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A quem se interrogar sobre a “moral de Nietzsche”, aqui vai uma resposta possível: a vida boa é a vida mais intensa porque a mais harmoniosa; a vida mais elegante (no sentido em que se fala de uma demonstração matemática que não faz rodeios inúteis, desperdício de energia por nada), quer dizer, aquela na qual as forças vitais, em vez de se contrariarem, de se dilacerarem e de se combaterem ou de se esgotarem umas as outras, cooperam entre si, mesmo que seja sob o primado de umas, as forças ativas certamente, de preferência às outras, as reativas
Segundo ele, esse é o “grande estilo”. 
Nesse ponto, pelo menos, o pensamento de Nietzsche é perfeitamente claro; sua definição da “grandeza”, em toda a sua obra da maturidade, de uma univocidade sem defeito. Como explica muito bem um fragmento de seu grande livro póstumo A Vontade de Poder, “a grandeza de um artista não se mede pelos ‘bons sentimentos’ que ele suscita”, mas reside no “grande estilo”, quer dizer, na capacidade de “se tornar senhor do caos interior; em forçar seu próprio caos a assumir forma; agir de modo lógico, simples, categórico, matemático, tornar-se lei, eis a grande ambição”.
(...)
Não sou eu quem diz, mas Nietzsche, em muitas passagens de sua obra: “Todas as paixões têm um tempo em que são apenas nefastas, em que aviltam suas vítimas com o peso da tolice — e uma época tardia, muito mais tardia, em que elas esposam o espírito, em que elas se ‘espiritualizam’.”(A Moral enquanto Manifestação Antinatural, § 1) Tão surpreendente quanto possa parecer aos leitores libertários de Nietzsche, é exatamente dessa espiritualização que ele tira um critério ético; é ela que nos possibilita aceder ao “grande estilo”, permitindo-nos domesticar as forças reativas em vez de rejeitá-las “tolamente”, compreendendo tudo o que ganhamos ao integrar esse “inimigo interior” em vez de bani-lo e, por aí mesmo, nos enfraquecer.
(...)
Se você quiser ter uma imagem concreta desse “grande estilo”, só precisa pensar no que temos de viver quando exercitamos um esporte ou artes difíceis — e todos são — para conseguirmos um gesto perfeito.
Pensemos, por exemplo, no movimento do arco nas cordas do violino, dos dedos no braço de um violão ou, mais simplesmente ainda, num revés ou num saque no jogo de tênis. Quando se observa a trajetória de um campeão, parece de uma simplicidade, de uma facilidade literalmente desconcertantes. Sem o menor esforço aparente, na mais límpida fluidez, ele envia a bola com uma rapidez que confunde: é que nele, as forças em jogo no movimento são perfeitamente integradas. Todas cooperam para a mais perfeita harmonia, sem resistência alguma, sem desperdício de energia, logo, sem “reação”, no sentido que Nietzsche dá ao termo. Consequência: uma reconciliação admirável da beleza e do poder que já se nota nos mais jovens, desde que dotados de algum talento.
(Luc Ferry - Aprender a Viver)
 
 

Ronaldo lança-se como um jogador de basquetebol ou voleibol. Os elogios correm mundo. "É uma impulsão extraordinária".
Cristiano Ronaldo já era a encarnação do lema olímpico - citius, altius, fortius, "mais rápido, mais alto, mais forte" -, mas agora, mais do que nunca, o mais alto é uma evidência. O capitão da seleção nacional elevou-se 76,2 centímetros acima do relvado, ergueu a cabeça a 2,61 metros de altura, e atirou a bola para o fundo da baliza do País de Gales. O golo, que lançou Portugal para a final do Euro 2016, correu mundo. E voltou a pôr em foco as capacidades físicas excecionais de CR7: "Para além da sua impulsão extraordinária, é de destacar a capacidade de leitura da jogada e da trajetória da bola, que lhe permitiu estar no sítio certo no momento exato. Teria uma janela de tempo de cerca de 30 milésimos de segundo e não falhou", destaca António Veloso, diretor do Laboratório de Biomecânica e Morfologia Funcional da Faculdade de Motricidade Humana (FMH) de Lisboa, que estudou as capacidades do jogador, em 2006.
"Cristiano nega as leis da física. Ficou suspenso no ar e protagonizou uma cabeçada para a eternidade do futebol português", exaltou o jornal espanhol Marca. "[Enquanto] Chester caiu no chão, ele permaneceu suspenso no ar como se fosse o Michael Jordan do futebol. Magia!", gabou o italiano Gazzetta dello Sport. Os elogios podem ter o seu quê de exagerado: Ronaldo apenas conseguiu que a impulsão se prolongasse sete "longos" décimos de segundo - contas do jornal inglês Daily Mail, o mesmo que estimou a altura do salto do jogador português. No entanto, a comparação com Michael Jordan, um dos melhores basquetebolistas de sempre, é séria. "Foi um salto extraordinário, uma impulsão ao nível de um jogado muito bom de basquetebol ou voleibol", nota o professor da FMH.
 

A menção ao voleibol não surge por acaso. António Veloso compara o gesto técnico de Ronaldo ao de um voleibolista que se prepara para atacar a bola junto à rede: "Ganha balanço com três ou quatro passos de corrida, faz uma chamada de salto perfeita, no ar arqueia o tronco para ganhar balanço e, em seguida, concentra a energia do corpo na cabeçada" (desferida a 71,3 km/h, segundo o Daily Mail). O futebolista, de 1,85 metros, saltou como um basquetebolista (que tem, habitualmente, a vantagem de ter mais estatura), embora tenha um terreno de jogo menos propício... "Enquanto o piso de um pavilhão facilita a impulsão, o relvado de futebol absorve muita energia", aponta o investigador e professor universitário.
Não foi o maior salto de Ronaldo
Ainda assim, o salto que ajudou a abater Gales não surpreendeu António Veloso - mais impressionado com a leitura de jogo de Cristiano Ronaldo. "Mesmo que fosse uma jogada estudada, é extremamente difícil ter aquele timing, capacidade para antecipar o cruzamento do Adrien e a trajetória da bola e para sincronizar o salto com esse movimento", nota. Que o capitão da seleção, "pela combinação da potência muscular e do peso corporal, tem uma capacidade de impulsão muito significativa", já o investigador sabia, desde que o Laboratório de Biomecânica e Morfologia Funcional estudou os jogadores da "equipa das quinas", em 2006. Então, os testes - saltos na vertical, sem balanço, em circunstâncias muito diferentes do contexto de jogo - revelavam que o madeirense atingia um impulsão de 58 centímetros, contra uma média de 36 cm dos outros atletas (como Deco, Luís Figo ou Nuno Gomes).
De resto, o salto de anteontem, em Lyon, nem foi o mais excecional da carreira de Ronaldo: em fevereiro de 2013, pelo Real Madrid, chegou aos 2,93 metros de altura para marcar ao Manchester United. E os testes feitos para um documentário promovido pela Castrol ("Ronaldo testado nos limites", 2011) também comprovaram o perfil veloz e potente do jogador, capaz de chegar aos 78 cm numa impulsão, com corrida e ajuda dos braços.
Apesar disso, o mundo vai tentando convencer-se de que ele é humano. "Estou a almoçar na mesa ao lado do Cristiano e posso confirmar que ele já voltou à Terra após o imponente salto da noite passada", brincou Gary Lineker, ex-jogador inglês, no Twitter. Quanto aos adeptos portugueses, esperam por um novo salto, no domingo, que renda o título europeu...

(Rui Marques Simões)

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publicado às 15:35



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