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Quando caracterizamos uma conversa como papo furado, queremos dizer que o que sai da boca do falante é apenas isso. Mero vapor. A fala é vazia, sem substância ou conteúdo. O uso da linguagem não contribui, portanto, para o propósito ao qual pretende servir. Nenhuma informação a mais é comunicada, como se o falante tivesse apenas exalado. A propósito, há certas semelhanças entre papo furado e excremento que fazem papo furado parecer um equivalente especialmente apropriado de falar merda Da mesma forma que papo furado é uma fala que foi esvaziada de todo conteúdo informativo, excremento é matéria da qual foram removidos todos os nutrientes. Ele pode ser visto como o cadáver dos nutrientes, o que resta quando os elementos vitais da comida foram exauridos.
Desse ponto de vista, o excremento é uma representação da morte que geramos e, na verdade, que não podemos impedir de gerar no processo de manutenção de nossa vida. Talvez seja por tornarmos a morte tão íntima que consideramos o excremento repugnante. De qualquer forma, ele não serve mais ao propósito da manutenção do que o papo furado ao da comunicação.
 
(...) Mentir e blefar são formas de embuste ou de logro. Assim, o conceito mais fundamental que caracteriza uma mentira é o de falsidade: o mentiroso é, em essência, alguém que divulga de propósito uma falsidade. O blefe, também, transmite uma coisa falsa. Entretanto, de forma diferente da mentira pura e simples, ele é mais um caso de tapeação que de falsidade. Isso é o que o torna próximo do falar merda. Pois a essência de falar merda não é algo falso, mas adulterado. De forma a avaliar essa distinção, deve-se reconhecer que um embuste ou uma adulteração não precisam ser, de modo algum (à parte a autenticidade em si), inferiores à coisa verdadeira. Aquilo que não é genuíno não precisa ser defeituoso por causa disso. Pode ser, apesar de tudo, uma cópia exata. O problema de uma imitação não é a aparência, mas o modo como foi feita. Isso aponta para um aspecto similar e fundamental da natureza intrínseca de falar merda: embora se origine sem preocupação com a verdade, não precisa ser algo falso. O falador de merda está camuflando as coisas. Porém, isso não significa que ele as entenda erradamente.

(...) O que o falar merda deturpa, essencialmente, não é o estado de coisas ao qual se refere – que a mentira deturpa por ser falso — nem as crenças do falante em relação a esse estado de coisas. Uma vez que falar merda não envolve falsidade, difere das mentiras em seu intento deturpador. O falador de merda pode não nos enganar, ou nem ao menos querer fazê-lo, sobre os fatos ou sua interpretação deles. E sobre sua intenção que ele tenta necessariamente nos enganar. Sua única característica distintiva é que, de certa forma, ele deturpa seu objetivo.
Esse é o ponto crucial da distinção entre ele e o mentiroso. Ambos representam a si mesmos de modo falso, como se tentassem comunicar a verdade. O sucesso de cada um depende de eles nos enganarem a respeito disso. O fato ocultado pelo mentiroso é sua tentativa de nos afastar de uma apreensão correta da realidade; nós não podemos saber sobre seu desejo de que acreditemos numa coisa que ele supõe falsa. O fato que o falador de merda oculta sobre si, por outro lado, é que o valor de verdade de suas afirmações não tem um interesse fundamental para ele; o que não devemos descobrir é que sua intenção não é relatar a verdade nem ocultá-la. Isso não significa que seu discurso seja anarquicamente impulsivo, mas que o motivo a orientá-lo e controlá-lo está pouco interessado em saber como são de fato as coisas que ele fala.
É impossível para alguém mentir a menos que julgue conhecer a verdade. Falar merda não requer essa convicção. Uma pessoa que mente está reagindo a verdade e tem, até certo ponto, respeito por ela. Quando um homem honesto fala, diz apenas o que acredita ser a verdade; enquanto, para o mentiroso, é indispensável que ele considere suas afirmações falsas. Entretanto, no caso do falador de merda, essas coisas não contam: ele não está nem do lado do verdadeiro nem do falso. Seu enfoque não é sobre os fatos, como o do homem honesto e do mentiroso, a não ser que sirvam a seu interesse de se safar com o que diz. Ele não se importa se as coisas que fala descrevem a realidade corretamente. Apenas as escolhe ou inventa para satisfazer seu propósito.
Em seu ensaio De Mendacio [Sobre a mentira], santo Agostinho distingue oito tipos de mentira, classificadas de acordo com a intenção ou justificativa com que é contada. Mentiras de sete tipos são ditas apenas porque se supõe que sejam meios indispensáveis para algum fim que não a mera invenção de falsas convicções. Em outras palavras, não é a falsidade em si que atrai o mentiroso para elas. Uma vez que são ditas somente em virtude de sua suposta necessidade com relação a um objetivo que não é o logro, santo Agostinho as considera como ditas contra a vontade: o que a pessoa deseja de fato não é contar a mentira, mas conseguir seu objetivo. Não se trata, em sua opinião, de mentiras reais, e aqueles que as dizem não são mentirosos, no sentido mais estrito da palavra. E a categoria restante a que contém o que ele identifica como “a mentira contada apenas pelo prazer de mentir e enganar, ou seja, a verdadeira mentira”.{“De Mendacio” [Lying], in Treatises on Various Subjects, in Fathers of the Church, R. J. Deferrari (org), vol. 16 (Nova York Fathers of the Church. 1952), p. 109. Santo Agostinho sustenta que contar uma mentira desse tipo é um pecado menos sério do que fazê-lo em três das categorias e mais sério que contá-la nas outras quatro} As mentiras dessa categoria não têm outro objetivo a não ser a propagação da falsidade. Elas são ditas simplesmente por dizer - isto e, por puro amor ao logro:
Há uma distinção entre a pessoa que conta uma mentira e o mentiroso. Aquela mente contra a vontade, enquanto este ama a mentira e passa o tempo desfrutando seu prazer (…) compraz-se nela, exultando com a própria falsidade.{Ibid, p. 79} O que Agostinho chama de “mentiroso” e de “verdadeira mentira” é algo raro e extraordinário. Todos mentem por vezes, mas há muito poucas pessoas para quem ocorreria com frequência (ou mesmo sempre) mentir exclusivamente por amor à falsidade ou ao logro. Para a maioria dos indivíduos, o fato de uma afirmação ser falsa já constitui em si uma razão, por mais fraca e facilmente superável que seja, para não ser feita. No caso do mentiroso genuíno de santo Agostinho, essa é uma razão a favor de se fazê-la. Para o falador de merda, não é algo a favor nem contra. Tanto ao mentir quanto ao falar a verdade, as pessoas são guiadas por suas crenças a respeito de como as coisas são. Isso as orienta quando tentam descrever o mundo de forma correta ou descrevê-lo enganosamente. Por essa razão, mentir incapacita uma pessoa a dizer a verdade da mesma forma que falar merda tende a fazer. Por um excesso de satisfação nesta última atividade, que envolve fazer afirmações sem se preocupar com nada, exceto com aquilo que convém a alguém dizer, o hábito normal de se atinar com a realidade das coisas pode atenuar-se ou até perder-se. Tanto quem mente quanto quem fala a verdade atuam em campos opostos do mesmo jogo, por assim dizer. Cada um reage aos fatos como os entende, embora a reação de um seja guiada pela autoridade da verdade, enquanto a reação do outro desafia essa autoridade e se recusa a satisfazer suas exigências. O falador de merda as ignora como um todo. Ele não rejeita a autoridade da verdade, como faz o mentiroso, e opõe-se a ela; simplesmente, não lhe dá a menor atenção. Em virtude disso, falar merda é um inimigo muito pior da verdade do que mentir.
Aquele que se preocupa em relatar ou ocultar fatos supõe, de alguma forma, que alguns deles são distintos e reconhecíveis. O interesse em dizer a verdade ou em mentir pressupõe que existe uma diferença entre entender as coisas de forma errada e de forma certa, e que pelo menos às vezes é possível perceber essa diferença. Quem pára de acreditar na possibilidade de identificar certas afirmações como verdadeiras e outras como falsas tem apenas duas opções. A primeira seria abrir mão de dizer a verdade e de enganar. Isso significaria abster-se de proferir qualquer afirmação sobre os fatos. A segunda opção seria continuar fazendo afirmações que pretendessem descrever o modo como as coisas são, mas isso não seria outra coisa senão falar merda. Por que se fala tanta merda? É claro que é impossível saber se hoje se fala relativamente mais merda que no passado. Há mais comunicação de todo tipo em nossa época do que já houve antes, mas a parte que equivale a falar merda pode não ter aumentado. Sem pressupor que sua incidência seja maior agora, vou mencionar algumas considerações que ajudam a justificar o fato de que isso seja algo tão notável nos dias de hoje.
É inevitável falar merda toda vez que as circunstâncias exijam de alguém falar sem saber o que está dizendo. Assim, a produção de merda é estimulada sempre que as obrigações ou oportunidades que uma pessoa tem de se manifestar sobre algum tópico excederem seu conhecimento dos fatos pertinentes. Essa discrepância é comum na vida pública, em que os indivíduos são com frequência impelidos — seja pelas próprias inclinações ou por exigência de outrem - a falar sobre questões em que são até certo ponto ignorantes. Exemplos intimamente relacionados se originam de uma convicção generalizada de que é dever do cidadão, numa democracia, ter opiniões sobre tudo ou, pelo menos, tudo aquilo que diga respeito à condução das questões de seu pais. A falta de um nexo significativo entre as opiniões de uma pessoa e sua apreensão da realidade vai tornar-se ainda mais grave, é desnecessário dizer, para alguém que acredite ser seu dever, como agente moral consciencioso, avaliar acontecimentos e condições de todas as partes do mundo.
A atual proliferação do ato de falar merda tem também raízes muito profundas em várias formas de ceticismo, que negam o fato de que possamos ter acesso confiável a uma realidade objetiva e rejeitam, portanto, a possibilidade de sabermos como as coisas na verdade são. Essas doutrinas “ante-realistas” minam a validade de todo esforço desinteressado para se determinar o que é verdadeiro e o que é falso, e até a falta de inteligibilidade da noção de investigação objetiva. Uma das reações a essa perda de confiança tem sido o afastamento da disciplina requerida pelo ideal da correção em direção a um tipo de disciplina completamente diferente, que é imposto pela perseguição a um ideal alternativo de sinceridade. Em vez de buscar chegar primeiramente a representações precisas do mundo comum, o indivíduo se volta para a tentativa de oferecer representações honestas de si. Convencida de que a realidade não tem nenhuma natureza inerente, que ela pudesse ter esperanças de identificar com a verdade sobre as coisas, a pessoa dedica-se a ser fiel à sua natureza. E como se percebesse que, uma vez que não faz sentido tentar ser fiel aos fatos, deve, em vez disso, esforçar-se para ser fiel a si mesma.
Porém é absurdo imaginar que somos determinados e daí suscetíveis a descrições corretas e incorretas, embora supondo que a atribuição de determinação a tudo o mais tenha sido exposta como um erro. Como seres conscientes, existimos apenas em resposta a outras coisas e não podemos conhecer a nós mesmos, de modo algum, sem conhecê-las. Além disso, não existe nada na teoria, e certamente nada na prática, que sustente a opinião singular de que a verdade sobre si é mais fácil de saber. Os fatos a nosso respeito não são particularmente sólidos e resistentes contra uma dissolução cética. Nossa natureza é, na verdade, enganosamente sem substância — muito menos estável e inerente que a natureza das outras coisas. E, já que o caso é esse, sinceridade nada mais é do que falar merda.

 (Harry G. Frankfiut - Sobre Falar Merda)
Sinceridade
 

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publicado às 02:08



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