atribuídas ao sujeito “Deus” ou à idéia de Deus. Imaterial: portanto, não espacial; infinito: portanto, não espacial; eterno: portanto, não temporal; incausado: portanto, sem causa; princípio e fundamento de tudo: portanto, acima e fora de toda a realidade conhecida ou incondicionado.
A idéia metafísica de Deus é a idéia de um ser que não pode nos aparecer sob a forma do espaço e tempo; de um ser ao qual a categoria de causalidade não se aplica; de um ser que, nunca tendo sido dado a nós, é posto, entretanto, como fundamento e princípio de toda a realidade e de toda a verdade. Assim, a idéia metafísica de Deus escapa de todas as condições de possibilidade do conhecimento humano e, portanto, a metafísica usa ilegitimamente essa idéia para afirmar que Deus existe e para dizer o que ele é.
Até agora, diz Kant, a metafísica tem sido uma insensatez dogmática. Tem sido a pretensão de conhecer aqueles seres que, justamente, escapam de toda possibilidade humana de conhecimento, pois são seres aos quais não se aplicam as condições universais e necessárias dos juízos, isto é, espaço, tempo, causalidade, qualidade, quantidade, substancialidade, etc. Essa metafísica não é possível.
Mas isso não significa que toda metafísica seja impossível.
Qual é a metafísica possível? É aquela que tem como objeto a investigação dos conceitos usados pelas ciências – espaço, tempo, quantidade, qualidade, causalidade, substancialidade, universalidade, necessidade, etc. -, isto é, que tem como objeto o estudo das condições de possibilidade de todo conhecimento humano e de toda a experiência humana possíveis. A metafísica estuda, portanto, as condições universais e necessárias da objetividade em geral e não o “Ser enquanto Ser”, nem Deus, alma e mundo, nem substância infinita, pensante e extensa. Estuda as maneiras pelas quais o sujeito do conhecimento, ou a razão teórica, põe a realidade, isto é, estabelece os objetos do conhecimento e da experiência. A metafísica é o conhecimento do conhecimento humano e da experiência humana, ou, em outras palavras, do modo como os seres humanos, enquanto expressões do Sujeito Transcendental, definem e estabelecem realidades.
Há, além desse, um outro objeto para a metafísica. Não se trata, porém, de um objeto teórico e sim de um objeto prático, qual seja, a ação humana enquanto ação moral, ou o que Kant chama de ação livre por dever. Por que a moral, ou a ética, se torna objeto da metafísica? Por causa da liberdade.
A razão teórica mostra que todos os seres, incluindo os homens, são seres naturais. Isso significa que são seres submetidos a relações necessárias de causa e efeito. A Natureza é o reino das leis naturais de causalidade. Nela, tudo acontece de modo necessário ou causal, não havendo lugar para escolhas livres. No entanto, os seres humanos são capazes de agir por escolha livre, por determinação racional de sua vontade e são capazes de agir em nome de fins ou finalidades humanas, e não apenas condicionados por causas naturais necessárias.
A ação livre ou por escolha voluntária ou racional é uma ação por finalidade e não por causalidade. Nesse sentido, a ação moral mostra que, além do reino causal da Natureza, existe o reino ético da liberdade e da finalidade. Cabe à metafísica o estudo dessa outra modalidade de realidade, que não é natural nem teórica, mas prática. Assim, ao lado do conhecimento da razão teórica, a metafísica tem como objeto o estudo da razão prática ou da ética.
Como é possível a liberdade? Como é possível a ação livre por finalidade? Quais são as finalidades da vida ética? O que é o dever? O que é e como é possível agir por dever? O que é a virtude? Eis alguns dos temas da metafísica como estudo da razão prática.

(Marilena Chauí - "Convite à filosofia")

É possível que desejo e vontade não sejam a mesma coisa?
O professor Clóvis de Barros Filho explica o pensamento Kantiano, tão presente em nossas vidas, mesmo que não percebamos.

Desejo x Vontade - Kant from Espaço Ética on Vimeo.

 

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publicado às 14:18


Os ritos da beleza feminina

por Thynus, em 09.04.13

 

 

As revistas transmitem o mito da beleza como um evangelho de uma nova religião. Ao lê-las, as mulheres participam na recriação de um sistema de crenças tão poderoso quanto o de qualquer das igrejas cuja influência sobre elas se desfez tão rapidamente.
A Igreja da Beleza é, como a Donzela de Ferro, um símbolo duplo. As mulheres a abraçaram com entusiasmo como um meio de preencher o vazio espiritual que se abriu quando sua tradicional relação com a autoridade religiosa se esgarçou. Com entusiasmo proporcional, a ordem social a impõe para suplantar a autoridade religiosa como uma força de controle sobre as vidas das mulheres.
Os Ritos da Beleza combatem a recente liberdade das mulheres, opondo-se ao seu ingresso no mundo secular com superstição medieval, mantendo as desigualdades de poder mais intactas do que poderiam estar se não fosse por eles. À medida que as mulheres entram em luta com um mundo que está chegando a um novo milênio, elas são cada vez mais oprimidas por um poderoso sistema de crenças que mantém parte de sua consciência presa a uma forma de pensar que o mundo masculino abandonou na Idade Média. Se uma consciência está centrada num sistema medieval de crenças e uma outra inteiramente moderna, o mundo contemporâneo e seu poder pertencerão a esta última. Os Ritos são arcaicos e primitivos para que o cerne da consciência feminina possa se manter arcaico e primitivo.
Também os homens respeitam essa religião das mulheres. O sistema de castas baseado na "beleza" é defendido como se tivesse origem em alguma verdade eterna. Isso é presumido por pessoas que não encaram o mundo com esse tipo de fé categórica em mais nada. Neste século, a maioria dos campos do pensamento foi transformada pela compreensão de que as verdades são relativas e as percepções, subjetivas. No entanto, a correção e a permanência do sistema de castas da "beleza" não são questionadas por pessoas que estudam física quântica, etnologia, direitos civis; por ateus, por quem tem atitude cética para com os telejornais e não acredita que a Terra foi criada em sete dias. Acredita-se no sistema sem questioná-lo, como um artigo de fé.
O ceticismo da época moderna desaparece quando o assunto é a beleza feminina. Ela ainda é descrita — na verdade mais do que nunca antes — como se não fosse determinada por seres mortais, moldada pela política, pela história e pelo mercado, mas, sim, como se houvesse uma autoridade divina lá em cima que emitisse um mandamento imortal sobre o que faz uma mulher ser agradável de se ver.
Essa "verdade" é vista como Deus costumava ser visto — no alto de uma hierarquia, com sua autoridade o ligando a seus representantes na terra: jurados de concurso de beleza, fotógrafos e, em último lugar, o homem comum. Mesmo ele, o último elo, tem uma parte dessa autoridade divina sobre as mulheres, como o Adão de Milton tinha sobre Eva: "ele por Deus, e ela por Deus nele". O direito de um homem de julgar a beleza de qualquer mulher, enquanto ele próprio não é julgado, não é questionado porque é considerado divino. Tornou-se de tamanha importância que a cultura masculina o exerça porque ele é o último direito não contestado a permanecer intacto dentre a antiga lista dos privilégios masculinos: aqueles que se acreditava terem sido concedidos por Deus, pela natureza ou alguma outra autoridade absoluta para que todos os homens exercessem sobre todas as mulheres. Dessa forma, esse direito é exercido diariamente com severidade muito maior para compensar os outros direitos sobre as mulheres e as outras formas de controlá-las, hoje perdidos para sempre.
Muitos escritores perceberam as semelhanças metafísicas entre os rituais da beleza e os rituais religiosos. A historiadora Joan Jacobs Brumberg observa que o estilo mesmo dos primeiros livros de regimes "ressoava com referências aos conceitos religiosos de tentação e pecado'' e "repetia lutas calvinistas"; Susan Bordo fala de "a esbeltez e a alma"; a historiadora Roberta Pollack Seid pesquisa a influência sobre a "cruzada para perda de peso" do evangelismo cristão no "aumento espetacular de grupos e livros para perda de peso, de inspiração evangélica". (O Sistema de Jesus para Controle do Peso, A resposta de Deus à gordura — Perca-a, Reze e o peso desaparece, Mais de Jesus e menos de mim, e Ajude-me, Senhor — o Diabo me quer gorda!).' 'Nossa nova religião'', escreve ela a respeito da histeria do controle do peso, "... não oferece a salvação, somente um ciclo interminável de pecado e redenção precária."
O que ainda não foi reconhecido é que essa comparação não deveria ser nenhuma metáfora. Os rituais da reação do sistema contra o feminismo não imitam simplesmenteos cultos e religiões tradicionais, mas os suplantam sob o aspecto funcional. Eles estão literalmente reconstituindo uma nova fé a partir de antigas crenças, estão literalmente recorrendo a técnicas tradicionais de mistificação e controle do pensamento para transformar as mentes das mulheres de forma tão radical quanto qualquer onda evangélica do passado.
Os Ritos da Beleza são uma inteligente combinação de vários cultos e religiões. No tocante às religiões, esta é mais vigorosa e mais sensível às mudanças nas necessidades espirituais dos fiéis do que a maioria delas. Nela está amalgamada uma miscelânea de itens de diversas crenças, que são abandonados quando não mais cumprem sua função. Como o mito maior, a estrutura dessa religião se transforma com flexibilidade para se contrapor aos vários desafios que lhe impõe a autonomia feminina.
Suas imagens e seu método são uma imitação grosseira do catolicismo medieval. A ascendência que ela alega ter sobre as vidas das mulheres é papal em seu absolutismo. Sua influência sobre as mulheres modernas, como a da igreja medieval sobre toda a cristandade, vai muito além da alma do indivíduo para moldar a filosofia, a política, a sexualidade e a economia dos nossos tempos. A igreja deu forma e conteúdo não só à vida religiosa, mas a todos os eventos da comunidade, não tolerando nenhuma divisão entre o secular e o religioso; os Ritos permeiam os dias da mulher moderna de forma igualmente rigorosa. À semelhança da igreja medieval, acredita-se que os Ritos sejam baseados num credo tão palpável quanto a Pedra do Vaticano: que existe essa coisa chamada beleza, que ela é sagrada e que as mulheres deveriam procurar alcançá-la. As duas instituições são ricas, vivendo de dízimos. Nenhuma das duas perdoa os hereges e os pecadores impenitentes. Os membros das duas igrejas aprendem o catecismo desde o berço. As duas precisam de uma fé incondicional por parte de seus seguidores a fim de se manterem.
Por sobre essa raiz de catolicismo falsamente medieval, os Ritos da Beleza foram acumulando alguns novos elementos: um luteranismo em que as modelos de moda são as Eleitas, e as restantes de nós as Amaldiçoadas; uma adaptação episcopal às exigências do consumismo, na qual as mulheres podem aspirar ao paraíso através de boas obras (lucrativas); um judaísmo ortodoxo de compulsões à pureza, na exegese minuciosa e trabalhosa de centenas de leis com seus comentários sobre o que comer, o que vestir, o que fazer ao corpo e em que momento; e um núcleo baseado nos mistérios elêusicos na cerimônia da morte e do renascimento. Por cima de tudo isso, foram fielmente adaptadas as técnicas de doutrinação das seitas modernas. Suas grosseiras manipulações psicológicas ajudam a conquistar adeptos numa era refratária a profissões de fé espontâneas.
Os Ritos da Beleza conseguem isolar as mulheres tão bem porque ainda não é publicamente reconhecido que as devotas estão presas a algo mais sério do que uma moda e de maior penetração social do que uma deformação pessoal da própria imagem. Os Ritos ainda não são descritos em termos do que realmente representam: um novo fundamentalismo que transforma o Ocidente secular, tão repressor e dogmático quanto qualquer réplica sua no Oriente. À medida que as mulheres vão lidando com uma hipermodernidade à qual só recentemente foram admitidas, uma força que é de fato uma hipnose de massa lança sobre elas seu peso total para forçá-las a uma visão de mundo medieval. Enquanto isso, a enorme catedral em cuja sombra elas vivem nem chega a ser mencionada. Quando outras mulheres se referem a ela — em tom de desculpas, num sussurro — elas o fazem apenas como se estivessem descrevendo uma alucinação que todas as mulheres podem ver, e não uma realidade concreta cuja existência ninguém reconhece.
Os Ritos conquistaram as mentes femininas na esteira do movimento das mulheres porque a opressão detesta o vácuo. Eles devolveram às mulheres o que elas haviam perdido quando Deus morreu no Ocidente. Na última geração, a transformação dos costumes sexuais liberou as restrições religiosas sobre o comportamento sexual da mulher. O declínio no comparecimento à igreja a partir do pós-guerra e o colapso da família tradicional reduziram a capacidade da religião de ditar um código moral para as mulheres. Na perigosa ausência momentânea da autoridade religiosa, ficou implícito o risco de que as mulheres poderiam aplicar a autoridade na tradição conciliatória e comunitária que Carol Gilligan pesquisou em sua obra In a Different Voice. Essa reivindicação de autoridade moral bem poderia levar as mulheres a promover duradouras mudanças sociais de acordo com seus princípios e a ter a fé para chamar essas mudanças de vontade divina. A compaixão poderia substituir a hierarquia; um respeito tradicionalmente feminino pela vida humana poderia prejudicar seriamente uma economia baseada no militarismo e um mercado de trabalho baseado no uso de pessoas como recursos descartáveis. As mulheres poderiam reformular a sexualidade humana como prova da natureza sagrada do corpo em lugar da sua natureza pecaminosa, e a crença antiga e persistente que equipara a feminilidade à profanação poderia se tornar obsoleta. Para evitar tudo isso, os Ritos da Beleza recentemente assumiram a tarefa que a tradicional autoridade religiosa não conseguia mais cumprir com convicção. Ao instilar nas mulheres uma força policial interior, a nova religião muitas vezes se sai melhor no controle das mulheres do que as religiões mais antigas.
A nova religião teve rápida expansão, tirando proveito da momentânea sensação de perda de objetivo moral, ao recriar para as mulheres em termos físicos os antigos papéis sociais nos quais as "boas mulheres" eram valorizadas: mães, filhas e esposas castas e abnegadas. Funções mais antigas de defesa da decência — do que é "adequado" — e da distinção entre o que é decente e indecente foram recriadas sob forma ritual. Nos últimos vinte e cinco anos, à medida que a sociedade em geral se libertava das restrições da tradicional moralidade religiosa, o antigo código moral — de abrangência reduzida, mais contraído do que nunca, mas com suas funções inalteradas — cingiu ainda mais os corpos femininos.
De sua parte, muitas mulheres acolheram bem essa prisão reconfortante em diversos níveis. Novas religiões se disseminam com o caos social, e as mulheres estão criando normas num mundo que destruiu as antigas verdades. Essa religião lhes devolveu o sentido de importância social, os vínculos entre as mulheres e a confortável estrutura moral perdida com a antiga religião. A competição no mundo externo premia a amoralidade, e as mulheres precisam se adaptar para ter sucesso. Os Ritos da Beleza, porém, proporcionam à mulher que trabalha uma forma de levar uma ordem moral particular e inócua a um papel no qual um excesso de escrúpulos antiquados pode sabotar sua carreira. As mulheres, enquanto profissionais no mundo secular, ficam muitas vezes isoladas. Já no papel de seguidoras de uma religião elas compartilham um vínculo confortável.
A sociedade em geral já não atribui importância religiosa à virgindade de uma mulher ou à sua castidade conjugal. Ela não lhes pede que confessem seus pecados ou que mantenham uma cozinha meticulosamente kosher. Nesse ínterim, depois da destruição do pedestal da "boa" mulher, mas antes que ela tivesse acesso ao verdadeiro poder e autoridade, ela foi destituída do antigo contexto no qual lhe eram atribuídos os louros da importância e do elogio. As mulheres devotas haviam sido de fato chamadas de "boas" (muito embora só fossem "boas" desde que continuassem sendo devotas). No entanto, na época secular que acompanhou paralelamente o movimento das mulheres, embora elas não mais ouvissem todos os domingos que eram amaldiçoadas, também raramente ouviam que eram "santas". Enquanto Maria havia sido "bendita... entre as mulheres", e a mulher forte do judaísmo ouvia que "seu valor excedia o dos rubis", tudo que a mulher moderna pode esperar ouvir é que ela está divina.
Os Ritos da Beleza também seduzem as mulheres por atenderem à sua atual avidez por poesia e cor. À medida que elas abrem caminho em meio a um espaço público masculino, que é muitas vezes prosaico e emocionalmente estagnado, os sacramentos da beleza brilham com maior intensidade do que nunca. Como seu tempo é invadido por exigências de todos os tipos, os produtos rituais lhes fornecem um álibi para reservar algum tempo para si mesmas. O que oferecem de melhor é um sabor de mistério e sensualidade que compensa as mulheres pelos dias passados sob a luz árida do local de trabalho.
As mulheres foram preparadas para receber os Ritos pelo seu relacionamento histórico com a igreja. Desde a Revolução Industrial, a "esfera separada" à qual as mulheres eram relegadas atribuía a religiosidade especificamente à feminilidade. Isso, por sua vez, justificava o isolamento das mulheres de classe média da vida pública. Já que as mulheres eram classificadas como o "sexo puro", elas podiam ser obrigadas a ficar fora da batalha diária, preocupadas apenas com a manutenção dessa pureza. Da mesma forma, as mulheres hoje em dia são classificadas como o "belo sexo", o que as relega a uma preocupação de utilidade semelhante com a proteção da sua "beleza".
A feminilização pós-industrial da religião não dava, porém, às mulheres a autoridade religiosa. "Os Puritanos... adoravam um deus patriarcal, mas... nas igrejas da Nova Inglaterra havia mais mulheres do que homens", escreve a historiadora Nancy Cott em The Bonds of Womanhood, observando que enquanto a maioria feminina cresceu durante todo o século XIX, a hierarquia da igreja permaneceu "estritamente masculina". A feminilização da religião se intensificou paralelamente à secularização do mundo masculino. "Qualquer que tenha sido a expansão vivida pelo sistema religioso protestante nos Estados Unidos após a Guerra de Secessão, ela foi estimulada pelas mulheres e não pelos homens", afirma Joan Jacobs Brumberg. Até a geração atual, as mulheres não eram aceitas para a função de ministro ou de rabino. Até recentemente, elas eram instruídas a aceitar sem questionamento as interpretações religiosas masculinas sobre o que Deus quer que elas façam. Desde a Revolução Industrial, seus papéis envolveram não apenas a obediência religiosa, como também o humilde apoio às atividades da igreja, que incluía, segundo Ann Douglas em sua obra The Feminization of American Culture, a manutenção de cultos à personalidade do padre ou ministro local. Em suma, as mulheres têm uma curtíssima tradição de participação na autoridade religiosa, e uma longuíssima tradição de submissão a essa autoridade. Embora raramente controlassem os lucros, elas muitas vezes colaboraram com o pouco que tinham, sem questionamentos.
A religiosidade da mulher vitoriana servia à mesma intenção dupla dos Ritos. Do ponto de vista de uma sociedade dominada pelos homens, essa religiosidade mantinha as energias de mulheres instruídas e ociosas da classe média afastadas da rebeldia, de forma inócua e até mesmo útil. Do ponto de vista daquelas mulheres, a religiosidade emprestava significado a vidas improdutivas sob o aspecto econômico. A economista britânica Harriet Martineau observou a respeito das mulheres americanas de classe média que elas seguiam "a religião como uma ocupação" por serem impedidas de exercer todo o seu potencial de forças morais, intelectuais e físicas de outra forma. Nancy Cott escreve que "a morfologia da conversão religiosa sintonizava com a submissão e resignação esperadas das mulheres, enquanto oferecia uma confiança extremamente satisfatória às convertidas". Essa mesma saída sedutora funciona de maneira idêntica nos nossos dias.
A predisposição contrária às mulheres na tradição judaico-cristã deixou um terreno fértil para o surgimento da nova religião. Sua misoginia fazia com que as mulheres, muito mais do que os homens, tivessem de abolir o pensamento crítico se quisessem ser fiéis. Ao recompensar a humildade intelectual da mulher, ao acusá-las de pecado e culpa sexual e ao lhes oferecer a redenção apenas através da submissão a um mediador masculino, ela entregou à religião em surgimento um legado de credulidade feminina.

(Naomi Wolf - "O mito da beleza - como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres")

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publicado às 17:28

 

 

Examinada sumariamente, a idade moderna parece ter transposto todas as escalas de valor. Na realidade, modificou principalmente os seus nomes. Os fiéis dos velhos cultos lamentam a diminuta fé das novas gerações. Nunca, entretanto as multidões tenham manifestado uma necessidade de crer mais profunda do que em nossa época. Tornando-se fé política, a fé religiosa mudou muito pouco. A crença no milagre, a mística adoração de forças sobrenaturais permaneceu idêntica. A providência estatista herdou da antiga providência divina.
Uma crença ordinária é um ato de fé. Aplicado a um ente superior ou a uma divindade, ele se complica com a necessidade de submissão e de adoração. Crer e adorar são, muitas vezes, sinônimos.
O crente tende sempre a divinizar o objeto da sua adoração. Marat, cujo cadáver devia ser lançado pouco tempo depois ao esgoto, foi deificado logo após a sua morte e litanias piedosas foram compostas em sua honra. Napoleão representava para os seus soldados um deus invencível. As relíquias das vitimas das repressões anarquistas são adoradas pelos seus fieis.
Uma crença só se torna verdadeiramente popular quando é concretizada sob a forma de seres ou objetos que se devem venerar. Foi o que claramente se observou durante a Revolução. Uma das suas primeiras preocupações constituiu em achar uma divindade que substituísse as antigas. A deusa Razão, primeiramente escolhida, teve o seu culto em Notre-Dame, com cerimônias muito semelhantes às que desde séculos aí se celebravam.
Essa época - nunca o repetiríamos demasiado - só será compreendida, se percebermos bem o papel desempenhado, então, pelo misticismo do povo e dos seus agitadores. Robespierre, encarnação típica da estreita mentalidade religiosa do seu tempo, julgava-se um apóstolo, que recebera do céu a missão de estabelecer o reino da virtude. Muito deísta, muito conservador e grão-sacerdote infalível de uma nova teocracia, supunha um dever sagrado imolar implacavelmente "os inimigos da virtude" e, como outrora os pontífices da Inquisição, não excluía ninguém. Os seus discursos faziam incessantemente apelo ao Ente Supremo. O seu agente Couthon invocava também a cada instante o Altíssimo.
Os tribunais revolucionários apresentaram estreita semelhança com os da Inquisição. Não adoravam inteiramente os mesmos deuses, mas nutriam os mesmos ódios e visavam o mesmo objetivo: a supressão dos infiéis.
Mostrei suficientemente em precedentes obras a evolução do socialismo para uma forma religiosa; é inútil insistir aqui nesse ponto. Se o socialismo possuísse alguma divindade precisa que cumprisse adorar, o seu êxito seria muito mais rápido.
Os seus apóstolos reconhecem instintivamente essa necessidade, mas, não ousando oferecer à adoração popular a cabeça do principal teórico da doutrina, o judeu Karl Marx, eles se voltaram para a deusa Razão. Reproduzi na minha Psicologia Política, um trecho do jornal socialista l'Humanité, a qual nos oferece que, na sessão com que se inaugurou uma escola socialista, o jovem professor da Sorbonne encarregado da primeira lição "dirigiu, como convinha, uma invocação à deusa Razão".
Infelizmente, as divindades abstratas nunca seduziram as multidões, e é por isso que a religião socialista possui dogmas, mas ainda espera o seu deus.
Ele não se fará esperar muito tempo. Os deuses surgem, quando se tornam necessários.
A força da nova crença é sobretudo devida, já o disse várias vezes, à circunstância de ser herdeira das concepções cristãs. Os dogmas socialistas receberam dos primeiros cristãos, com o seu misticismo, a necessidade de igualdade, o altruísmo e o ódio das riquezas. O parentesco entre as duas doutrinas é tal que, na Bélgica, o catolicismo se tornou o resoluto aliado do socialismo. Ele favorece abertamente as paredes operárias e anima a luta das classes.
Os apóstolos da fé socialista têm, igualmente, o tom ardente e profético dos primeiros defensores do cristianismo. Não me refiro apenas às publicações de vulgares sectários, mas às de homens instruídos. Tive ensejo de citar, no meu último livro, fragmentos característicos de um escrito dessa natureza, publicado por um professor do Colégio de França, convertido, como outrora Polyeucte, à fé nova e desejo de destruir os falsos deuses. A sua leitura mostra bem o que o próprio sábio não pode penetrar no ciclo da crença, sem que veja dissipar-se a sua moderação e o seu espírito crítico. Tendo descido de muitos graus na escala mental, ele perde a justa impressão das realidades. Absurdos, violências, impossibilidade não o poderiam impressionar, penosamente, porque ele cessa de vê-los.
É inútil recriminar. A crença é uma dominadora irresistível e sua atração se exerce desde que o homem se aproxima da sua esfera de ação.
Tenazes ou transitórias, as crenças representaram sempre, repito-o ainda, os grandes fatores da vida das nações. Não se governa um povo com idéias verdadeiras, mas com crenças tidas como verdadeiras. Pilatos, hoje, já não formularia sem dúvida a pergunta, à qual nenhum filósofo jamais respondeu definitivamente. Ele diria que, sendo a verdade o que se crê, toda a crença estabelecida constitui uma verdade. Verdade provisória, sem dúvida, mas é com verdades dessa ordem que o mundo tem sido sempre conduzido.

(Gustave Le Bon - "Opiniões e crenças")

 

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publicado às 14:27


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por Thynus, em 31.03.13

O Brasil tem conhecido um grande desenvolvimento em sua produção histo-riográfica, como o crescimento do número de autores que publicam trabalhos especializados em História e do interesse de um público mais amplo pela produção historiográfica. Essa popularidade nasceu com a influência da Nova História francesa, interessada, sobretudo, na cultura e no cotidiano, e cujas abordagens se aproximam bastante da ficção. Foram essas abordagens mais culturais que geraram no Brasil um mercado editorial para publicações de História, tendo alguns temas um importante papel nesse processo. Um desses é a Inquisição.

A Inquisição é menos um conceito que uma instituição. Inquisição é o termo pelo qual é mais comumente conhecido o Tribunal do Santo Ofício, órgão de investigação e repressão instituído pela Igreja Católica na Idade Média que teve seu apogeu depois da Reforma Católica, a partir do século xvi. Os estudiosos dividem sua história normalmente em dois grandes períodos quase independentes, a Idade Média e a Idade Moderna. Na Idade Média, o Tribunal do Santo Ofício foi criado pelo Vaticano para investigar a existência de heresias em qualquer bispado, e era subordinando diretamente ao Papado. Não tinha, assim, ligação política com as regiões que investigava, obedecendo diretamente ao Vaticano. Nesse período, a preocupação maior da Igreja era com os hereges, pessoas ou grupos de católicos que se desviavam da conduta regulamentada pelo Papado e criavam novos dogmas. A Inquisição medieval agiu em diversas partes da Europa ocidental, mas teve sua maior atuação repressiva na França, perseguindo dissidentes religiosos, como os cátaros.

Já na Idade Moderna, a Inquisição se desligou do Vaticano e se submeteu aos Estados nacionais em ascensão. Nesse caso, os interesses mudaram. O Tribunal agora tinha muito mais objetivos em comum com as monarquias às quais estava ligado do que com o Vaticano, e as perseguições variaram suas vítimas por toda a Europa. A mais famosa das inquisições modernas foi a espanhola, devido a sua grande influência social e política e sua massiva perseguição aos judeus e cristãos novos, ou seja, judeus convertidos ao Cristianismo na Península Ibérica e nas Américas.

O caráter repressivo da Inquisição esteve presente, desde seus primórdios, atrelado a seu caráter investigativo. Na Idade Média seu objetivo era extirpar toda heresia da Igreja, ou seja, toda crença que discordasse dos dogmas do catolicismo. Nesse sentido, a Inquisição só poderia perseguir e “investigar” católicos, pois era fundamentalmente uma instituição de controle das dissidências internas. Perseguiu os hereges – os discordantes – na França, na Itália e as bruxas por toda a Europa. A Inquisição espanhola, todavia, durante a Idade Moderna, mudou seu alvo consideravelmente. Na Península Ibérica, a Inquisição virou uma instituição de proteção tanto da Igreja quanto do Estado centralizado. O Estado espanhol se unificou com base em alguns princípios, dos quais o Catolicismo e a unidade da fé eram os mais fortes. Nesse caso, a manutenção da unidade religiosa deveria ser feita a todo custo, pois o Catolicismo era um dos alicerces sobre o qual estava fundamentado o novo Estado unificado. E o Tribunal do Santo Ofício foi instituído com esse intuito. As principais “ameaças” a essa unidade nacional eram os judeus e os mouros, que habitavam a Península há séculos. Foi contra eles que se voltou o Tribunal do Santo Ofício espanhol, e depois o português, sobretudo contra os judeus e seus descendentes católicos convertidos, pela influência econômica que possuíam em suas sociedades.

A Inquisição na Península Ibérica se tornou uma das mais importantes instituições de apoio ao estabelecimento e ao fortalecimento do Estado nacional e da monarquia centralizada. O controle exercido sobre a sociedade era imenso, censurando livros e pensamentos. O controle do Tribunal não se resumia aos cristãos-novos, mas abarcava a todos, impondo formas de comportamento, principalmente sexual. A misoginia era uma das características mais fortes dessa instituição, que desde a Idade Média alimentava discursos de medo e desconfiança contra as mulheres.

O Tribunal do Santo Ofício, como já diz o nome, era um órgão judiciário, e a Espanha estabeleceu diversos tribunais em seu Império, inclusive três na América. Portugal, por sua vez, não tinha os mesmos interesses religiosos e nacionalistas que a Espanha. A direção política de Portugal na Idade Moderna era muito mais comercial e menos preocupada com a conquista de territórios que a Espanha. Sua Inquisição, por exemplo, não foi estabelecida na América portuguesa. Aqui, a Coroa portuguesa se limitou a enviar visitações, ou seja, inquisidores de tempos em tempos para realizar vistorias gerais na colônia. Temos notícia de três visitações: uma no século xvi, dirigida para a Bahia e Pernambuco, outra no xvii, restrita à Bahia, e uma terceira no século xviii, ao Grão-Pará. Comparada à Inquisição espanhola, que funcionava diariamente no México, em Lima e em Cartagena de Las Índias, na Colômbia, a repressão inquisitorial no Brasil foi muito pequena. No entanto, existiu e, enquanto os visitadores realizavam suas investigações nas cidades coloniais, desencadeavam uma série de conflitos sociais, em que vizinhos denunciavam vizinhos, por exemplo.

Não devemos esquecer o caráter de extrema violência desse tribunal. Para alcançar confissões de hereges, judeus, feiticeiras, entre outros indivíduos tidos como perigosos para a Igreja, a tortura era considerada um instrumento apropriado de investigação. Acreditavam então que uma confissão obtida sob tortura era uma confissão legítima. E, assim, o Tribunal se especializou em técnicas de tortura, inclusive elaborando manuais até hoje famosos, como o Martelo das feiticeiras. Sob tortura, a maioria dos réus, pessoas denunciadas muitas vezes pela inveja ou paranoia de seus conhecidos, confessava todos os “crimes” que os inquisidores lhes imputavam. A grande violência da ação do Tribunal, no entanto, não deve obscurecer outros caracteres importantes desse órgão, como a grande influência política e econômica que exerceu na Península Ibérica.

No Brasil, a Inquisição se tornou um importante tema de pesquisa, principalmente pelo fato de que são os registros de suas investigações minuciosas, das perseguições que impôs às minorias, que nos permitem hoje conhecer tanto essas minorias quanto o cotidiano da sociedade colonial. A Inquisição perseguiu, no mundo ibérico, cristãos-novos, feiticeiras, formas de sincretismo religioso, homossexuais, entre outros. Assim, a documentação inquisitorial, os chamados autos, são importantes registros da vida desses personagens. Além disso, os estudos sobre cultura e cotidiano na colônia se desenvolveram em grande parte sobre a documentação da Inquisição: desde as pesquisas de Ronaldo Vainfas e Luis Mott sobre a sexualidade na sociedade colonial até recentes abordagens sobre os degredados, passando por um importante setor de estudos dedicado à História dos cristãos-novos e judeus na América portuguesa.

A documentação das visitações do Santo Ofício se encontra hoje impressa e de fácil acesso para qualquer interessado. Constitui rica fonte de informações sobre o cotidiano colonial e, utilizada com uma boa bibliografia de apoio, pode fornecer aos professores de História um inesgotável material de pesquisa e trabalho em sala de aula. O educador estará assim incitando os alunos a produzir conhecimento. Mas é preciso cuidado com essa documentação, devido à diferença linguística trazida pelos documentos, pois a língua portuguesa mudou desde os séculos xvi e xvii até hoje. O professor precisa dedicar certo tempo à leitura de uma bibliografia que analise tal documentação, à leitura da própria documentação e à preparação do material adequado a ser apresentado a sua sala de aula. Vai ser de enorme ajuda o grande número de textos de divulgação científica publicados sobre a Inquisição e suas vítimas em periódicos especializados, assim como o grande número de títulos que os profissionais de ensino encontrarão nas livrarias. Além disso, muitos são os filmes que abordam temáticas diversas associadas à Inquisição medieval e à Inquisição moderna. Esse tema riquíssimo está aberto à criatividade do professor e atende, como poucos, às exigências das novas abordagens da história, que pregam o trabalho com a História das minorias e com a construção das identidades.

(Kalina Vanderlei Silva, Maciel Henrique Silva - "Dicionário de conceitos históricos") 
 

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publicado às 02:05


Consumismo é mais que consumo

por Thynus, em 23.03.13

Todos nós somos consumidores, é óbvio… Enquanto vivermos. Não pode ser de outro modo, porque, se paramos de consumir morremos. A única dúvida é quantos dias vai durar o desfecho fatal. O consumo – cuja ação é definida pelos dicionários como sinônimo de “usar”, “comer”, “ingerir (líquido ou comida)” e, por extensão, “gastar”, “dilapidar”, “exaurir” – é uma necessidade. Mas o “consumismo”, a tendência a situar a preocupação com o consumo no centro de todos os demais focos de interesse e quase sempre como aquilo que distingue o foco último desses interesses, não é.

 

O consumismo é um produto social, e não o veredicto inegociável da evolução biológica. Não basta consumir para continuar vivo se você quer viver e agir de acordo com as regras do consumismo. Ele é mais, muito mais que o mero consumo. Serve a muitos propósitos; é um fenômeno polivalente e multifuncional, uma espécie de chave mestra que abre todas as fechaduras, um dispositivo verdadeiramente universal. Acima de tudo, o consumismo tem o significado de transformar seres humanos em consumidores e rebaixar todos os outros aspectos a um plano inferior, secundário, derivado. Ele também promove a reutilização da necessidade biológica como capital comercial. Às vezes, inclusive, como capital político.

 

Vou explicar o que quero dizer. Para começo de conversa, a primeira mensagem do presidente George W. Bush aos americanos chocados e estupefatos diante da visão do desmoronamento das Torres Gêmeas emblemáticas da supremacia mundial dos Estados Unidos, atravessadas por aviões pilotados por terroristas, foi para que todos “voltassem às compras”. A intenção da mensagem era conclamar os americanos a retomar a vida normal.

 

Bem antes do ataque inimigo, os americanos já deviam estar convencidos de que ir às compras era a maneira, talvez a única e com certeza a principal, de curar todas as aflições, repelir e espantar todas as ameaças, reparar todas as falhas. Portanto, escolher o apelo ao consumo como resposta adequada a um desafio estranho e desconhecido, do qual nunca se ouvira falar, e por isso mesmo excepcionalmente aterrador, assombroso e desnorteante, foi a maneira mais simples e segura de reduzir um acontecimento terrível ao plano de um aborrecimento corriqueiro: quebrar o encanto e nos familiarizar com o fato, tornando-o, por assim dizer, algo doméstico e controlável, tirando-lhe o caráter maligno.

 

“Vamos às compras” queria dizer: voltemos à normalidade, à nossa rotina do dia a dia. Como em outros casos menos dramáticos, embora não menos importantes (como, por exemplo, a queda periódica do produto nacional bruto – isto é, a quantidade de riqueza que troca de mãos, medida oficial do nível de prosperidade econômica do país; ou o pânico de uma iminente recessão), esperava-se que a salvação resultasse das decisões dos consumidores de retomar o cumprimento zeloso de sua obrigação de comprar e gastar o dinheiro que tinham ganhado ou contavam ganhar – após um intervalo, que esperavam fosse breve, de cintos apertados.

 

A crença de que caberia aos consumidores “salvar o país da depressão” ou “liberar o país no resgate da depressão” tornou-se um dogma que quase ninguém questionou, um dos pilares da sabedoria popular e do senso comum. Assim como o significado do conceito de “cidadania” caminha gradualmente para se ajustar a um modelo de consumidor zeloso, o sentido da palavra “patriotismo” segue a mesma via, passando a representar uma diligente dedicação ao consumo.

 

Não é esta, porém, a única utilidade pela qual se introduziu a monótona e rotineira necessidade de consumir numa sociedade consumista como a nossa. Ela é apenas o exemplo de uma ampla categoria de problemas que nos confrontam, que sabemos que em breve teremos de enfrentar ou que já enfrentamos, problemas cuja rota mais comum de solução foi desviada para seguir, de modo inabalável e compulsório, o destino das lojas. O arquétipo dessa extensiva e incessante categoria de soluções de problemas que passam pelo incentivo ao consumo é a enfermidade física para a qual buscamos remédios na farmácia. Pode-se dizer que, numa sociedade consumista, todo comércio de produtos e serviços constitui, antes de mais nada, farmácias – quaisquer que sejam as mercadorias, além de medicamentos, que exponham em suas prateleiras e balcões para vender a fregueses atuais ou futuros.

 

Sejam quais forem os demais usos das mercadorias à venda, a maior parte delas (ou pelo menos é o que se sugere e imagina que sejam) é de remédios. Presume-se e espera-se que a aquisição e o consumo dessas mercadorias consigam aplacar desconfortos ou dores que de outra forma continuariam a inflamar e a infeccionar; melhor ainda, espera-se que esses atos evitem reações desagradáveis que sem dúvida se abaterão sobre o comprador preguiçoso e indolente. Desconfortos de toda sorte, não só a necessidade de abastecer a geladeira ou incrementar o guarda-roupa, para atender às nossas rotinas diárias de consumo ou à renovação cíclica de estoques de objetos usados ou gastos; inclusive o medo de perder nosso “valor de mercado” e de sermos alijados do “circuito social”, perder a estima social, a popularidade, a companhia de amigos – tudo porque você está por fora dos assuntos do momento e das jogadas mais cobiçadas, e por isso ignorou e perdeu as coisas de que todo mundo está falando e está louco para fazer.

 

Em síntese, os graves desconfortos causados pelo desconhecimento do fato de que outras pessoas depararam com novas invenções ou descobertas capazes de proporcionar sensações e satisfações das quais você – que dormiu no ponto – estaria lamentavelmente privado. Ou a incerteza que não para de fermentar em você sobre a atualidade dos conhecimentos e das habilidades que adquiriu no passado e que continua a usar no presente, de forma imprudente; uma torturante suspeita de que esses conhecimentos e habilidades, como é típico desse nosso mundo moderno em que tudo se move em alta velocidade, talvez necessitem de urgente atualização e revisão.

 

É preciso diariamente renovar e confirmar a confiança de que você tem acompanhado o ritmo frenético das mudanças, e por isso está certo. Um passeio normal pelos corredores de um centro comercial pode ser a resposta adequada para todas essas aflições, porque lhe permite reassegurar-se de que encontra-se na trilha certa e está bem informado. A pior sensação de malestar, uma espécie de metadesconforto que está na base de todas as inquietações específicas e que nos leva a repetir sem parar as visitas às farmácias consumistas, é a incerteza de estarmos no caminho certo, a insegurança de não saber se nossas preferências são corretas do ponto de vista das avaliações em curso, se estamos fazendo as coisas direito e nos comportando da maneira adequada.

 

As farmácias ortodoxas, aquelas antigas e fora de moda, prometiam mitigar a dor e aliviar outras aflições físicas. Recorríamos ao farmacêutico a fim de obter um remédio para dor de garganta, coriza, dor nas costas ou azia: ninguém tinha dúvidas sobre a dor que nos levava a correr ao farmacêutico em busca de conselho e ajuda. Mas, se as farmácias consumistas de hoje tivessem a insensatez de contar somente com as vítimas de sofrimentos dos quais têm absoluta certeza, as fileiras de seus fregueses seriam dizimadas. Felizmente elas não cometem esse tipo de loucura. As farmácias cuidam para que o “pé inaudível e sutil do Tempo”, de que fala Shakespeare, não seja silencioso e muito menos inaudível. O pé do Tempo agora berra na telinha da tevê e nos fones de ouvido, em cada página das revistas de amenidades – e nas conversas de seus militantes, voluntários ou involuntários, não pagos (e ironicamente pagantes!), mas bravos, assim como de seus agentes não pagos, embora dedicados e zelosos. A despeito de Shakespeare, o “pé do Tempo” não deve mais ser inaudível. Os sons emitidos por sua labuta ou prosápia são sinais de alarme: jamais esqueçam que o tempo tem pés ágeis, vivos e velozes, e (como Lewis Carroll nos advertiu profeticamente) é preciso correr o mais rápido possível para permanecer onde se está.

 

Numa sociedade consumista, o ruído dos pés do Tempo correndo e fugindo apressados repetem sem parar uma mensagem: não são apenas as coisas das quais você não tem certeza que exigem sua atenção imediata, mas são também as coisas das quais você ainda não sabe que não tem certeza. Essa mensagem soa como um dobre de finados derradeiro, irrevogável e inconfundível a toda e qualquer certeza. Sabendo-se que todas as certezas são putativas e, no melhor dos casos, apenas até segunda ordem, que toda autoconfiança é fruto de atenção insuficiente ou da pura ignorância, a variedade de incerteza mais traiçoeira é aquela que nos assusta menos ou não nos assusta de todo, a incerteza da qual, perigosamente, ainda não temos consciência.


Felizmente, para todos nós, prisioneiros voluntários ou involuntários do consumismo, as farmácias consumistas em geral se distribuem de maneira compacta ao longo das avenidas centrais das cidades e suas numerosas extensões. São cada vez mais sofisticadas e ubíquas, proporcionando os cintos de segurança e os salva-vidas de que precisamos para nos libertar da incerteza que conhecemos e para nos abrir os olhos às incertezas que ainda desconhecemos.

(Zygmunt Bauman - "44 cartas do mundo líquido moderno")

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publicado às 14:41


O maior afrodisíaco

por Thynus, em 16.03.13

 


Ainda Papa, J. Ratzinger disse o que é decisivo: "Nós somos a Igreja; a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente, isto é válido no sentido de que o 'nós', o verdadeiro 'nós' dos crentes, juntamente com o 'Eu' de Cristo, é a Igreja."
Mas, de facto e desgraçadamente, quando se pensa e fala e escreve sobre a Igreja, no que se pensa e fala e sobre que se escreve é, em primeiro lugar, a Igreja enquanto instituição e concretamente a organização central - em que se pensa, quando se diz o Vaticano? -, com o Papa, o cortejo de cardeais, arcebispos, bispos, monsenhores da Cúria e o Banco do Vaticano e regras e normas e escândalos e intrigas que se diz aninharem-se por lá e, evidentemente, também o espectáculo nem sempre edificante, e o folclore. Aliás, quem se não quiser enganar, mesmo dentro da Igreja, que se pergunte: o que juntou os mais de 5000 jornalistas estrangeiros em Roma para a eleição do novo Papa? Foi verdadeiramente a Igreja viva, constituída pelos discípulos de Jesus, que procuram real e verdadeiramente segui-lo no amor de Deus e do próximo?
Seja como for, acima de tudo e em primeiro lugar, é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. Realmente, em síntese, como escreveu o teólogo Hans Küng, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Jesus Cristo: "A comunidade dos que se entregaram e entregam a Jesus e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível se disser a mensagem cristã, não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma, e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus."
A Igreja não pode entender-se como uma gigantesca empresa multinacional religiosa ou um aparelho de poder. Ela é povo de Deus espalhado pelos diferentes lugares do mundo. O Papa não pode ser visto como um "autocrata espiritual", mas como bispo que tem o primado pastoral, vinculado ao colégio dos bispos. E as funções nucleares da Igreja são oferecer aos homens e às mulheres de hoje a mensagem cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos, sem esquecer o dever de assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando à sociedade, sem partidarismos, opções fundamentais, orientações para um futuro melhor para a Humanidade, na paz, no respeito pelos direitos humanos, na preservação da natureza.
O novo Papa tem pela frente missões gigantescas. A credibilidade da Igreja-instituição bateu no fundo. Impõe-se, pois, uma conversão de fundo. A pedofilia tem de acabar definitivamente. Tolerância zero igualmente para os escândalos intoleráveis do Banco do Vaticano. Os direitos humanos têm de valer também no seio da Igreja: liberdade de investigação, de opinião, de expressão. A quem tem medo da democracia e da participação lembra-se o que diz o Vaticano II: "É perfeitamente conforme com a natureza humana que se constituam estruturas jurídico-políticas que ofereçam a todos os cidadãos, sem discriminação alguma e com perfeição crescente, possibilidades de tomar parte livre e conscientemente na eleição dos governantes." As mulheres não podem ser discriminadas. A moral sexual pede revisão, bem como a lei obrigatória do celibato, que deve ser opcional. Decisiva é a reforma da Cúria, verdadeiro cancro da Igreja: "Impõe-se reformar a Cúria Romana", exige o cardeal W. Kasper. A Cúria só se compreende enquanto serviço da autoridade eclesiástica, que não reside na Cúria, mas no colégio dos bispos com o Papa à cabeça, como lembra o teólogo J. I. González Faus, que quer também que desapareçam do círculo do Papa "todos os símbolos de poder e de dignidade mundana": "príncipes da Igreja" é "título quase blasfemo".
Mas não haverá reforma sem conversão no que se refere àquela que foi a única tentação com que Jesus também foi confrontado: a tentação do poder, disso que é - disse-o quem sabe (Henry Kissinger) - o maior afrodisíaco. Jesus deixou a palavra decisiva: "Não vim para ser servido, mas para servir."

(Anselmo Borges)
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=3111594&seccao=Anselmo%20Borges&tag=Opini%C3%A3o%20-%20Em%20Foco&page=-1

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publicado às 19:35


Cristo traído

por Thynus, em 14.03.13

Os varões da minha família eram fervorosamente anticlericais, as damas não perdiam a missa domingueira e muitas outras funções. O esquema é bastante comum na Itália. O derradeiro grande líder do Partido Comunista Italiano, Enrico Berlinguer, aos domingos levava mulher e filhas até a porta da igreja e dali saía para um passeio. Voltava para buscá-las.

 O anticlericalismo à moda peninsular tem origem na constante e imperiosa interferência eclesiástica na vida do país e de vários mais. A Igreja de Pedro sempre teve uma presença poderosa desde os tempos do Sagrado Romano Império, que precisava do seu endosso para vingar. Dentro da Itália, o papa dispôs de poder temporal, como dono de uma larga fatia do território, do VIII século ao XIX. Foi o tempo do papa-rei.
Para livrar-se dos inimigos, o pontífice nunca hesitou em convocar exércitos estrangeiros. Pela última vez quando Garibaldi enxotou Pio VII para o Vaticano e proclamou a República Romana em 1849. Desta vez, o papa convocou os franceses com um novo, revolucionário modelo de fuzil, e os garibaldini capitularam depois de seis meses de cerco. Vinte e um anos depois quem invadiu Roma foram os bersaglieri do rei piemontês. Mais uma vez o papa refugiou-se no Vaticano e a cidade se tornou capital da Itália unificada.
Tratou-se de um fecho temporário das guerras do Risogimento, destinadas a unificar a Península e a criar uma nação, encerradas finalmente com o conflito de 1914-1918 e a anexação de Trento e Trieste. O golpe de Mussolini levou em 1929 aos Pactos de Latrão, e a Igreja voltou a exercer um papel fortemente político durante o fascismo e mais ainda logo após. Dos púlpitos, de cardeais a párocos de campo fizeram propaganda a favor do Partido Democrata-Cristão e, portanto, da divisão do mundo em dois blocos antagônicos.
A interferência prosseguiu décadas adentro e hoje chega a se agudizar, tanto mais nestes dias de véspera eleitoral: a Itália vai às urnas no próximo dia 24. Os candidatos da direita e do centro conservador não perdem a ocasião para ajoelhar-se aos pés do altar e deglutir hóstias. É o momento em que o sangue anticlerical ferve. As questões em jogo, na Itália e no mundo todo, transcendem a fé, sincera ou não.
Vivemos uma época intelectualmente e moralmente pobre, instigada pelos avanços tecnológicos e arrepiada por demandas inovadoras em choque com a doutrina eclesiástica. De aborto a casamento gay. Enquanto isso, a Igreja de Pedro tenta em desespero impor seus vetos e se agarra aos dogmas, cada vez mais inviáveis à luz da razão. Nesta moldura, credos mais terrenos passam a representar uma concorrência maciça e desapiedada.
As feições atuais do renunciante Ratzinger mostram a gravidade e a tensão da luta. Em quase oito anos de pontificado, Bento XVI envelheceu como se tivesse decorrido o dobro. Não conhecemos os motivos determinantes da renúncia, mas admitamos que ele se sinta inadequado ao enfrentamento de uma situação tão complexa e obsedante como a atual, inquietada por divergências internas e surdos confrontos de bastidor. Não lhe faltam agora os elogios, assemelhados e epitáfios, e, em meio aos encômios, exalta-se a excelência do teólogo. Sejamos claros, não se trata de um Hans Küng, tampouco de um Carlo Maria Martini.
Se Martini tivesse sido o eleito em 2005, é plausível supor que algo teria mudado no sentido da contemporaneidade. Ratzinger limitou-se a confirmar o passado, o qual remonta à época em que, oficializada a religião, consumou-se a traição à palavra de Jesus. Arrisco-me a dizer, sem temer o Inferno, que o verdadeiro Judas é a própria Igreja, poder igual aos outros, humanos e não divinos, muito mais duradouro e fortalecido sempre e sempre pela carência experimentada pelo homem diante do mistério indecifrável.
Na história, e até na hagiografia, há inúmeros papas hipócritas, tirânicos e devassos. Há, também, estadistas. João Paulo II foi um deles, em proveito de seu abrangente Estado, sem atentar para a lição de igualdade e amor pregada por Cristo, e sem respeito pela mais exaltante das virtudes teologais, a caridade. Voltado integralmente às tarefas de senhor de um poder terreno. Se vieram à tona escândalos como a dos padres pedófilos, useiro e vezeiro, foi porque não houve como continuar a escondê-los. E nem se diga o quanto Wojtyla foi decisivo, pela mão de certo monsenhor Marcinkus, na definição dos alcances do IOR, o Banco do Vaticano, Instituto das Obras da Religião, a entender que obra da religião é também a reciclagem de dinheiro mafioso.

 
Figura ímpar, entre os pontífices recentes, João XXIII, o campônio Roncalli, um reformador encarado como subversivo pelos cinco anos do seu pontificado. Impossível imaginar o desempenho do papa Luciani, João Paulo I. Durou na cátedra de Pedro por um mês e morreu durante a noite, depois de tomar uma chávena de chá. Sobre o seu criado-mudo havia apontamentos a respeito das atividades do monsenhor Marcinkus. Banqueiro de Deus, dizia-se então.


(Mino Carta)
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/cristo-traido/?autor=42

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publicado às 17:43


A Igreja Católica leva consigo um imenso paradoxo. O sociólogo Olivier Bobineau descreveu bem a situação. "A Igreja católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção - o descentramento segundo o amor - e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial - de que a confissão é o arquétipo - colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada."
Esta junção paradoxal é superável? Os desafios para a Igreja com o novo Papa são muitos. Ficam aí alguns, sem cuidar muito da sua ordem.
1. Desafio essencial é a conversão de todos os seus membros ao Evangelho, começando pelos que estão mais alto: papa, bispos, cardeais, padres. Acreditar em Jesus e tentar segui-lo. E anunciar a fé viva de sempre na linguagem do nosso tempo, articulando-a com a razão. E, contra um cristianismo reduzido a proibições, apresentá-lo como mensagem positiva e realização felicitante de sentido.
2. Outro, decisivo para o futuro: a reforma da Cúria Romana e do governo da Igreja em geral (há quem se pergunte: mas a Cúria será reformável?). Tem de haver mais simplicidade (acabar com aqueles títulos todos: Eminência, Excelência, Monsenhor...) e transparência e democraticidade. Pergunta-se, por exemplo, se o actual modelo de eleição papal não sofre de endogamia, já que o Papa escolhe aqueles que elegerão o sucessor. Não se impõe um processo mais participativo e universal? Quanto às dioceses, alguém já sugeriu, em vez de dioceses gigantes, um bispo para um número mais reduzido de fiéis, que deveriam participar na sua eleição.
3. É intolerável que possa haver sequer suspeitas de que pelo Banco do Vaticano passa lavagem de dinheiro. Exige-se, pois, uma gestão eficaz e transparente. Jesus foi contundente: "Não podeis servir a Deus e a Mamôn" (o Dinheiro divinizado).
4. Tem de continuar a mão inflexível da tolerância zero no que se refere à pedofilia.
5. É uma pergunta enorme, a de um biblista belga, que me disse um dia em Bruxelas: como é que o movimento iniciado por Jesus desembocou numa instituição com um Papa chefe de Estado?
Evidentemente, onde há homens e mulheres - e os católicos são 1200 milhões - tem de haver um mínimo de instituição. O que ela não pode é ter o primado, pois este pertence às pessoas e aos seus problemas. O Papa é uma figura de influência mundial e, uma vez que, por razões que a História explica, a Santa Sé e o Vaticano existem, exige-se que estejam, através das suas redes diplomáticas, ao serviço da paz, dos direitos humanos e do diálogo entre as nações.
6. Sem se negar, a Igreja tem de modernizar-se e, sendo verdadeiramente global, tem de estar aberta ao pluralismo. Esta abertura implicará também o acesso da mulher aos ministérios ordenados, o fim da lei do celibato, a reconciliação com a sexualidade e a revisão de questões como a pílula e o preservativo, a possibilidade da ordenação de homens casados, a comunhão para os divorciados recasados.
7. A continuação do diálogo ecuménico intracristão e inter-religioso e intercultural é um desafio irrenunciável, bem como o contributo para o debate nas questões de bioética.
8. A Igreja de Cristo tem de estar ao lado dos problemas dos homens e das mulheres, a começar pelos mais fragilizados. Por isso, espera-se dela pronunciamentos sem tibieza sobre a justiça social, a condenação de doutrinas económicas que endeusam o lucro, o combate pela dignidade de todos, a salvaguarda da paz, dos direitos humanos, a preservação da natureza.

(Anselmo Borges)

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publicado às 15:50


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