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Ressentimento ou Paz de Espírito

por Thynus, em 05.11.14
“Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra.” (William Shakespeare)
 
O rancor, ou ressentimento, é uma das emoções mais tóxicas que o ser humano pode experienciar. Rouba-nos quase toda a energia e intoxica o nosso dia-a-dia impedindo-nos de avançar em direcção aos nossos sonhos.
O rancor surge quando sentimos que alguém errou para connosco, alguém nos magoou ou cometeu um acto violento contra a nossa pessoa (físico ou verbal). Ao agarrarmo-nos ao rancor ficamos cegos ao ponto de não conseguirmos ver a nossa parte na equação, a nossa co-criação do evento que nos causa mágoa. Por outro lado, o rancor faz nascer sentimentos de raiva e ódio dentro de nós. Mais emoções altamente tóxicas.
Em realidade, quando sentimos ressentimento é como se estivéssemos presos à pessoa que nos magoou com uma corda de aço. Damos toda a nossa atenção a essa pessoa e, desta forma, toda a nossa energia. Ficamos esgotados. E não somos capazes de ver a lição que o evento tem para nos oferecer. Regra geral, em cada evento que nos causou dor há uma lição de coragem, de auto-estima ou de sacrifício para nós. A palavra sacrifício tem a sua origem no latim que significa “fazer sagrado”. Num sacrifício nós abrimo-nos perante o sagrado e aceitamo-lo nas nossas vidas.
O mais curioso é que, se ainda não se apercebeu, a pessoa que odeia ou por quem sente raiva, muitas vezes nem sequer está consciente do que fez, nem gasta um grama de energia a pensar em si. É muito provável que nem sequer pensa em si! Ou seja, quando sentimos ressentimento é a nós que estamos a magoar. E se a pessoa que nos magoou já morreu isto é ainda pior. Porque enterramos a nossa energia junto com a pessoa que já partiu.
Cada evento doloroso da nossa vida é criado por nós com um único objectivo (que pode ou não estar consciente): apontar o dedo à primeira pessoa que nos causou danos na nossa vida. Regra geral esta pessoa é o pai ou a mãe. Verifique qual é o género das pessoas que mais danos lhe causou ao longo da sua vida. Se forem mais homens é muito provável que ainda esteja a apontar o dedo ao seu pai, porque ele o magoou. Se forem mais mulheres, é à sua mãe que está a apontar o dedo e a dizer, em silêncio, “Comigo erraste!”
E passamos uma vida inteira a criar situações que nos causam dor e nunca ultrapassamos estas situações, porque no fundo acreditamos que a pessoa que primeiro errou connosco deve pagar pelo acto indefinidamente. E só nós é que sofremos. Só nós é que saímos lesados. Não há excepções.
Há alguns anos atrás, vivia em Londres, fui convidado para fazer uma pós-graduação em Nova Iorque durante seis meses. Na altura fiquei cheio de entusiasmo e fui sem pensar duas vezes. Deixei uma amiga, que considerava de absoluta confiança, responsável por cuidar do meu apartamento (regar plantas, pagar a renda, etc.). Deixei-lhe dinheiro na conta bancária suficiente para pagar a renda durante oito meses (na altura vivia num apartamento que estava legalmente alugado a outra pessoa). Quando regressei de Nova Iorque fiquei a saber que o meu apartamento estava vazio (ela tinha vendido literalmente tudo o que tinha) e a renda não tinha nunca sido paga. Vivi 3 dias na rua, enquanto tentava normalizar a minha vida. Durante anos senti um ódio tremendo por esta pessoa.
Culpava-me por ter sido estúpido ao ponto de confiar nela. Amaldiçoava o dia em que a tinha conhecido. Desejava-lhe nada menos que a morte. E durante mais de dez anos carreguei ás costas esta mulher que tantos danos me tinha causado. Até conhecer a Debbie Ford.
A primeira coisa que descobri foi que todos os problemas que me causavam mágoa e ressentimento eram sempre, sem excepção, causados por mulheres. Dizer que foi duro para mim descobrir que após estes anos todos ainda culpava a minha mãe pelo que me tinha feito na infância é colocar o sentimento de uma maneira muito suave. Foi brutal. Saber que andei mais de trinta anos a criar situações em que era lesado apenas para poder dizer à minha mãe, vezes sem conta, “tu comigo erraste!”
Depois fiz o processo de descobrir o presente no evento. Aprendi que nunca temos nada, nunca somos donos de nada. Na hora menos esperada a vida encarrega-se de no-lo provar. Aprendi que tudo o que preciso para viver está em mim e não fora de mim. Aprendi que apenas eu sou responsável pela minha vida e que ficar à espera de um salvador, que alguém me venha salvar, é uma ilusão.
E depois o perdão. Porque enquanto não formos capazes de perdoar à pessoa que causou a dor nunca estaremos livres da toxicidade nos nossos corpos. O ressentimento, a raiva e o ódio são as toxinas que criam os cancros. São as toxinas que nos gritam “aprende a lição ou morre”. Sinto muito por colocar as coisas desta forma se a pessoa que estiver a ler isto tem um cancro. Mas é o que eu vejo constantemente. Isto não se aplica ás crianças, por vários motivos que não vou discutir aqui.
Como podemos perdoar as pessoas que nos magoaram? Só o conseguimos fazer depois de ver os presentes, as lições, que cada evento doloroso tem para nos oferecer. É impossível perdoar em piloto automático. Temos que fazer o trabalho todo, passar pelas emoções presentes no evento. É a única forma que conheço de o fazer. E depois estaremos livres do evento e da pessoa. Perdoar significa confrontar a pessoa, se ainda for viva, e fazer-lhe saber que está perdoada. E pedir perdão a essa pessoa, mais que não seja porque a mantivemos presa a nós durante muito tempo. Uma coisa que poucas pessoas reparam é que em cada evento doloroso da nossa vida há pelo menos duas pessoas presentes. Uma delas somos nós. E somos nós que estamos sempre presentes em cada evento doloroso da nossa vida. O que queremos aprender com cada um destes eventos? Porque atraímos cada um deles?

(Emídio Carvalho - A Sombra Humana)

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publicado às 02:33



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