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Sobre a psicologia do artista.

por Thynus, em 14.12.17
.Então, o artista é quase que um pecador, porque ele se mistura com Deus e quer, da mesma forma que Deus, criar novos mundos. E se não houvesse esses artistas criando novos mundos, Deus, que só fez um, nos obrigaria a viver nesse já insuportável (há séculos insuportável). E se não fossem os artistas, nós não teríamos o nascimento de sempre novos mundos.

 
"Sou um discípulo do filósofo Dionísio, preferiria antes ser um sátiro a ser um santo” – Nietzsche, Ecce Homo, pr.§2
 
 — Para haver arte, para haver alguma atividade e contemplação estética, é indispensável uma precondição fisiológica: a embriaguez. A suscetibilidade de toda a máquina tem de ser primeiramente intensificada pela embriaguez: antes não se chega a nenhuma arte. Todos os tipos de embriaguez têm força para isso, por mais diversamente ocasionados que sejam; sobretudo a embriaguez da excitação sexual, a mais antiga e primordial forma de embriaguez. Assim também a embriaguez que sucede todos os grandes desejos, todos os afetos poderosos; a embriaguez da festa, da competição, do ato de bravura, da vitória, de todo movimento extremo; a embriaguez da crueldade; a embriaguez na destruição; a embriaguez sob certos influxos meteorológicos, por exemplo, a embriaguez primaveril; ou sob a influência de narcóticos; a embriaguez da vontade, por fim, de uma vontade carregada e avolumada. — O essencial na embriaguez é o sentimento de acréscimo da energia e de plenitude. A partir desse sentimento o indivíduo dá [?] às coisas, força-as a tomar de nós,86 violenta-as — este processo se chama idealizar. Livremo-nos aqui de um preconceito: idealizar não consiste, como ordinariamente se crê, em subtrair ou descontar o pequeno, o secundário. Decisivo é, isto sim, ressaltar enormemente os traços principais, de modo que os outros desapareçam.
 
 
9.
 
Nesse estado, enriquecemos todas as coisas com nossa própria plenitude: o que enxergamos, o que queremos, enxergamos avolumado, comprimido, forte, sobrecarregado de energia. Nesse estado, o ser humano transforma as coisas até espelharem seu poder — até serem reflexos de sua perfeição. Esse ter de transformar no que é perfeito é — arte. Mesmo tudo o que ele não é se torna para ele, no entanto, prazer em si; na arte, o ser humano frui a si mesmo enquanto perfeição. — Seria lícito imaginar um estado oposto, uma específica natureza antiartística do instinto87 — um modo de ser que empobrecesse, diluísse, debilitasse todas as coisas. E, de fato, a história é pródiga em antiartistas assim, em tais famintos da vida: que necessariamente têm de tomar as coisas, consumi-las, fazê-las mais magras. Este é, por exemplo, o caso do genuíno cristão, de Pascal, por exemplo: um cristão que, ao mesmo tempo, fosse artista não existe... Que ninguém seja pueril e mencione Rafael ou algum cristão homeopático do século xix: Rafael dizia Sim, Rafael fazia Sim; portanto, Rafael não era um cristão...88
 
 
10.
 
Que significam os conceitos opostos que introduzi na estética, apolíneo e dionisíaco, os dois entendidos como espécies de embriaguez? — A embriaguez apolínea mantém sobretudo o olhar excitado, de modo que ele adquire a força da visão. O pintor, o escultor, o poeta épico são visionários par excellence. Já no estado dionisíaco, todo o sistema afetivo é excitado e intensificado: de modo que ele descarrega de uma vez todos os seus meios de expressão e, ao mesmo tempo, põe para fora a força de representação, imitação, transfiguração, transformação, toda espécie de mímica e atuação. O essencial continua a ser a facilidade da metamorfose, a incapacidade de não reagir (de forma semelhante a determinados histéricos, que também a qualquer sinal adotam qualquer papel). Para o homem dionisíaco é impossível não entender alguma sugestão, ele não ignora nenhum indício de afeto, possui o instinto para compreensão e adivinhação no grau mais elevado. Ele entra em toda pele, em todo afeto: transforma-se continuamente. — A música, tal como a entendemos hoje, é igualmente uma excitação e descarga geral dos afetos, mas, ainda assim, apenas o vestígio de um mundo de expressão afetiva bem mais pleno, um mero residuum do histrionismo dionisíaco. Para tornar possível a música como arte distinta, foi imobilizado um certo número de sentidos, sobretudo a sensibilidade muscular (ao menos relativamente: pois, num determinado grau, todo ritmo ainda diz algo a nossos músculos): de modo que o homem já não imita e representa com o corpo tudo o que sente. No entanto, esse é o estado dionisíaco normal, o estado original, de toda forma; a música é a especificação dele, lentamente alcançada às expensas das faculdades que lhe são mais afins.
 
 
11.
 
O ator, o mímico, o dançarino, o músico, o poeta lírico são basicamente aparentados em seus instintos e essencialmente um, mas aos poucos se especializaram e separaram um do outro — até chegar à oposição mútua. O poeta lírico ficou unido ao músico por mais tempo; o ator, com o dançarino. — O arquiteto não representa nem um estado dionisíaco, nem um apolíneo: aí é o grande ato de vontade, a vontade que move montanhas,89 a embriaguez da grande vontade que exige tornar-se arte. Os indivíduos mais poderosos sempre inspiraram os arquitetos; o arquiteto sempre esteve sob a sugestão do poder. Na construção devem tornar-se visíveis o orgulho, o triunfo sobre a gravidade, a vontade de poder; arquitetura é uma espécie de eloqüência do poder em formas, ora persuadindo, até mesmo lisonjeando, ora simplesmente ordenando. O mais alto sentimento de poder e segurança adquire expressão naquilo que tem grande estilo. O poder que já não tem necessidade de demonstração; que desdenha agradar; que dificilmente responde; que não sente testemunha ao seu redor; que vive sem consciência de que há oposição a ele; que repousa em si mesmo, fatalista, como uma lei entre as leis: isso fala de si na forma do grande estilo.
 
 (Friedrich Nietzsche - Crepúsculo dos Ídolos)
 
NOTAS
 86. “A partir desse sentimento o indivíduo dá [?] às coisas, força-as a tomar de nós”: Aus diesem Gefühle gibt man an die Dinge ab, man zwingt sie, von uns zu nehmen — na primeira oração não é explicitado o que se dá às coisas a partir do sentimento de embriaguez; ela é assim traduzida nas outras versões: “Em virtude deste sentimento, o homem entrega-se às coisas”; “A partir deste sentimento nos entregamos às coisas”; De este sentimiento hacemos partícipes las cosas; Di questo sentimento si fanno partecipi le cose; Sous lempire de ce sentiment on sabandonne aux choses; Out of this feeling one lends to things; From out of this feeling one gives to things; On the strength of this feeling we give to things.
 87. “uma específica natureza antiartística do instinto”: ein spezifisches Antikünstlertum des Instinkts — nas versões consultadas: “uma peculiar disposição antiartística do instinto”, “um específico movimento antiartístico dos instintos”, un antiartisticismo específico del instinto, una specifica anti-artisticità dellistinto, un état specifique des instincts antiartistiques, a specific anti-artistry by instinct, a specific anti-artisticality of instinct, a specific anti-artistry of the instinct.
88. Rafael (1483-1520): pintor e arquiteto italiano, um dos gênios do Renascimento.
89. “a vontade que move montanhas”: paródia de são Paulo, Epístola aos coríntios i, 13, 2.

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