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REALMENTE TOCADO, PELO IRREAL

por Thynus, em 26.04.17

Sou um chorão. Raramente consigo ler um livro ou ver um filme sem derramar umas lágrimas. Eu me desarmo todo quando Jimmy Stewart pede a Clarence, em A felicidade não se compra, para que o deixe voltar a viver. No cinema, não consegui suprimir um suspiro embaraçosamente alto quando a Fera, espantada, murmura para a Bela: “Você voltou, Belle; você voltou”. E Bogart, colocando Bergman naquele avião em Casablanca? Sempre bom ter, pelo menos, uns três lenços.

O que não entendo é por que isso acontece. Por que sou tocado quando as alegrias e tristezas não são minhas – nem mesmo reais?

Uma ideia é que, quando estamos imersos em um filme, temporariamente nos esquecemos de que estamos observando uma ficção, mas isso parece difícil de aceitar. Se estou assistindo a um DVD, posso me levantar, fazer uma ligação, depois voltar a assistir e chorar. Ou poderia continuar a comer pipoca enquanto choro. Certamente não faria essas coisas durante momentos de tristeza da vida real. Da mesma maneira, poderia sentir terror quando assisto a Jurassic Park – mas nunca fico tentado a correr gritando do cinema, o que certamente faria se por um breve momento me esquecesse de que esses dinossauros não são reais.

Outra ideia é que somos tocados pela empatia ou compaixão, afinal, eu raramente consigo assistir ao noticiário sem chorar também pela miséria dos outros. Mesmo assim, ao que parece, a pergunta não está respondida. A dor que vejo dessa maneira não é a minha dor, os terríveis eventos mostrados não aconteceram comigo ou sequer experimentei qualquer coisa parecida em minha própria vida, portanto dizer que tenho empatia é dizer que sou tocado, mas não explica por que sou tocado.

E, certamente, não explica por que sou tocado por coisas que não são reais.

Então, não, ninguém é colocado em um avião quando Bogart coloca Bergman naquele avião, e ninguém realmente volta quando Belle, a Bela, retorna. Mas por alguma razão isso não me impede de abrir outra caixa de lenços de papel.

 


(Andrew Pessin - Filosofia em 60 segundos : expanda sua mente com um minuto por dia!)


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publicado às 01:03



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