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Suicídio

por Thynus, em 12.04.15

“Gostaria de suicidar-me, mas é muito perigoso.” (Sofocleto – 1926)

 

O suicídio é consequente a uma situação bastante séria, desagradável, frustrante. O indivíduo apresenta-se deprimido, desesperado, sem amparo. Não procura apoio e deseja encontrar um meio para acabar com a sua vida. Os meios usados por esses indivíduos extremamente perturbados são variados: fazem uso de arma de fogo carregada com balas, cortam os pulsos, abrem o gás do fogão fechando portas e janelas, ou então atiram-se de um edifício, ingerem uma substância venenosa, barbitúricos em altas doses, enforcam-se valendo-se de uma corda ou de alguma roupa que tenha comprimento suficiente para estrangulá-los. Bebem álcool com etanol até chegarem ao coma alcoólico e não serem socorridos a tempo. Ateiam fogo às vestes, tornando-se uma tocha humana. Usam armas brancas – facão, espada etc., atiram-se ao mar além da arrebentação das ondas para não dar pé e serem levados pelas caudalosas águas.

Há também uma forma mais sutil que é a de se isolar e deixar de se alimentar por completo. Greve de fome. Nem água tomam. Rejeitam remédios.

Os adultos e os idosos, por motivos os mais variados, fazem parte das estatísticas de suicídio. A taxa de suicídio entre os idosos supera os jovens.

Há pessoas que constantemente manifestam o desejo de se suicidar. Mas, em geral, não cumprem, na realidade, o que tanto costumam manifestar. Mas, cuidado, há inúmeros casos que de repente, os que falam em se matar, inesperadamente, cumprem o prometido, matando-se. Portando, é bom vigiar a pessoa que manifesta esse tresloucado gesto, lembrando-se sempre do famoso e antigo aforismo: “Não tem perigo, cuidado”!

Entre os casos de tentativa de suicídio, fomos chamados para ir com a máxima urgência a uma residência, nas imediações do consultório. Uma senhora estava passando mal.

Rapidamente nos deslocamos para o endereço fornecido. Ao entrar no quarto da paciente, ao lado da cama, no chão, vimos dois frascos vazios de Secobarbital Sódico, conhecido como Seconal. Cada frasco costuma ter 20 cápsulas. A paciente estava desnuda, aparentando uns 60 anos.

Parecia dormir. Gemia baixinho. Após auscultá-la, percebemos que as cápsulas ainda estava no estômago. Com a ajuda de uma pessoa para ampará-la sentada, introduzi os dedos indicador e médio em sua garganta.

A paciente, no mesmo momento, vomitou 39 cápsulas do remédio ingerido. Vomitou também a água que havia lhe dado. Assim nem foi preciso fazer a lavagem estomacal. Informaram-nos que a ambulância do Pronto Socorro estava a caminho.

Já acordada e medicada, conversava e se dizia arrependida do tresloucado ato que cometera. Sentia-se feliz por estar salva. Chegou a ambulância e nada mais tinha a fazer.

A paciente pediu-me para ouvi-la. Chorando de início, passou depois a contar sua história. Fora abandonada pelo namorado de muitos anos, o qual preferiu se ligar à melhor amiga dela.

No dia anterior, preparando o suicídio, percorrera diversas farmácias no bairro e nas imediações para comprar o remédio. Antigamente, as farmácias só forneciam duas cápsulas, sem a receita médica, para cada comprador.

Quando completou 40 cápsulas de Seconal, achou que poderia pôr em prática seu objetivo. No dia seguinte, tentou um contato com o namorado, implorando, pela última vez, que voltasse para ela. Diante da firmeza da negativa dele, resolveu suicidar-se. Refeita fisicamente, foi encaminhada à psicoterapia. Arrependida do mau passo que por pouco a mataria, sentia-se mais segura e esqueceria o namorado que a traíra. Já se achava mais importante que ele. Faria tudo para reorganizar a sua vida. Voltou a ser a costureira criativa e competente, retornando a atender a sua numerosa freguesia. Fez absoluta questão de ensinar a alta costura para a coautora deste livro. Tornou-se também a costureira dos seus lindos vestidos por muitos anos, enquanto moramos no Rio de Janeiro.

Em certos suicídios, em que a causa se baseia no máximo sacrifício de autorrenúncia por uma mente perturbadora, há uma oferta da vida do suicida para, no seu entender, garantir a felicidade da outra pessoa por ela amada.

Poderia estar se vingando e ao mesmo tempo dando liberdade, libertando a criatura amada dos males e entraves que lhe estaria produzindo. Sob as suas percepções confusas, abdica totalmente da sua felicidade.

Nem os filhos que ela tanto ama, servem de freio para o seu ato desvairado, louco. É importante tratar o emocional e procurar diminuir a tensão, a angústia, relaxar o psiquismo da vítima.

Uma pessoa confiável e competente deve procurar saber com profundidade a causa que poderá a qualquer momento desencadear o terrível e desvairado ato. Trabalho também para um profissional, um psicoterapeuta que cuidará de neutralizar a ideia desesperada.

A depressão, a desesperança, o sentir-se traída, muitas vezes, até pela melhor amiga, e o desejo de ir à forra, costumam passar na cabeça da candidata ao suicídio. Esta quer desafrontar-se, vingar-se de quem a traiu. O suicida tem o propósito de criar em seus algozes um sentimento de culpa. O desespero a invade. O instinto de morte vence o instinto de vida.

Acaba achando que seu ato, já que perdeu a fé em si mesma, vá destruir de roldão os outros e fazê-los sofrer. A coação no interior do candidato ao suicídio é asfixiante. Então tudo é possível!

Algumas vezes somos tomados de surpresa diante do segredo que o sofredor guarda só para si, calado, ruminando o insolúvel problema que o corrói.

Há mais suicídios na sociedade do que supomos. Mas são suicídios parciais, ou melhor, muita gente destruindo as mais belas parcelas de si mesmo. Uma autodestruição pessoal.

O maior crime contra Deus é o suicídio.

 

(Abrahão Grinberg & Bertha Grinberg - A arte de envelhecer com sabedoria)

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publicado às 12:50



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