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Religião e espiritualidade

por Thynus, em 21.07.16
Você é religioso? Se for, o é por alguma carência séria em você, diriam Freud, Marx e Nietzsche. De certa forma, somos todos carentes porque somos mortais, limitados, assustados e frágeis psicológica e fisicamente. A carência à qual se referem os homens de conhecimento citados acima é, antes de tudo, uma carência cognitiva, carência de conhecimento. Diante da agonia da finitude e do fracasso iminente da vida que acometem a todos em algum momento, o religioso seria aquele que “não segura a onda” e busca socorro. Essa ideia de que ser religioso implica alguma forma de carência cognitiva é comum entre pessoas que se julgam mais cultas. Tenho dúvidas de que isso seja uma verdade evidente. A maioria das pessoas que conheço que não acreditam em Deus, acredita em bobagens como alimentação balanceada, espíritos indígenas, ciência, história, política ou em si mesmas. Pessoalmente, julgo a crença em si mesmo a mais brega e ridícula de todas.
O século XX foi mortífero não em nome de Deus, mas em nome da política. Esse é um fato que, muitas vezes, escapa aos nossos péssimos professores de história que ensinam bobagens para nossos alunos. Na minha experiência pessoal, acadêmica ou na mídia, não me parece que pessoas não religiosas sejam mais sábias do que pessoas religiosas. Muita gente para de crer em Deus ou deuses e passa a crer em si mesma (como disse acima), o que acho uma bobagem ainda maior se levarmos em conta a fragilidade de nossos pequenos “eus”.
O que é religião? Sinto dizer que a resposta não é uma evidência. Para especialistas em religião, as religiões históricas são tentativas mais ou menos organizadas de modo prático, e não apenas teórico, de dar sentido à vida. Só funcionam se você estiver submetido, de fato, a elas em seu cotidiano – esse é o sentido de “prático” ao qual me referi acima. Por exemplo, a religião só funciona se a sua religião decidir o que você come ou não, quando pode ou não comer, quem pode ou não comer quem, o modo “justo e santo” de comer alguém, por exemplo, após o casamento, como deve educar seus filhos, quem está certo e errado em sua conduta, como organizar seu calendário (dividindo-o em dias sagrados e profanos). Enfim, se a religião estiver de alguma forma incorporada aos seus atos cotidianos e aos atos das pessoas à sua volta. Hoje em dia, algumas pessoas “mais cultas” pensam que se pode escolher uma religião assim como quem escolhe um prato num menu (a palavra espiritualidade acabou por flertar com essa ideia de uma “religião light”). Não, religião só tem sentido se ela submeter você ao conjunto de normas, ritos, rituais litúrgicos que ela carregar como doutrinas inquestionáveis. Fazer ioga uma vez por semana não dá a você nenhuma ideia do que é ser de fato religioso, tampouco uma estadia de um mês na Índia. O modo de vida contemporâneo prima por crer que tudo pode ser vivido na forma “mercadoria”, como disse o filósofo Theodor Adorno no século XX. Pensamos que “escolhemos” uma religião como se escolhe uma marca de creme na prateleira do free shop. A origem da religião parece estar na pré-história, como tudo o que é humano. O que os especialistas dizem é que uma gama de comportamentos ou fatos aleatórios podem ter, com o tempo e a tendência à organização que caracteriza a inteligência do Homo sapiens, de “se juntar” para dar corpo ao que chamamos de religião. Podemos elencar alguns desses comportamentos ou fatos, começando pelos fatos.
* Fatos: tempestades destrutivas; sons vindos de não sabemos onde, como o céu ou o subterrâneo; pestes e doenças; invasões de outros bandos, animais perigosos e temidos identificados como “espíritos”; sonhos assustadores com figuras estranhas e pessoas mortas; a escuridão do mundo à noite; a regularidade da natureza – o que dava, até hoje, a sensação de uma inteligência por trás dela, entre outros eventos.
* Comportamentos: sabedorias curativas advindas do conhecimento de ervas; previsões de fatos que acontecem, como invasões, tempestades, pestes e doenças, por isso mesmo parecem acertos de premonição; figuras carismáticas e estranhas.
Vale dizer uma palavra sobre essa coisa chamada “espíritos”. O que comumente chamamos de espíritos são vultos, espectros, figuras oníricas a quem atribuímos vida própria e dramaturgia específica. O fato de sonharmos, por exemplo, com mortos nos levou a crer que esses mortos ainda viviam em algum outro lugar. A força dessa hipótese reside no fato de que, ainda hoje, muita gente, quando sonha com entes queridos mortos, continua acreditando que esses entes queridos mortos permanecem vivos em algum outro lugar. O próprio kardecismo, uma das sínteses religiosas mais simplistas que já foram inventadas pela imaginação humana acerca desses espíritos, é uma evidência de nossa capacidade de construir mitos a partir dessa tendência a levar a sério sonhos com mortos ou qualquer outra experiência envolvendo essa suposição de manifestação de vida depois da morte.
O desconhecido e inexplicável (fato que ainda hoje permanece existindo) pode disparar nossa imaginação com facilidade. O melhor método para entender isso é nos imaginar 100 mil anos atrás e supor como agiríamos nessas situações sendo como somos hoje, porque somos “os mesmos”. O fato de podermos nos colocar no lugar de nossos antepassados nos torna capazes de entender grande parte da vida na pré-história.
Se pensarmos com cuidado, veremos que as religiões são a associação de elementos como os descritos, acrescidos de ritos, rituais, liturgia, narrativas míticas, textos sagrados e organizações sociais e políticas ligadas a essa “trama” de elementos. Com o passar do tempo, a “trama” se sofisticou, fez filosofia e teologia, teve códigos de conduta, reis e sacerdotes, mas a raiz permanece na mente desse Homo sapiens que caminha sobre a Terra sem saber nada de si mesmo.
Uma pergunta que se faz sempre é a razão para que, mesmo depois de tantos “avanços científicos”, a maior parte da humanidade permaneça religiosa em grande medida, ainda que sem ter uma grande adesão estrita (os fundamentalismos não chegam a ser maioria). A resposta mais direta é que os “avanços científicos” têm pouco impacto nos afetos a ver com nossa carência (cognitiva, morte, dor, sofrimento, fracassos, enfim, nós). Mesmo vivendo mais (o que pode criar mais angústias), e com maior qualidade material de vida, essas questões não são respondidas. Afinal, por que sofremos sem merecer? Por que o justo sofre? Lembra o nosso pequeno coro de demônios?
Alguns especialistas dizem que as religiões não cedem diante dos “avanços científicos” porque estão enraizadas em nosso “cérebro atrasado” ou “ancestral”, pouco racional e mais afetivo. A ciência, então, não teria nenhum efeito nesse cérebro habitado por fantasmas. Claro que os crentes respondem à mesma questão dizendo que as religiões não cedem porque existe o mundo sobrenatural, e, portanto, descobrir o átomo ou fazer aviões nada tem a ver com acabar com os deuses ou espíritos. Enfim, não parece que um dia veremos as religiões acabarem porque elas se adaptam, e como a vida é mesmo cheia de dúvidas e inseguranças, o terreno para o sapiens atormentado nunca acabará.
Outra questão importante é: as religiões dizem a mesma coisa? É possível tornar os religiosos todos irmãos no amor e na paz? Sinto muito, a resposta é um claro “não”. Os religiosos têm uma história maior de violência do que de paz, mesmo que em nome do amor de Deus e sua verdade. Quem estuda a fundo as religiões de modo comparativo sabe que elas não dizem a mesma coisa porque, de cara, não falam a mesma língua, e, portanto, seus conceitos e ideias dependem da língua e dos contextos históricos e sociais em que nasceram e se desenvolveram. Quem acha que as religiões dizem a mesma coisa é porque nunca as estudou ou porque tem uma fé religiosa de que, ao final, o bem vencerá. E então vem a pergunta: qual bem? De quem? De qual texto? De qual mitologia? De qual narrativa moral religiosa? Quer um exemplo bem claro disso?
Pense em Jesus. Não existe cara mais legal do que ele. Agora lembre que os cristãos creem que ele seja Deus (pelo menos a maioria “oficial” dos crentes em Cristo, católicos ou protestantes), o que escandaliza judeus e muçulmanos que acreditam que Deus (é o mesmo Deus) jamais “vestiria” um corpo humano. Os cristãos pensam que ele é o Messias que os judeus esperam. Agora, imagine um seminário que reúna judeus e cristãos para discutir o caráter de Messias em Jesus. Penso que o coquetel teria de ser logo servido, porque cristãos acham que os judeus perderam o bonde e não perceberam que o Messias já veio 2 mil anos atrás, e os judeus acham que os cristãos compraram gato por lebre ao tomar Jesus como Messias. A solução é falar da importância do amor e da tolerância entre as religiões, porque discutir teologia vai dar pau. A única forma de fazer as religiões dizerem a mesma coisa é desidratá-las de parte de suas crenças: Jesus = Messias. Nesse caso específico, a comparação deve ser evitada em favor de traços mais éticos como amor, generosidade, aceitação do outro por parte da figura histórica de Jesus. Isso serve para todos os casos. Afinal, devemos aceitar Maomé como o último profeta de Deus? Existe reencarnação ou os kardecistas estão viajando? Quem tem a última palavra na interpretação dos textos sagrados? Deve-se ou não matar bichos e oferecê-los aos deuses? É um Deus só, uma Deusa ou Deuses? Deus é contra matar? No texto bíblico, ele mata egípcios, cananeus, hebreus, filisteus, e por aí vai. A solução contemporânea é optar pelo convívio político de tolerância dentro de uma sociedade que só não aceita que não paguemos a fatura do Visa, e não entrar em detalhes teológicos. Por isso, devemos dizer que Jesus, Buda e Che são todos os mesmos (e lutam pela paz, o que no caso de Che é uma mentira deslavada) e servir o jantar. E daí criarmos uma teologia que diga tudo e nada ao mesmo tempo, para não criar conflitos. Logo, as religiões não dizem a mesma coisa, nem sempre elas pregam o amor a todos porque os homens não podem amar a todos o tempo todo.
Outra saída é afirmar que Deus é sempre um só, e que os místicos sabem disso, porque entram em contato com Ele para além das palavras. Ainda assim, nem todos os místicos dizem a mesma coisa, pois uns falam do Deus pessoal, de Jesus; outros, os orientais (ou alguns cristãos “hereges” como Mestre Eckhart no século XIV, ou cabalistas da Espanha medieval), falam de um “nada” acima de Deus ou dos deuses.
Mas a simplificação a serviço de uma religião menos conflituosa criou um “produto” que se chama espiritualidade, fazendo uso de uma palavra francesa surgida, até onde se sabe, no século XVII, que significava a vida do espírito humano em contato com Deus. O que vem a ser essa tal espiritualidade?
A palavra, como acabei de dizer, na sua origem fala da vida do espírito em contato com Deus. Na Bíblia hebraica (que os cristãos chamam de Velho Testamento), Deus dá o espírito ao homem para que por ele possamos nos comunicar com Ele, Deus; portanto, é uma dimensão superior que só homens e mulheres têm. Na Grécia, espírito era só um ar (pneuma) que saía pela boca na hora da morte (segundo o famoso filósofo grego Epicuro, que viveu entre 341 e 270 a.C.). Outros, como Aristóteles (384-322 a.C.), falavam em nous (intelecto), mas essa ideia dele foi assimilada por cristãos, judeus e muçulmanos como “espírito”. No início do cristianismo, gnósticos falavam em pneumáticos como os verdadeiros cristãos, porque tinham pneuma, espírito, muito mais próximo da ideia hebraica. A palavra espiritualidade em seu uso contemporâneo e de senso comum (ou seja, usada por gente comum e não especialistas) significa ter “um pouco” de religião, mas não muito. O bastante para você não se sentir um materialista que só acredita em dinheiro e átomos. E para mostrar que você é uma pessoa um pouco profunda. Na prática, significa quase nada. Talvez ler uma revista sobre natureza, ter uma alimentação balanceada, praticar turismo selvagem ou budismo light para ricos e famosos. Mas essa forma de espiritualidade de consumo serve pouco na hora do vamos ver, porque não tem aquele cotidiano de que falei antes e se faz necessário para a religião “fazer efeito”. A vantagem dela, a leveza e a falta de compromisso institucional, que tanto atraem os mais ricos e famosos, na hora do vamos ver, é sua fraqueza. Essa espiritualidade contemporânea vale tanto quanto o vento que passa.
Existe algo mais a ser dito sobre religião e espiritualidade, mas isso merece um capítulo à parte, o seguinte.

   (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos) 

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