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Tabuleta do Dilúvio

por Thynus, em 16.09.17
Tabuleta de argila para escrever, de Nínive (perto de Mossul), norte do Iraque
700-600 A.C.
 
A história bíblica de Noé, sua arca e o Dilúvio está de tal maneira integrada à nossa linguagem que qualquer criança sabe dizer que os animais entraram aos pares. Mas a história do Dilúvio é bem anterior à Bíblia, e comum a muitas outras sociedades. Isso leva a uma grande indagação: temos conhecimento do Dilúvio porque alguém, há muito tempo, registrou a história por escrito — mas quando surgiu a ideia inicial de registrar uma história por escrito?
 
 

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Moradores de Bloomsbury têm o hábito de dar uma passada no British Museum. Pouco mais de 140 anos atrás, um deles, um homem chamado George Smith, costumava visitá-lo no horário do almoço. Aprendiz de uma gráfica não muito distante, ele ficou fascinado com a coleção de tabuletas de argila da antiga Mesopotâmia. Mergulhou tanto no assunto que aprendeu a ler a escrita cuneiforme das tabuletas e com o passar do tempo tornou-se um dos maiores especialistas em escrita cuneiforme de sua época. Em 1872, Smith estudou uma tabuleta de Nínive (hoje no Iraque), e é ela que quero examinar agora.
A biblioteca onde mantemos as tabuletas de argila da Mesopotâmia — existem cerca de 130 mil — é uma sala repleta de prateleiras do chão ao teto, com uma estreita bandeja de madeira em cada prateleira contendo até doze tabuletas, a maioria em fragmentos. O pedaço que chamou a atenção de George Smith em 1872 tem aproximadamente quinze centímetros de altura, é feito de argila marrom-escura e está coberto por um texto denso e organizado em duas colunas apertadas. De longe, lembra um pouco pequenos anúncios de um jornal antigo. Originalmente deve ter sido retangular, mas ao longo do tempo partes se desprenderam. Quando George Smith compreendeu o que este fragmento significava, descobriu que abalaria os alicerces de uma das grandes histórias do Antigo Testamento, levantando importantes dúvidas sobre o papel da escritura e sua relação com a verdade.
Nossa tabuleta é sobre um dilúvio — sobre um homem que recebe uma ordem de seu deus para construir um barco e carregá-lo com sua família e animais, pois uma inundação está prestes a liquidar a humanidade da face da Terra. A história gravada na tabuleta era fantasticamente familiar para George Smith, porque, enquanto lia e decifrava, ficava claro que o que ele tinha diante de si era um mito antigo que correspondia à história de Noé e sua arca e — o mais importante — era anterior a ela. Apenas para lembrar, eis aqui alguns fragmentos da história de Noé contada pela Bíblia (Gênesis, 6:14-7:4):
Faze para ti uma arca (…) e de tudo o que vive, de toda a carne, dois de cada espécie, farás entrar na arca (…) farei chover sobre a terra quarenta dias e quarenta noites; e desfarei de sobre a face da terra toda a substância que fiz.
E aqui vai um pequeno extrato do que George Smith leu na tabuleta de argila:
Demole a casa e constrói um barco! Abandona a riqueza e busca sobreviver. Despreza a propriedade, salva a vida. Leva para dentro a semente de todas as coisas vivas! O barco que construirás, suas dimensões devem ser todas iguais: o comprimento e a largura devem ser os mesmos. Cobre-o com um teto, como o oceano embaixo, e ele te enviará chuva abundante.
O fato de uma história da Bíblia hebraica já ter sido contada em uma tabuleta de argila da Mesopotâmia era uma descoberta assombrosa, e Smith sabia disso, como demonstra um relatório da época:
Smith pegou a tabuleta e pôs-se a ler as linhas que o conservador com que a limpara fizera aparecer; e, quando viu que continha uma parte da lenda que esperara encontrar, disse: “Sou o primeiro homem a ler isto após dois mil anos de esquecimento.” Pondo a tabuleta na mesa, saiu pulando e correndo pela sala, na maior agitação, e, para espanto dos presentes, começou a tirar a roupa!
Era mesmo uma descoberta pela qual valia a pena tirar a roupa. A tabuleta, que se tornaria universalmente conhecida como Tabuleta do Dilúvio, foi escrita onde hoje é o Iraque, no século VII a.C., mais ou menos quatrocentos anos antes da última versão conhecida da narrativa bíblica. Seria possível que a narrativa bíblica, longe de ser uma revelação especialmente privilegiada, fosse apenas parte de uma reserva comum de lendas compartilhada por todo o Oriente Médio?
Foi um dos grandes momentos de revisão radical da história do mundo no século XIX. George Smith só divulgou a tabuleta doze anos após a publicação de A origem das espécies, de Charles Darwin. E, com isso, abriu uma caixa de Pandora religiosa. O professor David Damrosch, da Universidade de Columbia, mede o impacto sísmico da Tabuleta do Dilúvio:
Na década de 1870, as pessoas viviam obcecadas por histórias bíblicas, e a veracidade das narrativas bíblicas era um assunto muito controverso. Por isso foi uma sensação quando George Smith encontrou essa versão antiga da história do Dilúvio, obviamente muito mais velha do que a versão bíblica. O primeiro-ministro Gladstone foi ouvir a palestra de Smith sobre sua nova tradução, noticiada em primeira página no mundo inteiro, incluindo um artigo no New York Times, no qual já se dizia que a tabuleta poderia ser interpretada de duas maneiras bem diferentes: isso prova que a Bíblia é verdade ou mostra que é tudo lenda? E a descoberta de Smith deu mais munição para os dois lados do debate sobre a veracidade do relato bíblico e sobre Darwin, evolução e geologia.
Que efeito tem, em nossa percepção sobre um texto religioso, a descoberta de que ele vem de uma sociedade mais antiga, com um conjunto diferente de crenças? Perguntei ao rabino-chefe do Reino Unido, Jonathan Sacks:
Existe claramente um acontecimento central por trás das duas narrativas, que foi uma grande enchente, parte da memória folclórica de todos os povos daquela região. O que as antigas narrativas sobre o Dilúvio fazem é, essencialmente, falar das grandes forças da natureza controladas por divindades que não gostam muito dos seres humanos e para as quais tudo se resolve pela força. A Bíblia aparece e conta a história mais uma vez, mas de forma diferente: Deus envia o Dilúvio porque há muita violência no mundo, e o resultado é que a história ganha sentido moral, o que é parte do projeto da Bíblia. É um salto radical do politeísmo para o monoteísmo: para um mundo em que as pessoas cultuavam o poder, para a insistência bíblica em que o poder tem de ser justo e às vezes compassivo, e de um mundo no qual há muitas forças, muitos deuses, lutando uns contra os outros, para outro em que todo o universo é resultado de uma única vontade criadora racional. Portanto, quanto mais se entende o que a Bíblia combate, mais profunda é nossa compreensão dela.
No entanto, a Tabuleta do Dilúvio era importante não apenas para a história da religião; é também um documento vital na história da literatura. A tabuleta de Smith vem do século VII a.C., mas agora sabemos que a história do Dilúvio foi escrita originalmente mil anos antes. Só mais tarde o relato do Dilúvio foi inserido por contadores de história na famosa epopeia de Gilgamesh, o primeiro grande poema épico da literatura mundial. Gilgamesh é um herói que parte em busca da imortalidade e do autoconhecimento. Enfrenta demônios e monstros, sobrevive a todos os perigos e, por fim, como todos os heróis posteriores, vê-se diante do maior desafio de todos: sua própria natureza e sua própria mortalidade. A tabuleta de Smith é apenas o décimo primeiro capítulo da história. A epopeia de Gilgamesh tem todos os elementos de um ótimo conto, mas é também um momento decisivo na história na escrita.
A escrita no Oriente Médio começou como pouco mais do que uma forma de fazer contabilidade: criada essencialmente para burocratas a fim de manter registros. Foi usada, acima de tudo, para as tarefas práticas do Estado. Já as histórias eram em geral contadas ou cantadas e aprendidas de cor. Porém, aos poucos, mais ou menos há quatro mil anos, histórias como a de Gilgamesh começaram a ser registradas por escrito. Intuições sobre as esperanças e os temores do herói agora podiam ser ajustadas, refinadas e fixadas; o autor teria certeza de que sua visão particular da narrativa e seu entendimento pessoal da história poderiam ser transmitidos diretamente, e não alterados o tempo todo por outros contadores de história. A escrita transferiu a autoria da comunidade para o indivíduo. Não menos importante, um texto escrito podia ser traduzido, e a forma particular de uma história poderia, agora, passar facilmente para várias línguas. A literatura registrada por escrito tornava-se, assim, literatura mundial. David Damrosch explica esse contexto:
Gilgamesh agora é muitas vezes apontada nos cursos de literatura como a primeiríssima obra, e isso mostra uma espécie de globalização precoce. É a primeira obra da literatura mundial que circula amplamente no mundo antigo. O mais notável, quando se observa Gilgamesh hoje, é ver que, recuando o suficiente no tempo, não houve choque de civilizações entre o Oriente Médio e o Ocidente. Descobrimos em Gilgamesh as origens de uma cultura comum — seus rebentos aparecem em Homero, em As mil e uma noites e na Bíblia —, portanto ele é, de fato, uma espécie de fio condutor comum na nossa cultura global.
Com a epopeia de Gilgamesh, representada aqui pela Tabuleta do Dilúvio de Smith, o ato de escrever deixou de ser um meio de registrar fatos e passou a ser um meio de investigar ideias. Sofreu uma mudança em sua natureza. E mudou a “nossa” natureza: uma literatura como a de Gilgamesh nos permite não apenas explorar nossos próprios pensamentos, mas habitar o mundo da imaginação de outros. Essa, obviamente, é também a ideia do British Museum e, na verdade, dos objetos que compõem este fio condutor da história da humanidade que tento traçar aqui: eles nos oferecem a possibilidade de outras existências.
 
 
 
(Neil MacGregor - A História do Mudo em 100 Objetos)

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