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Rituais de passagem

por Thynus, em 12.09.14

 

As etapas de transição da vida exigem rituais e eles estiveram presentes em todas as épocas. Enquanto as culturas arcaicas confiavam na energia iniciática dos ritos da puberdade, nós desvalorizamos em grande medida as últimas relíquias destes últimos, a primeira comunhão e a confirmação. Não estando suficientemente carregados de consciência, eles degeneraram em costumes que praticamente já não podem mais cumprir sua função. É difícil para um jovem de hoje crescer pois faltam-lhe rituais de passagem conscientes que o prendam com segurança no novo padrão do mundo dos adultos, com suas regras e símbolos totalmente diferentes. Alí onde acreditávamos estar-lhes poupando dos horrores das mais sombrias superstições, na verdade lhes roubamos substanciais oportunidades de amadurecimento. Por mais duros e sinistros que possam ser os ritos correspondentes das culturas arcaicas, desde passar dias a fio ao relento no mato ou em escuras cavernas até sangrentas provas de coragem e encontros com espíritos que causam verdadeiro terror, tratava-se de etapas viáveis para passar ao novo plano.
Como é impossível fazê-lo sem rituais, os adolescentes de hoje têm de se esforçar para encontrar substitutos. O primeiro cigarro, fumado quase ritualmente no círculo de correligionários, é uma tentativa correspondente. Sabendo muito bem que ainda não são adultos, eles ousam antecipar-se em um dos ainda proibidos privilégios do mundo dos adultos. Quebrando esse tabu, eles inconscientemente esperam forçar a entrada no novo padrão. A angústia está presente, de maneira similar aos rituais de puberdade arcaicos. O novo plano é perigoso, e o primeiro cigarro o demonstra. A maioria dos participantes do ritual sentem a correspondente diarréia, um sinal do quanto eles têm as calças cheias. Mas tossindo corajosa e agressivamente, eles desafiam essas dificuldades iniciais.
O exame para a obtenção da carteira de motorista é um ritual substitutivo ainda mais importante. É preciso receber a correspondente legitimação para tornar-se membro de uma sociedade motorizada. Após a superação dessa verdadeira prova de maturidade, têm inicio as provas de coragem nas ruas. O número e o tipo de acidentes que ocorrem no primeiro ano de carta de motorista demonstram que corresponde sobretudo aos homens jovens aprender a conhecer o medo dessa maneira.
O problema de tais procedimentos substitutivos é que eles não oferecem nenhuma segurança no novo plano devido à falta de consciência e, sobretudo, devido à falta de uma mão auxiliar do outro lado, nesse caso do lado adulto. Dessa maneira, os adolescentes acabam ficando dependentes dos rituais substitutivos, tornando-se fumantes inveterados e motoristas furiosos e fantasmagóricos, mas não adultos.
Antigamente, os jovens profissionais eram enviados em peregrinação e até há poucos anos as moças au-pair viajavam ao estrangeiro para ganhar experiência e "cortar as garras". A sociedade ainda tinha consciência do quanto os jovens ignorantes podiam tornar-se perigosos caso suas garras não fossem cortadas. Hoje em dia, é freqüente que principalmente crianças burguesas, legitimadas pelos regulamentos educacionais profundamente reformados, permaneçam em casa, tornando-se verdadeiros apêndices do amor paterno ou materno. As ruas representam portanto uma saída, ainda que perigosa. Os filmes de terror, cujo boom pode ser explicado pelo déficit de medo, terror e aventura que existe entre os jovens, não podem preencher o vácuo, eles apenas o ilustram.
(Rüdger Dahlke - A Doença como Linguagem da Alma)

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publicado às 15:24



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