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RAZÃO X REVELAÇÃO

por Thynus, em 16.09.14
A Filosofia começa dizendo não às crenças e aos preconceitos do senso comum
e, portanto, começa dizendo que não sabemos o que imaginávamos saber; por
isso, o patrono da Filosofia, o grego Sócrates, afirmava que a primeira e
fundamental verdade filosófica é dizer: “Sei que nada sei”. Para o discípulo de
Sócrates, o filósofo grego Platão, a Filosofia começa com a admiração; já o
discípulo de Platão, o filósofo Aristóteles, acreditava que a Filosofia começa com
o espanto.
Admiração e espanto significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro,
através de nosso pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes,
como se não tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios
de comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se estivéssemos
acabando de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos perguntar
o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar também o que
somos, por que somos e como somos.
(Marilena Chaui - "Convite à filosofia")

Então, como sabemos alguma coisa, se de fato sabemos que não sabemos nada?
Durante a Idade Média, essa questão se resumia a saber se a revelação divina superava a razão como fonte de conhecimento humano ou vice-versa.
Um homem cai num poço profundo e mergulha 30 metros antes de conseguir agarrar uma magra raiz que detém sua queda. Sua mão vai perdendo a força e, desesperado, ele grita:
-Tem alguém aí em cima?
Ele olha para cima e vê um círculo de céu. De repente, as nuvens se abrem e um raio de luz brilha sobre ele. Uma voz profunda ecoa:
- Eu, o Senhor, estou aqui. Solte a raiz e eu salvo você.
O homem pensa mais um minuto e grita:
-Tem mais alguém aí em cima?
Estar pendurado por uma raiz tem a tendência de fazer a balança pesar para o lado da razão.

No século XVII, René Descartes preferiu a razão em vez da fonte divina de conhecimento. Isso passou a ser conhecido como colocar Descartes antes da fonte (em inglês, putting Descartes before the source, trocadilho de putting the cart before the horse, ou o carro na frente dos bois).
Descartes provavelmente preferia nunca ter dito "Cogito ergo sum" ("Penso, logo existo"), porque é só isso que todo mundo lembra a seu respeito - isso e o fato de que ele disse isso sentado dentro de um forno de pão. Como se não bastasse, seu "cogito" é constantemente mal interpretado como se quisesse dizer que Descartes acreditava que pensar era uma característica essencial do ser humano. Bom, na verdade, ele realmente acreditava nisso, mas isso não tem absolutamente nada a ver com cogito, ergo sum. Descartes chegou ao cogito por meio de um experimento sem dúvida radical para descobrir se havia alguma coisa de que pudesse ter certeza; ou seja, alguma coisa de que ele não pudesse duvidar. Ele começou duvidando da existência do mundo exterior. Isso é fácil. Talvez ele estivesse sonhando ou delirando. Aí, tentou duvidar da própria existência. Mas, por mais que duvidasse, continuava esbarrando no fato de que era um duvidador. Tinha de ser ele mesmo! Não podia duvidar do próprio duvidar. Podia ter se poupado de muita interpretação errada se tivesse dito apenas "Dubito ergo sum".
Todo juiz criminal norte-americano pede ao júri para imitar o processo cartesiano de busca da certeza, questionando a afirmação da culpa do réu dentro de um padrão quase tão elevado quanto o de Descartes. A questão para o júri não é idêntica à de Descartes; o juiz não pergunta se existe qualquer dúvida sobre a culpa do réu, mas apenas se existe uma dúvida razoável. Porém, mesmo esse padrão mais baixo exige que o júri realize um experimento mental semelhante - e quase tão radical quanto - ao de Descartes.
Um réu estava sendo julgado por assassinato. Havia fortes provas que indicavam sua culpa, mas não havia cadáver. Em seu discurso final, o advogado de defesa recorreu a um truque.
- Senhoras e senhores do júri - disse ele. -Tenho uma surpresa para todos vocês: dentro de um minuto, a pessoa que se presume morta entrará neste tribunal.
E olhou para a porta do tribunal.Todos os membros do júri, perplexos, olharam ansiosamente. Passou-se um minuto. Nada aconteceu. Por fim, o advogado disse:
- Na verdade, inventei essa história do morto entrar. Mas os senhores todos olharam para a porta com expectativa. Portanto, coloco aos senhores que neste caso existe uma dúvida razoável sobre o assassinato e devo insistir que dêem um veredicto de "inocente".
O júri se retirou para deliberar. Poucos minutos depois, voltou e pronunciou o veredicto de "culpado".
- Como puderam fazer isso? - gritou o advogado. - Os senhores deviam ter alguma dúvida. Eu vi quando todos olharam para a porta.
O porta-voz do júri replicou:
-Ah,nós olhamos, mas seu cliente não.

(THOMAS CATHCART, DANIEL KLEIN - PLATÃO E UM ORNITORRINCO ENTRAM NUM BAR ...)

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publicado às 13:46



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