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SENSUALIDADE

por Thynus, em 18.12.16
Devemos combater a emotividade por todos os meios ao nosso alcance, disciplinando o espírito e fortalecendo o tono emocional, com o objetivo de impedir as descargas nervosas responsáveis por grande número de distúrbios... (Pacheco e Silva.)

As emoções podem também perturbar gravemente o funcionamento cerebral. (Chouchard.)

“A capacidade de seduzir não está relacionada ao que vestimos ou desejamos mostrar ao mundo exterior. Ela está muito mais ligada com a maneira como nos sentimos intimamente, com a autoconfiança” (Maria da Glória Hazan)

a intensa harmonia entre o vinho e sensualidade feminina
 
O candidato à saúde mental, à paz e à realização espiritual não pode descuidar-se de uma higiene estética. Ele deve selecionar a qualidade e controlar a quantidade das impressões externas e internas, a fim de que seus sentidos, ávidos eles mesmos de cada vez mais satisfações, não o desviem da meta. Aqui, como em todos os campos e aspectos da vida, o homem só terá saúde se souber manter-se senhor e jamais deixar-se dominar. Ser senhor quer dizer ter controle. Ter controle sobre uma ação significa poder, conscientemente, começar, acelerar, retardar, parar, recomeçar quando quiser, portanto, dirigir a ação. Desde que perca o controle de seus sentidos, tornando-se um sensual, o homem pode descer aos abismos da infelicidade e da degradação. No controle da sensibilidade, o candidato à felicidade deve: a) saber e poder escolher as impressões que contribuam para isto, e usá-las na medida certa; b) reconhecer e poder obstar as impressões adversas e delas defender-se; c) saber distinguir entre as benéficas e as que são somente agradáveis; e d) saber discernir as que podem vir a se tornar obsessivas, a fim de evitá-las.
Como se já não bastassem os dramas, sofrimentos, apreensões, decepções e mesmo tragédias que o destino semeia em cada vida, e que acarretam enorme desgaste nervosc e, portanto, distúrbios, a indústria das emoções, através do cinema, da telenovela, do teatro, bem como os espetáculos desportivos violentos, como as lutas, as corridas, os campeonatos, diariamente submetem o público a perniciosos impactos. Tanto mais bem elaborados sejam mais espetáculos, tanto mais eficientes, e tanto mais capazes de contribuir para desordens nervosas. E o público, fascinado, inconscientemente, se entrega aos forjadores de emoções. Estas devem ser cada vez mais excitantes, profundas e dominantes. Na Roma antiga eram os gladiadores que atendiam às necessidades malsãs do sensualismo do público sádico.
Hoje são os lutadores de "catch", que se esmeram, por todos os modos — desde os nomes (Carrasco, Drácula...) até ao aspecto físico — para infundir terror e ódio em milhões de inadvertidos, imaturos, e viciados espectadores. Quanto mais "proibido pela censura", mais preferida é a película de cinema. A fórmula violência, terror e sexo é a mais comercial e portanto a preferida por produtores, diretores e exibidores de filmes. As frases com que tais filmes são anunciados bem demonstram um clamoroso quadro de saúde mental do grande público.
Apregoam o que o povo deseja: violência e erotismo.
Desgraçadamente isto é o "normal", o mais freqüente. £ o normal patológico do qual já temos falado.
O "normal" é isto, esta busca irracional e patética de cada vez maior prazer, sensações mais perturbadoras e divertimentos com alto poder estressor. Por que as pessoas pagam para se meterem numa montanha russa? Por que multidões se alinham nas margens de uma pista de corrida de carros, esperando que um deles se despedace? Por que o teatro está cada vez mais explorando o mórbido e o erótico? Por que as músicas da juventude vão se tornando mais barulhentas, mais à base de ritmo e mais carentes de melodia e harmonia? Por que a poesia deu lugar à novela sexo-policial? Por que o carnaval, cada ano, é mais bacanalizado? Por que até crianças uivam de entusiasmo com o estrangulamento que um lutador está fazendo no outro? Por que os jovens roubam carros e com eles suicidamente "voam"? Por que, cada dia, novos divertimentos são inventados tanto que desencadeiem sensações novas, que "enlouquecem" seus participantes? Por que o jovem, em todo o mundo, está empenhado na corrida psicodélica?!. . .
Você que quer ter paz; você que não deseja e nem precisa sentir-se ajustado e mesmificado com esta alarmante "normalidade", tome consciência do fato, analise-o, com distância, e se defenda contra a corrupção sensual coletiva, contra a esquizofrenização da sensibilidade. Você não precisa destas sensações.
Deixe-as para os que não têm como desfrutar das suaves e sadias sensações espiritualizadas, patrimônio de quem empreende a vida redentora do Yoga. Se, por acaso, você já é um sensual, pode começar a desconfiar de que seu distúrbio nervoso tem raízes nesta distorção estética, isto é, neste estado patológico de sua sensibilidade. Se você tem dado rédeas à sua sensualidade, ou melhor, a seus jnanaindriyas (os sentidos), comece já a formular um plano para corrigir-se disto, que o escraviza ao mundo e o afasta de Deus. Resista à alucinofilia crescente que está arrebatando os fracos de todo mundo. Você não ignora que a ansiedade, a tensão e as emoções se expressam no fígado, nas glândulas supra-renais, na hipófise, na área cardíaca, final e praticamente, em todo o organismo. Você sabe o quanto a ira e o temor danificam a saúde. Não é verdade? Ora, sem você querer, e por serem impostos pela própria vida e forçados pelos pressões sociais, os motivos de apreensão e teráão têm assaltado você e, desejando livrar-se de tais situações, você tem dado muito de seu esforço e também perdido saúde. Não vai me dizer que lhe agrada a ansiedade, enquanto espera a resposta de um negócio que propôs ou o resultado de um exame clínico ou mesmo das provas do concurso. Ninguém se sente bem quando está sentindo medo, ou ira, ou vergonha, ou remorso. A ninguém agrada viver debaixo de drama, ameaça e vicissitude. Ao contrário, todos almejam tranqüilidade, vida suave e espaço social bem desimpedido para expandir. Todo mundo sonha com momentos emocionalmente neutros. Os gregos antigos tinham a ataraxia (Ataráxicos são drogas psicotrópicas que visam a criar o estado de ataraxia) completa ausência emocional e mental como um objetivo muito alto da vida do filósofo. Pois bem, você que não gosta das emoções que o destino espalha em seus dias; você que estimaria desfrutar horas de tranqüilidade e quietude, por que vai meter-se num cinema para assistir a um filme do estilo suspense?! Pode ser um grande tédio o motivo de buscar excitação em divertimentos ou como torcedor apaixonado de qualquer esporte. Ê possível que você esteja praticando esta forma de fuga. Há quanto tempo? Divertindo-se, você tem conseguido livrar-se do tédio? Seja sincero. Seja inteligente ao responder. Se você já se livrou do tédio, do sentimento de vazio graças a tantos entretenimentos excitantes, seu exemplo vai ajudar a resolver o problema de milhões de pessoas. Seu caso será de alto interesse para a psiquiatria, para a medicina psicossomática, para os educadores, para os líderes religiosos, para todos que procuram o caminho certo para salvar do tédio o ser humano. Se no entanto você ainda está precisando "divertir-se" e cada vez mais, se você ainda não pode passar sem contorcer-se de emoção nas arquibancadas enquanto seu time está jogando, saiba que o "remédio" falhou. Escapismo nunca salvou ninguém. Na verdade, cada vez que o espetáculo termina os sentidos que estiveram sendo gratificados começam a pedir mais alimento, mais excitação. Há um vício de excitar-se, de ocupar os sentidos, de emocionar-se, de características semelhantes ao tabagismo, alcoolismo, psicodelismo e outros. Todos estes vícios se caracterizam por uma vinculação obsessiva a seu objeto particular, seja à tragadinha, ao traguinho, aos comprimidos, "às picadas", ao vídeo, à tela de cinema, ao alto-falante do rádio. Outra característica de tais vícios é a de que nunca se consegue quietude a não ser enquanto se está atendendo às imposições do tirânico objeto obsidente.
Relativamente à sensibilidade, desde o berço começamos a ser viciados, quando, com chocalhos, bonequinhos de apito, enfeites coloridos, somos ensinados a distrair-nos. É com ajuda deste ou daquele tipo de espetáculo doméstico, provido pelo pai, ou pela mãe ou titia, que o bebê concede receber a alimentação. Pela vida a fora — infância, adolescência e vida adulta — os entretenimentos "indispensáveis" vão frustrando um acontecimento que "normalmente" todos evitam: um encontro a sós consigo mesmo, em silêncio.
"Suponhamos, diz Fromm (Psicanálise da Sociedade Contemporânea), que, em nossa cultura ocidental, os cinemas, as emissoras de rádio, as televisoras e os acontecimentos esportivos deixem de existir por apenas quatro semanas. Fechados esses principais canais de fuga, quais seriam as conseqüências para as criaturas, reduzidas repentinamente aos seus próprios recursos? Não tenho dúvida alguma quanto a que mesmo nesse curto período de tempo ocorressem milhares de perturbações nervosas, e muitos milhares de criaturas fossem lançadas em um estado de ansiedade aguda que não difeririam do quadro diagnosticado clinicamente como neurose."
Vejo nesta educação para o esvaziamento, para a saída de si mesmo, para a alienação de si mesmo um dos fatores causativos do quadro que o mesmo Fromm assim descreve: "Hoje em dia encontramo-nos com criaturas que agem e sentem como autômatos; que jamais experimentam algo realmente seu; que sentem o seu eu inteiramente como pensam que supostamente seja; cujo sorriso artificial substituiu o sorriso espontâneo; cuja tagarelice vazia substituiu a palestra comunicativa; cujo surdo desespero substituiu a dor autêntica." (Opus cit.)
Se não fosse por outros motivos, bastaria saber que os divertimentos e esportes, por outro lado, salvam tantos da neurose, para que eu não alimentasse a idéia de combatê-los. "Tudo é necessário", ensina Suddha Dharma. É necessário que continuem existindo "esses canais de fuga", e que poderiam também ser veículos sadios de cultura e instrumentos de educação. Cinemas, esportes, literatura, teatro, televisão e rádio não constituem fatores de desordens nervosas a não ser pela forma irracional, inconseqüente e amoral em que hoje em dia são "explo.ados". Na mesma tela em que, na semana passada, milhares de adolescentes "aprenderam" com os olhos, com o cérebro, com o organismo inteiro, como assassinar ou estuprar uma jovem, nesta semana as crianças recebem uma daquelas maravilhosas mensagens de Walt Disney e saem do cinema felizes e enriquecidas, depois de terem degustado, pelos sentidos, momentos de poesia. O mesmo aparelho televisor que exibe as brutalidades de "catch" ou as banalidades do humorismo calhorda apresenta outros espetáculos ética e esteticamente admiráveis.
Num cardápio você escolhe os pratos que lhe convém e não liga para os outros. Faça o mesmo quanto a programas de divertimento. Eduque-se esteticamente. Desenvolva, não somente bom gosto, mas o discernimento. Não escolha somente o agradável, mas o que lhe proporcione mais equilíbrio, paz e segurança psíquica e saúde orgânica.
Você já sabe das alterações profundas que se processam no organismo em conseqüência das emoções. Você conhece como o simpático e as glândulas endócrinas sob os impactos ou stress emocionais provocam rebuliço nos órgãos e em suas funções. Não ignora também que emoções suaves, delicadas, belas repercutem convenientemente em nossa felicidade na mesma medida em que as emoções violentas, alarmantes negativas minam a saúde e equilíbrio. Então, como é que você ainda vai entrar numa fila, pagar caro, para assistir a um filme cheio de atrocidades, suspense e aflição? Você está "comprando" as más emoções dos personagens do filme, com os quais você se identifica. Vá ao cinema, previamente tendo escolhido, com inteligência, o tema da película. Não vá ao cinema somente porque não "posso perder meu filmezinho sábado à tarde"... Seja dono de si mesmo. Vá ao cinema, sabendo que se a fila estiver grande, e você desistir, não se sentirá incompleto e descontente. Digo-lhe ainda mais. Use o cinema, a música, os programas de entrevista, o bom teatro, a literatura inteligente, com fins educativos e terapêuticos. Os mesmos veículos que tanto mal têm feito têm o enorme poder de construir, de enriquecer a personalidade e melhorar a saúde.

(Hermógenes - Yoga para Nervosos)

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publicado às 13:07



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