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Sacerdotes malcomportados

por Thynus, em 12.02.14

 

 

 

Ao vasculhar os arquivos do Vaticano em 2003 em busca de casos em nome de vítimas norte-americanas de abuso sexual por padres católicos, um advogado texano encontrou um documento intitulado De Modo Provedendi di Causis Crimine Soliciciones (Sobre o Modo de Proceder em Casos de Crime de Aliciamento). Com a assinatura e o lacre do papa João XXIII, foi escrito em 1962 pelo cardeal Alfredo Ottaviani e distribuído aos clérigos de todo o mundo com uma ordem para que fosse mantido em segredo.
O documento de sessenta e nove páginas envolvia essencialmente qualquer sacerdote que induzisse alguém no ato da confissão sacramental “para assuntos impuros ou obscenos”.
Os bispos que receberam a ordem foram instruídos a procurar esses casos “da maneira mais secreta possível”. Todos os envolvidos, inclusive a suposta vítima, juravam “observar o mais rigoroso segredo, geralmente considerado um segredo do Santo Ofício”, sob pena de excomunhão. O “pior crime” era definido como “qualquer ato obsceno externo, gravemente pecaminoso” realizado por um clérigo “com uma pessoa do seu próprio sexo”. O documento era descrito como “estritamente confidencial” e não deveria ser publicado.
Sete séculos antes de o papa João XXIII autorizar que o Vaticano encobrisse o abuso sexual de meninos e jovens por parte de padres, são Tomás de Aquino (1225– 1274) afirmou que “a razão correta declara que o fim dos atos sexuais é a procriação”, e declarou que a homossexualidade era um dos mais graves dos peccata contra naturam ou “pecados contra a natureza”. Mas escondidos nos arquivos do Vaticano estão registros de mau comportamento papal que incluíam o papa Clemente VII fazendo sexo com pajens, Bento IX envolvendo-se em bestialidades e orgias bissexuais, e Bonifácio VII sendo descrito como um “monstro” e um criminoso. Leão I era um sádico e torturador, Júlio III sodomizava garotos, Clemente VI frequentava prostitutas, Anacleto estuprava freiras, e Paulo II gostava de ver homens nus sendo colocados em gaiolas e torturados.
Os arquivos do Vaticano e registros da Igreja atestam o problema do mau comportamento sexual dos padres, a luta da Igreja para eliminá-lo, e exemplos de acobertamento. Uma semana após a eleição do papa, Bento XVI, em 2005, foi noticiado que em seu cargo anterior, como chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, ele determinou que as investigações das reclamações de abuso sexual contra padres fossem realizadas em segredo. Isso foi alegado “em uma carta confidencial enviada a todos os bispos católicos em maio de 2001. Afirmava-se o direito da Igreja de manter os inquéritos a portas fechadas e manter a confidencialidade das evidências até dez anos após as vítimas alcançarem a maioridade. A carta foi assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger (nome do papa antes de ser eleito sucessor de João Paulo II).
“Os advogados das vítimas alegaram que a carta visava evitar que as acusações se tornassem de conhecimento público ou que fossem investigadas pela polícia. Eles acusaram o cardeal Ratzinger de cometer ‘clara obstrução da justiça’.
“A carta ‘relativa a pecados muito graves’ foi enviada da Congregação para a Doutrina da Fé, escritório do Vaticano que chegou a presidir a Inquisição. (…) Explicitava aos bispos a posição da Igreja a respeito de inúmeros assuntos, desde a celebração da Eucaristia com um não católico até o abuso sexual ‘de um menor de 18 anos’ por um clérigo. A carta de Ratzinger afirmava que a Igreja poderia alegar jurisdição nos casos em que o abuso tivesse sido ‘perpetrado por um clérigo com um menor’. A carta afirmava ainda que a jurisdição da Igreja ‘começa a correr a partir do dia em que o menor tenha completado o décimo oitavo ano de vida’ e se estende por dez anos. Ordenava que ‘investigações preliminares’ sobre qualquer acusação de abuso deveria ser enviada ao escritório de Ratzinger, que tinha a opção de encaminhá-las de volta aos tribunais privados. (…)
“Casos desse tipo estão sujeitos ao segredo pontifício”, concluía a carta de Ratzinger. A violação do segredo pontifício a qualquer momento enquanto a ordem da jurisdição de dez anos estivesse em vigor acarretaria penalidades, inclusive a ameaça de excomunhão.
“A carta foi mencionada em documentos relativos a uma ação movida naquele ano contra Ratzinger e uma igreja no Texas em nome de duas supostas vítimas de abuso. Ao enviar a carta, alegavam os advogados, o cardeal conspirou para obstruir a justiça. Daniel Shea, advogado das duas supostas vítimas que descobriu a carta, disse: ‘E fala por si mesma. É uma obstrução da justiça’. (…)
“Shea criticou a ordem segundo a qual acusações de abuso deveriam ser investigadas apenas por tribunais secretos. ‘Eles estão impondo procedimentos e segredo nesses casos. Se as agências encarregadas da aplicação da lei descobrirem o caso, podem lidar com ele. Mas você não pode investigar um caso se não souber da sua existência. Se você conseguir mantê-lo em segredo por dezoito anos mais dez, o padre vai fugir’, acrescentou Shea.”
Quando o papa Bento XVI fez sua primeira visita aos Estados Unidos em abril de 2008, disse aos repórteres que estavam em seu avião a caminho de Washington, D.C., que o abuso sexual de crianças “é um grande sofrimento para a Igreja nos Estados Unidos e para a Igreja em geral, e para mim pessoalmente”. Ele disse: “Quando leio as histórias dessas vítimas, é difícil entender como foi possível que sacerdotes tenham traído desse jeito. A missão deles era dar a cura, dar o amor de Deus a essas crianças. Estamos profundamente envergonhados e faremos o que for possível para que isso não aconteça no futuro”.
Fazendo uma distinção entre sacerdotes com tendências homossexuais e aqueles com inclinação para molestar crianças, o pontífice disse: “Eu não falaria neste momento sobre homossexualidade, mas sobre pedofilia, que é outra coisa. E nós certamente excluiríamos os pedófilos do ministério sagrado”.
Afirmando que qualquer pessoa culpada de pedofilia “não pode ser um sacerdote”, ele disse que funcionários da Igreja iriam visitar os seminários que formam os futuros sacerdotes para se certificar de que esses candidatos não têm tais tendências. “Faremos tudo o que for possível para ter um forte discernimento, porque é mais importante ter bons sacerdotes do que ter muitos sacerdotes”, ele disse. “Esperamos ter feito, fazer e continuar fazendo no futuro, tudo o que for possível para curar essa ferida.”
Os arquivos do Vaticano e os anais do cristianismo de quase 2 mil anos atrás contêm relatos da luta contra delitos sexuais. No ano 390 d.C., o imperador Valentiniano II foi fortemente influenciado por suas crenças cristãs ao decretar que os homens que cometessem sodomia “deveriam expiar um crime dessa natureza nas chamas vingadoras à vista do povo”. Na Inglaterra do século VII, um livro que falava dos crimes sexuais cometidos por clérigos contra crianças, o Penitential Bede, sugeria que os clérigos que cometessem sodomia com crianças deveriam receber penalidades severas, dependendo do seu posto. Em 1179 d.C., um concílio da Igreja decretou que os clérigos que tivessem cometido “pecados contra a natureza” fossem confinados a um mosteiro para o resto da vida ou forçados a deixar a Igreja. No século XVI, o papa Pio IV emitiu o primeiro decreto papal condenando o abuso sexual por sacerdotes. Outra instrução importante da Igreja, Sacramentum Poenitentiae, emitida em 1º de junho de 1741 pelo papa Bento XIV, decretou que todas as tentativas dos padres de levar os fiéis a manterem relações sexuais fossem condenadas. Em 1917, foi promulgado um código canônico que condenava o abuso sexual. Nova legislação sobre o assunto foi promulgada em 1922.
Em 2003, quando se descobriu o édito secreto de 1962 do papa João XXIII, a agência de notícias do The New York Times informou: “A crise sobre abusos sexuais que vem engolindo a Igreja Católica Romana nos últimos doze meses espalhou-se por praticamente todas as dioceses norte-americanas e envolve mais de 1,2 mil padres, a maioria com carreiras que abrangem uma mistura de história da igreja e formação em seminários. Esses sacerdotes teriam abusado de mais de 4 mil menores nas últimas seis décadas de acordo com uma ampla pesquisa do New York Times com casos documentados de abuso sexual cometidos por padres até 31 de dezembro de 2002. A pesquisa, considerada a mais completa reunião de dados sobre o problema, contém nomes e histórias referentes a 1.205 padres acusados. Reuniu 4.268 pessoas que afirmavam publicamente ou por meio de ações judiciais terem sido abusadas por padres, embora os especialistas digam que certamente há muito mais pessoas que mantiveram silêncio. Os dados, porém, mostram que os padres violavam secretamente jovens vulneráveis muito antes de as primeiras vítimas processarem a Igreja e virem a público em 1984, na Louisiana. Alguns crimes datam da década de 1930”.
Segundo um boletim de ocorrência do Departamento de Polícia de Los Angeles, BC307.934, arquivado em 17 de dezembro de 2003, de 1955 a 2002 pelo menos vinte e oito sacerdotes da arquidiocese de Los Angeles acusados ou condenados por abuso sexual “ocupavam as mais altas posições”. A queixa registrada no boletim afirmava: “Sacerdotes ocupando boas posições, como os bispos Juan Arzube e G. Patrick Ziemann, usaram sua influência na administração da arquidiocese para encobrir outros sacerdotes. Sacerdotes envolvidos em educação, como Leland Boyer e Geral Fessard, usaram sua autoridade para ter acesso às vítimas e depois encaminhavam as crianças que molestavam para os seminários e o sacerdócio. Esses vinte e oito sacerdotes e provavelmente muitos outros ocupavam posições de bispos auxiliares, vigários paroquiais, vigários-gerais, reitores e professores em seminários locais e como recrutadores para seminários. A elevação de molestadores de crianças a essas posições ajuda a explicar por que tantos molestadores se tornaram sacerdotes, e como tantos seminaristas e sacerdotes se tornaram molestadores de crianças”.
Jeffrey Anderson, advogado de Minnesota especializado em ações civis por abuso sexual, sabia da existência de mais de 300 queixas contra padres católicos em quarenta e três estados em 1991, tendo ele próprio tratado de oito casos. O repórter Jason Berry descobriu pelo menos cem acordos civis feitos pela Igreja Católica entre 1984 e 1990, totalizando entre 100 milhões e 300 milhões de dólares. O padre Thomas Doyle, advogado canônico da Igreja Católica Romana, calculou haver cerca de 3 mil sacerdotes molestadores de crianças (uma média de dezesseis padres pedófilos por diocese).
A. W. Richard Sipe, psicoterapeuta e ex-sacerdote em Baltimore, autor de A Secret World: Sexuality and the Search for Celibacy, fez um amplo estudo sobre a conduta sexual dos padres e afirmou: “A probabilidade de um padre católico nos Estados Unidos ser sexualmente ativo é de um em dois”. Sipe estudou mil padres e 500 das suas “vítimas ou ‘amantes’”. Descobriu que “20% dos padres estavam envolvidos em relacionamentos sexuais com mulheres; 8% a 10% na ‘exploração heterossexual’; 20% eram homossexuais, sendo metade deles ativos; 6% eram pedófilos, quase 4% deles visando meninos”.
O escritório da revista Freethought Today em Madison, Wisconsin, informou que recebe de três a quatro recortes de jornais por semana de leitores comunicando uma nova acusação criminal ou civil contra um padre ou ministro protestante. A revista pesquisou os casos notificados nos Estados Unidos em 1988 e 1989 e descobriu 250 casos com acusações envolvendo padres, ministros ou funcionários ministeriais nos Estados Unidos e Canadá. Dos clérigos acusados, setenta eram padres católicos (39,5%) e onze eram ministros protestantes (58%).
Embora os padres representem aproximadamente 10% do clero norte-americano, compunham 40% dos acusados. Com resultados desconhecidos em cerca de um quinto dos casos, o estudo descobriu que “88% de todos os clérigos acusados foram condenados (81% dos padres foram condenados). (…) E a maioria dos casos não foi a julgamento. (…) Três quartos de todos os clérigos que alegaram inocência foram considerados culpados. Cerca de metade dos padres católicos que alegaram inocência foram condenados”.
O estudo revelou que os padres católicos foram inocentados ou tiveram as acusações de abuso sexual infantil rejeitadas em proporção mais elevada do que os ministros protestantes. Da mesma forma, os padres católicos tiveram uma proporção mais elevada de sentenças suspensas quando condenados, e quando sentenciados passaram muito menos tempo na cadeia ou prisão.
Angela Bonavoglia, autora do livro Good Catholic Girls: How Women Are Leading the Fight to Change the Church, observou que muitos padres católicos em todo o mundo — México, América Latina, África e Estados Unidos — mantinham relações consensuais com mulheres. Muitos outros padres estavam envolvidos em relacionamentos consensuais com outros homens adultos. “É evidente que a crise da Igreja é muito maior do que a questão da pedofilia ou do abuso sexual de menores”, ela escreveu. “Envolve crimes e criminosos, sexo e poder, sim. Mas trata-se fundamentalmente de hipocrisia. Ao proibir os padres de terem uma vida sexual madura, o que inclui compromisso, responsabilidade e respeito, e protegendo-os dos custos de suas façanhas sexuais, a Igreja na prática tem tolerado a liberdade sexual clerical para todos. O fato de o comportamento heterossexual e homossexual prosperarem no sacerdócio católico não reflete algo inerente à homossexualidade ou à heterossexualidade, mas é antes uma prova da hipocrisia e duplicidade de um sistema elitista, fechado, masculino, de uma sociedade secreta que tolera, na verdade exige, a mentira a respeito da vida sexual de qualquer um a qualquer custo.”
Afirmando que o documento de 1962 do papa João XXIII continuou a vigorar até maio de 2001, os autores do livro Sex, Priests and Secret Codes, Thomas P. Doyle, A.W.R. Sipe e Patrick J. Wall, apresentaram um relato que chamaram de evidências escritas dos abusos sexuais de 2 mil anos da Igreja Católica. Escreveram que a carta era “significativa” porque refletia a insistência da Igreja “em manter o mais alto grau de sigilo”.
Quarenta e seis anos depois de o papa João XXIII ter assinado De Modo Provedendi di Causis Crimine Soliciciones e prometer sigilo da Igreja a respeito do abuso sexual de menores pelo clero, o papa Bento XVI pediu desculpas às vítimas de abuso por padres e falou publicamente sobre o assunto durante sua viagem pelos Estados Unidos e Austrália. Para o público da Jornada Mundial da Juventude em Sydney, Austrália, ele declarou: “Esses malfeitos, que constituem grave quebra de confiança, merecem condenação inequívoca. Causaram grande sofrimento e prejudicaram o testemunho da Igreja. Peço a todos vocês que apoiem e ajudem seus bispos, e trabalhem junto com eles para combater esse mal. As vítimas devem receber cuidados e compaixão, e os responsáveis por essas maldades devem ser levados à Justiça. É uma prioridade urgente promover um ambiente mais seguro e sadio, especialmente para os jovens”.

(Jeffers, H. Paul - Mistérios sombrios do Vaticano)

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