Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Pensador dinamarquês que estabeleceu temas-chave do existencialismo e afirmou que a verdade deveria ser encontrada na experiência subjetiva do mundo, e não compreendida puramente por métodos objetivos. 

Søren Kierkegaard identificou e explorou os principais temas do existencialismo mais de cem anos antes que as figuras dominantes dessa tendência viessem a publicar uma palavra. Os conceitos de nada, angústia e pavor foram descritos por Kierkegaard muito antes que Martin Heidegger (1889-1976) – com pouco mais que um aceno para sua fonte – os elaborasse em Ser e tempo (1927). A visão de Jean-Paul Sartre (1905-80) do homem como “uma paixão inútil”, que ele descreve em O ser e o nada (1945), é também uma referência a Kierkegaard.
Educação “insana”
O pai de Kierkegaard era um homem rico, sombrio e movido por um sentimento de culpa que chegou a afetar o jovem Kierkegaard ao ponto de este referir-se à própria educação como “insana”. Inicialmente, Kierkegaard estudou teologia para agradar o pai, mas depois a abandonou em favor de uma vida de bon vivant. Após a morte do pai, Kierkegaard iniciou formalmente o estudo de filosofia, graduou-se e ficou noivo. Depois de um ano, terminou o noivado, e sua angústia a respeito do assunto tornou-se a força motriz por trás de seus primeiros trabalhos, três dos quais foram publicados em 1843: Ou isso ou aquilo, Temor e tremor e A repetição. O volume de material publicado por Kierkegaard foi prodigioso, mas os trabalhos que tiveram mais influência durante sua vida foram Migalhas filosóficas (1844), O conceito de angústia (1844), Estágios no Caminho da Vida (1845) e Pós-escrito conclusivo não científico (1846). Dois trabalhos póstumos continuam exercendo influência no século XXI: Doença até a morte (1849) e Prática no cristianismo.

Pseudônimos e comunicação indireta
Depois de desfazer seu noivado, Kierkegaard levou uma vida de solteiro focada em trabalho duro e reflexão profunda. No entanto, a gravidade de seus temas da fé e do desespero é entrecortada por um sério ludismo. Em muitos de seus trabalhos, Kierkegaard adotou pseudônimos: Victor Eremita, Johannes de Silentio, Constantin Constantius, Johannes Climacus, Vigilius Haufniensis, Anti-Climacus e H. H. O uso de pseudônimos era parte do seu método de comunicação indireta, com o qual Kierkegaard encorajava os leitores a pensarem por conta própria – a descobrirem sua subjetividade em vez de simplesmente receberem a “verdade” conforme entregue pela autoridade (o “autor”). Em vez de fazer proselitismo, Kierkegaard utiliza diferentes personas para oferecer perspectivas concorrentes de um mesmo problema, deixando ao leitor o trabalho de escolher aquilo em que acreditar.
 


Subjetividade, paradoxo e “o salto da fé”
Kierkegaard é o filósofo da subjetividade. Ele acredita que o Eu é livre para fazer escolhas, para criar a si próprio. Falhar em ter consciência de si e das possibilidades de liberdade é estar em um estado de desespero. Entretanto, todos em algum ponto de suas vidas caem em desespero, o que pode se apresentar como a oportunidade de ser eles mesmos. Em Doença até a morte (1843), Kierkegaard escreve: “Desespero é uma doença do espírito, do Eu, e assim pode assumir uma forma tripla: desespero de não estar consciente de possuir um Eu (desespero chamado assim inapropriadamente); desespero de não querer ser quem se é e desespero de querer ser quem se é.”
O conceito de Kierkegaard de ser e subjetividade lhe permitiu aceitar o paradoxo como base da fé religiosa. Ele formulou o conceito normalmente referido como “salto da fé” (embora sua expressão literal fosse “salto para a fé”). Os mistérios do cristianismo não podem ser explicados pela razão, disse Kierkegaard, e não precisam ser. Eles existem fora da razão. São paradoxais. É preciso acreditar, mas não se consegue provar. É preciso acreditar como Abraão, que estava preparado para sacrificar o único filho em resposta à ordem de Deus. O pensamento de Kierkegaard é diametralmente oposto ao de Hegel, que propôs um enorme sistema lógico de razão pura, a partir da qual o homem e seu mundo seriam entendidos objetivamente, como por uma perspectiva divina.
 Kierkegaard argumentou que isso nunca seria possível; que o sujeito humano está sempre situado na perspectiva permitida por seu corpo, sua localização no espaço, sua própria consciência. Essa rejeição a uma perspectiva divina e a pseudo-objetividade que dela resulta, ao lado de uma tolerância pelo paradoxo, influenciaram em grande medida o pensador francês do século XX, Maurice Merleau-Ponty, e estas ideias são centrais para sua Fenomenologia da percepção (1945). Kierkegaard exerceu influência enorme na teologia protestante dos séculos XX e XXI. A filosofia contida em Eu e tu, de Martin Buber, deve muito a Kierkegaard, assim como a desmitologização de Rudolf Bultmann (1884-1976) – a visão de que a única necessidade da fé cristã é o fato do Cristo crucificado. E o teólogo germano-americano Paul Tillich (1886-1965), que teve enorme influência, levou adiante o conceito de Kierkegaard do “ser” como a chave para compreender a relação do homem com Deus.
Como são estéreis minha alma e pensamento, e ao mesmo tempo atormentados incessantemente por vazias, arrebatadoras e agonizantes dores do parto! Estará meu espírito fadado a calar-se eternamente? Estarei eu obrigado a murmurar para sempre? Necessito é de uma voz tão penetrante quanto o olhar de Linceu, aterrorizante como o suspiro dos gigantes, persistente como um som da natureza, zombeteira como uma rajada de vento que espalha a geada fria, maliciosa como o desprezo insensível de Eco, com uma extensão tonal que alcance desde os graves mais profundos até os mais pungentes agudos, modulando do sussurro de uma santidade suave à violenta fúria da raiva. É disso que eu preciso para respirar, para dar expressão ao que está na minha mente, para agitar as entranhas da minha ira e da minha simpatia. – Mas minha voz é apenas rouca como o grito de uma gaivota ou moribunda como a bênção sobre os lábios do mudo. O que está por vir? O que reserva o futuro? Não sei, não tenho ideia. Quando, de um ponto fixo, uma aranha se joga para baixo, como determina sua natureza, ela vê diante de si sempre um espaço vazio no qual não consegue encontrar equilíbrio, não importa quanto esperneie. É isso que acontece comigo: sempre um espaço vazio diante de mim, o que me empurra para frente é um resultado que se encontra atrás de mim. Esta vida é de trás para frente e terrível, insuportável. (Søren Kierkegaard, Ou isso ou aquilo: um fragmento de vida 1843)
As dificuldades para um leitor dos escritos de Kierkegaard são consequência, em parte, da multiplicidade de escritores sob diferentes pseudônimos que apresentam seus próprios pontos de vista em um diálogo complexo. Evitando um sistema conclusivo, Kierkegaard permite que cada um deles tenha sua voz... Deste modo, o leitor está na posição de quem, se assim desejar, entra também neste complexo diálogo e organiza todas essas vozes. O uso de pseudônimos também desencoraja a tendência ilusória a cometer a falácia genética de psicologizar e historicizar a obra como autobiografia, supostamente, assim, “explicando-a”. Há ainda um objetivo pedagógico na complexidade: “A tarefa precisa ser tornada difícil, pois somente o difícil inspira os de coração nobre” [Pós-escrito conclusivo não científico]. (Howard V. e Edna H. Hong, The Essential Kierkegaard [Kierkegaard essencial] 2000)
  (Trombley, Stephen - 50 pensadores que formaram o mundo moderno)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:19



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D