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Ser absolutamente moderno

por Thynus, em 21.01.17
Ah! Esse caro Paul que queria provocar Grizzly e irritá-lo, fazendo um risco sobre a História, sobre Beethoven, sobre Picasse. No meu espírito confunde-se com Jaromil, o personagem de um romance cuja redação terminei exatamente há vinte anos, um exemplar do qual será deixado num bistrô de Montparaasse, para ser entregue ao professor Avenarius.
Estamos em Praga em 1948; Jaromil, com a idade de dezoito ano s, está mortalmente apaixonado pela poesia moderna, por Desnos, Éluard, Breton, Vitezslav Nezval; a exemplo deles criou para si mesmo um slogan com a frase escrita por Rimbaud em Uma temporada no inferno: "é preciso ser absolutamente moderno". Ora, o que em Praga revelou-se de repente inteiramente moderno foi a revolução socialista, que imediata e brutalmente condenou à morte a arte moderna pela qual Jaromil estava mortalmente apaixonado. Então, meu herói, diante de alguns amigos não menos apaixonados pela arte moderna, renegou sarcasticamente tudo que amava (tudo que amava realmente e de todo coração) para não trair o grande mandamento de "ser inteiramente moderno". Em sua negação, colocou toda raiva, toda paixão de um adolescente desejoso de entrar na vida adulta por um ato brutal; e seus amigos, ao ver com que obstinação negava tudo que lhe era mais caro, tudo aquilo por que tinha vivido e queria viver, ao vê-lo negar Picasso e Dali, Breton e Rimbaud, ao ver que os negava em nome de Lenine e do Exército Vermelho (que naquele momento representava o máximo da modernidade), seus amigos ficaram com a garganta apertada, primeiro estupefatos, depois enojados e finalmente horrorizados. O espetáculo desse adolescente que aderia àquilo que se declarava moderno, e que aderia não por covardia (para favorecer sua carreira) mas por coragem, como um homem que sacrifica com dor aquilo que ama, sim, esse espetáculo tinha alguma coisa de horrível (prenunciando o horror do terror iminente, o horror das prisões e dos enforcamentos). Talvez alguém tenha dito, então, observando-o: "Jaromil é o aliado de seus próprios coveiros."
Claro, Jaromil e Paul não se parecem absolutamente. Seu único ponto em comum é justamente a convicção apaixonada de que "é preciso ser absolutamente moderno". "Absolutamente moderno" é uma noção cujo conteúdo é mutável e inatingível. Em 1872, certamente Rimbaud não pensava ver sob essas palavras milhões de bustos de Lenine e de Stalin; imaginava ainda menos os filmes publicitários, as fotos coloridas e o rosto extasiado de um cantor de rock. Mas pouco importa, pois ser absolutamente moderno significa: nunca questionar o conteúdo do moderno, colocar-se a seu serviço como se está a serviço do absoluto, isto é, sem ter dúvidas.
Assim como Jaromil, Paul sabia que a modernidade de amanhã difere da de hoje e que pelo imperativo eterno do moderno é preciso saber trair seu conteúdo provisório, do mesmo modo que pelo slogan rimbaudiano é preciso saber trair os versos de Rimbaud. Em Paris de 1968, ao adotar uma terminologia bem mais radical ainda do que Jaromil na Praga de 1948, os estudantes recusaram o mundo tal qual ele é, o mundo superficial do conforto, do comércio, da publicidade, o mundo da estúpida cultura de massas que recheia a cabeça das pessoas com melodramas, o mundo das convenções, o mundo do pai. Nessa época, Paul havia passado alguns dias nas barricadas e sua voz ecoara tão resolutamente quanto a voz de Jaromil vinte anos antes; nada poderia fazê-lo recuar; apoiado no braço que lhe oferecia a revolta estudantil, distanciava-se do mundo dos pais, para finalmente tornar-se, aos trinta e cinco anos, um adulto.
Depois o tempo passou, sua filha cresceu e se sentiu a vontade no mundo como ele é, no mundo da televisão, do rock, da publicidade, da cultura de massas e de seus melodramas, no mundo dos cantores, dos carros, da moda, das mercearias de luxo e dos industriais elegantes elevados à categoria de estrelas.
Capaz de defender decididamente suas posições contra os professores, contra os policiais, contra os prefeitos e os ministros, Paul não sabia defender-se absolutamente de sua filha, que gostava de sentar-se em seus joelhos e não se apressava de modo algum em deixar o mundo do pai, como ele fizera outrora, para entrar na idade adulta. Ao contrário, ela queria ficar o maior tempo possível sob o mesmo teto de seu tolerante papai, que (quase que enternecido) permitia que todos os sábados ela dormisse com seu namorado ao lado do quarto dos pais.
Que significa ser absolutamente moderno quando não se é mais jovem e quando se tem uma filha inteiramente diferente daquilo que éramos na sua idade?
Paul encontrou a resposta sem dificuldade: neste caso, ser absolutamente moderno significa identificar-se inteiramente com sua filha.
Imagino Paul, em companhia de Agnès ou de Brigite, sentado à mesa do jantar. Brigite, sentada meio de lado na cadeira, mastiga enquanto olha a televisão. Nenhum dos três diz uma palavra porque a televisão está alta. Paul continua pensando na funesta observação de Grizzly, que o qualificou como aliado de seus próprios coveiros. Depois a risada de Brigite interrompeu o curso de seus pensamentos: na tela está passando um anúncio: uma criança nua, com pouco menos de um ano, se levanta de seu penico arrastando atrás dela o rolo de papel higiênico cuja brancura se estende como a cauda majestosa de um vestido de noiva. Ora, Paul lembra-se de ter constatado recentemente que Brigite jamais lera um poema de Rimbaud. Considerando a que ponto ele mesmo, na idade de Brigite, amara Rimbaud, com razão ele poderia julgá-la como seu próprio coveiro.
Sente certa melancolia quando ouve a risada aberta de sua filha, que ignora o grande poeta e se deleita com inépcias televisionadas. Depois pergunta a si mesmo: na realidade, por que ele amou tanto Rimbaud? Como chegou a esse amor? Foi enfeitiçado por seus poemas? Não. Naquela época Rimbaud confundia-se em seu espírito com Trotsky, com Breton, com Mao, com Castro, para formar uma única amálgama revolucionária. O que ele conheceu primeiro de Rimbaud foi o slogan repisado por todo mundo: mudar a vida. (Como se, para formular tal banalidade, precisássemos de um poeta genial...) Sem dúvida, Paul depois leu os versos de Rimbaud; sabia alguns de cor e amava-os. Mas nunca leu todos os poemas: só tinha gostado daqueles que tinham sido mencionados por sua turma, que por sua vez os mencionara graças à recomendação de outra turma.
Portanto, Rimbaud não foi seu amor estético e é possível que ele nunca tenha conhecido um amor estético. Enrolou-se na bandeira de Rimbaud como nos enrolamos sob uma bandeira, como aderimos a um partido político, como se torce por um clube de futebol. Na verdade, o que lhe tinham acrescentado os versos de Rimbaud? Nada mais do que o orgulho de ser um dos que amavam os versos de Rimbaud.
Paul voltava sempre à sua recente conversa com Grizzly: é, ele exagerava, deixava-se levar pelos paradoxos, provocava Grizzly e todos os outros, mas afinal de contas não dizia a verdade? Aquilo que Grizzly chama com todo respeito "a cultura" não é nossa quimera, algo de belo e de precioso, claro, mas que nos importa muito menos do que ousamos admitir?
Alguns dias antes, Paul desenvolvera com Brigite, esforçando-se por retomar os mesmos termos, as reflexões que trocara com Grizzly. Queria conhecer as reações de sua filha. Não apenas ela não se escandalizou pelas fórmulas provocantes, mas dispôs-se a ir muito além. Era isso que contava para Paul. Pois estava cada vez mais ligado à sua filha e, há alguns anos perguntava sua opinião sobre todos os problemas que enfrentava. Talvez, a princípio, o tenha feito por uma preocupação pedagógica, para forçá-la a se interessar por coisas sérias, mas pouco depois os papéis se inverteram sub-repticiamente: não parecia mais um professor estimulando com suas perguntas um aluno tímido, mas sim um homem pouco seguro de si que consulta uma vidente.
Não se exige de uma vidente que possua uma grande sabedoria (Paul não tinha ilusões sobre os talentos e os conhecimentos de sua filha), mas que ela esteja ligada por fios invisíveis a um reservatório de sabedoria independente dela.
Quando Brigite expunha suas opiniões, não as atribuía à originalidade pessoal de sua filha, mas à grande sabedoria coletiva dos jovens, que se expressava por sua boca; assim a escutava com uma confiança sempre crescente.
Agnès levantara-se da mesa e juntava os pratos para levá-los à cozinha, Brigite tinha virado sua cadeira para a frente da televisão, e Paul continuava na mesa sozinho. Pensava num jogo de salão que seus pais jogavam. Dez pessoas rodam em torno de dez cadeiras, e com um sinal todas devem se sentar. Cada cadeira traz uma inscrição. Sobre a que lhe cabe podemos ler: Brilhante aliado de seus coveiros. Ele sabe que o jogo terminou e que vai ficar sentado para sempre nessa cadeira.
O que fazer? Nada. Aliás, porque um homem não seria aliado de seus coveiros? Deveria lutar com eles aos socos? Para que cuspissem no seu caixão?
Mais uma vez ouviu o riso de Brigite e uma outra definição logo lhe veio ao espírito, mais paradoxal e mais radical. Agradou-lhe a ponto de fazê-lo esquecer sua tristeza. Eis essa definição: ser absolutamente moderno é ser aliado de seus próprios coveiros.
 
Ser vítima de sua glória
Dizer a Bernardo "case comigo!" era, em qualquer circunstância, um erro; dizê-lo depois dele ter sido promovido a burro total, era um erro tão grande quanto a altura do Mont-Blanc. Pois é preciso levar em conta uma circunstância que, à primeira vista, pode parecer inteiramente improvável, mas cuja lembrança é necessária se quisermos compreender Bernardo: com exceção de uma rubéola em criança, ele nunca tinha ficado doente, a única morte que vira de perto fora a do galgo de seu pai e além de algumas más notas nos exames, não tinha conhecido o fracasso; tinha vivido na certeza de ser, por natureza, destinado à felicidade e simpático a todo mundo. Sua promoção à categoria de burro foi o primeiro golpe do destino que o atingiu.
Aconteceu, então, uma estranha coincidência. Os imagólogos, na mesma época, lançaram uma vasta campanha publicitária pela estação de rádio de Bernardo, de tal modo que a fotografia colorida da equipe de redação espalhou-se sobre grandes cartazes colados por toda parte na França: estavam todos sob um fundo de céu azul, com camisa branca, mangas arregaçadas e boca aberta: estavam rindo. Ao passear por Paris, Bernardo, primeiro, sentiu-se inebriado de orgulho. Mas, no fim de uma semana ou duas de glória imaculada, o ogro ventripotente veio entregar-lhe, sorrindo, um tubo de cartolina. Se isso tivesse acontecido antes, quando o retrato gigante não se oferecesse ao mundo inteiro, Bernardo talvez tivesse suportado melhor o choque. Mas a glória da foto veio dar à vergonha do diploma uma espécie de ressonância; ela a amplificou.
Ler no Le Monde que um desconhecido, um certo Bernardo Bertrand, foi promovido a burro total é uma coisa, outra é saber da promoção de um homem cuja fotografia se espalha sobre todos os muros. A glória acrescenta a tudo que nos acontece um eco cem vezes maior. Não é nada agradável passear pelo mundo carregando atrás de si um eco. De repente Bernardo compreendeu sua vulnerabilidade recente e pensou que a glória era, exatamente, o que ele jamais ambicionara. É evidente, ele sempre desejou o sucesso, mas o sucesso e a glória são coisas diferentes. A glória significa que um determinado número de pessoas o conhecem sem que você os conheça; eles acham que, no que concerne à sua pessoa tudo é permitido, querem saber tudo sobre você, e comportam-se como se você fosse propriedade deles. Atores, cantores, políticos sentem uma espécie de volúpia oferecendo-se dessa maneira aos outros. Mas essa volúpia, Bernardo não a desejava. Recentemente, entrevistando um ator cujo filho estivera metido num caso escabroso, deleitou-se vendo como a glória desse homem tornara-se seu calcanhar-de-aquiles, seu ponto fraco, sua tara, a cabeleira por onde agarrá-lo, sacudi-lo sem soltá-lo mais. Bernardo queria ser aquele que fazia as perguntas, e não aquele que é obrigado a responder. Ora, a glória pertence ao que responde, não ao que interroga. O homem que responde é iluminado pelos refletores. O homem que pergunta é filmado de costas. É Nixon e não Woodward que aparece em plena luz. Bernardo não deseja a glória daquele para quem são dirigidos os refletores, mas o poder daquele que fica na penumbra. Deseja a força de um caçador que mata um tigre, não a glória do tigre admirado por aqueles que se servirão dele como tapete.
Porém a glória não pertence só às pessoas célebres. Cada pessoa conhece ao menos uma vez sua pequena glória e ao menos por um momento sente o mesmo que Greta Garbo, Nixon ou um tigre esfolado. A boca aberta de Bernardo ria em todas as paredes da cidade e ele sentia-se amarrado no pelourinho: todo mundo o via, o examinava, o julgava. Quando Laura lhe diz: "Bernardo case comigo!", ele a imagina a seu lado no pelourinho. Subitamente (isso nunca acontecera antes), ela pareceu-lhe velha, desagradavelmente extravagante e ligeiramente ridícula.
Tudo isso era ainda mais idiota porque nunca precisara dela como agora.
O amor mais saudável ainda era para ele o amor de uma mulher mais velha, com a condição de que esse amor se tornasse ainda mais secreto e que essa mulher mostrasse ainda mais sabedoria e discrição. Se em vez de estupidamente ter-lhe pedido para casar, Laura tivesse decidido fazer desse amor um luxuoso castelo afastado da vida pública, ela não precisaria ter medo de perder Bernardo. Mas vendo a foto gigante em cada canto de rua, Laura relacionou isso com a nova atitude de seu amante, com seus silêncios, com seu ar distraído, e concluiu sem hesitação que o sucesso colocara em seu caminho uma outra mulher que ocupava todos seus pensamentos. Como Laura não queria entregar-se sem lutar, passou ao ataque.
Você compreende agora por que Bernardo recuou. Quando um ataca, o outro recua, é a regra. Esse recuo, como todos sabem, é a manobra de guerra mais difícil. Bernardo executou-a com a precisão de um matemático: enquanto recentemente passava quatro noites por semana em casa de Laura, limitou-se a duas; quando antes saía com ela todos os fins de semana, passou a consagrar-lhe somente um domingo em cada dois e preparou-se para novas restrições. Fazia o mesmo que o piloto de uma nave espacial que, reentrando na atmosfera, precisa frear bruscamente. Assim sendo, freava, com prudência e determinação, enquanto sua graciosa e maternal amante desaparecia sob seu olhar. Em seu lugar estava uma mulher briguenta, desprovida tanto de sabedoria quanto de maturidade e desagradavelmente ativa.
Um dia Grizzly lhe disse: — Conheci sua noiva.
Bernardo ficou vermelho de vergonha. Grizzly continuou: — Ela falou-me de uma briga de vocês. É uma mulher simpática. Seja gentil com ela.
Bernardo ficou branco de raiva. Sabendo que Grizzly dava com a língua nos dentes, tinha certeza de que toda a emissora agora sabia o nome de sua amante. Uma ligação com uma mulher mais velha parecera-lhe até então uma encantadora perversão, quase uma audácia; mas no momento compreendia que seus colegas não veriam nisso senão a confirmação de sua burrice.
— Por que você foi queixar-se a estranhos?
— A estranhos? Do que você está falando?
— De Grizzly.
— Pensei que fosse seu amigo!
— Mesmo sendo meu amigo, para que contar a ele nossa vida íntima?
Ela respondeu tristemente: — Não escondo meu amor por você. É preciso que eu me cale? Será que você tem vergonha de mim?
Bernardo não respondeu nada. Sim, tinha vergonha dela. Tinha vergonha dela, mesmo sendo feliz em sua companhia. Mas só era feliz em sua companhia nos momentos em que esquecia que tinha vergonha dela.

(Milan Kundera - A Imortalidade)  

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publicado às 21:45



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