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Confessemos o inconfessável: sexo é bom e todo mundo gosta, mas dá um trabalho dos infernos. Considere quanto sangue e suor, quantas lágrimas, notas de cem e faturas de cartão de crédito já foram empregados na história do cosmos para esse fim; quantas caudas de pavão e Ferraris, quantos vestidos decotados, sem falar no gasto de energia intelectual, como a invenção do soneto, os romances medievais sobre o amor cortês, o Cântico dos Cânticos. É muita dor de cabeça. Pela lógica, apenas as coisas indispensáveis são objeto de tamanha obsessão. Nós (e a grande maioria dos outros animais e plantas) só seríamos tão doidos por sexo porque não dá para sobreviver sem ele. O raciocínio é impecável. Mas no meio do caminho tinha um bdeloide. Aliás, umas 400 espécies de bdeloides, para ser mais exato.

Os bdeloides a que me refiro estão entre os invertebrados mais estranhos do planeta – animais microscópicos de cabeça retrátil, muitas vezes rastejantes, como as minhocas. Formados por um número fixo de células, eles habitam a água doce e substratos úmidos de todos os tipos, sendo exímios comedores de qualquer coisa devorável e compatível com seu tamanhinho. Não existem machos bdeloides: todos são fêmeas e produzem descendentes por partenogênese, ou “geração virgem” (processo no qual os óvulos iniciam o desenvolvimento embrionário sem fecundação por espermatozoides).

Temos boas razões para acreditar que esses bichos minúsculos abdicaram da vida sexual há cerca de 100 milhões de anos e, mesmo assim, conseguiram colonizar uma grande variedade de ambientes e se diversificaram, como qualquer outro grupo de animais – coisa que, em tese, não deveria ser possível. A trajetória evolutiva dos bdeloides indica que o sexo talvez seja menos indispensável do que se costuma imaginar.

Entretanto, antes de entender que mágica essas criaturas estranhas estão fazendo para se livrar da alcova, é bom colocar algumas coisas em pratos limpos. Como dizíamos no começo deste capítulo, os seres vivos tendem a ficar fissurados apenas e tão somente por coisas que têm um impacto sobre sua sobrevivência e reprodução. Dizer que adoramos doces (ou sexo!) porque “é gostoso” não explica nada: não passa de uma tautologia, como dizer que “faz bem porque é bom”. Nosso sistema nervoso está programado para “traduzir” comida açucarada e/ou uma noite de amor na sensação subjetiva de “prazer” porque os doces são fontes concentradas de energia para o organismo e porque o sexo é o procedimento-padrão da nossa espécie para passar genes de geração em geração. O prazer é um incentivo – ou um suborno, se você quiser. É claro que, em criaturas de sistema nervoso suficientemente complexo (nós somos o exemplo extremo), pode acontecer de o suborno ficar desacoplado de seu objetivo inicial. Somos capazes, por exemplo, de fazer sexo insanamente – mas tomar pílula e/ou usar camisinha em todas as ocasiões. A força primordial do impulso, no entanto, só é tão avassaladora porque inicialmente ele era servo de uma função biológica de primeira grandeza: no caso, a reprodução.

Mas a verdadeira questão é por que escolher o sexo como mecanismo reprodutivo. Do ponto de vista exclusivamente matemático, a opção preferencial pela vida romântica não faz sentido. O sexo, considerado unicamente como meio para passar adiante o DNA de um organismo, é decepcionante porque envolve obrigatoriamente uma divisão desse DNA (pela metade) e a mistura dele com o de outro organismo. Lembre-se de que 50% dos seus genes vieram do seu pai e a outra metade, da sua mãe. Em tese, seria muito mais negócio para cada indivíduo isolado transmitir a carga total de seu material genético para a geração seguinte, pelo simples mecanismo de produzir uma cópia de si mesmo. Além disso, sempre pode acontecer de você não achar a tampa da sua panela, por assim dizer – e, sem parceiros para ajudar, não dá para ter reprodução sexuada.

E, no entanto, a imensa maioria dos animais, plantas e fungos, além de um bom número de microrganismos, contraria essa lógica aparentemente inescapável. Até as bactérias, famosas por sua capacidade estonteante de dividirem suas células únicas em novas “células-filhas”, aderem ocasionalmente a sessões de “sexo” não-formalizado, trocando genes com outras bactérias, às vezes até de outras “espécies” bacterianas. Se a comparação dessa atividade com o que chamamos de sexo sem aspas está correta, o impulso de trocar e misturar material genético existe até em organismos que se multiplicam via clonagem.

Duas ideias mais ou menos parecidas e complementares estão entre as que buscam explicar esse paradoxo. A primeira vê a sexualidade como uma espécie de seguro de vida contra parasitas e ambientes em transformação. A reprodução sexual, ao misturar e embaralhar os genes de dois indivíduos diferentes, automaticamente cria combinações de DNA novas que podem derrotar parasitas (que não “conhecem” a nova mistura e, portanto, não estão equipados para vencê-la) e representar um “estoque” importante de novas soluções para alterações ambientais. Isso é muito importante até no seio de uma única família. O corpo de uma mãe não tem nada de imaculado: ele abriga invariavelmente uma multidão de espécies de microrganismos, alguns benignos, como a nossa flora intestinal, outros potencial ou completamente malignos. Durante a gestação e o parto, tudo o que esses bárbaros microscópicos querem é a oportunidade de saltar para o bebê, cujo sistema de defesa biológico ainda não está totalmente formado. O fato de o filhote carregar traços genéticos que, ao menos parcialmente, soam pouco familiares ao parasita é uma proteção considerável contra uma morte prematura por infecção.

A segunda ideia propõe que o sexo ajuda no “controle de qualidade” genético de uma população. Em criaturas assexuadas, mudanças no conjunto do DNA só ocorrem por mutações – alterações químicas aleatórias nas “letras” químicas A, T, C e G que compõem a molécula da hereditariedade. Ora, a imensa maioria das mutações tende a ser nociva. De geração a geração, o acúmulo de alterações “do mal” poderia colocar os organismos celibatários em perigo. Mas, para produzir as células sexuais, as partes equivalentes do DNA que você recebeu do seu pai e da sua mãe são colocadas lado a lado e se recombinam, trocando pedaços de cromossomos (as estruturas enoveladas que abrigam o material genético). Com isso, mutações “ruins” num genitor podem ser “consertadas” pelo material genético do outro genitor. Mal comparando, é como pegar dois álbuns de figurinhas completos e idênticos, um dos quais possui uma figurinha rasgada: retira-se a figurinha intacta de um e ela é colocada no lugar da que estava adulterada.

Depois de todo esse background, já podemos voltar aos nossos bdeloides, os mestres da castidade evolutiva. Se tudo o que foi dito nos parágrafos acima estiver correto, os bichos seriam um prato cheio para parasitas famintos e mudanças ambientais; de quebra, seu genoma (o conjunto de seu DNA) deveria estar caindo aos pedaços de tanta mutação deletéria. No entanto, lá estão eles, vivos, bem e bastante diversificados, rastejando sobre musgos e liquens e nadando em poças d’água e córregos. Quando falta água, eles entram numa espécie de animação suspensa conhecida como anidrobiose, até as condições melhorarem.

O segredo dos bdeloides celibatários parece estar em características específicas do genoma das criaturas. O pesquisador americano David Mark Welch, do Laboratório de Biologia Marinha do Instituto Oceanográfico Woods Hole, mostrou que o DNA dos bichos é tetraploide – diferentemente de nós, que temos duas cópias de cada cromossomo, eles têm quatro. Tudo indica que, no passado remoto, o conjunto duplo normal de cromossomos sofreu uma reduplicação, transformando os bdeloides em tetraploides.

Ora, situações de extrema secura, como a anidrobiose, deveriam causar grandes quantidades de dano ao DNA desses animais, mas não é o que acontece. Experimentos em que esses bichos foram bombardeados com radiação – outra fonte comum de erros no material genético – revelaram que eles aguentam mais radioatividade do que qualquer outro animal conhecido. O único jeito de explicar esse conjunto bizarro de características é imaginar que os cromossomos quadruplicados estão servindo como base para reconstruir o genoma bdeloide. Com várias cópias de cada gene à disposição, os animais conseguem corrigir rapidamente os erros que aparecem em uma, duas ou até três versões de um gene.

Ou seja, em certo sentido, pode-se dizer que os bdeloides puderam abdicar da sexualidade porque internalizaram os benefícios evolutivos do sexo. Em vez de buscar genes bons em outro corpo, eles corrigem os problemas nos seus genes internamente. Funciona um bocado bem para eles, ao que tudo indica. Eu sei o que você deve estar pensando: eles não sabem o que estão perdendo.

 

 (Reinaldo José Lopes - Evolução: Além de Darwin, O que sabemos sobre a história e o destino da vida) 

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publicado às 21:41



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