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Sexo e morte

por Thynus, em 30.05.17
O sexo dota o indivíduo de um instinto inebriante e poderoso que o move continuamente, de corpo e alma, na direção de outro; transforma a escolha e conquista de uma companheira numa das mais gratas ocupações da sua vida e acrescenta à posse o prazer mais intenso, à rivalidade a raiva mais feroz e a solidão uma eterna melancolia. Que mais será preciso para inundar o mundo do significado e beleza mais profundos?
(GEORGE SANTAYANA, The sense of beauty)

A morte é a grande reprimenda que a vontade de viver, ou, mais concretamente, o egoísmo que lhe é essencial, recebe da marcha da Natureza; e pode ser encarada como uma punição à nossa existência.
É o doloroso desatar do nó que o ato de procriação apertou [...]
(ARTHUR SCHOPENHAUER, O mundo como vontade e representação)
 
Os pirilampos, lá fora, numa cálida noite de Verão, ao verem debaixo deles a fosforescência ansiosa, faiscante e de um tom branco-amarelado, ficam loucos de desejo; as borboletas noturnas lançam para as vidraças uma poção de encantar que atrai o sexo oposto, num apressado bater de asas, de quilômetros de distância; os pavões exibem uma coroa irresistível de azuis e verdes e as pavoas ficam todas alvoroçadas; partículas de pólen adversárias expelem tubos minúsculos que competem entre si para descerem pelo orifício da flor fêmea até o óvulo, que aguarda lá em baixo; chocos luminescentes apresentam caleidoscópicos espetáculos de luz, alterando o padrão, a luminosidade e a cor que irradiam da cabeça, tentáculos e globos oculares; diligentemente, uma tênia põe num só dia uma centena de milhares de ovos fertilizados; uma baleia enorme desloca-se ruidosamente nas profundezas do mar, soltando lamentos, que são captados a centenas ou milhares de quilômetros de distância, onde se encontra outro enorme exemplar solitário atentamente à escuta; as bactérias juntam-se umas às outras e fundem-se; as cigarras cantam em coro uma serenata colectiva de amor; casais de abelhas-comuns planam em voos matrimoniais, dos quais apenas um dos parceiros regressa; peixes machos vaporizam com o seu sêmen um montinho viscoso de ovos postos sabe-se lá por quem ; os cães, nas suas passeatas, cheiram as partes íntimas uns dos outros, procurando estímulos eróticos; as flores emanam perfumes intensos e enfeitam as suas pétalas com garridos avisos ultravioletas para os insetos, aves e morcegos que passam; os homens e as mulheres cantam, vestem-se, enfeitam-se, pintam-se, fazem poses, automutilam-se, exigem, coagem, simulam, imploram, sucumbem e arriscam a vida. Dizer que o amor é que faz girar o mundo é ir longe demais.

A Terra gira porque sempre o fez desde que se formou e desde então nada houve que a fizesse parar. No entanto, a devoção quase maníaca ao sexo e ao amor pela maior das plantas, animais e micro-organismos com os quais estamos familiarizados é um aspecto intrigante e surpreendente da vida na Terra. Está a clamar por uma explicação.

Qual é a utilidade de tudo isto? Que significa essa torrente de paixão e obsessão? Por que razão os organismos passam sem dormir, sem comer e enfrentam de bom grado perigos mortais por causa do sexo? Alguns seres, entre eles as plantas e animais de tamanho razoável, como os dentes de leão, as salamandras, alguns répteis e peixes, podem reproduzir-seassexuadamente. Pelos vistos, durante mais de metade da história da vida na Terra os organismos passaram perfeitamente bem sem ele.

Para que serve o sexo?

E mais: o sexo sai caro. Requer laboriosas programações genéticas para a ligação de cantares e danças, para produzir feromonas sexuais, para desenvolver armações heroicas utilizadas apenas para derrotar rivais, para estabelecer peças de engrenagem, movimentos ritmados e um entusiasmo mútuo pelo sexo. Tudo isto representa um escoamento das reservas de energia, que podiam muito bem ser utilizadas em algo que, mais obviamente e a curto prazo, trouxesse benefícios ao organismo.

Além disso, parte daquilo que os seres da Terra fazem ou suportam pelo sexo coloca-os diretamente em perigo; o pavão, ao exibir-se, fica muito mais vulnerável aos predadores do que se se mantivesse discreto, receoso e pardacento. O sexo proporciona uma via adequada e potencialmente mortífera para a transmissão de doenças. Todos estes custos devem sermais do que compensados pelos benefícios do sexo. Quais são esses benefícios?

Embaraçados, os biólogos não sabem explicar totalmente para que serve o sexo. Neste aspecto a situação pouco se alterou desde 1862, quando Darwin escreveu: "Nem sequer conhecemos minimamente a causa final da sexualidade; a razão pela qual novos seres devem ser produzidos pela união de dois elementos sexuais [...] Toda essa questão permanece ainda oculta nas trevas."

Ao longo de 4 bilhões de anos de seleção natural, as instruções foram sendo limadas e afinadas — instruções mais elaboradas, mais redundantes, mais seguras, mais aptas a multiplicar-se —, as sequências de AA, CC, GG e TT, manuais escritos no alfabeto da vida em competição com outros idênticos, publicados por outras empresas. Os organismos tornam-se o meio através do qual as instruções circulam e se copiam a si mesmas, pelo qual novas instruções são postas à prova, no qual a seleção se processa. "A galinha" afirmou Samuel Butler, "é a maneira de o ovo fazer outro ovo." É a este nível que devemos entender para que serve o sexo.

Sabemos bastante acerca do mecanismo molecular do sexo. Para começar, analisemos alguns desses seres microbianos que, rotineiramente, fazem o que muita gente acharia impossível — reproduzirem-se sem sexo. Uma vez em cada geração os seus ácidos nucleicos copiam-se fielmente a partir dos blocos de construção moleculares A, C, G e T que fabricam para esse fim. Os dois DNA funcionalmente iguais pegam então cada um em metade da célula e põem-se a andar — um pouco como uma partilha de bens num divórcio. Algum tempo depois o processo repete-se.

Cada geração é uma réplica monótona da anterior e cada organismo a cara chapada — quase igual até a última mitocôndria e sistema de propulsão por flagelos — do seu único progenitor. Se o organismo estiver adaptado e o meio ambiente for repetitivo e estático, esta combinação pode até dar bons resultados. A monotomia raramente é quebrada pormutações. Estas, porém, como já o salientamos , são aleatórias e têm muito mais possibilidades de causar danos do que benefícios. Todas as rações subsequentes serão afetadas, a menos que, e isso é improvável, ocorra entretanto uma mutação compensadora. O ritmo da evolução, nestas condições, deve ser lento, como de fato parece estar patente no registro fóssil entre 3,5 e cerca de bilhões de anos atrás — até à invenção do sexo.

Agora, em vez de uma mudança lenta e ao acaso nos materiais genéticos, imaginemos que podíamos, numa só etapa, colar numa parte das mensagens existentes um longo e complexo conjunto de instruções novas — não apenas a alteração de uma letra numa palavra do DNA, mas volumes inteiros de manuais experimentados pelo consumidor. Imaginemostambém que o mesmo tipo de reordenamento ocorre em gerações subsequentes. Trata-se-á de uma ideia estúpida se, idealmente, estivermos adaptados a um ambiente imutável ou muito marginal; nesse caso, qualquer mudança será para pior. Se, no entanto, o mundo a que devemos adaptar-nos for heterogêneo e dinâmico, o progresso evolucionista terá mais hipóteses se em cada geração houver resmas de novas instruções genéticas disponíveis do que quando a única coisa que tem de resolver é a ocasional conversão de um A num C. Além disso, se conseguirmos reordenar os genes, poderemos, nós ou os nossos descendentes, sair da armadilha montada pelo acumular, geração após geração, de mutações perniciosas. Genes prejudiciais poderão ser rapidamente substituídos por outros, vantajosos. O sexo e a seleção natural funcionam como uma espécie de revisor de provas, substituindo os inevitáveis erros mutacionais por instruções não contaminadas. Pode ser esta a razão por que as eucariotas se diversificaram — pelas várias linhas hereditárias que deram origem aos protozoários (como a paramécia), aos plasmódios (como os que provocam a malária), algas, fungos, todas as plantas e animais terrestres — precisamente ao tempo em que as eucariotas descobriram o sexo.

Alguns organismos modernos — desde as bactérias aos pulgões e aos choupos — reproduzem-se umas vezes sexuadamente e outras assexuadamente.

Podem fazê-lo de ambas as maneiras. Outros — os dentes de leão, por exemplo, e certos lagartos cauda de chicote — evoluíram recentemente de formas sexuadas para assexuadas, como parece evidente pela sua anatomia e comportamento: os dentes de leão produzem flores e néctar que não têm qualquer utilidade para a atual forma de reprodução; por mais ativas que sejam, as abelhas não podem servir de agentes na fertilidade dos dentes de leão. Quanto aos lagartos cauda de chicote, são todos do sexo feminino e as crias não têm pai biológico. Mas, mesmo assim, a reprodução requer preliminares heterossexuais — o cerimonial da cópula com outras espécies de lagartos, ainda sexuados, mesmo que não consigam fecundar essas fêmeas, ou uma pseudocópula ritual com outras fêmeas da mesma espécie. Pelos vistos, estamos a observar estes dentes de leão e lagartos tão recentemente após a sua evolução de seres sexuados para assexuados que não houve tempo suficiente para que os guiões e adereços do sexo murchassem. Talvez haja situações em que seja possível reproduzirem-se sexuadamente e outras em que não; alguns seres talvez alternem, prudentemente, de um estado para outro, consoante as condições de vida ambientais. Esta alternativa, porém, não está ao nosso alcance. Nós estamos dependentes do sexo.

Hoje em dia um reordenamento das instruções genéticas semelhante ao que acontece no sexo processa-se — estranhamente — nas infecções: um micróbio penetra num organismo maior, invade-lhe as defesas e introduz furtivamente o seu ácido nucleico no do hospedeiro. Existe um intrincado mecanismo na célula, inativo, mas pronto a entrar em ação, que lê e faz cópias de sequências de A, C, G e T preexistentes. O mecanismo não é, contudo, suficientemente eficaz para distinguir os ácidos nucleicos forasteiros dos locais. Trata-se de uma máquina impressora para manuais de instruções que copiará tudo quanto carregarem nos botões. O parasita carrega nos botões, as enzimas da célula recebem novas instruções e são cuspidas cá para fora hordas de parasitas recém-cunhados e ansiosos por aumentarem a subversão.

Ocasionalmente, os mortos conseguem ter relações sexuais e gerar descendentes. Quando uma bactéria morre, o seu conteúdo espalha-se pelas redondezas. Os seus ácidos nucleicos pouco se ralam com a morte da bactéria e, mesmo enquanto, lentamente, se desfazem, os fragmentos permanecem funcionais durante um certo tempo — como a perna cortada de um inseto. Se um desses fragmentos for ingerido por uma bactéria de passagem (e intata) pode ser incorporado nos ácidos nucleicos residentes.

Talvez seja utilizado como um registro independente do que deviam dizer as instruções incólumes, com utilidade na reparação do DNA alterado pelo oxigênio. Talvez esta forma de sexo, extremamente rudimentar, tenha surgido juntamente com a atmosfera de oxigênio da Terra.

Combinações de genes, estranhas e quiméricas, acontecem mais raramente — por exemplo, entre bactérias e peixes (atualmente há não só genes bacterianos nos peixes, como também genes písceos nas bactérias), ou babuínos e felídeos. Parece terem sido causadas por um vírus que se fixou ao DNA de um organismo hospedeiro, reproduzindo-se com eadaptando-se a ele durante gerações para depois se libertar, levando consigo parte dos genes do hospedeiro inicial e ir infectar outras espécies.

Sabe-se que os felídeos apanharam um virogene algures na costa do mar Mediterrâneo a 10 milhões de anos atrás. Os vírus assemelham-se cada vez mais a genes peripatéticos que, só acidentalmente, provocam doenças.

Mas, se hoje em dia as trocas genéticas podem ocorrer num leque tão amplo de organismos, deve ser muito mais fácil ocorrerem, por acidente, em organismos da mesma espécie ou de espécies muito intimamente relacionadas. Talvez o sexo tenha começado como uma infecção, tornando-se mais tarde institucionalizado pelas células infecciosas e infectadas.

Dois familiares distantes, membros da mesma espécie, cada um deles no processo de replicação, encontram as suas cadeias de ácidos nucleicos, uma de cada um, confortavelmente deitadas lado a lado. Um curto segmento de uma sequência muito longa seria, digamos, o segmento correspondente da outra, como



… ATG AAG TCG ATC CTA …


E o segmento correspondente à da outra...


… TAC TTC GGG CGG AAT …


As longas moléculas de ácido nucleico separam-se no mesmo ponto da sequência (vejamos, logo a seguir a AAG na primeira molécula e TTC na segunda), depois do que se recombinam, pegando cada uma num segmento da outra:


… ATG AAG GGG CGG AAT …


e


… TAC TTC TCG ATC CTA …



Devido a esta recombinação genética, existem agora duas novas sequências de instruções e, consequentemente, dois novos organismos no mundo — não propriamente quimeras, dado que provêm ambos da mesma espécie, mas constituindo, apesar de tudo, cada um deles um conjunto de instruções que talvez nunca tenham coexistido no mesmo ser.

Um gene é, como já dissemos, uma sequência de talvez milhares de AA, CC, GG e TT que codifica para uma determinada função normalmente através da síntese de uma determinada enzima. Quando as moléculas DNA são cortadas, mesmo antes da recombinação, o corte dá-se no início ou no fim de um gene e quase nunca no meio dele. Um gene pode ter muitas funções. As caraterísticas importantes de um organismo — a altura, digamos, a agressividade, a cor da pelagem ou a inteligência serão, por norma, resultantes de muitos genes diferentes que atuam em sintonia.

Graças ao sexo, diferentes combinações de genes podem agora ser experimentadas para competir com as variedades mais convencionais.

Está a ser levada a cabo uma série de experiências naturais que muito promete. Em vez de gerações aguardando pacientemente na fila que ocorra uma sequência de mutações favoráveis — pode levar milhões de gerações até acontecer a mutação certa e talvez a espécie não possa esperar esse tempo todo —, o organismo pode agora adquirir novos traços, novas caraterísticas, novas adaptações por atacado. Duas ou mais mutações, que por si mesmas não servirão de muito, mas conferem um enorme benefício quando trabalham em série, talvez venham a ser adquiridas de linhas hereditárias largamente afastadas. As vantagens (para a espécie, pelo menos) parecem óbvias, se os custos forem suportáveis.

A recombinação genética proporciona um precioso achado de variabilidade no qual a seleção natural pode atuar.

Outra explicação proposta para a persistência do sexo, maravilhosa no seu aspecto de novidade, convida-nos a analisar o antiquíssimo braço de ferro entre os organismos parasitas e os seus hospedeiros. Existem neste momento mais micro-organismos infecciosos no nosso corpo do que pessoas na Terra. Uma única bactéria, a reproduzir-se duas vezes por hora, deixará um milhão de gerações sucessivas durante o nosso tempo de vida.

Com tantos organismos e tantas gerações, a seleção tem ao seu dispor, para aí atuar, uma quantidade imensa de variedades orgânicas — principalmente a seleção para superar as defesas do nosso corpo. Certos micróbios alteram a composição química e a forma da sua superfície mais depressa do que o corpo consegue produzir novos anticorpos-padrão;esses pequeninos seres levam, regularmente, a melhor sobre alguns sectores do sistema imunizante do homem. Por exemplo, uns alarmantes 2% dos parasitas plasmódios que provocam a malária alteram significativamente os seus formatos e graus de aderência em cada geração que passa.

Perante o incrível poder de adaptação dos micro-organismos infecciosos, nós, seres humanos, estaríamos a correr sérios riscos se fôssemos geneticamente iguais geração após geração. Muito rapidamente a mancha de patogenes evolutivos nos apanharia todos os pontos fracos. Uma variedade que consiga passar a perna às nossas defesas talvez se instale, mas, se o nosso DNA for recombinado em cada geração, temos mais hipóteses de nos anteciparmos à infestação potencialmente mortífera dos micróbios infecciosos. Encarando favoravelmente esta hipótese, o sexo provocaria uma confusão enorme aos nossos inimigos e seria a solução para termos saúde.



Uma vez que fêmeas e machos são fisiologicamente diferentes, por vezes adotam estratégias diferentes para cada um deles propagar a sua própria linha hereditária; e essas estratégias, embora, é claro, não sejam totalmente incompatíveis, introduzem um certo aspecto de conflito nas relações entre os sexos. Em muitas espécies de répteis, aves e mamíferos a fêmea produz apenas uma pequena quantidade de ovos de cada vez, e isso, talvez, só uma vez por ano. Faz, portanto, sentido, em termos de evolução, que ela seja criteriosa na escolha de parceiros e se dedique à nutrição dos ovos fertilizados e das crias.

O macho, em contrapartida, com grande abundância de espermatozoides — algo como centenas de milhões por ejaculação e a capacidade de muitas ejaculações por dia num jovem primata saudável —, pode muitas vezes propagar melhor a sua linha hereditária através de numerosos e indiscriminados acasalamentos, se conseguir realizá-los. Talvez sejamuito mais apaixonado e ansioso e, ao mesmo tempo, muito mais dado a saltar de parceira em parceira — cortejando, exibindo-se, intimidando e fecundando quantas fêmeas puder. Para além disso, dado que há outros machos com estratégias idênticas, ele não pode ter a certeza de que um certo ovo fertilizado ou cria seja seu; para que perder tempo e trabalho nutrindo e criando um jovem que talvez nem contenha os seus genes?

O investimento poderia beneficiar os descendentes de um rival, e não os seus. O melhor é ir andando para fecundar outras fêmeas.

Contudo, este padrão não é fixo; há espécies em que a fêmea se mostra ansiosa por acasalar com muitos machos e espécies em que o macho desempenha um papel importante, até mesmo primordial, na criação das crias. Mais de 90% das espécies de aves conhecidas são "monógamas" tal como o são os macacos e chimpanzés, já para não falar de todos os lobos, chacais, coiotes, raposas, elefantes, musaranhos, castores e antílopes-anões. No entanto, a monogamia não significa exclusividade sexual; em muitas espécies em que o macho ajuda a criar as crias e dedica cuidados à fêmea, sai também para uma pequena facada no matrimônio; quanto a ela, está muitas vezes receptiva a outros machos.

Os biólogos chamam a isso uma "estratégia de acasalamento misto" ou "cópula extramatrimonial". Eleva-se a 40% o número de jovens criados por casais de aves "monógamas" em cujas impressões digitais do DNA

se descobre que foram gerados em relações adúlteras e uma percentagem quase tão alta poderá aplicar-se aos seres humanos. Apesar disso, o traço dominante dos filhos criados pelas fêmeas quanto aos seus parceiros sexuais e machos dados a aventuras sexuais com muitas parceiras está muito espalhado, sobretudo entre os mamíferos.



Existe uma grande dose de erotismo, de sinais odoríferos e outra maquinaria nos organismos superiores para pôr em contato os genes de um com os de outro para que as moléculas possam deitar-se lado a lado e recombinar-se. Mas isso é apenas o hardware. O principal acontecimento sexual, das bactérias aos homens, é a troca de sequências DNA.

O hardware serve os propósitos do software.



No seu início, o sexo deve ter sido atabalhoado, confuso, fortuito, o equivalente microbiano a uma comédia erótica. Todavia, as vantagens que o sexo confere a gerações futuras parecem tão grandes que, desde que os custos não fossem demasiado altos, a seleção para um hardware sexual mais avançado, juntamente com todo e qualquer software novo que fortalecesse uma decisão para o ato sexual, em breve deve ter sido posta em prática. Quanto mais não seja, os organismos fogosos deixam uma maior descendência do que os de carácter mais desinteressado. Não esclarecidos quanto às vantagens seletivas de novas combinações do DNA, os organismos desenvolveram, apesar de tudo, uma compulsão espantosa para a troca das suas instruções hereditárias. Tal como os colecionadores, que trocam livros de banda desenhada, selos postais,cromos de basebol, pregadeiras de esmalte, moedas estrangeiras ou autógrafos de celebridades, não o faziam após profunda reflexão; era algo que não conseguiam evitar. A troca tem, pelo menos, bilhões de anos.

Duas paramécias podem conjugar-se, como se diz, trocar material genético e depois seguir cada uma o seu caminho. A recombinação não requer o fator gênero. Não há bactérias masculinas e femininas e, no caso delas, não existe sexo -não recombinam segmentos do seu DNA — em cada ato de reprodução. No caso das plantas e dos animais sexuados, existe. Seja como for que se coloque a questão, recombinar significa que cada novo ser tem dois progenitores, em vez de apenas um significa que membros da mesma espécie — e, exceto durante a fase de acasalamento, os membros de muitas espécies são solitários e nada sociáveis — têm de concretizar um ato da maior importância que só pode ser realizado aos pares. Os dois sexos até podem ter objetivos e estratégias diferentes, mas o ato sexual exige, como requisito mínimo, cooperação.

Uma vez libertado no mundo, um ímpeto tão intenso poderá levar, por modos lentos e naturais, a outros tipos de cooperação. O sexo aproxima a espécie inteira — não apenas ao protegerem-se uns aos outros da crescente acumulação de mutações perigosas, não apenas ao proporcionar as adaptações a um ambiente variável, mas também no sentido de a iniciativa dinâmica e colectiva, o encadear de diversas linhagens é muito diferente da prática assexuada, onde existem muitas linhas de descendência paralelas, com organismos quase iguais dentro de cada linha, geração após geração, e sem quaisquer familiares próximos entre linhas.

Quando o sexo se torna essencial para a reprodução, a atração de sexo pelo outro e o drama de escolher entre rivais passam para grande plano. A isso vem associar-se o ciúme sexual, os combates a sério ou a fingir, a cuidadosa observação das identidades e paradeiros de potenciais parceiros e adversários sexuais, a coação e o estupro — tudo o que, por sua vez, veio a dar origem, como Darwin salientou, à evolução de estranhos e maravilhosos apêndices, padrões cromáticos e atos de sedução que os homens muitas vezes consideram de grande beleza mesmo em membros de espécies remotamente associadas. Darwin achava que esta seleção sexual pode estar na origem do sentido estético dos homens.

Eis o que um biólogo do século XX aponta como resultado da seleção sexual nas aves: "Cristas, barbelas, tufos, colares, estolas, caudas, esporas, excrescências nas asas e bicos, bocas pintadas, popas de formato estranho ou insólito, bolsas, manchas de pele nua imensamente coloridas, plumas alongadas, pés e patas intensamente matizados [...] O espetáculo é, quase sempre, de grande beleza." Principalmente para a ave do sexo oposto, que escolhe os parceiros sexuais em parte com base na sua boa aparência.



As modas, na beleza, alastram então rapidamente a toda a população, se bem que o estilo não seja minimamente o adequado a, digamos, afugentar os predadores. Mas a verdade é que se propagam, ainda que o tempo de vida dos que as adotam venha a ser consideravelmente encurtado, na condição de que os benefícios para as gerações futuras sejamsuficientemente grandes. Uma possível explicação para a ostensiva exibição de aves e peixes machos para as fêmeas da sua espécie é que é tudo feito para a certificarem da sua saúde e potencialidades". Uma plumagem luzidia e escamas brilhantes revelam ausência de qualquer infestação de carrapatos, ácaros ou fungos, e as fêmeas — o que não surpreende preferemacasalar com machos livres de parasitas.

Os salmões-azuis do Alasca esgotam totalmente as forças na subida do caudaloso rio Colúmbia para desovarem, lutando estoicamente com cataratas, num esforço que serve para transmitirem as suas sequências de DNA a gerações futuras. Mal terminam o trabalho, começa a decadência.

As escamas soltam-se, as barbatanas descaem e passado pouco tempo — muitas vezes horas depois da desova — estão mortos, libertando um cheiro intenso. Cumpriram o seu objetivo. A Natureza não é sentimental.

A morte é parte integrante.

Isto em nada se assemelha à reprodução muito menos dramática de seres como a paramécia, cujos descendentes remotos, muito provavelmente, são geneticamente idênticos aos seus antepassados distantes.

Poder-se-á dizer, com certa razão, que os organismos antigos ainda estão vivos. Com todas as suas múltiplas vantagens, o sexo trouxe algo mais: o fim da imortalidade.

Os organismos sexuados não se reproduzem habitualmente por cissiparidade, dividindo-se em dois. Os grandes organismos sexuados macroscópicos reproduzem-se através da criação de células sexuais específicas, muitas vezes os nossos conhecidos espermatozoide e óvulo, que congregam os genes da geração seguinte. Estas células sobrevivem apenas o tempo necessário à realização das suas tarefas e dificilmente conseguiriam fazer mais alguma coisa. Nos seres sexuados o progenitor não distribui equitativamente as partes do seu corpo nem se transmuta em dois descendentes; em vez disso, acabará por morrer, deixando o seu mundo para a geração seguinte, a qual, a seu devido tempo, morrerá também. Osorganismos assexuados individuais morrem por engano — quando se lhes esgota alguma coisa ou quando sofrem um acidente fatal. Os organismos sexuados estão destinados a morrer, pré-programados para isso. A morte atua como uma lancinante lembrança das nossas limitações e fraquezas — e do elo de ligação com os nossos antepassados, os quais, de certa forma, morreram para que nós pudéssemos viver.

Quanto mais ativas forem as enzimas destinadas à revisão de provas e reparação do DNA em grandes organismos moleculares, mais longo tende a ser o período de vida. Quando essas enzimas — elas próprias, claro, sintetizadas sob o controle do DNA do organismo — se tornam escassas e inativas, os erros na replicação proliferam e são acobertados, e as células individuais aumentam os seus esforços para implementarem instruções sem sentido. Ao reduzir a extrema fidelidade da sua replicação, o DNA pode contribuir, no momento propício, para a sua própria morte e a do organismo que cumpre as suas ordens.

Conquanto ordene a morte do organismo individual, o sexo dá vida à linha hereditária e às espécies. No entanto, por muitas que sejam as gerações consecutivas de seres assexuados praticamente iguais, a acumulação de mutações perniciosas acabará por destruir o clone. Mais cedo ou mais tarde haverá uma geração em que todos os indivíduos serão maispequenos e mais fracos e nesse caso já se adivinha uma possível extinção.



O sexo é a única saída. O sexo rejuvenesce o DNA, revigora a geração seguinte. Existe motivo para nos alegrarmos com isso.

Há bilhões de anos foi estabelecido um acordo: os prazeres do sexo em troca da perda da imortalidade pessoal. Sexo e morte: não é possível ter o primeiro sem ter a última. A Natureza sabe negociar muito bem.



As primeiras coisas vivas não tiveram progenitores. Durante cerca de bilhões de anos, toda a gente teve um progenitor e aproximou-se bastante da imortalidade. Agora muitos seres têm dois progenitores e são, discutivelmente, mortais. Não existem, tanto quanto se saiba, formas de vida que, por norma, tenham três ou mais progenitores — embora não pareça muito mais difícil de arranjar, em termos de órgãos reprodutivos e postura sexuada, do que só dois. A variedade de recombinações genéticas seria, obviamente, maior. E a capacidade para detectar um erro na mensagem (como a sequência que se desvia quando as três são comparadas entre si) seria deveras aperfeiçoada. Talvez nalgum outro planeta...

Ao ouvir o chamamento do macho, a pega adota prontamente uma pose insinuante, revelando indubitavelmente a sua disposição para a cópula. As fêmeas adultas, criadas em cativeiro, adotarão essa postura mal ouçam pela primeira vez a serenata do macho. Este, se criado em cativeiro e sem nunca ter ouvido na sua vida o canto da fêmea, ainda assim, sabe-o de cor. A partitura da música e a informação para a interpretar estão codificadas no DNA de cada um. Ao ouvi-la, talvez afêmea se apaixone, pelo menos um bocadinho, por ele. Ao vê-la reagir de uma forma tão encantada à sua música, talvez o macho se apaixone, pelo menos um bocadinho, por ela.

Contrastando com o afeto dos progenitores e a seleção de parentesco, tão notórios entre as aves e os mamíferos, muitas rãs e peixes comem os mais jovens. O canibalismo é uma coisa banal — não apenas em circunstânciasextraordinárias, de excesso populacional ou escassez de alimentos, mas em condições normais do dia a dia: os pequenitos são numerosos, fizeram todos os esforços para engordarem até se transformarem em acessíveis unidades nutricionais, basta que sobrevivam alguns para que se mantenha a linhagem e não existe uma vida familiar afetuosa que poderia exerceralguma influência para o impedir. Mas os cuidados paternais não se restringem às aves e aos mamíferos. Surge, aqui e além, entre peixes e até mesmo invertebrados. As coleópteros-bosteiras fêmeas, que põem os seus ovos nas "bolas incubadoras" que habilmente moldam a partir de fezes de animais, são loucas pelas crias. E os crocodilos do Nilo, cujas fortíssimasmandíbulas podem cortar um homem ao meio, movem-se cuidadosamente de um lado para o outro quando transportam as crias, que espreitam por entre os dentes da progenitora "como turistas num autocarro.

Mesmo que o seu egoísmo seja apenas resultado das sequências genéticas, algo que um observador cá de fora pode interpretar como amor tem vindo a desenvolver-se no reino animal, sobretudo desde a extinção dos dinossauros. Com a origem dos primatas inicia-se em pleno esse desabrochar. Serve para manter unida uma espécie, para moldar, aliás, algo que se assemelha a uma lealdade comunitária.

A primazia da reprodução, a consciência de que a geração seguinte é tudo, ou quase tudo, o que interessa, torna-se ainda mais evidente nas muitas espécies em que morrem voluntariamente enormes quantidades de indivíduos de ambos os sexos imediatamente após se ter dado a concepção e terem sido tomadas precauções para a salvaguarda dos ovos fertilizados.

Noutras, incluindo a nossa, os pais desempenham um papel crucial na proteção e educação dos filhos, pelo que para eles há vida depois do ato sexual. Caso contrário, a geração dos pais teria cumprido a sua finalidade e seria eliminada antes de entrar na luta pelos escassos recursos com a sua própria progênie.

O valor adaptativo da junção das cadeias do DNA veio a revelar-se tão substancial que se operaram mudanças enormes na anatomia, na fisiologia e no comportamento, de modo a satisfazer as necessidades dessas moléculas. Conquanto a cooperação já existisse muito antes do sexo — em colônias estromatólitas, por exemplo, ou nas relações simbióticas de cloroplastos e mitocôndrias com a célula —, o sexo trouxe à realidade um novo tipo de cooperação, empenhamento comum e autossacrifício.

Nas diferentes estratégias sexuais de machos e fêmeas, o sexo introduziu também uma nova tensão criativa — que clama por conciliação e cedências de parte a parte —, assim como um forte e novo motivo para a competição. A nossa própria espécie é um bom exemplo do papel quase determinante do sexo — não apenas o ato sexual em si, mas todos os preparativos que o antecedem, consequências, associações e obsessões — na definição de grande parte da personalidade, carácter, agenda e cenário da vida na Terra.
 
SOBRE A TEMPORANEIDADE

Só estamos aqui para dormir, para sonhar.

Mentira! É mentira.

Viemos para viver na Terra.

Tal como uma erva silvestre,

Chegamos sempre na primavera,

túrgidos de verde, abrem-se os nossos corações,

o corpo faz algumas flores e tomba, mirrado, em algum lugar.

(POEMAS DOS POVOS ASTECAS)
 
 
(CARL SAGAN e ANN DRUYAN   - SOMBRAS DE ANTEPASSADOS ESQUECIDOS)
 
 
Tenha sempre em mente que as preocupações com a morte freqüentemente se disfarçam em trajes sexuais. O sexo é o grande neutralizador da morte, a antítese vital absoluta da morte. (...)
O termo francês para orgasmo, la petite mort ("pequena morte"), aponta para a perda orgásmica do self, que elimina a dor da separação — o "eu" solitário desaparecendo no "nós" fundidos.
(Irvin D. Yalom - Os desafios da terapia)

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