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SEM DISCRIMINAÇÃO NÃO HÁ VIDA

por Thynus, em 26.11.14
‘Discriminação’ e ‘preconceito’ estão entre as palavras mais estigmatizadas atualmente. Numa sociedade em que as pessoas são prejudicadas pela cor da pele, sexo, sexualidade e deficiências físicas, é normal que o início da luta pela igualdade desperte sensibilidades exageradas. Por isso, todo cuidado é pouco para não sairmos afobados caçando bruxas por aí. Sem discriminação e preconceito não haveria vida possível. Sem discriminação e preconceito nós nem levantaríamos da cama pela manhã. ‘Preconceito’ quer dizer ‘pré-conceito’. Todos os conceitos que formamos anteriormente na vida e que nos auxiliam a tomar decisões no presente são formas de preconceito. São conceitos préformados. Em suma, toda forma de aprendizado se dá pela aquisição de preconceitos. Abandonar nossos preconceitos significaria deixar de lado tudo o que aprendemos e começar do zero. Trata-se de uma idéia bela e romântica, mas impossível de se colocar em prática. São os preconceitos que fundam nossas decisões, e toda tomada de decisão é uma discriminação. Sem a discriminação de opções não é possível fazer escolhas.
Discriminações e preconceitos fazem parte essencial de nosso convívio social. Por exemplo, se não houvéssemos formado uma série de pré-conceitos sobre as crianças e não soubéssemos usá-los para discriminá-las adequadamente dos adultos, não poderíamos protegê-las daquilo que é inapropriado para a sua idade. Quando os preconceitos fornecem um fundamento adequado para as discriminações, agimos com sabedoria. Problemas começam a surgir quando discriminações são feitas por preconceitos inconsistentes. Entretanto, se por um lado a maioria das discriminações por cor da pele, sexo, sexualidade e deficiências físicas são fundadas em preconceitos sem consistência, por outro há algumas que são justificadas. Numa seleção de emprego, preterir uma pessoa negra para uma função que pode ser executada independentemente da cor da pele é uma discriminação injustificada. Por sua vez, se estiverem selecionando um ator para viver o Superman nos cinemas, provavelmente nenhum ator negro será escolhido, pois o Superman dos quadrinhos é branco. Pouco interessa a competência dos atores negros que querem atuar no papel. A menos que o diretor pretenda fazer uma versão alternativa do Superman, atores negros não serão escolhidos, pois ele levará para as telas a adaptação mais fidedigna possível dos quadrinhos. Semelhantemente, atores brancos de olhos azuis dificilmente seriam escolhidos para interpretar o Pelé, a menos que se tratasse de uma versão cinematográfica bastante alternativa.
Essas são discriminações de cor da pele bastante justificáveis. O preconceito que as fundamenta é consistente, e se já vivêssemos numa sociedade madura, não haveria razão para ressentimentos. Mas, as reações a essas discriminações mostram que ainda não atingimos essa maturidade. A sensibilidade exagerada frente às discriminações por cor da pele, sexo, sexualidade e deficiências físicas, além de atacar todas as que são injustas e devem ser abolidas, também ataca as que têm uma justificativa plausível. No exemplo que estamos trabalhando, caso atores negros fossem preteridos para interpretar o Superman, é possível que os próprios atores ou representantes de entidades em defesa dos negros protestassem argumentando que os negros são tão bons atores quanto os brancos e acusando a sociedade de racismo e intolerância. É verdade que não há qualquer impedimento, relacionado à cor da pele, para que um ator seja tão bom quanto outro; é também verdade que vivemos numa sociedade racista e intolerante. Mas, quando essas verdades são usadas para atacar uma discriminação justificada, elas se tornam  mal-empregadas, passam a denotar uma sensibilidade demasiadamente histérica, e acabam marcando um gol contra na luta contra as discriminações que realmente devem ser combatidas. Pois, a opinião pública toma antipatia das causas justas quando elas se transformam numa caça às bruxas, e acaba aprendendo a reagir com má vontade nos casos em que ela permanece justa. É preciso muito cuidado com os excessos. Como diz o poeta, um pouco de prudência e canja de galinha não faz mal a ninguém.

(Daniel Grandinetti - Psicologia no Cotidiano)

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publicado às 23:47



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