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A ciência possui uma arma poderosa para testar se um tratamento tem o efeito esperado: o método duplo-cego randomizado. Seu poder vem do fato de ele permitir que se conheça a eficiência de um tratamento mesmo quando não se sabe como ele atua. Recentemente, esse tipo de estudo foi utilizado para determinar se rezar pelo sucesso de uma operação cardíaca afeta o resultado da operação. E o que se descobriu foi surpreendente.

Apesar do nome complicado, um estudo duplo-cego randomizado é simples. Primeiro se selecionam os pacientes, depois eles são divididos de maneira aleatória em grupos que recebem e que não recebem o tratamento. O mais difícil é garantir que os pacientes, os médicos e todas as pessoas que vão avaliar o resultado do tratamento não saibam a que grupo cada paciente pertence enquanto executam suas tarefas. Daí o nome duplo-cego. Só depois de tudo terminado é que o código é quebrado e os resultados analisados.

Nesse estudo sobre reza e o sucesso de cirurgias cardíacas participaram pacientes de seis hospitais que necessitavam de uma ponte de safena, divididos em três grupos. Os 601 pacientes do primeiro grupo foram informados que comunidades de fiéis rezariam para que “a operação fosse bem-sucedida e que não houvesse complicações”. Os 604 pacientes do segundo grupo foram avisados que talvez eles fossem incluídos no grupo que receberia rezas, e de fato o foram. Os 597 pacientes do terceiro grupo também foram informados que talvez fossem incluídos no grupo que receberia rezas, porém não foram incluídos. No dia da operação, e nos catorze dias subsequentes, os nomes dos pacientes dos grupos “com reza” foram enviados a três igrejas (uma protestante e duas católicas) e lembrados nominalmente em todas as orações e rezas das congregações. Os pacientes dos três grupos foram acompanhados por trinta dias após a cirurgia e suas pequenas complicações documentadas. Terminado o experimento, os cientistas debruçaram-se sobre os dados.

Entre os pacientes do grupo que não recebeu rezas, 51% apresentaram pequenas complicações, como arritmias, febre etc. Entre os que receberam rezas sem saber que as receberiam, o resultado foi estatisticamente idêntico, 52% apresentaram complicações. Isso sugere que rezas ministradas nas condições do estudo, em que quem reza não pertence à família e não conhece o paciente, não influenciam o resultado da cirurgia. O surpreendente é que, entre os pacientes que foram avisados de que com certeza receberiam intercessões, 59% apresentaram complicações, um número que, apesar de semelhante, é estatisticamente maior do que os 52% do grupo que recebeu mas não tinha certeza de que receberia.

Esse resultado sugere que os pacientes que sabiam que iriam receber rezas apresentam um número maior de complicações. Os cientistas acreditam que isso pode ser explicado pela tensão extra a que eles estavam submetidos por pensarem algo como: “Se tanta gente está rezando por mim, meu problema deve ser sério”. Portanto, se você decidir pedir a Deus pela saúde de alguém que vai sofrer uma cirurgia, peça, mas não avise o paciente.


(Fernando Reinach - A Longa Marcha dos Grilos Canibais) 

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publicado às 09:12


2 comentários

De fashion a 10.12.2016 às 09:37

Tenho de comprar o livro porque tudo isso que nos apresenta é muito interessante.

De Thynus a 12.08.2017 às 22:53

Se ainda não comprou o livro, posso enviar-lo por email.

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