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Quando os amantes dormem

por Thynus, em 28.05.16
Aussi longtemps que tu voudras 
Nous dormirons ensemble. 
ARAGON 

Quando as pessoas se amam ou querem se amar, selam um pacto: dormir juntas. E quando se fala “dormir junto”, o sentido é duplo: significa primeiro amar acordado em plena vigília da carne, mas, depois, na lassidão do pós-gozo, deixar os corpos lado a lado, à deriva, dormindo, talvez. Na verdade, os amantes, quando são amantes mesmo, mesmo enquanto dormem se amam.
Agora ouço esses versos de Aragon cantados por Ferrat: “Durante o tempo que você quiser/ Nós dormiremos juntos”. E penso. É um projeto de vida, dormir juntos, continuadamente. A mesma ambiguidade: dormir/amar juntos, dormir/acordar juntos, ou, então, dormir/morrer de amor juntos. Deve ser por causa disto que os franceses chamam o orgasmo de “pequena morte”. Deve ser por isto que os amantes julgam poder continuar amando mesmo através da morte, como Inês de Castro e Dom Pedro, que foram sepultados um diante do outro, para que no dia do reencontro um seja o primeiro que o outro veja.
Como se comportam os casais enquanto dormem
 Amor: um projeto de vida, um projeto de morte.
Se numa noite dessas o vento da insônia soprar em suas frestas, repare no corpo dormindo despojado ao seu lado. Ver o outro dormir é negócio de muita responsabilidade. Mais que ver as águas de um rio represado gerando uma usina de sonhos, é ver uma semente na noite pedindo um guardião.
Pode ser banal, mas é isto: amar é ser guardião do sonho alheio. Os surrealistas diziam: o poeta enquanto dorme trabalha. Pois os amantes, enquanto dormem, se amam. Se amam inconscientemente, quando seus desejos enlaçam raízes e seivas. O pé de um toca o pé do outro, a mão espalmada corre sobre o lençol e toca o corpo alheio e, dormindo, se abraçam aninhados.
Quando isto ocorre, pode ter vários significados. Talvez um tenha lançado um apelo silencioso ao outro: “ajude-me a atravessar esse sonho” ou “venha, sonhe esse sonho comigo, é bonito demais”. E o outro, às vezes, sem se mexer, parte em seu socorro. É que certos sonhos, sobretudo os de quem ama, não cabem num só corpo. Transbordam os poros da noite e pedem cumplicidade. E se há um pesadelo, aí um se agarra ao tronco do outro na crispação do instante, e o corpo do parceiro é boia na escuridão.
Por isto, no ritual do casamento, quando o sacerdote indaga se os que se amam sabem que terão que se socorrer na saúde e na doença, na opulência e na miséria etc., deveria se inserir um tópico a mais e advertir: amar é ser cúmplice do sonho alheio.
Passar a metade da vida dormindo ao lado do outro. Há pessoas que vivem 25 anos — bodas de prata —, 50 anos — bodas de ouro —, 75 anos — bodas de diamante — ao lado do outro, e não sabem com que o outro sonha. E há quem passe uma tarde, uma noite ou temporada ao lado de um corpo e sabe seus sonhos para sempre.
Engana-se quem escuta o silêncio no quarto dos que amam. Estranhos rumores percorrem o sonho alheio. Não é o rugir do tigre pelas brenhas. Não é o bater das ondas na enseada. Nem os pássaros perfurando a madrugada. São os sonhos dos amantes em plena elaboração. E se numa noite dessas o vento da insônia de novo soprar em suas frestas, olhe pela janela os muitos apartamentos onde pulsam dormindo os amorosos. Quando se compra um apartamento novo, nas alturas, alguns compram lunetas e ficam vasculhando a vida alheia. Mas para ouvir o ruído dos sonhos basta abrir os ouvidos na escuridão. Os sonhos pulsam na madrugada.
Era uma vez um chinês que toda vez que sonhava com sua amada acordava perfumado. Deve ser por isto que, ainda hoje, o quarto dos amantes amanhece com um perfume de almíscar, lavanda e alfazema. E é comum achar troféus dos sonhos ao pé da cama de quem ama. Quando se abre a pálpebra do dia, aí pode-se ver um unicórnio de ouro e uma coroa de rubis.
À noite os sonhos dos amantes se cristalizam e de dia se liquefazem em beijo e lágrimas. Quem ama diz boa-noite como quem abre/fecha a porta de um jardim. Não apenas como quem viaja, mas como quem vai para a colheita.
Quando se ama, acontece de um habitar o sonho do outro, e fecundá-lo.

 (Sant’anna, Affonso Romano de - Que presente te dar)

 
Orgasmic Female Brain In 'La Petite Mort'

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publicado às 03:32



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