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Remédios e doenças

por Thynus, em 23.01.17
“Nos últimos anos, as empresas farmacêuticas aperfeiçoaram um novo e eficiente método de ampliar seus mercados. Em vez de promover medicamentos para tratar doenças, começaram a promover doenças para seus medicamentos”. A nova estratégia “é convencer os americanos de que só há dois tipos de pessoa: as que sofrem de condições clínicas e exigem tratamento medicamentoso e aquelas que ainda não sabem disso”.
(Marcia Angell)

 
Remédios não curam doenças da alma
A ideia de doença é conhecida em todas as culturas e idiomas; desde tempos imemoriais, sempre houve uma palavra de sentido equivalente em cada língua que remete a uma “ausência de bem-estar”, como o substantivo “doença”,(*) ou seja, dor, desconforto, moléstia, enfermidade, padecimento físico ou psíquico. Com o uso da palavra “doença”, diz-se que o estado de saúde da pessoa à qual o termo é aplicado não é como deveria ser ou como normalmente se esperaria que fosse. Doença indica uma anormalidade no estado de saúde da pessoa doente.
Em seu uso contemporâneo, no entanto, a palavra “doença” (enfermidade, moléstia) tende a ser adotado em alternância com o conceito de “condição médica, ou condição clínica”. Este último pretende ser apenas um equivalente do primeiro, mas agrega um significado furtivo e crucial que muda toda a questão da “ausência de bem-estar” para um novo registro: de uma condição a uma ação que tal condição suposta ou declaradamente impõe. De fato, o novo conceito atribui à ação realizada ou prestes a se realizar o poder de definir a condição que se deve combater: hoje, quando os médicos entram em cena, é que o drama passa a representar uma doença.
Desse modo, o conceito de “condição médica ou clínica” antecipa o problema que, não fosse por isso, estaria sujeito a debate e talvez a controvérsias: o problema de decidir se a condição em exame está desenvolvida e é tratável por intervenção médica. Presume-se que já se decidiu (“é evidente”) que se deve chamar ou consultar um médico; que é preciso fazer exames clínicos; que se devem prescrever, comprar e consumir medicamentos: e que é preciso seguir um tratamento. Confirma-se ainda, por circunlóquios, que as profissões de médicos e farmacêuticos devem deter o controle do corpo e do espírito da pessoa doente.
Quando identificamos a doença à “condição médica ou clínica” (e assim, indireta mas forçosamente, uma projeção do ato de intervenção médica), o fato de estar doente é definido pela circunstância de a pessoa estar sujeita a, ser qualificada para e necessitar de ação médica. “Estar doente” agora significar pedir ajuda de um médico; e um médico que proporciona ajuda determina que a condição é de doença. O que nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? Sobretudo, qual dos fatos é a galinha e qual é o ovo?
Numa análise que se desenvolveu em três grandes estudos na New York Review of Books (15 jan 2009), Marcia Angell afirmou que, “nos últimos anos, as empresas farmacêuticas aperfeiçoaram um novo e eficiente método de ampliar seus mercados. Em vez de promover medicamentos para tratar doenças, começaram a promover doenças para seus medicamentos”. A nova estratégia “é convencer os americanos de que só há dois tipos de pessoa: as que sofrem de condições clínicas e exigem tratamento medicamentoso e aquelas que ainda não sabem disso”.
Gostaria de salientar, porém, que não foram necessariamente as empresas farmacêuticas que inventaram e desenvolveram essa nova estratégia. É mais provável que elas tenham se orientado por uma tendência universal do marketing. Hoje, a oferta de novas mercadorias não segue a demanda existente: é preciso criar demanda para mercadorias que já foram lançadas no mercado e, portanto, seguir a lógica de uma empresa comercial em busca de lucros, e não a lógica das necessidades humanas em busca de satisfação. Essa nova tendência só se realiza plenamente se nossa cabeça tiver sido impregnada da ideia de que não há e não pode haver limites ao nosso nível de tentativas de autoaperfeiçoamento e satisfação proporcionadas por incrementos desses níveis. Por mais excelente que seja sua condição física atual, sempre é possível torná-la ainda melhor.
Se o estado de saúde não tem apenas um nível inferior, mas também um nível superior – o que nos permitiria relaxar quando ele fosse atingido –, a qualidade do bom condicionamento físico, que passou a substituí-lo ou deslocá-lo para uma posição secundária em nossas preocupações atuais, não tem limites: ao contrário dos cuidados com a saúde em seu sentido tradicional e ortodoxo, a luta pelo condicionamento físico jamais acaba. Nunca deixarão que relaxemos nossos esforços. Por mais condicionado que você esteja, sempre poderá melhorar; seu grau de satisfação sexual sempre poderá será melhor do que hoje, os prazeres, mais prazerosos, os deleites, mais deleitosos.
A inventividade das empresas farmacêuticas reduz-se ao controle e direcionamento da autoridade e da força persuasória da preocupação com a saúde no sentido de uma busca cada vez mais intensa de aptidão física e de autoconfiança – luta que nós, consumidores numa sociedade de consumidores, fomos impelidos, persuadidos e treinados a travar. Já se tornou parte de nossa filosofia de vida – ou melhor, de nosso senso comum – que acatar a via para melhorar a aptidão física e ter mais autoconfiança passa pelo estudo atento das novas peças publicitárias e termina nas lojas. Integrando nosso senso comum, isto é, fazendo parte da lista de coisas que “todo mundo sabe”, “todo mundo aceita” e “todo mundo faz”, esses truísmos se converteram no mais importante e inesgotável recurso das empresas em sua luta por lucros cada vez maiores.
Não importa muito se a moléstia contra a qual os novos medicamentos prometem agir é séria ou não, se suas consequências são graves, ameaçadoras e causam profundo desconforto para suas vítimas. O que interessa é se a condição médica é comum, e, portanto, se o número de potenciais consumidores da droga é grande e garante boa expectativa de lucros para a empresa. De acordo com esse princípio, as afecções com que a maioria de nós está acostumada a lidar cotidianamente (seja azia, tensão pré-menstrual ou até aquele comuníssimo déficit de autoconfiança que ressurge volta e meia como timidez) nos últimos tempos foram caracterizadas como doenças. Receberam designações eruditas, quase sempre estranhas e incompreensíveis; por isso, soam aos nossos ouvidos como palavrões funestos (a azia, por exemplo, tende a ser designada pelo médico ou farmacêutico como “doença de refluxo gastroesofágico”), a reclamar urgente atenção médica.
Christopher Lane descreveu a espetacular trajetória médica e farmacêutica recente de um dos aspectos mais comuns da vida humana: a experiência da timidez prolongada ou momentânea (quem de nós, em sã consciência, pode jurar que nunca se sentiu tímido, cauteloso ou inseguro?). Pois essa sensação desagradável, tão comum e frequente, foi rebatizada na prática médica com o pomposo nome de “transtorno de ansiedade social”. Em 1980, essa perturbação foi citada no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – ainda sob a denominação de “fobia social”, agora abandonada – como doença “rara”. Em1994, foi reclassificada como “extremamente comum”. Em 1999, a GlaxoSmithKline, empresa gigante do setor farmacêutico, lançou uma campanha publicitária de milhões de dólares para promover sua marca de antidepressivo Paxil, que prometia aliviar e inclusive acabar com aquela “grave condição médica”, como hoje anuncia a propaganda do remédio. Lane cita Barry Brand, diretor de produção do Paxil, que declarou: “O sonho de todo profissional de marketing é descobrir um mercado não identificado ou desconhecido e desenvolvê-lo. Foi o que logramos fazer com o transtorno de ansiedade social.”
Claro que, nesses casos, estamos pagando pela promessa de libertação de um medo ou ansiedade específicos, mas raramente o medicamento que compramos nos torna, em geral, menos temerosos e menos propensos à ansiedade. Uma vez aceito que, para toda afecção e desconforto causados pelos problemas e atribulações normais da vida cotidiana, existe (deve haver, haverá) um remédio comprável na farmácia mais próxima, a possibilidade de frustração com os medicamentos “que melhoram a qualidade da vida” permanece como fonte de infinito desapontamento para seus consumidores e fonte de infinitos lucros para vendedores, distribuidores e publicitários.
Cada nova droga introduzida para substituir a anterior, já desacreditada, tende a ser vendida por um preço mais alto (segundo o padrão dos brinquedos na distopia de Aldous Huxley, O admirável mundo novo), aumento que não é justificado pela maior eficácia.
 
(Zygmunt Bauman - 44 Cartas do Mundo Líquido Moderno)
 
(*) A origem da palavra “doença”, em português, é o termo latino dolentia, “dolência”. (N.T.)

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