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Sartre e a Angútia de escolha

por Thynus, em 19.12.15

"(...)o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define. O homem, tal como o existencialista o concebe, só não é passível de uma definição porque, de início, não é nada: só posteriormente será alguma coisa e será aquilo que ele fizer de si mesmo. Assim, não existe natureza humana, já que não existe um Deus para concebê-la. O homem é tão-somente, não apenas como ele se concebe, mas também como ele se quer; como ele se concebe após a existência, como ele se quer após esse impulso para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo: é esse o primeiro princípio do existencialismo."

Sartre – O Existencialismo é um Humanismo

 

Somos uma liberdade que escolhe, mas não escolhemos ser livres: estamos condenados à liberdade 

(Sartre - O Ser e o Nada)

 

O homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser.

(Sartre - O Ser e o Nada)

 

A angústia se distingue do medo porque medo é medo dos seres do mundo, e angústia é angústia diante de mim mesmo. A vertigem é angústia na medida em que tenho medo, não de cair no precipício, mas de me jogar nele.

(Sartre - O Ser e o Nada)

 

0000000 L.jpgCondenados à liberdade

 

O preceito básico do Existencialismo, corrente filosófica da qual Sartre faz parte, é que a existência precede a essência. Mas o que isto significa? Para os existencialistas, o homem primeiro existe, descobre-se no mundo. Posteriormente ele se tornará alguma coisa, adquirindo características que lhe serão próprias. O homem é um projeto que se vive subjetivamente; nada existe antes deste projeto. O indivíduo será aquilo que tiver projetado ser, aquilo que escolher. Mas tal escolha não deve ser confundida. Não tratamos aqui de uma escolha no sentido de querer, ou seja, de vontade. Para Sartre, as escolhas só existem no universo prático, no plano das ações. O fato de alguém querer algo não significa que a escolha já está feita. Posso querer casar-me, mas se tal vontade não for posta em prática, não posso dizer que escolhi o matrimônio. Para que se concretize, é preciso praticá-la.

O Existencialismo ateu de Sartre nega a existência de Deus. Segundo Sartre se Deus não existe, não criou o homem à sua imagem e semelhança, não há uma essência humana precedente à existência. Também não há uma natureza humana, alguma condição comum aos homens de todas épocas, da qual todos nós partimos. O indivíduo precisa escolher sua essência, ato que ocorre a cada instante. A ausência de um conjunto de valores divino, capaz de guiar as ações humanas através da certeza do acerto, somada à necessidade de escolhermos, faz com que o homem crie seus próprios valores, sob os quais dirigirá sua vida. Sartre acrescenta que, mesmo que Deus existisse, o homem teria que escolher se deve acreditar e orientar-se pelas manifestações divinas que lhe fossem apresentadas. Esse é o dilema proposto por Kierkegaard no clássico “Temor e Tremor”. Nessa obra, Kierkegaard narra diferentes versões da história de Abraão, o qual foi designado por Deus para sacrificar seu filho. Deveria ele colocar a fé acima da ética pessoal? O que lhe garantia ser realmente Deus quem lhe ordenava o sacrifício de seu filho? Deus seria realmente capaz de ordenar-lhe tamanha monstruosidade?

Antes de prosseguirmos, porém, é necessário esclarecermos o significado do termo facticidade, muito importante para esta corrente filosófica. Por facticidade queremos designar aqueles eventos sobre os quais o homem não tem controle. Por exemplo, o fato de alguém nascer numa família rica ou pobre, ou mesmo a perda de um ente querido. Não obstante tais contigências, não há que culpá-las, pois o homem também escolhe a forma como lidar-se-á com elas. O indivíduo que, frente ao contexto de miséria da família que nasceu, sente-se impotente e incapaz de transcender tal condição, é culpado por perpetuar-se miserável.

Ditas tais palavras, podemos avançar para uma célebre expressão sartreana que talvez resuma o que há de essencial na sua filosofia – “Estamos condenados à liberdade”. Qual é o significado desta frase? Sartre entende que o homem é projeto de si mesmo. Ele se lança para um futuro e é consciente de se projetar no futuro. Isso significa que o homem é responsável por suas escolhas. Não há fuga para isso. Crer-se alienado de suas próprias decisões e atos é agir de má-fé (adiante esclareceremos este termo ). Por outro lado, a escolha individual do homem implica também algo de mais universal. Ao escolher para si, o indivíduo escolhe para todos demais homens. A escolha não é um ato referente apenas àquilo que o indivíduo quer para si mesmo como valor, mas uma atribuição geral. Escolhendo, o homem define aquilo que, ao seu ver, deveria ter validade geral. Esta concepção sartreana aproxima-se do imperativo categórico kantiano, o dever ser. O homem nunca escolhe o mal, pois aquilo que escolhe sempre é o bem, justamente porque ele escolheu. Além disso, nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Desse modo, Sartre entende que a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda humanidade. Somos responsáveis por nós e pelos outros, pois criamos uma imagem do homem como acreditamos que deveria ser. Livre e sem desculpas, o homem escolhe o homem. Finalmente, voltando à celebre expressão sartreana, estamos condenados porque não escolhemos existir, tampouco nossa condição – ser livre; mas livres, pois lançados no mundo, somos responsáveis por tudo aquilo que fizermos.

Dessa liberdade, entretanto, deriva a angústia. Reconhecendo-se livre, o indivíduo dá-se conta de que não apenas escolhe para si, mas também para toda humanidade. O indivíduo se angustia porque, desamparado, ou seja, sem orientação ou alguma escala de valores por assim dizer universal, precisa escolher sua vida, seu destino, o que suscita escolher também para os outros. A angústia de liberdade é a angústia de escolher. O homem se angustia porque se vê compelido a fazer a escolha. Fazê-la, por sua vez, implica ser responsável por suas conseqüências. O indivíduo busca refugiar-se, então, de sua própria liberdade, tentando evitar a angústia de sua condição de ser livre. Refugia-se na má-fé, com o intuito de escapar à consciência dessa condição. A atitude de má-fé consiste num disfarce, uma enganação de si próprio. Trata-se de negar-se a escolher, deixando que terceiros ou circunstâncias sejam responsáveis por suas escolhas. É uma tentativa de enganar-se a si próprio e também aos outros, pois intenciona que os demais pensem que ele é uma vítima do destino, contra o qual nada se pode. Esse é o intuito da atitude de má-fé: fugir às responsabilidades do escolher disfarçando com uma suposta impossibilidade de escolha. É iludir-se da idéia de que o destino já está traçado.

A má-fé diferencia-se da mentira pelo seguinte aspecto: a mentira implica que o mentiroso está consciente de ocultar a verdade. É um fenômeno comum daquilo que Heidegger denomina ser-com. O ser-com heideggeriano consiste num Dasein convivendo com outros, coexistindo. O ato de má-fé diferencia-se da mentira porque nele o indivíduo mente para si mesmo. Não obstante, a má-fé também é um fenômeno condicionado pelo ser-com, pois ao mentir para si, visando fugir às responsabilidades das próprias escolhas como se não detivesse o poder sobre elas, o indivíduo espera atender as expectativas alheias, porquanto seja vítima do destino, alguém impossibilitado de escolher, alvo de uma fatalidade. Busca, portanto, imaginar-se segundo os outros o vêem.

Sartre distingue entre angústia e medo. O medo origina-se de algo externo, que atinge a consciência. Trata-se de algo objetivo, determinado, que ameaça a existência do ser. A angústia, por sua vez, surge do nada. É a consciência do nada que angustia o indivíduo. O ato de nadificação deriva da consciência intencional ( para-si ). Trata-se da capacidade humana de fundamentar o juízo negativo, ou seja, incluir ausência naquilo que é presença. Por exemplo, se procuro uma pessoa num local e não a encontro, sou capaz de perceber sua ausência, mesmo envolto por tantos objetos e pessoas. Na verdade, a ausência não está ali. Lá só há presença. A ausência sou eu quem coloca. Isso ocorre porque, segundo Sartre, o nada está presente na consciência. De fato, a consciência é o nada e está sempre voltada para fora, intencionando os objetos. Se não encontro o objeto que intenciono, só me resta o nada. Eis a origem da angústia de escolha: a consciência do nada, ou seja, a noção de estarmos escolhendo baseados em nós mesmos, sem que nada preceda essa escolha. 

Referências:

O Existencialismo é um Humanismo- Jean Paul Sartre

O Ser e o Nada – Jean Paul Sartre

 

(Giovanni Bruno Carollo Gaeta - Psicológo) 

00000000 LL.jpg"Não somos livres de ser livres" 

 

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publicado às 17:15



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