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Decidi fazer um capítulo à parte opondo religião a ceticismo porque acho que a principal crítica à religião, seguindo a tradição de Marx, Nietzsche e Freud, é nos lembrar como picaretas roubam o dinheiro das pessoas que creem neles. E isso, devo dizer, nada tem a ver com pessoas que vivem suas crenças de modo honesto e dedicado. Que fique sempre claro que não acho ateus mais ou menos inteligentes do que crentes, nem mais ou menos morais. Mas sou obrigado a reconhecer que alguns crentes são mais facilmente tomados por picaretas do espírito do que aqueles que são, por temperamento, mais descrentes no sobrenatural. A maioria dos ateus militantes sofre de outro mal: acreditam nos avanços científicos como resposta à vida, outra ilusão, mais complexa. Não vou tratar dela aqui; talvez, se me der vontade, mais à frente.
O que é um picareta do espírito? Já digo, mas, antes, vamos esclarecer o que é ceticismo.
Ceticismo é um modo de ver o mundo nascido na Grécia antiga que ensina você a duvidar de tudo. A palavra vem do verbo grego skopein e significa observar, ver com atenção. Um cético pode ser muitas vezes um pentelho, sobretudo se “acreditar no ceticismo” como última resposta a tudo. Afora esses chatos, o ceticismo é, sim, uma prática muito importante na filosofia e na vida cotidiana, porque pode ajudar você a escapar de muitos picaretas, espirituais, políticos, afetivos e comerciais.
O ceticismo é um método de confrontar teorias e vê-las ruir uma a uma, o que cria em você uma tendência a duvidar de tudo de uma vez. Cuidado, porém: um dia você pode encontrar alguma teoria que o espan te. Uma certa leveza de espírito é necessária ao cético; do contrário, ele pode virar um adolescente boçal que acha que é a primeira pessoa inteligente na face da Terra. Em alguns assuntos, a dúvida parece se sustentar com facilidade, e um deles é o campo desses picaretas do espírito. O que é mesmo um picareta do espírito? Você já deve ter visto um.
São gente que diz que pode salvar você de alguma coisa, mas quando fica doente vai ao médico e diz que o guia espiritual avisou a ele que agora era para valer. Risadas? Se você rir, eles bem que merecem. Em geral, pedem dinheiro para você de forma melosa ou dizem que uma grande ameaça ronda você. Ou que o espírito X, sábio e antigo, pediu a você essa grana para uma causa maior (grana para o picareta do espírito pagar as contas dele). Uma vez tendo sentido medo de que ele esteja dizendo a verdade, você está perdido. A armadilha é dar a ele uma ponta de credibilidade. Você estará perdido. Repito para você lembrar de mim na hora em que um desses picaretas aterrissar a sua frente. Preste atenção no que eu vou dizer.
Existem três grandes áreas de choque na vida. 1) Saúde e doença, 2) dinheiro e trabalho e 3) amor e família. Quase tudo pode ser incluído nessas áreas, e elas, pelo menos uma delas, sempre dá problema, sendo a saúde a definitiva. Esses picaretas do espírito, assim como os xamãs pré-históricos faziam, anunciam coisas que sempre podem acontecer: viagem a trabalho, doenças na família, oportunidades de grana, traições afetivas. Os coitados dos crentes que os seguem nunca percebem que nada muda na vida que possa ser provado como tendo sido resultado da ação desses picaretas. Mas quando algo de fato acontece (sempre acontece, porque essas são áreas de choque na vida), você, pobre crente, acredita que o aviso foi uma forma de proteção que os guias desses picaretas lhe deram. Aí, de novo, você estará perdido. Se algo de ruim acontece, eles avisaram. Se eles disseram para você gastar uma grana para evitar que esse algo de ruim aconteça, quando o “trabalho” feito não funciona, os picaretas do espírito dizem que não funcionou porque faltou algo em você, ou no material usado (ou seja, você errou em algo), ou aquilo de ruim tinha de acontecer para a sua evolução espiritual.
Esse argumento de evolução espiritual serve para tudo, porque ninguém sabe onde ela começou. Uns dizem que começou quando erámos pedra, mas como pedras não falam, não temos como entrevistá-las e checar a informação sobre nosso parentesco com elas. Talvez seja por isso mesmo que elas servem: porque não temos como checar a informação! Tampouco sabemos quando a evolução espiritual acaba. Alguns dizem que viramos luz, mas como luz não fala... E então todo o ciclo da impossibilidade de checar o que eles falaram se repete ao infinito. A chave do picareta do espírito é dizer o que todo mundo sabe que pode acontecer e capitalizar para si o que de fato acontece ou terceirizar tudo aquilo que ele errou ao dizer que ia acontecer. O crente parece esquecer essas coisas óbvias quando cai sob a “proteção” do picareta do espírito.
E no meio da tal evolução espiritual cabe tudo. É evidente que temos coisas a aprender na vida, mas isso nada tem a ver com picaretas espirituais que cobram grana de você e em troca vêm com historinhas que servem só para você continuar dando grana a eles. Algumas pessoas sustentam esses picaretas durante anos, compram casas para eles, carros, roupas, dão viagens. Eles testam você e, quando percebem que você tem grana e fé neles, o céu é o limite do abuso que sofrerá. Para ser um picareta do espírito você precisa ter algum talento especial. No mínimo ser observador, manipular bem as três áreas de choque às quais me referi e entender um pouco de psicologia humana para saber que somos uns desgraçados amedrontados, carentes, abandonados, e que isso se vive no dia a dia, com os pais, os filhos, os cônjuges, os colegas de trabalho. Um picareta do espírito, em geral, é uma pessoa minimamente encantadora e que domina alguma linguagem tradicional, que pode vir da África (esses são bons porque também metem medo nos desgraçados por causa de coisas conhecidas como vodu – o que necessariamente não tem a ver com o nosso aqui no Brasil), da Austrália (bem na moda) ou mesmo da Amazônia (para os mais naturebas e que não falam inglês). Quando você vir uma vítima de um picareta do espírito, lembre que isso é préhistórico. E deixe-me perguntar uma coisa: você já morreu numa grana com um desses picaretas? Que pena, quem mandou ser bobo.
Ser um pouco cético ajuda nessas coisas. Mas, antes de tudo, se pergunte: por que esses picaretas não conseguem resolver a própria vida e sempre precisam da sua ajuda para manter a picaretagem funcionando?

 (Pondé, Luiz Felipe - Filosofia para corajosos) 

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