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O medo e o desejo são criados no cérebro instintivo, mediados pelo cérebro emocional e negociados pelo cérebro intelectual. Essas estruturas satisfazem a exigência da mente de processar a luxúria, a paixão cega, a raiva, a avidez, o ciúme, o ódio e o nojo. Todos esses sentimentos estão fadados a sobreviver no curso da evolução. A reação de luta ou fuga nos répteis implica um cérebro de circuitos fixos. Os humanos não evoluíram para libertar-se dos mesmos circuitos, ou mesmo para anulá-los (da mesma forma como, por exemplo, a cauda dos primitivos mamíferos encolheu e se transformou num osso na ponta da coluna vertebral).
 
Ao contrário, o cérebro humano vai colocando camadas novas sobre as velhas. (No caso do córtex cerebral, a camada mais externa do cérebro, as camadas são como a cortiça numa árvore. Cortex significa “cortiça” ou “casca” em latim.) Nessa disposição, as camadas se mantêm integradas com as anteriores em vez de serem descartadas. Assim como lembranças de dor e desconforto geram medo, lembranças de prazer e alegria geram desejo. A evolução empurra e puxa ao mesmo tempo. É impossível dizer onde começa o desejo de prazer ou a fuga da dor. Shakespeare podia ter vergonha de sua luxúria, mas não pediu que ela lhe fosse tirada. As emoções que se baseiam no medo e no desejo funcionam lado a lado. Por exemplo, o medo de ser rejeitado pelo grupo social se encaixa no desejo de poder e sexo, sustentando o indivíduo e a espécie ao mesmo tempo.
As emoções nos parecem tão urgentes quanto os instintos, mas um novo desenvolvimento está ocorrendo. Freud chamou os impulsos instintivos de id porque eram primitivos demais para serem nomeados. As emoções têm nome, como inveja, ciúme e orgulho. Quando um poeta declara que o amor é como uma rosa vermelha, está expressando nosso fascínio por dar nome às emoções e construir um mundo ao redor delas. Portanto, as emoções são um passo na direção da consciência.
O conflito entre instintos e emoções nos ensina que os humanos evoluíram – com muito sofrimento e confusão – para aprender. Precisamos estar atentos a nossos medos e desejos. Eles não têm um controle inerente, nem o cérebro reptiliano. O complexo sistema límbico é nosso centro das emoções, mas também de coisas obscuramente relacionadas, como a memória de curto prazo e o olfato. Um perfume ou o cheiro de chocolate são suficientes para despertar lembranças (no caso do escritor Marcel Proust, foi o ato de mergulhar uma madeleine no chá), porque o sistema límbico une olfato, memória e emoção. Ele se desenvolveu depois do cérebro reptiliano, mas ainda assim bem cedo. Todos os animais de quatro patas, inclusive os primitivos anfíbios, parecem ter um sistema límbico desenvolvido. As emoções, ao contrário do olfato, podem ser um desenvolvimento recente. Ou talvez elas não tenham podido existir até que a linguagem lhes desse nomes.
Nossa tendência de ver o cérebro reptiliano como primitivo é um erro. Podemos “cheirar” um problema com uma certeza de fazer inveja ao cérebro racional. O cérebro reptiliano não tem dúvidas ou arrependimentos. Ninguém fala da sabedoria do impulso sexual, mas nossas emoções instintivas são definitivamente sábias. Elas representam o tipo de consciência que nos leva à felicidade. Antes que o termo nerd fosse inventado, as universidades começaram a atrair jovens brilhantes e obsessivos por computadores. Eles passavam dias e noites criando códigos. A era digital foi construída em muitas madrugadas de estudo. Mas então houve uma rápida reviravolta nesses jovens, e, quando perguntaram ao reitor de uma importante universidade por quê, ele suspirou: “Não conseguimos impedir que eles atravessassem o pátio. Assim que esbarravam numa garota, desapareciam”.
A perda dos códigos binários foi um ganho para a humanidade. Com a emergência do cérebro emocional, a consciência começou a libertar-se da sobrevivência física. As várias áreas do sistema límbico, como o hipocampo e a amídala, foram precisamente mapeadas e podem ser relacionadas a todas as funções através de um exame de ressonância magnética. Se essa precisão tenta os neurocientistas a afirmar que o sistema límbico nos usa para seus propósitos, assim como faz o instinto, essa alegação deve ser contestada. Como evoluiu a partir da sobrevivência, o cérebro instintivo precisa nos usar. Quem gostaria de ter que pensar em digerir a comida após cada refeição? Quem gostaria de ver o carro da frente perder o controle e ter que pensar um instante antes de reagir? Grandes áreas da vida devem estar no piloto automático, e estão.
Mas as emoções, mesmo quando brotam espontaneamente, significam algo, e o significado é um departamento que todos nós queremos controlar. “Não posso evitar. Toda vez que vejo o final de Casablanca, eu choro”, alguém pode dizer. Sim, mas escolhemos ir ao cinema, e uma das razões para isso é poder sentir fortes emoções sem se arriscar. Tudo bem um homem chorar com o fim de Casablanca ou quando o cão de Meu melhor companheiro leva um tiro, embora se acredite que homens não choram. Os filmes são o paraíso do sistema límbico – não porque o cérebro precise chorar, mas porque, em determinadas circunstâncias, nós precisamos chorar. O cérebro emocional não tem emoções. Nós temos emoções quando o usamos.
Ligado à fase emocional do cérebro, porém, há um novo conflito, ao qual já nos referimos: a memória. A memória é a maneira mais poderosa de fazer uma emoção se fixar e, uma vez arraigada, é difícil removê-la. Já discutimos a permanência de uma emoção, a ansiedade. O carma, ou samskara, em sânscrito, é a impressão deixada por experiências passadas. É uma palavra estrangeira, mas toda a tradição espiritual do Oriente tem raízes em um dilema universal: a luta para romper velhos condicionamentos, que criam sofrimento no presente pela lembrança da dor passada. O processo de impressões cármicas é um aspecto inextricável do cérebro emocional.
Acreditar ou não em carma não faz diferença. Estamos depositando impressões em nosso sistema nervoso o tempo todo. Cada gosto ou desgosto (“Odeio brócolis”, “Adoro aspargos”, “Eu o odeio”, “Eu a amo”) se deve a impressões passadas. Isso é mais do que processamento de dados. Qualquer um que compare o cérebro humano a um computador deveria saber responder se os computadores gostam de brócolis ou odeiam o fascismo. As emoções orientam as preferências, e os computadores não têm emoções. Como esse acúmulo de impressões se faz sem esforço, poderíamos supor que seria fácil removê-las. Às vezes é. Se você diz algo errado, pode se corrigir dizendo “Esqueça o que eu disse”, e seu ouvinte esquecerá. Mas impressões duradouras não podem ser removidas nem com muito esforço. O trauma permanece. Como ainda entendemos pouco a memória, seus sinais não podem ser detectados no sistema límbico. E, no entanto, lembranças vívidas se fixam por natureza.
Precisamos ter uma vida emocional aberta e valorizar nossos sentimentos. Mas, quando a emoção tem supremacia, precisamos evoluir mais. Em particular, acreditamos que devemos ser testemunhas de nossas emoções. Isso não significa que se deva dar um passo atrás e observar enquanto enlouquecemos ou entramos em pânico. As emoções seguem seu curso; como os instintos, elas querem o que querem. Mas não se deve alimentá-las em excesso. A raiva, por exemplo, já é por si só forte e inflamável. Não precisa que se jogue querosene em cima dela. Observando a raiva, criamos uma certa distância entre nós e nossa emoção. Se você faz uma observação como “Esse sou eu ficando com raiva”, o “eu” e a “raiva” ficam separados. Nesse pequeno ato de distanciamento, a emoção perde força. Sempre temos a opção de usar qualquer parte do cérebro como parceira. As condições da parceria somos cada um de nós quem estabelece.
Como acontece com qualquer fase do cérebro, as emoções podem se desequilibrar. Quem for muito emocional, perderá a perspectiva. Seus sentimentos o convencem de que são a única coisa que importa. Emoções excessivas são exaustivas e enfraquecem todo o sistema mente-corpo. Se a pessoa der vazão a suas emoções por muito tempo, pode se tornar sua prisioneira.
Mas se controlar demais suas emoções, perderá contato com sua vida emocional. Isso cria a ilusão de que só o intelecto basta. Ignorando o poder de uma emoção reprimida, corre-se o risco de ter comportamentos inconscientes. Reprimindo as emoções, o indivíduo pode ficar sujeito a doenças.

(DEEPAK CHOPRA, RUDOLPH E. TANZI - SUPERCÉREBRO)
RECUSA NA EXTERIORIZAÇÃO DOS SENTIMENTOS

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publicado às 23:43



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