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As tragédias coletivas despertam nas pessoas a empatia pelo sofrimento umas das outras de uma forma que não vemos em nosso dia-a-dia. De repente, o seu sofrimento é o meu e o meu sofrimento é o seu. De repente, me vejo impossibilitado de continuar fingindo que não sofro, você se vê impossibilitado de continuar fingindo que não sofre, e tanto eu quanto você não temos outra opção senão olhar um para o outro e reconhecer a mesma dor que é minha e sua. Quando tantas pessoas se encontram inesperadamente afetadas pela morte, a cortina do teatro da vida se levanta e a realidade se impõe sobre todas elas. E se por um lado a realidade que se impõe é dura o bastante para que elas sintam profundamente o brusco término da encenação, por outro ela traz consigo todo o calor humano que não existe na atuação.
Nosso dia-a-dia é vivido na fantasia inconsciente da imortalidade. E, mesmo assim, vivemos como se a cada segundo nossa existência estivesse ameaçada. Não se trata de uma ameaça física, pois a fantasia de imortalidade é sobre a imortalidade do corpo. A ameaça que nos ronda a cada instante vem de dentro. Trata-se de outra fantasia: A fantasia de que se deixarmos a “bola cair”, seremos definitivamente tragados para baixo, para o abismo negro da angustia que existe em nós, sem nunca mais conseguir nos reerguer. É preciso manter a bola sempre alta, o astral sempre para cima. Qualquer mácula nesse otimismo pode significar o fim do mundo. É preciso estar sempre sorrindo, sempre rindo; é preciso cultivar o pensamento positivo. A conseqüência desse otimismo inconseqüente é a negligência do próprio sofrimento. Cada um negligencia a própria dor e adia indefinidamente o seu inevitável enfrentamento. Afinal de contas, somos imortais! O dia do juízo final pode ser adiado indefinidamente! Então, a morte sobrevém de repente. A fantasia de imortalidade é derrotada pela realidade que nos obriga a enfrentar, de uma só vez, toda a dor que fingimos não existir até então.
Quem negligencia a própria dor na vida do dia-a-dia também negligencia a dor do outro. E quando, nessa vida diária, o outro não faz questão de esconder a sua, nós a recebemos ou com indiferença, ou com críticas destrutivas, ou então ainda fingimos acolhê-la com conselhos fúteis que só nos mantém distantes dela. Assim, no momento em que a morte torna o confronto com a dor inevitável, compreendemos que sofremos não tanto pela perda da pessoa que viveu ao nosso lado, mas por aquilo que nunca vivemos ao lado dela, pois estávamos ocupados demais negligenciando tanto a sua quanto a nossa dor. Preferimos viver nos entregando à bebida, ao cigarro, ao riso fácil, às ideologias, religiões e filosofias abstratas, às companhias e aos divertimentos fúteis do que olhar sem restrições para ela e deixá-la espelhar livremente nosso próprio ser. Se tivéssemos realmente vivido ao lado daquela pessoa, talvez a dor da perda fosse um pouco menor. Mas, então, a morte chega trazendo consigo esse olhar de reconhecimento mútuo, o olhar da dor que se reconhece na dor do outro; exatamente esse olhar do qual sempre fugimos por acreditar que pudesse nos tragar para baixo. E daí percebemos que esse olhar não ameaça. Entendemos que só nos sentíamos ameaçados por ele por carecermos dele, e que sua presença afasta toda e qualquer ameaça. De uma só vez, compreendemos que o teatro da vida diária não é necessário, e que no duro chão da realidade nos tornamos pessoas muito melhores do que quando estamos atuando em cima do palco. Por que não conseguimos despertar em nós, no dia-a-dia, a mesma empatia e a mesma solidariedade que vivemos juntos na morte?
Somos melhores na morte do que somos na vida. É na situação de morte que descobrimos quão bons poderíamos ser ou ter sido. Por que não conseguimos ser tão bons na vida como somos na morte? Por que temos tanto medo do duro chão da realidade a ponto de viver nos teatrinhos de ideologias, crenças e divertimentos fúteis se é no duro chão da realidade que finalmente encontramos em nós e nos outros tudo o que sempre desejamos? Será que somente a morte pode nos ensinar a viver?

(Daniel Grandinetti - Psicologia no cotidiano)

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publicado às 19:33



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