Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Receita para mal de amor

por Thynus, em 04.07.16
.
Não despertes o desgosto adormecido, de Michal Barteczko
Meu amigo tem um amigo que está apaixonado.
Está amando e pedindo socorro, porque ao mesmo tempo em que se sente luminosamente dono do mundo, sabe-se a mais frágil das criaturas. Está meio desorientado. Às vezes até acha que está enfermo. O seu dia a dia não é mais o mesmo. Por isso, pede um remédio. Pediu-me, como se pede ao farmacêutico na esquina, que lhe indicasse alguns poemas, única poção capaz de minorar seu mal de amor.
Eu teria que fazer um diagnóstico mais acurado. Encontrar-me com o paciente, fazer-lhe umas quantas perguntas, devido à responsabilidade da profissão. Mas não foi possível marcar hora, tomar o pulso, a pressão, ver como anda seu abalado coração. Como o pediatra acordado alta noite por mães aflitas, a receita vai ter que ir por telefone, ou crônica, e aguardar que a dor passe. Sugeri ao amigo: seria melhor que o amante sofredor se internasse para ler os poemas de amor de Camões, Drummond, Shakespeare, Vinicius, Paul Éluard e Neruda. Mas reconheci que nem sempre os planos de saúde garantem isto. E nem todos têm uma portentosa farmácia em casa. Então, perguntei: “Que idade tem o paciente?” “Já é um homem maduro”, respondeu.
Nesse caso é mais grave, pensei. Então leia, de Drummond, o poema “Campo de flores”, que começa assim: “Deus me deu um amor no tempo de madureza,/ quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme./ Deus — ou foi talvez o Diabo — deu-me este amor maduro,/ e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.” E por aí o paciente vai sentir que as antigas manhãs voltaram a sorrir para ele, que ele acha que merece mesmo esse autor, apesar da angústia que lhe traz. E há de concordar. “Mas, porque me tocou um amor crepuscular/ há que amar diferente”.
Contudo, o meu amigo preocupado me adverte: “Olha, o caso dele é meio grave, porque está pensando até em se matar”. Bem, nesse caso, digo, o remédio drummoniano tem que ser outro, é o poema. “Não se mate”, que ironicamente começa assim: “Carlos, sossegue, o amor/ é isso que você está vendo:/ hoje beija, amanhã não beija,/ depois de amanhã é domingo/ e segunda-feira ninguém sabe/ o que será./ Inútil você resistir/ ou mesmo suicidar-se./ Não se mate, oh não se mate,/ reservese todo para/ as bodas que ninguém sabe/ quando virão,/ se é que virão”.
A seguir, diz-me que seu amigo depois que se apaixonou ficou meio esquisito. Não está nem aí. Fala-se com ele uma coisa, ele responde outra. Não há visita do Papa nem eleição que lhe interesse. Esclareço que isso é normal em tais casos. Camões diz: “...fico perguntando aos ventos amorosos, que respiram da parte donde estais, por vós, Senhora;/ às aves que ali voam, se vos viram/ que fazíeis, que estáveis praticando/ onde, como, com quem, que dia e hora?”
E acrescento que não se desespere mais do que o necessário, porque o amor, segundo outra fórmula da farmacopeia amorosa de Camões, “é um fogo que arde sem ver,/ é ferida que dói e não se sente/ é um contentamento descontente/ é dor que desatina sem doer,/ é um querer mais que bem querer,/ é um andar solitário por entre gente,/ é um nunca contentar-se de contente,/ é um cuidar que ganha em se perder,/ é querer estar preso por vontade,/ é servir a quem vence, o vencedor,/ é ter com quem mata lealdade./ Mas como causar pode seu favor/ nos corações humanos amizade/ se tão contrário a si é mesmo o amor?”
No caso de o apaixonado sentir que o destino lhe foi atroz, porque não permitiu que conhecesse sua amada há mais tempo, quando era jovem, então não estará só. Um poeta mineiro — pouco conhecido —, Emílio Moura, tem apaziguantes pomadas para tal situação: “Por que me roubaram tanto tempo? Por que não te conheci menina?/ Por que não te conheci quando ias para o colégio?/ Por que não te conheci no momento terrível da revelação da vida?”
Isso de querer voltar à infância dos sentimentos é legítimo, quando se ama. Bandeira também considera isto em “O impossível carinho”: “Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo./ Quero apenas contar-te a minha ternura/ Ah se em troca de tanta felicidade que me dás/ Eu te pudesse repor/ — Eu soubesse repor—/ No coração despedaçado/ As mais puras alegrias de sua infância!”
Pode dar-se que o amante tenha ímpetos de escrever à sua amada. E tenha vergonha de lhe mandar os versos. Nesse caso, pode mandá-los anonimamente, ou simplesmente copiar aquele soneto de Felix Arvers, que antigamente se sabia, no qual o tímido poeta dizia: “Tenho n’alma um segredo e um mistério na vida,/ um amor eterno, que num minuto aflora/ uma infeliz paixão que urge escondida/ e que a própria mulher, que me inspirou ignora.” E porque teme que ela descubra quem ele é, resigna-se a imaginar que a amada, “a um tempo honesta e bela/ dirá por certo ao ler meus versos cheios dela./ — Que mulher será esta? — e não compreenderá”.
Nesse ponto, o amigo do amigo apaixonado me pergunta: “E você, poeta, nunca amou?” Eu, pundonoroso, respondo que tenho lido muito a respeito. A rigor não amo melhor nem pior do que ninguém. Do meu jeito amo. Ora esquisito, ora fogoso, às vezes aflito ou ensandecido de gozo. Já amei até com nojo. Coisas fabulosas acontecem-me no leito. Nem sempre de mim dependem, confesso. O corpo do outro é que é sempre surpreendente.
Mas, de qualquer jeito, concluo que o amor é sempre um mistério. E o mistério começa do joelho para cima.
O mistério começa do umbigo para baixo, e nunca termina. E terminei dizendo: “Diga ao seu amigo que aproveite e sofra de amor o mais que puder, porque, como dizia um espanhol renascentista chamado Juan de Encina; ‘Más vale trocar placer por dolores, que estar sin amores’”.

(Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)
Más vale trocar placer por dolores

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:45


Comentar:

Comentar via SAPO Blogs

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

subscrever feeds