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“Joie de Vivre” de Matisse
 
Revistas como a Playboy não são “revistas de sexo”. São revistas em que um bom fotógrafo expõe sua arte por meio de uma bela modelo. Quando se trata de retratar o sexo, mesmo, o melhor que temos não são as publicações que a linguagem popular, já tendendo ao chulo, chama de “revistas de mulher pelada”. E também não podemos procurar o retrato do sexo em publicações médicas ou próximas disso, em forma de medicina de autoajuda, em que o sexo é vestido de branco e está sempre na fronteira entre saúde e doença. Quando quero o melhor do retrato do sexo, no âmbito das publicações, vou direto a santo Agostinho. Não devemos negligenciar experts.
 
Santo Agostinho diz que a “luxúria” pode ser utilizada a respeito de muitas coisas, mas, quando a palavra aparece sozinha, o que nos vem à mente é somente o desejo “que excita as partes vergonhosas do corpo”. E ele continua:
Contudo, essa luxúria afirma seu poder não somente sobre o corpo inteiro, não só externamente, mas também a partir de dentro. Ela convulsiona por inteiro um homem quando a emoção em sua mente se une e combina com um sentido carnal de produzir um prazer insuperável entre todos os prazeres do corpo. O efeito disso é que no inteiro momento desse clímax há uma quase total eclipse de atenção e, enquanto ele dura, de qualquer alerta.4
 
Não tenho dúvida de que, entre os filósofos, Agostinho é daqueles que melhor escolhe as palavras para a representação de vários sentimentos e estados psicológicos. Quanto ao sexo, ele também acerta – ou quase. Todavia, ainda aqui, como em outras de suas descrições, Agostinho se esquece de que o sexo não tem a ver com sentimento e sensação apenas, mas com relação. Contudo, a maneira de Agostinho descrever o sexo fez história. Em geral, também é assim que os agentes da ciência moderna falam de sexo, como se fosse antes uma masturbação, algo da realização individual e solitária, e não uma atividade que envolve uma relação e uma parceria. Essa tradição de descrição que vem de Agostinho ganhou a conversação médica e de sexólogos, que se dedicam a fazer uma descrição do ato sexual como quem quer apenas informar um virgem ou um anorgásmico a respeito do que se trata. Isso não serve para a filosofia.
 
A descrição do ato sexual não pode se reduzir à exposição do que sente um parceiro do sexo, como se estivesse sozinho no ato sexual, ainda que tal exposição seja feita acuradamente. Trata-se de uma descrição errada, talvez produzida por uma maneira pouco sofisticada de fazer sexo, uma maneira que as mulheres de hoje poderiam classificar de “machista” ou simplesmente como a de quem deveria ser chamado de “ruim de cama”.
 
É evidente que não podemos saber o que o parceiro sente no sexo, tanto quanto em qualquer outra atividade em que ocorrem “sensações internas”, digamos assim. Mas isso não nos impede de criar inferências – se não fossem elas, o que seria de nossa capacidade de observação? Serviria para pouca coisa. Portanto, por meio da experiência, podemos atribuir ao ato sexual mais do que aquilo que está na descrição de Agostinho. Podemos falar de um progresso no processo de obter prazer, que é provocado não só pelo que ganhamos do outro em termos de afecção física, mas do que ganhamos do outro devido a seu feedback positivo. Assim, quando entramos em uma situação de prazer máximo, ou seja, de orgasmo, sabemos que iremos potencializá-lo se o parceiro nos der sinais de que também ele está em seu momento máximo. O ato sexual é sui generis, porque nele o prazer não é obtido pelo “arrancar proveito” de modo unilateral, mas pela elevação do proveito por causa do aumento do proveito do outro. Quem faz sexo regularmente verbaliza que vai chegar ao orgasmo, informando ao parceiro o que está se passando, e o faz temeroso de que os sinais corporais que está transmitindo não sejam perceptíveis ao parceiro. Faz-se isso porque é sabido, perfeitamente, que o sexo funciona na potencialização do prazer mútuo. É difícil encontrar um mecanismo na natureza mais dependente de feedbacks mútuos instantâneos que o ato sexual.
 
É tomando esse detalhe em consideração, levando-o a sério, que considero interessante observar melhor as questões a respeito da objetificação.
 
O que é objetificação? Uma boa parte das feministas, atualmente, prefere associar a denúncia da objetificação antes a Kant que a Simone de Beauvoir. O teórico liberal, menos radical que a feminista existencialista-marxista, tem se tornado o preferido do novo feminismo acadêmico norte-americano. Não penso ser errado tomar a fala de Martha Nussbaum como representativa de uma boa parte das feministas acadêmicas atuais. Nussbaum entende que a noção de objetificação é um guarda-chuva sob o qual há uma complexidade de comportamentos provocantes, mas não deixa de expor um que é atinente ao caso que nos importa aqui. Ela diz que “o que é fundamentalmente errado em um indivíduo tratar uma mulher como uma coisa sexual é o fato de que está tratando com um ser humano – que deveria ser tratado também como um fim – como um mero meio dos seus propósitos”5. Ela, de modo explícito, lança mão de Kant para justificar essa sua denúncia do erro: “Podemos divergir de Kant sobre sexo enquanto concordamos com ele sobre o problema ético central: as pessoas frequentemente usam umas às outras como meros instrumentos de suas próprias satisfações durante relações sexuais, e isto é sempre algo ruim”6.
 
Temo que essa abordagem de Nussbaum sobre Kant seja um pouco forçadamente restrita. Mas, enfim, se pudermos aceitar essa sua interpretação e ficarmos só nela, teríamos mesmo de condenar a objetificação?
 
Kant salva o sexo da objetificação por meio do amor e do casamento. Nussbaum também iria por essa via? Ela não vai aos detalhes de Kant, que, a meu ver, até ajudam nas questões de objetificação. Não fala, como Kant, no amor e no casamento como saídas para a moralização do sexo. Teria ficado com medo de falar sobre isso e, não tendo o som da voz de Kant, soar piegas e “moralista”, em um sentido pejorativo e não filosófico? Não sei. Mas sei que Nussbaum acredita que a máxima universal de Kant é boa, e ela até dá a impressão de que é suficiente, se acoplada a outros detalhes de perquirições éticas. Não tratar o outro como meio seria uma norma geral a ser cuidada.
 
Creio que essas discussões, não raro, perdem-se no verbalismo exatamente porque, implícita ou explicitamente, o que é tomado como sexo está sob a sombra da tradição descritiva de santo Agostinho. O sexo aparece como algo da ordem da masturbação, não da ordem das relações. É como se fosse possível fazer sexo, sempre, como uma forma de arrancar prazer do outro como um ato de quem rouba e maltrata. Portanto, o sexo seria moralizado em favor da proteção dos envolvidos. Kant viria com a obrigação do amor e do casamento (ver Capítulo 15). Nussbaum, por sua vez, viria com a regra da moral kantiana da “não transformação do ser humano em mero meio”. Sem essas duas regras postas como espadas na cabeça de quem faz sexo, este, o usuário da prática sexual, se transformaria em besta selvagem a se esfregar na cama; então, viveria infeliz e degradado, e, pior, talvez se imaginasse feliz e honrado. Essa imagem é exagerada, mas penso que é assim, no limite, que as sugestões de Kant e de Nussbaum terminam se levarmos a certo ponto o discurso deles. Contudo, se deixamos a descrição de Agostinho de lado e consideramos minha própria descrição do sexo como relação, tudo muda.
 
Tomo a minha descrição, não a de Agostinho, e eis como meu entendimento moral muda.
 
Acabo de fazer sexo. Posso não ter amor no sexo que acabou de ser realizado. Posso não ter o compromisso de casamento com quem, neste momento, ainda está na cama comigo. Posso não ter nenhuma guilhotina sobre a minha cabeça, nesse momento, com a inscrição “Não faça do outro um meio”. Esses três elementos podem não estar presentes e, ainda assim, eu e minha parceira sexual, muito bem conscientes, conseguimos fazer sexo e, agora, vamos sair da cama com plena convicção de que seria ridículo achar que nos prejudicamos ou que prejudicamos o mundo, que nos degradamos ou que vamos degradar o mundo. Os mecanismos de feedback do próprio ato sexual foram deixados livres; utilizamo-nos deles como experts que somos na atividade sexual, uma vez que somos adultos e com razoável maturidade sobre o que fazemos e como fazemos, e por isso nos realizamos. Então, desejamos, sempre que possível, voltar a nos encontrar sexualmente. Deveríamos, após isso, sair da cama acreditando que seríamos mais felizes se tivéssemos cedido aos apelos de Kant e Nussbaum? Teríamos sido verdadeiramente éticos se tivéssemos seguido os três mandamentos vindos deles dois? Duvido.
 
É evidente que isso, o sexo que acabamos de fazer, pode evoluir para amor, até para casamento. Mas, quanto “a fazer do outro um meio”, seria difícil não ver que o próprio mecanismo de feedback, inerente ao ato sexual, permite e proíbe que tal ocorra. Sem fazer do outro objeto sexual, em determinado nível, o outro não terá prazer, e aí sim estará sendo tratado como coisa. Mas, ao mesmo tempo, quando é tratado como coisa, ele é tocado do modo que mais quer, e, ao ser visto como coisa, desperta para o prazer e se toma, portanto, como realizado no sexo. Nessas horas há grande chance de o que entendemos modernamente como amor venha a surgir. É claro que o amor não é um sentimento somente, é uma relação, então, terminado o sexo, podemos ponderar a dois que o amor que surgiu ali, como sentimento, não pode ir além como uma relação mais complexa – e isso por uma série de motivos que extrapolam a cama. Muitas vezes, deixamos de lado todos esses motivos e permitimos que a paixão que surgiu dali comande nossas vidas. Seria um tanto esquisito, a essa altura, nessa descrição, acreditar que, agindo assim, estaríamos em dívida para com uma moral válida.
 
Talvez esteja na hora de as feministas, como Nussbaum, não se livrarem de Kant, mas se livrarem da posição acrítica com que engoliram a tradição agostiniana de descrever o sexo. Talvez seja isso que esteja atrapalhando o neokantismo de Nussbaum, fazendo-a bater na tecla de algo que nem mesmo Kant chegou a advogar com tanta restrição. Algo que daria, penso eu, uma nova ética para o sexo. E mais chances, então, para o amor e o casamento.

( Paulo Ghiraldelli Junior - Como a Filosofia pode explicar o Amor)
 

[4] Augustine. The City of God. In: Solomon, R. e Higgins, K. The Philosophy of (Erotic) Love. Kansa City: University of Press of Kansas, 1991, p. 45.
[5] Nussbaum, M. Feminism, Virtue and Objectification. In: Halwani, R. Sex and Ethics. Nova York: Palgrave McMillan, 2007, p. 50-51.
[6] Nussbaum, M. Feminism, Virtue and Objectification. In: Halwani, R. Sex and Ethics. Nova York: Palgrave McMillan, 2007, p. 51.
 
Beleza e desejo sexual

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publicado às 18:30



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