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Razão e crença

por Thynus, em 06.10.16
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A fé precisa ser reforçada pela razão. Quando a fé é cega, ela morre.
 
Se a razão é uma dádiva do céu, e se o mesmo se pode dizer quanto à fé, o céu deu-nos dois presentes incompatíveis e contraditórios.
Denis Diderot   
 
Não afirmo absolutamente que temos “necessidade” de transcendência, como um pensamento meio bobo se compraz em proclamar atualmente — acrescentando naturalmente que se tem “necessidade de sentido”, ou “necessidade de Deus”. Essas fórmulas são calamitosas, pois se voltam imediatamente contra quem as utiliza: não é porque temos necessidade de uma coisa que ela é verdadeira. Ao contrário, há fortes possibilidades de que a necessidade nos leve a inventá-la e, em seguida, a defendê-la, mesmo por má-fé, porque nos apegamos a ela. A necessidade de Deus, segundo esse ponto de vista, é a maior objeção que faço a ele.
(Luc Ferry - Aprender a Viver)
 
 
Um dos ensinamentos mais importantes concedidos pelo Buda é uma afirmação simples e de bom senso, que carrega profundas implicações tanto para a nossa vida em sociedade quanto para a nossa vida espiritual. Os habitantes de um vilarejo questionaram Buda sobre como saber no que acreditar, já que muitos professores e eruditos promulgavam vários sistemas de crença e doutrinas conflitantes entre si. Assim, Buda aconselhou:
* Não acredite em nada apenas porque ouviu.
* Não acredite em nada apenas porque foi dito e repetido por muitos.
* Não acredite em nada apenas porque está escrito nos livros religiosos.
* Não acredite em nada apenas embasado na autoridade de professores e anciões.
* Não acredite em tradições apenas porque elas se mantiveram por muitas gerações.
* Mas, se após a observação e a análise, restar algo que coadune com a razão e que leve ao benefício próprio e de outros, então acate e viva de acordo com isso.[Do Kalamasutra, parte dos sutras Nikaya do cânone Páli, atribuídos ao Buda. Trad. de Kevin O’Neil. The American Buddhist Directory. Nova York: American Buddhist Movement, 1985, p.7]
 
Crença X razão
Os seres humanos têm todo tipo de crenças. A maneira de chegar a elas varia desde o argumento ponderado até a fé cega. Algumas crenças baseiam-se na experiência pessoal, outras, na educação e outras ainda, na doutrinação. Muitas sem dúvida são inatas: nascemos com elas em decorrência de fatores evolucionários. Sentimos que podemos justificar algumas crenças, ao passo que outras nos vêm de “sensações intrínsecas”.
Obviamente, muitas coisas em que acreditamos estão erradas, seja por sua incoerência, seja porque sua incompatibilidade com outras convicções, ou com os fatos. Há 2.500 anos, na Grécia antiga, foi feita a primeira tentativa sistemática de definir algum tipo de base comum para as opiniões. Os filósofos gregos procuraram um meio de formalizar o raciocínio humano fornecendo regras incontestáveis de dedução lógica. Por meio da adesão a procedimentos consensuais de argumentação racional, aqueles filósofos esperavam remover a confusão, o mal-entendido e a disputa que tanto caracterizam os assuntos humanos. O objetivo último dessa concepção era chegar a um conjunto de hipóteses, ou axiomas, que todo homem e mulher razoáveis aceitassem, e do qual decorreria a resolução de todos os conflitos.
É preciso dizer que esse objetivo nunca foi atingido, mesmo se fosse possível. Mais que nunca, o mundo moderno está infestado por uma enorme diversidade de crenças, muitas delas excêntricas ou até perigosas, e grande número de pessoas comuns vê a discussão racional como sofisticaria inútil. Os ideais dos filósofos gregos só foram mantidos na ciência (e na própria filosofia, é claro), especialmente na matemática. Quando se trata de enfocar questões realmente profundas da existência, tais como a origem e o significado do universo, o lugar dos seres humanos no mundo e a estrutura e organização da natureza, há forte tentação de se retroceder para a crença irracional. Nem os cientistas ficam imunes a esta tentação. No entanto, as tentativas de enfrentar tais questões por meio de análise racional e isenta têm uma história longa e respeitável. Até onde a discussão racional nos pode levar? Será que realmente podemos esperar responder às perguntas últimas da existência através da ciência e da indagação racional, ou sempre encontraremos o mistério impenetrável em alguma etapa? E, aliás, o que é a racionalidade humana?
 
O milagre científico
Ao longo da história, todas as culturas exaltaram a beleza, a majestade e o engenho do universo físico. No entanto, só a cultura científica moderna fez alguma tentativa sistemática de estudar a natureza do universo e nosso lugar nele. O método científico consegue desvendar os segredos da natureza de maneira tão fascinante que seu próprio sucesso nos pode cegar ao maior de todos os milagres científicos: a ciência funciona. Os próprios cientistas normalmente supõem que vivemos num cosmo racional, ordenado, submetido a leis precisas que podem ser descobertas pelo raciocínio humano. Mas por que seria assim? — eis o mistério que continua nos atormentando. Por que os seres humanos teriam a capacidade de descobrir e entender os princípios segundo os quais funciona o universo?
Nos últimos anos, número cada vez maior de cientistas e filósofos começou a estudar esse quebra-cabeças. Será que o nosso sucesso em explicar o mundo usando a ciência e a matemática não passa de um feliz acaso, ou é inevitável que os organismos biológicos, provenientes da ordem cósmica, reflitam esta ordem em sua capacidade cognitiva? Será que o progresso espetacular da nossa ciência não passa de uma peculiaridade incidental da história, ou aponta para uma ressonância profunda e significativa entre a mente humana e a organização subjacente do mundo natural?
Há quatrocentos anos, a ciência entrou em conflito com a religião porque parecia ameaçar o lugar aconchegante da espécie humana num cosmos feito sob medida por Deus. A revolução iniciada por Copérnico e terminada por Darwin acabou marginalizando, ou até banalizando, os seres humanos. As pessoas não estavam mais situadas no centro do grande projeto, mas eram relegadas a um papel incidental e aparentemente sem sentido num drama cósmico indiferente, como extras não previstos no roteiro que por acaso vão parar num imenso palco de filmagem. Este caráter existencialista — a vida humana não tem significado além do que os próprios humanos nela investem — tomou-se o leitmotiv da ciência. É por esta razão que as pessoas comuns veem a ciência como algo ameaçador e degradante: alienou-as do universo onde viviam.
Nos capítulos subsequentes apresentarei uma visão totalmente diferente de ciência. Longe de apresentar os seres humanos como produtos incidentais de forças físicas cegas, a ciência sugere que a existência de organismos conscientes é uma característica fundamental do universo. Fomos inscritos nas leis da natureza de maneira profunda e, creio, significativa. Também não encaro a ciência como uma atividade alienante. Longe disto. A ciência é uma procura nobre e enriquecedora que nos ajuda a entender o sentido do mundo de maneira objetiva e metódica. Ela não nega a existência de um significado por trás da existência. Muito pelo contrário. Como salientei, o fato de a ciência funcionar, e funcionar tão bem, aponta para algo profundamente significativo na organização do cosmos. Qualquer tentativa de entender a natureza da realidade e o lugar dos seres humanos no universo deve partir de uma base científica firme. A ciência não é, obviamente, a única estrutura de pensamento que detém nossa atenção. A religião floresce até em nossa chamada era científica. Mas, como observou Einstein, a religião sem ciência é manca.
A aventura científica é uma viagem ao desconhecido. Cada avanço traz descobertas novas e inesperadas e desafia nossas mentes com conceitos incomuns e às vezes difíceis. Mas por toda ela corre o fio da racionalidade e da ordem, nosso conhecido. Veremos que essa ordem cósmica está sustentada por leis matemáticas definidas que se entrelaçam umas às outras, formando uma unidade sutil e harmoniosa. As leis são dotadas de uma elegante simplicidade, e muitas delas são preferidas pelos cientistas apenas por causa de sua beleza. Contudo, essas mesmas leis simples permitem que a matéria e a energia se auto-organizem numa enorme variedade de estados complexos, inclusive os que têm a qualidade da consciência e podem, por sua vez, refletir sobre a própria ordem cósmica que os produziu.
Entre os objetivos mais ambiciosos dessa reflexão está a possibilidade de conseguirmos formular uma “teoria unificada” — uma descrição completa do mundo em termos de um sistema fechado de verdades lógicas. A procura de tal teoria tomou-se uma espécie de santo graal para os físicos. E a ideia é, sem dúvida, ilusória. Afinal, se o universo for uma manifestação de ordem racional, poderíamos deduzir a natureza do mundo a partir apenas do “pensamento puro”, sem necessidade de observar nem experimentar. E óbvio que a maioria dos cientistas rejeita profundamente essa filosofia e proclama que a via empírica para o conhecimento é o único caminho confiável. Porém, como veremos, as exigências de racionalidade e lógica certamente impõem ao menos algumas restrições ao tipo de mundo que podemos conhecer. Além disso, a mesma estrutura lógica contém suas próprias limitações paradoxais que garantem ser impossível compreender a totalidade da existência apenas com base na dedução.
A história criou muitas imagens físicas da ordem racional subjacente ao mundo: o universo como manifestação de formas geométricas perfeitas, como organismo vivo, como vasto mecanismo de relógio e, mais recentemente, como gigantesco computador. Cada uma dessas imagens capta algum aspecto-chave da realidade, embora todas elas sejam incompletas. Examinaremos algumas reflexões recentes sobre essas metáforas e a natureza da matemática que as descreve, o que nos levará a enfrentar as seguintes perguntas: o que é a matemática? Por que funciona tão bem para descrever as leis da natureza? E, aliás, de onde vêm essas leis? Em muitos casos, as ideias são fáceis de descrever; às vezes são bastante técnicas e abstratas. O leitor é convidado a partilhar esta excursão científica ao desconhecido em busca do fundamento último da realidade. Embora em alguns momentos o terreno seja acidentado e o destino permaneça envolto em mistério, espero que a própria viagem seja empolgante.
 
Razão humana e senso comum
 Costuma-se dizer que o fator que mais distingue os seres humanos dos outros animais é nossa capacidade de raciocinar. Muitos outros animais parecem perceber o mundo físico em maior ou menor grau e reagir a ele, mas os humanos pretendem mais do que a mera percepção. Também possuímos algum tipo de compreensão do mundo e de nosso lugar nele. Somos capazes de prever acontecimentos e de manipular processos naturais para nossos próprios fins e, embora façamos parte do mundo natural, de algum modo nos distinguimos do resto do universo físico.
Em culturas primitivas, a compreensão do mundo limitava-se aos assuntos cotidianos, como a passagem das estações, o movimento de uma pedra ou de uma flecha. Era totalmente pragmática e desprovida de base teórica, exceto em termos mágicos. Hoje, na era da ciência, nossa compreensão encontra-se muitíssimo ampliada, de forma que precisamos dividir o conhecimento em diferentes disciplinas — astronomia, física, química, geologia, psicologia, etc. Esse fabuloso progresso resultou quase inteiramente do “método científico”: experiência, observação, dedução, hipótese, refutação. Não precisamos nos preocupar com os detalhes. O importante é que a ciência exige padrões rigorosos de procedimento e discussão que levem a razão a superar a crença irracional.
O conceito de raciocínio humano é, em si, curioso. Somos persuadidos por argumentos “racionais” e nos sentimos mais felizes com os que fazem apelo ao “senso comum”. No entanto, os processos do pensamento humano não foram dados por Deus, mas têm sua origem na estrutura do cérebro humano e nas tarefas que este veio a desempenhar. O funcionamento do cérebro, por sua vez, depende das leis da física e da natureza do mundo físico que habitamos. O que chamamos de senso comum é o produto de padrões profundamente implantados no psiquismo humano, presumivelmente porque conferem determinadas vantagens em situações cotidianas, como esquivar-se de objetos que caem e esconder-se de predadores. Alguns aspectos do pensamento humano serão fixados pela configuração de nosso cérebro; outros, herdados como “programa genético” de nossos ancestrais remotos.
Emmanuel Kant afirmou que nem todas as nossas categorias de pensamento derivam da experiência sensorial do mundo. Segundo o filósofo, alguns conceitos são a priori, quer dizer, embora não sejam verdades necessárias em sentido lógico estrito, sem esses conceitos seria impossível pensar: seriam “necessários ao pensamento”. Um exemplo dado por Kant foi nossa compreensão intuitiva do espaço tridimensional através das regras da geometria euclidiana. O filósofo supunha que nascemos com esse conhecimento. Infelizmente, nos dias de hoje os cientistas descobriram que, na verdade, a geometria euclidiana está errada! Hoje, os cientistas e filósofos supõem, em geral, que, em última instância, até os aspectos mais fundamentais do pensamento humano devem referir-se a observações do mundo físico. Provavelmente, os conceitos mais profundamente gravados em nosso psiquismo, as coisas que achamos difícil imaginar como diferentes do que são — como o “senso comum” e a racionalidade humana —, estão geneticamente programadas em nosso cérebro num nível profundíssimo.
É interessante especular sobre se seres extraterrestres que tivessem evoluído em circunstâncias muito diferentes partilhariam nosso conceito de senso comum, ou qualquer outro de nossos padrões de pensamento. Se existisse vida na superfície de uma estrela de nêutrons, como imaginaram alguns escritores de ficção-científica, não seria possível adivinhar como tais seres perceberiam e pensariam sobre o mundo. O conceito de racionalidade de um extraterrestre talvez fosse tão diferente do nosso que não o convenceríamos por meio do que para nós fosse um argumento racional.
Isto significa que o raciocínio humano seja suspeito? Estaríamos sendo excessivamente chauvinistas ou provincianos ao supor que pudéssemos aplicar com sucesso os padrões de pensamento do Homo sapiens às grandes questões da existência? Não necessariamente. Nossos processos mentais evoluíram assim porque refletem algo da natureza do mundo físico que habitamos. A surpresa está em o raciocínio humano conseguir conceber e entender partes do mundo que nossa percepção não pode atingir diretamente. Pode não ser uma surpresa o fato de a mente humana deduzir as leis que regem a queda dos objetos, pois o cérebro evoluiu traçando estratégias para esquivar-se de seus golpes. Mas será que temos algum direito de esperar que extensões desse raciocínio funcionem quando se trata de física nuclear ou astrofísica, por exemplo? O fato de o raciocínio funcionar, e exorbitantemente bem, é um dos grandes mistérios do universo que investigarei neste livro.
Mas outro problema se apresenta. Se o raciocínio humano espelha algo da estrutura do mundo físico, seria correto dizer que o mundo é uma manifestação da razão? Usamos a palavra racional no sentido de “em conformidade com a razão”, de modo que minha pergunta é se, ou até que ponto, o mundo é racional. A ciência baseia-se na esperança de o mundo ser racional em todos os seus aspectos observáveis. É possível que algumas facetas da realidade estejam além da capacidade do raciocínio humano, o que não significa que sejam necessariamente irracionais em sentido absoluto. Os habitantes de estrelas de nêutrons (ou os supercomputadores) compreendem coisas que, pela própria natureza de nosso cérebro, não podemos entender. Assim, precisamos ter consciência de que podem existir coisas cujas explicações jamais entenderíamos, e talvez outras sem explicação alguma.
Neste livro adotarei a postura otimista de que o raciocínio humano é confiável, de maneira geral. As pessoas têm convicções, especialmente no campo da religião, que poderiam ser encaradas como irracionais: isto é um fato da vida. Mas não é por serem defendidas irracionalmente que seriam erradas. Talvez haja uma via de conhecimento (por exemplo, mediante o misticismo ou a revelação) que passe ao largo da razão humana ou a transcenda. Como cientista, prefiro seguir com a razão humana até onde ela puder ir. Ao investigar os limites da razão e da racionalidade, é certo encontrarmos mistério e incerteza, e, em algum estágio, o raciocínio provavelmente falhará e terá de ser substituído ou por uma crença irracional ou pelo agnosticismo ostensivo.
Se o mundo for racional, ao menos em grande medida, qual é a origem de sua racionalidade? Não pode surgir apenas em nossa mente, pois esta só reflete o que já existe. Deveríamos buscar a explicação num Projetista racional? Ou a racionalidade pode “criar a si mesma” pela simples força de sua própria “natureza racional”? Ou ainda: será que numa “escala maior” o mundo é irracional, mas nós habitamos um oásis de racionalidade aparente porque este é o único “lugar” onde poderia haver seres conscientes e racionais? Para aprofundar a investigação em tomo desse tipo de perguntas, analisemos primeiro, mais detalhadamente os diferentes tipos de raciocínio.
 
Pensamentos sobre o pensamento
 Dois tipos de raciocínio nos são bastante úteis, e é importante estabelecer uma distinção clara entre ambos. O primeiro é chamado dedução e se baseia nas regras estritas da lógica. Segundo a lógica padrão, determinadas afirmações, tais como Um cão é um cão e Tudo que existe ou é ou não é um cão, são aceitas como verdadeiras, ao passo que outras, como Um cão não é um cão, são consideradas falsas. Um raciocínio dedutivo começa por um conjunto de hipóteses chamado premissas. Trata-se de afirmações, ou condições, aceitas sem questionamentos, para as finalidades do raciocínio. É evidente que as premissas devem ser coerentes entre si.
Aceita-se que a conclusão de um raciocínio lógico-dedutivo não contém mais do que o que estava presente nas premissas iniciais, de modo que esse raciocínio nunca pode ser usado para provar nada realmente novo. Observe, por exemplo, a seguinte sequência dedutiva (conhecida como silogismo):
 
1. Todos os solteiros são homens.
2. Alex é solteiro.
3. Logo, Alex é um homem.
 
A afirmação 3 não nos diz nada além do que estava presente nas afirmações 1 e 2 combinadas. Deste ponto de vista, então, o raciocínio dedutivo não é senão um modo de processar fatos ou conceitos no intuito de apresentá-los de forma mais interessante ou útil.
Quando a lógica dedutiva é aplicada a um conjunto complexo de conceitos, as conclusões muitas vezes podem ser surpreendentes ou inesperadas, mesmo que não passem da elaboração das premissas originais. Temos um bom exemplo na geometria, que se baseia numa coleção de pressupostos, conhecidos como axiomas, sobre a qual se ergue o elaborado edifício da teoria geométrica. No século III a.C., o geômetra grego Euclides enumerou cinco axiomas que constituem o alicerce da geometria escolar tradicional, incluindo coisas como “por cada dois pontos passa apenas uma reta”. Pode-se usar a lógica dedutiva para deduzir desses axiomas todos os teoremas da geometria que aprendemos na escola. Um deles é o teorema de Pitágoras que, embora com um conteúdo de informação que não supera o dos axiomas de Euclides, dos quais é deduzido, sem dúvida não é intuitivamente óbvio.
É claro que a qualidade de um raciocínio dedutivo não é superior à das premissas em que se baseia. No século XIX, por exemplo, alguns matemáticos decidiram investigar o que aconteceria se abandonassem o quinto axioma de Euclides — por qualquer ponto é possível traçar uma paralela a outra linha dada. A geometria não-euclidiana resultante veio a ser de grande utilidade na ciência. Na verdade, Einstein usou-a em sua teoria geral da relatividade (uma teoria de gravitação), e, como já foi indicado, sabemos hoje que a geometria euclidiana está errada no mundo real: sinteticamente falando, o espaço é curvado pela gravidade. A geometria euclidiana ainda é ensinada nas escolas porque continua sendo uma aproximação muito boa na maioria das circunstâncias. Entretanto, a lição desta história é que não é sábio considerar nenhum axioma como tão evidentemente correto que impossibilite qualquer outra alternativa.
De maneira geral, concorda-se em que os raciocínios lógico-dedutivos constituem a forma mais segura de raciocinar, embora deva dizer que até o uso da lógica padrão sofreu questionamentos. Na assim chamada lógica quântica, a regra de que algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo isto ou aquilo é abandonada. O motivo para tanto é que, na física quântica, a noção de ser é mais sutil do que na experiência cotidiana: os sistemas físicos podem existir em superposições de estados alternativos.
Outra forma de raciocínio que todos utilizamos é chamada indutiva. Assim como a dedução, a indução parte de um conjunto de fatos ou pressupostos dados, a partir dos quais chega a conclusões, mas procedendo por meio de generalização, não por um raciocínio sequencial. A previsão de que o sol nascerá amanhã é um exemplo de raciocínio indutivo baseado no fato de, em toda nossa experiência, ter o sol nascido pontualmente todos os dias. Também, baseado em minhas experiências anteriores com a atração da gravidade, espero que um objeto pesado caia quando o solto. Os cientistas utilizam o raciocínio indutivo quando formulam hipóteses baseadas num número limitado de observações ou experiências. As leis da física, por exemplo, são deste tipo. A lei do inverso do quadrado, da força elétrica, foi testada de inúmeras maneiras e sempre confirmada. É chamada lei porque, com base na indução, raciocinamos que a propriedade do inverso do quadrado sempre se manterá. No entanto, o fato de ninguém ter observado uma exceção à lei do inverso do quadrado não prova que ela seja verdadeira da mesma maneira que, dados os axiomas da geometria euclidiana, o teorema de Pitágoras tem que ser verdadeiro. Independentemente do número de ocasiões em que a lei for confirmada, nunca podemos ter certeza absoluta de que se aplica infalivelmente. Com base na indução, só podemos concluir que é muito provável que a lei seja válida na próxima ocasião em que for testada.
O filósofo David Hume aconselhou cautela com o raciocínio indutivo. O fato de se ter observado que o sol sempre nasce no horário previsto, ou que a lei do inverso do quadrado sempre se confirma, não garante que essas coisas continuem assim no futuro. A convicção de que assim será está baseada no pressuposto de que “o curso da natureza continua sempre uniformemente igual”. Mas como se justifica tal hipótese? É verdade, pode ser que se tenha invariavelmente observado que um estado de coisas B (a aurora, por exemplo) apresenta-se depois de outro (o anoitecer, por exemplo), mas daí não se deveria deduzir que B é uma consequência necessária de A. Em que sentido B tem de seguir A? Com certeza podemos conceber um mundo onde A ocorra, mas B não: não há conexão logicamente necessária entre A e B. Poderia haver algum outro tipo de necessidade, uma espécie de necessidade natural? Hume e seus seguidores negam que exista algo assim.
Parece que somos forçados a concordar que as conclusões a que se chega por indução nunca são absolutamente seguras no sentido lógico, como as conclusões dedutivas, embora o “senso comum” seja baseado na indução. O fato de o raciocínio indutivo dar certo com tanta frequência é uma propriedade (notável) do mundo que se pode caracterizar como “confiabilidade da natureza”. Passamos a vida sustentando convicções sobre o mundo (como a inevitabilidade do nascer do sol) que foram obtidas por indução e, de maneira geral, consideradas razoáveis, mas que não repousam na lógica dedutiva, e sim na maneira de o mundo ser. Como veremos, não há razão lógica para que o mundo não pudesse ser diferente. Poderia ser caótico a ponto de impossibilitar toda generalização indutiva.
A filosofia moderna foi fortemente influenciada pelo trabalho de Karl Popper, que argumenta que, na prática, os cientistas raramente usam o raciocínio indutivo da maneira como o descrevemos. Quando é feita uma nova descoberta, os cientistas tendem a trabalhar retrospectivamente, construindo hipóteses coerentes com a descoberta, e depois prosseguem, deduzindo outras consequências dessas hipóteses que, por sua vez, podem ser testadas experimentalmente. Se alguma das previsões for falsa, a teoria tem de ser modificada ou abandonada. Assim, a ênfase recai na refutação não na verificação. Uma teoria poderosa é muito vulnerável à refutação e, assim, pode ser testada de muitas maneiras detalhadas e específicas. Se for aprovada nos testes, nossa confiança é reforçada. Tem pouco valor uma teoria muito vaga ou geral, ou que faz previsões relativas somente a circunstâncias que estão além de nossa capacidade de testar.
Na prática, então, o esforço intelectual humano nem sempre procede através de raciocínio dedutivo e indutivo. A chave dos principais avanços científicos muitas vezes é o salto criativo livre ou a inspiração. Nestes casos, um fato ou conjectura importante surge pronta na mente do pesquisador, e só depois sua justificativa é elaborada por meio de um raciocínio ponderado. A maneira como vem a inspiração é um mistério que suscita muitas perguntas. Será que as ideias têm um tipo de existência independente, de forma que são descobertas de vez em quando por uma mente receptiva? Ou será a inspiração uma consequência do raciocínio normal que se processa oculto no subconsciente e cujo resultado só é entregue ao consciente depois de pronto? Se for o caso, como evolui essa capacidade? Que vantagens biológicas, efeitos como a inspiração matemática, ou a artística, podem conferir aos seres humanos?
 
Um mundo racional
 A afirmação de que o mundo é racional está vinculada ao fato de ele ser ordenado. Os acontecimentos geralmente não são quaisquer: estão relacionados de algum modo. O sol nasce na hora porque a Terra gira de maneira regular. A queda de um objeto pesado tem conexão com o fato de antes ter sido largado do alto. E assim por diante. É a inter-relação dos acontecimentos que nos dá a noção de causalidade. A janela quebra porque é atingida por uma pedra. Uma árvore cresce porque é plantada.
A conjunção invariável de acontecimentos que têm entre si uma relação de causalidade torna-se tão familiar que somos tentados a atribuir força causal aos próprios objetos materiais: a pedra de fato ocasiona a quebra da janela. Mas isto significa atribuir a objetos materiais poderes ativos que não merecem. Tudo que realmente se pode dizer é que há uma correlação entre, digamos, pedras que voam em direção as janelas e vidros quebrados. Portanto, os acontecimentos que formam tais sequências não são independentes uns dos outros. Se pudéssemos registrar todos os acontecimentos verificados em alguma região do espaço durante um lapso de tempo, notaríamos que o registro estaria cheio de formas entrecruzadas: os vínculos causais. A existência dessas formas é a manifestação da ordem racional do mundo. Sem elas só haveria caos.
A noção de determinismo está intimamente relacionada à de causalidade. Em sua forma moderna, é a hipótese de cada acontecimento ser totalmente determinado por outros, que o precedem. No bojo do determinismo está a admissão de bastar conhecer o estado do mundo num determinado momento para definir como estará num momento posterior. Este último, por sua vez, fixa estados subsequentes, e assim por diante. Conclui-se, pois, que todos os acontecimentos futuros no universo estão completamente determinado por seu estado presente. O determinismo estava automaticamente incorporado às leis da mecânica que Isaac Newton enunciou no século XVII. Por exemplo, se o sistema solar for tratado como sistema isolado, basta conhecer a posição e a velocidade dos planetas num dado instante para determinar univocamente (mediante as leis de Newton) sua posição e velocidade em todos os instantes subsequentes. Ademais, as leis de Newton não envolvem a direcionalidade do tempo, de modo que o truque também funciona ao contrário: o estado atual basta para fixar, univocamente, todos os seus estados passados. Desta maneira podemos, por exemplo, prever eclipses no futuro e também datar suas ocorrências no passado.
Se o mundo for estritamente determinista, todos os acontecimentos estão imersos numa matriz de causa e efeito. O passado e o futuro estão contidos no presente, no sentido de a informação necessária para construir os estados passados e futuros do mundo estar envolta em seu estado presente, com a mesma rigidez com que a informação sobre o teorema de Pitágoras está contida nos axiomas da geometria euclidiana. O cosmos inteiro toma-se uma gigantesca máquina, ou mecanismo de relógio, que percorre, submisso, um caminho de mudanças já traçado desde o início dos tempos. Ilya Prigogine expressou-o mais poéticamente: Deus é reduzido a um mero arquivista que vira as páginas do livro da história cósmica, já escrito.1
No polo oposto ao determinismo está o indeterminismo ou acaso. Poderíamos dizer que algo aconteceu por “puro acaso” ou “por acidente” se não tiver sido obviamente determinado por nenhuma outra coisa. Lançar um dado, ou uma moeda, são exemplos familiares. Porém, será que estes casos são de verdadeiro indeterminismo, ou são os fatores e as forças que determinam seus resultados que estão ocultos aos nossos olhos, de forma que o comportamento nos parece, simplesmente, aleatório?
Antes deste século, a maioria dos cientistas teria respondido afirmativamente à última pergunta. Supunham que, em última instância, o mundo era estritamente determinista e a aparência aleatória ou casual dos acontecimentos seria o resultado da ignorância em relação aos detalhes do sistema em questão. Se o movimento de cada átomo pudesse ser conhecido, raciocinavam, até o resultado do lançamento de uma moeda tomar-se-ia previsível. O fato de este lançamento ser imprevisível, na prática, é consequência de nossa informação limitada sobre o mundo. Procurava-se a origem do comportamento aleatório, recuando até sistemas altamente instáveis e, portanto, vulneráveis a flutuações mínimas nas forças ambientais atuantes.
Esse ponto de vista foi abandonado em grande medida no final da década de 1920 com o descobrimento da mecânica quântica, que trata de fenômenos de escala atômica e incorpora o indeterminismo num plano fundamental. Uma expressão deste indeterminismo é conhecida como princípio da incerteza, de Heisenberg, do nome do físico quântico alemão Werner Heisenberg. Grosso modo, afirma que todas as quantidades mensuráveis são submetidas a flutuações imprevisíveis e, portanto, a incertezas quanto a seu valor. Para quantificar essa incerteza, os observáveis são agrupados em pares: posição e velocidade formam um par, bem como energia e tempo. O princípio determina que as tentativas de reduzir o nível de incerteza de um elemento do par geram um aumento na incerteza do outro. Portanto, uma medida precisa da posição de uma partícula como um elétron, digamos, tem o efeito de aumentar muitíssimo a incerteza de sua velocidade, e vice-versa. Como é preciso conhecer com precisão tanto a posição como a velocidade das partículas de um sistema para prever seus futuros estados, o princípio da incerteza, de Heisenberg, põe fim à noção de o presente determinar com exatidão o futuro. Claro que isto supõe que a incerteza quântica seja verdadeiramente intrínseca à natureza, e não apenas o resultado de algum nível oculto de atividade determinista. Nos últimos anos foram realizadas algumas experiências essenciais para testar esse ponto e elas confirmaram que a incerteza é de fato inerente aos sistemas quânticos. O universo é realmente indeterminista em seu nível mais fundamental.
Então isto significa que, afinal de contas, o universo é irracional? Não. Há uma diferença entre o papel do acaso na mecânica quântica e o caos irrestrito de um universo sem leis. Embora geralmente não se tenha certeza sobre os estados futuros de um sistema quântico, as probabilidades relativas dos diferentes estados possíveis ainda são determinadas. Assim, é possível, digamos, apostar que um átomo estará num estado excitado ou não-excitado, mesmo que o resultado numa ocasião particular seja desconhecido. Essa legalidade estatística implica que, numa escala macroscópica, em que os efeitos quânticos normalmente não são perceptíveis, a natureza parece obedecer a leis deterministas.
A tarefa do físico é a de revelar os padrões da natureza e tentar ajustá-los a concepções matemáticas simples. Perguntar por que há padrões e por que esses esquemas matemáticos são possíveis estão fora da competência da física, e pertencem a uma disciplina conhecida como metafísica.
 
Quem precisa de metafísica?
 Na filosofia grega, o termo metafísica significava originalmente “o que vem depois da física”. Refere-se ao fato de a metafísica de Aristóteles ter sido encontrada, sem título, depois do seu tratado sobre física. Mas metafísica logo passou a significar os temas que estão além da física (hoje diríamos além da ciência) e que, mesmo assim, podem ter relação com a natureza da pesquisa científica. Assim, metafísica significa o estudo de temas sobre a física (ou a ciência em geral), e não o da disciplina científica em si. Entre os problemas metafísicos tradicionais temos a origem, a natureza e a finalidade do universo, a relação entre o mundo de aparências apresentado a nossos sentidos e a sua realidade e ordem subjacentes, a relação entre a mente e a matéria e a existência do livre arbítrio. É óbvio que a ciência tem profundo envolvimento com essas questões, mas a ciência empírica sozinha pode não ser capaz de lhes dar respostas, nem a qualquer pergunta sobre o “sentido da vida”.
No século XIX, toda a metafísica começou a vacilar após ter sido questionada criticamente por David Hume e Emmanuel Kant. Estes filósofos lançaram dúvidas não sobre um sistema metafísico particular como tal, mas sobre o próprio significado da metafísica. Hume argumentou que só se pode atribuir significado às ideias diretamente derivadas de nossa observação do mundo, ou de estruturas dedutivas, como a matemática. Alegando que não são observáveis, Hume descartou conceitos como realidade, mente e substância, pois se considera que, de algum modo, estão situados além das entidades oferecidas a nossos sentidos. O filósofo também rejeitou perguntas relativas à finalidade ou significado do universo, ou ao lugar que nele ocupa a espécie humana, porque acreditava que nenhum desses conceitos pudesse ser inteligivelmente relacionado a coisas que de fato pudéssemos observar. Esta posição filosófica é conhecida como empirismo, pois trata os fatos da experiência como fundamento de tudo que podemos conhecer.
Kant aceitou a premissa empirista de que todo conhecimento começa com nossas experiências do mundo, mas também acreditou, como já indiquei, que os seres humanos possuem um certo conhecimento inato necessário para que haja pensamento. Assim, dois componentes se reúnem no processo de pensar: dados dos sentidos e conhecimento a priori. Kant usou sua teoria para investigar os limites do que, pela própria natureza de seu poder de observação e raciocínio, os seres humanos poderiam esperar conhecer algum dia. Criticava a metafísica, dizendo que o nosso raciocínio só pode ser aplicado ao reino da experiência, ao mundo dos fenômenos que de fato observamos. Não temos motivo para supor que possa ser aplicado a qualquer reino hipotético eventualmente situado além do mundo dos fenômenos concretos. Em outras palavras, podemos aplicar nosso raciocínio às coisas-conforme-as-vemos, mas isto nada nos pode dizer acerca das coisas-em-si. Toda tentativa de teorizar sobre uma realidade situada por trás dos objetos da experiência está fadada ao fracasso.
Embora a teorização metafísica tenha saído de moda após essa investida violenta, um pequeno número de filósofos e cientistas recusou-se a desistir de especular sobre o que realmente está por trás das aparências superficiais do mundo dos fenômenos. Então, ultimamente, diversos avanços na física fundamental, na cosmologia e na teoria da informática começaram a redespertar um amplo interesse em alguns temas metafísicos tradicionais. O estudo da “inteligência artificial” reabriu o debate sobre o livre arbítrio e o problema mente-corpo. A descoberta do big bang desencadeou a especulação sobre a necessidade de um mecanismo que tivesse dado início à existência do universo. A mecânica quântica expôs o sutil entrelaçamento entre observador e observado. A teoria do caos revelou que a relação entre permanência e mudança não é nada simples.
Além disso, os físicos começaram a falar sobre as teorias unificadas universais — a ideia de que todas as leis físicas poderiam ser traduzidas num único esquema matemático. A atenção começou a se concentrar na natureza da lei física. Por que a natureza optara por um arranjo e não por outro? Por que uma configuração matemática? A configuração que observamos tem algo de especial? Será que poderiam existir observadores inteligentes num universo caracterizado por algum outro arranjo?
O termo metafísica veio a significar “teoria sobre teorias” da física. De repente passou ser respeitável discutir “classes de leis” em lugar de leis concretas do nosso universo. Foram analisados universos hipotéticos com propriedades bastante diferentes das do nosso, num esforço em entender se nosso universo tem algo de peculiar. Alguns teóricos contemplaram a existência de “leis sobre leis”, que atuam para “selecionar” as leis de nosso universo a partir de um conjunto mais amplo. Menor é o número dos que estão dispostos a considerar a existência real de outros universos com outras leis.
Na verdade, os físicos há muito praticam a metafísica neste sentido. Parte do trabalho do físico matemático é examinar determinados modelos matemáticos idealizados que só pretendem dar conta de vários aspectos restritos da realidade, e muitas vezes apenas simbolicamente. Esses modelos desempenham o papel de “universos em miniatura” que podem ser estudados por si mesmos, às vezes por diversão, mas normalmente para esclarecer o mundo real por meio da definição de determinados temas comuns a diferentes modelos. Esses universos em miniatura muitas vezes levam o nome de seus criadores. Assim, temos o modelo Thirring, o modelo Sugawara, o universo Taub-NUT, o universo Kruskal de extensão máxima, etc. Os teóricos os preferem porque normalmente propiciam um tratamento matemático exato, ao passo que um modelo mais realista pode ser intratável. Grande parte do meu próprio trabalho, dez anos atrás, foi dedicado ao estudo dos efeitos quânticos em modelos de universos com uma só dimensão espacial, ao invés de três. A finalidade do procedimento era facilitar o estudo dos problemas. A ideia era que algumas das características essenciais do modelo unidimensional persistiriam num tratamento tridimensional mais realista. Ninguém sugeriu que o universo fosse realmente unidimensional. O que meus colegas e eu estávamos fazendo era pesquisar universos hipotéticos para descobrir informações sobre as propriedades de certos tipos de leis físicas, propriedades estas que poderiam pertencer às leis efetivas de nosso universo.
 
Tempo e eternidade: o paradoxo fundamental da existência 
 
"A eternidade é tempo
Tempo, eternidade
Ver os dois como opostos
É do domem perversidade"
  O Livro de Anjelus Silesius
 
“Penso, logo existo”: com estas palavras famosas, o filósofo René Descartes expressou no século XVII o que considerava a afirmação mais elementar sobre a realidade, com a qual toda pessoa pensante poderia concordar. Nossa própria existência é nossa experiência primeira. No entanto, mesmo esta afirmação inatacável contém em si a essência de um paradoxo que permeia obstinadamente a história do pensamento humano. Pensar é um processo. Ser é um estado. Quando penso, meu estado mental muda com o tempo. Mas o eu ao qual o estado mental se refere permanece o mesmo. Este é provavelmente o mais antigo problema metafísico do livro — e voltou à tona como uma vingança na teoria científica moderna.
Embora nosso próprio eu constitua nossa experiência primordial, também percebemos um mundo externo, no qual projetamos a mesma conjunção paradoxal de processo e ser, de temporal e atemporal. Por um lado, o mundo continua a existir; por outro, muda. Não identificamos a constância só em nossa identidade pessoal, mas também na persistência de objetos e qualidades de nosso ambiente. Formulamos noções como pessoa, árvore, montanha, sol. Essas coisas não precisam durar para sempre, mas têm uma quase-permanência que nos permite aplicar-lhes uma identidade distinta. No entanto, a mudança contínua se superpõe a esse pano de fundo constante. As coisas acontecem. O presente funde-se ao passado, e o futuro advém: o fenômeno do vir-a-ser: O que chamamos de existência é a conjugação paradoxal de ser e vir-a-ser.
Temendo a própria mortalidade, talvez por razões psicológicas, homens e mulheres sempre procuraram os aspectos mais duradouros da existência. As pessoas vêm e vão, as árvores crescem e morrem, até as montanhas sofrem erosão gradual, e hoje sabemos que o sol não poderá continuar ardendo para sempre. Existe algo real e seguramente constante? Pode-se encontrar existência absoluta e imutável num mundo tão cheio de vir-a-ser? Em certa época considerava-se que os céus eram imutáveis e que o sol e as estrelas perduravam de eternidade em eternidade. Mas agora sabemos que os corpos astronômicos, por mais imensamente velhos que sejam, nem sempre existiram, nem continuarão para sempre. De fato, os astrônomos descobriram que todo o universo encontra-se em evolução gradual.
O que é absolutamente constante, então? É inevitável que sejamos levados do material e do físico para o reino do místico e do abstrato. Conceitos como lógica, número, alma e Deus são recorrentes na história como base mais sólida sobre a qual construir uma imagem da realidade que proporcione alguma esperança de confiabilidade permanente. Mas então se ergue diante de nós o desagradável paradoxo da existência: como o mutável mundo da experiência pode estar enraizado no mundo imutável dos conceitos abstratos?
Platão já enfrentou essa dicotomia na antiga Grécia, na aurora da filosofia sistemática. Para Platão, a verdadeira realidade está num mundo transcendente de ideias, ou formas, imutáveis, perfeitas e abstratas, um campo de relações matemáticas e estruturas geométricas fixas. Era o reino do puro ser, inacessível aos sentidos. O mundo mutável de nossa experiência direta — o mundo do vir-a-ser — era visto como fugaz, efêmero e ilusório. O universo de objetos materiais era relegado a uma pálida sombra ou paródia do mundo das formas. Platão ilustrou a relação entre os dois mundos em termos metafóricos. Imagine-se preso numa caverna, virado de costas para a luz. A medida que passassem pela entrada, os objetos lançariam sombras nas paredes da caverna. Essas sombras seriam projeções imperfeitas das formas reais. Ele equiparou o mundo de nossas observações ao mundo de sombras das imagens da caverna. Apenas o imutável mundo das ideias era “iluminado pelo sol do inteligível”.
Platão inventou dois deuses que governam os dois mundos. No ápice do mundo das formas estava o Bem, ser eterno e imutável, além do espaço e do tempo. Encerrado no mundo semi-real e mutável dos objetos e forças materiais estava o chamado Demiurgo, cuja tarefa era modelar a matéria existente, dando-lhe um estado ordenado, usando as formas como uma espécie de gabarito ou planta. Entretanto, como era menos que perfeito, esse mundo modelado desintegra-se continuamente, exigindo as atenções criadoras do Demiurgo. Daí vem o estado de fluxo do mundo de nossas impressões sensoriais. Platão identificou uma tensão fundamental entre o ser e o vir-a-ser, entre as formas intemporais e eternas e o mundo mutável da experiência, mas não fez uma tentativa séria de reconciliá-los. Contentou-se em relegar o último a um status parcialmente ilusório, atribuindo valor último apenas ao intemporal e eterno.
Aristóteles, discípulo de Platão, rejeitou o conceito de formas intemporais e, em seu lugar, construiu uma imagem do mundo como organismo vivo, com desenvolvimento semelhante ao de um embrião rumo a um objetivo definido. Assim, o cosmos tinha uma finalidade infusa, à qual era levado por causas finais. Atribuía-se às coisas vivas uma alma que as guiava em sua atividade intencional, mas Aristóteles considerou essa alma como imanente aos próprios organismos, e não transcendente em sentido platônico. Essa visão animista do universo enfatizava o processo através da mudança progressiva, orientada por um objetivo. Assim, pode-se supor que, ao contrário de Platão, Aristóteles deu primazia ao vir-a-ser sobre o ser. Mas seu mundo continuou sendo uma conjunção paradoxal de ambos. Os fins para os quais as coisas evoluíam não mudavam, e tampouco as almas. Além disto, o universo de Aristóteles não tinha começo no tempo, embora admitisse o desenvolvimento contínuo. Continha objetos — corpos celestes — que eram “incriados, imperecíveis e eternos”, movendo-se para sempre em órbitas fixas, perfeitas e circulares.
Enquanto isso, no Oriente Médio, a visão de mundo judaica baseava-se na aliança especial de Javé com Israel. Enfatizava-se a revelação de Deus na história, conforme expressa no registro histórico do Antigo Testamento, e mais obviamente representada no Gênese no relato da criação do universo por Deus num momento finito do passado. Contudo, o Deus judaico ainda era transcendente e imutável. Uma vez mais, não se fazia nenhuma verdadeira tentativa de resolver o inevitável paradoxo de um Deus imutável cujos propósitos, no entanto, mudavam em função de acontecimentos históricos.
Seria preciso esperar o século V d.C. e o trabalho de Santo Agostinho de Hipona para ter-se uma visão de mundo sistemática que lidasse seriamente com os paradoxos de tempo. Agostinho reconheceu que o tempo fazia parte do universo físico — da criação — e, assim, colocou o Criador firmemente fora do curso do tempo. Contudo, a ideia de uma divindade intemporal não se acomodou com facilidade à doutrina cristã. O papel de Cristo constituiu dificuldade especial: para um Deus intemporal, o que pode significar encarnar-se e morrer na cruz numa época particular da história? Como a impassibilidade divina pode ser conciliada com o sofrimento divino? O debate continuava no século XII, quando a obra de Aristóteles foi traduzida nas novas universidades da Europa. Esses documentos tiveram um impacto imenso. Um jovem frei de Paris, Tomás de Aquino, decidiu combinar a religião cristã com os métodos gregos de filosofia racional. Concebeu um Deus transcendente que habitava um reino platônico além do espaço e do tempo. Então atribuiu a Deus um conjunto de qualidades bem definidas — perfeição, simplicidade, intemporalidade, onipotência, onisciência — e tentou embasar logicamente sua necessidade e coerência segundo o modelo de teoremas geométricos. Embora sua obra tenha exercido imensa influência, Tomás de Aquino e seus seguidores tiveram terríveis dificuldades em relacionar esse Ser abstrato e imutável ao universo físico sujeito ao tempo e ao Deus da religião popular. Estes e outros problemas fizeram com que a obra de Tomás de Aquino fosse condenada pelo bispo de Paris, embora mais tarde tenha sido absolvida e por fim canonizada.
Em seu livro God and Timelessness, Nelson Pike conclui, após estudo exaustivo: “Agora desconfio que a doutrina da intemporalidade de Deus foi introduzida na teologia cristã porque o pensamento platônico estava na moda à época e porque a doutrina pareceu apresentar uma vantagem considerável do ponto de vista da elegância sistemática. Uma vez introduzida, adquiriu vida própria.”2 O filósofo John O’Donnell chega à mesma conclusão. Seu livro Trinity and Temporality aborda o conflito entre a intemporalidade platônica e a historicidade judaico- cristã: “Sugiro que, ao entrar em contato mais intenso com o helenismo, (...) a cristandade tenha procurado realizar uma síntese que fatalmente racharia neste ponto. (...) O evangelho, combinado com determinados pressupostos helenísticos sobre a natureza de Deus, levou a impasses dos quais a Igreja ainda tem que se desenredar.”3 Voltarei a esses impasses no capítulo 7.
A Europa medieval assistiu à ascensão da ciência e ao surgimento de um modo totalmente novo de encarar o mundo. Cientistas como Roger Bacon e, mais tarde, Galileu Galilei frisaram a importância da produção de conhecimento através de experimentos e observação precisos e quantitativos. Viam o homem e a natureza como distintos um do outro, e o experimento era considerado uma espécie de diálogo com a natureza, capaz de desvendar seus segredos. A ordem racional da natureza, que provinha de Deus, manifestava-se em leis definidas. Aqui penetra na ciência um eco da Divindade imutável e intemporal de Platão e Tomás de Aquino sob a forma de leis eternas, conceito que atingiu sua forma mais persuasiva com a monumental obra de Isaac Newton no século XVII. A física newtoniana distingue nitidamente os estados do mundo, que mudam de um momento a outro, das leis, que permanecem inalteráveis. Mas eis que ressurge aqui a dificuldade de conciliar o ser e o vir-a-ser: como explicar o fluir do tempo num mundo alicerçado em leis intemporais? Esse enigma da seta do tempo tem importunado a física desde então e ainda é tema de intensos debates e pesquisas.
Nenhuma tentativa, científica ou teológica, de explicar o mundo pode ser considerada bem sucedida se não elucidar a conjunção paradoxal do temporal com o intemporal, do ser com o vir-a-ser. E nenhum tema enfrenta mais plenamente essa conjunção paradoxal do que a origem do universo.

(Paul Davies - A Mente de Deus)

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