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QUANDO O DEPOIS É AGORA

por Thynus, em 03.01.16
"O tempo é o que impede que todas as coisas aconteçam ao mesmo tempo."
 —John Wheeler (1911- ), físico

De modo a defender a sua noção de eternidade, 
Agostinho teve de desenvolver a ideia de que o tempo é irreal. «O que é o tempo?», pergunta.
«Se ninguém mo perguntar, sei; se pretendo explicá-lo a alguém, não sei.» O tempo consiste em passado, presente e futuro.Mas só o presente existe, pois o passado já não 
é, e o futuro não é ainda. Mas um presente que é apenas presente não é tempo, mas eternidade. 
O tempo existe apenas na mente. O passado não existe; se eu o considero, é porque está, neste momento, na minha memória. O futuro não existe; não passa da minha previsão presente. Em vez de dizer que existem três tempos, passado, presente e futuro, deveríamos dizer que existe um presente das coisas passadas (a memória), um presente das coisas presentes (a visão) e um presente das coisas futuras (a expectativa).
(Anthony Kenny -  História Concisa da Filosofia Ocidental)

Minha fórmula para o que há de grande no homem é amor fati: nada desejar além
daquilo que é, nem diante de si, nem atrás de si, nem nos séculos dos séculos. Não se
contentar em suportar o inelutável, e ainda menos dissimulá-lo — todo idealismo é
uma maneira de mentir diante do inelutável —, mas amá-lo.

(Nietzsche, "Ecce Homo")

Amor fati (do latim amornominativo singular de amor,óris: ‘amor a algo‘ e fati genitivo singular de fatum,i, ‘destino‘) é uma expressão latina que significa ‘amor ao destino’, ‘amor ao fado’(amor do presente)1 No estoicismo e em Nietzsche, significa aceitação integral da vida e do destino humano mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos – aceitação que só um espírito superior é capaz.”
 
a meta final da vida humana é o que ele (Nietzsche) chama amor fati = o amor da
sua sorte, o amor pelo que é, pelo que nos está destinado, pelo presente, em suma. É
esta a mais alta sabedoria, a única a permitir que nos livremos daquilo que Espinoza,
que Nietzsche considerava um “irmão”, nomearia, também de forma muito bonita,
“paixões tristes” — o medo, o ódio, a culpa, o remorso, esses corruptores da alma que
se enraízam em miragens do passado ou do futuro. Apenas essa reconciliação com o
presente, com o instante — em grego, o kairos —, pode, segundo ele, como para o
essencial da cultura grega, levar à verdadeira serenidade, à “inocência do devir”, isto
é, à salvação entendida não pela aceitação religiosa, mas no sentido de, enfim, nos
sentirmos a salvo dos medos que “travam” a existência e a atrofiam

(Luc Ferry - A Sabedoria dos Mitos Gregos)


 

 

Amor fati: si amas tu vida, no tendrás nunca de qué arrepentirte
 

Afinal, qual verdadeiramente é o conceito que temos do tempo, além daquele que gastamos ajudando nossos filhos no futebol enquanto a bola ainda está em campo, ou do cálculo que fazemos para ter certeza de que estaremos no aeroporto a tempo de pegar o avião? Será que tudo o que existe para evitar que as coisas ocorram simultaneamente são apenas os segundos que preenchem os minutos do dia, como afirma a citação de John Wheeler no início deste capítulo? Será que o tempo existe se ninguém sabe nada sobre ele?
Talvez uma questão ainda mais profunda seja indagar se aquilo que ocorre no tempo é "determinado". Será que os eventos do universo já estão inscritos em uma linha do tempo que simplesmente se esgota juntamente com nossa vida? Ou será que o tempo é um pouco flexível? Caso seja, será que os eventos dentro dele são intercambiáveis? O raciocínio convencional sugere que o tempo somente avança em um sentido — sempre para a frente — e que aquilo que tiver acontecido já ficou para sempre gravado no tecido espaço-temporal. Entretanto, as provas experimentais indicam que nossas ideias sobre passado e presente podem não ser assim tão bem ordenadas. Não apenas o tempo se move em dois sentidos, como Einstein postulou, como também parece que as escolhas que fazemos hoje podem realmente mudar o que aconteceu ontem. Houve um experimento em 1983 que foi elaborado justamente para testar essas possibilidades. Os resultados foram totalmente contrários ao que nos levaram a crer a respeito da passagem do tempo, e as implicações do experimento foram surpreendentes.
Para fins dessa investigação, o físico John Wheeler propôs usar uma variação do famoso experimento da dupla fenda para testar os efeitos do presente sobre o passado. A seguir encontra-se um breve resumo do experimento original descrito no Capítulo 2. Uma partícula quântica (um fóton) foi disparada contra um alvo capaz de detectar as características do impacto — distinguindo se ocorrera como uma partícula de matéria ou se como uma onda de energia. Entretanto, antes que o alvo fosse alcançado, a partícula era obrigada a passar através de uma abertura na barreira. O mistério era que o fóton de alguma forma "sabia" quando a barreira tinha uma fenda e quando ela tinha duas.
Na presença de uma abertura única, a partícula viajava e chegava ao seu destino do mesmo modo que começara a jornada: como uma partícula. Entretanto, na presença de duas fendas, ainda que no início do experimento houvesse apenas a partícula, ela tinha o mesmo procedimento de uma onda de energia e passava através de ambas as fendas ao mesmo tempo, continuando a proceder como uma onda até chegar ao seu destino.
Tendo-se em vista que os cientistas eram os únicos com conhecimento sobre as aberturas na barreira, de alguma maneira esse conhecimento prévio afetava o comportamento do fóton.
A variação de Wheeler para o mesmo experimento incluiu uma diferença importante, imaginada para testar suas ideias sobre o passado e o presente: o fóton seria observado apenas depois de ter passado através da barreira, mas, mesmo assim, antes de chegar ao seu destino. Em outras palavras, o fóton já estaria se encaminhando para o alvo quando a decisão fosse tomada sobre como ele seria observado.
Ele imaginou duas formas diferentes para se certificar de que o fóton havia alcançado o alvo. Uma dessas formas previa o uso de uma lente para "vê-lo" como partícula e a outra usava uma tela capaz de sentir ondas. É uma diferença importante, pois nos experimentos anteriores os fótons agiam do modo como se esperava que agissem conforme a maneira pela qual fossem observados — isso é, eram partículas quando medidos como partículas e ondas quando medidos como ondas.
Dessa maneira, nesse experimento, se o observador escolhesse ver o fóton como partícula, as lentes estariam colocadas e o fóton passaria através de uma única fonte. Se a escolha do observador fosse ver uma onda, a tela seria mantida no local e o fóton passaria através de ambas as fendas da barreira. O argumento decisivo consistia em que a decisão era tomada depois que o experimento já havia sido iniciado (o presente), mas, apesar disso, era capaz de determinar o comportamento da partícula quando o experimento tinha começado (passado). Wheeler chamou esse teste de experimento da escolha retardada.
Baseado nesse tipo de investigação, aparentemente o tempo como nós o conhecemos em nosso mundo (físico) não tem efeito algum no domínio quântico (da energia). Se uma escolha posterior determinar como alguma coisa aconteceu no passado, Wheeler propõe que o observador "possa optar por ficar sabendo da característica depois do evento já ter ocorrido"("Mathematical Foundations of Quantum Theory: Proceedings of New Orleans Conference on the Mathematical Foundations of Quantum Theory", Quantum Theory and Measurement, J. A. Wheeler e W. H. Zurek, orgs. (Princeton, NJ: Prin- ceton University Press, 1983): pp. 182-213). As implicações do que ele diz abrem a porta para uma possibilidade poderosa para nossas relações com a passagem do tempo. Wheeler sugere que as escolhas que fazemos hoje podem, de fato, afetar diretamente as coisas que já aconteceram no passado. E se esse for o caso, isso poderia mudar tudo!
E então, isso é verdade? Será que as decisões que tomamos agora influenciam, ou até mesmo determinam, o que já ocorreu? Todos já ouvimos gente sábia afirmar que temos o poder de transcender as mágoas mais profundas, mas será que essa capacidade também nos possibilita reescrever o passado que levou àqueles acontecimentos? Dificilmente poderíamos nos esquecer de como as coisas podem ficar embaralhadas pelo simples fato de formularmos uma questão como essa, basta que nos lembremos do que aconteceu com o personagem principal, Marty McFly, no filme De Volta para o Futuro (protagonizado por Michael J. Fox), quando ele teve a oportunidade de fazer isso. Entretanto, imagine as possibilidades se nós pudéssemos, por exemplo, tirar lições das guerras mundiais do último século, ou do nosso casamento que acaba de terminar, e fazer escolhas, hoje, que impedissem o acontecimento de tais coisas. Se pudéssemos fazer isso, o efeito seria equivalente ao de uma grande borracha quântica que nos possibilitaria alterar o curso dos eventos que nos trouxeram sofrimento.
É precisamente essa questão que conduziu a outra variação do experimento da dupla fenda. É interessante notar o fato de essa experiência ter recebido justamente o nome de experimento da "borracha quântica". Ainda que esse nome pareça complicado, sua explicação é simples e trata-se realmente de um modelo assustador em suas aplicações, de modo que vamos passar diretamente à exposição do que se trata. O que esse experimento acaba demonstrando é que o comportamento das partículas quando o experimento começa aparentemente é determinado inteiramente por coisas que só terão acontecido depois que o experimento terminar(Yoon-Ho Kim, R. Yu, S.P. Kulik, Y.H. Shih e Marian O. Scully, "Delayed 'Choice' Quantum Eraser", Physical Review Letters, vol. 84, n2 1 (2000): pp. 1-5). Em outras palavras, o presente tem o poder de mudar o que já ocorreu no passado. Esse é o chamado efeito da borracha quântica: coisas que acontecem depois do fato podem mudar ("apagar") a maneira pela qual as partículas se comportaram em um determinado momento do passado.
Coloca-se aqui uma pergunta óbvia: Esse efeito ocorre só com partículas quânticas ou também é válido para pessoas?
Ainda que sejamos feitos de partículas, talvez nossa consciência seja a cola que nos mantém acorrentados aos eventos que percebemos como realidade — guerras, sofrimento, divórcio, pobreza e doença. Ou talvez aconteça outra coisa: talvez já tenhamos mudado nosso passado por termos aprendido com nossos erros, talvez até façamos isso o tempo todo. Talvez seja tão comum esse fato de nossas decisões reverberarem retroativamente que isso pode estar ocorrendo sem percebermos, sem nem pensarmos duas vezes.
Talvez o mundo que vemos hoje, malgrado a aparência que tenha, seja o resultado do que já captamos refletido pelo que já passou. Certamente é preciso pensar nisso tudo e, no momento, as pesquisas aparentemente apoiam essa possibilidade. Pense bem no que isso significaria se isso fosse verdadeiro, se nosso mundo de fato atuasse em retrospecto cósmico, com as lições do presente alterando o passado! No mínimo isso significaria que o mundo que vemos hoje é o resultado do que já aprendemos. E, sem as lições que tivemos, as coisas poderiam estar muito piores, não poderiam?
Independentemente do fato de sermos capazes ou não de mudar o passado, é claro que as escolhas que fazemos agora determinam o presente e o futuro. Todos os três — passado, presente e futuro — existem dentro do receptáculo da Matriz Divina. Como somos parte da Matriz, é bastante razoável que sejamos capazes de nos comunicar com ela de um modo que seja significativo e útil para nossa vida. De acordo com os experimentos científicos e nossas tradições mais caras, é isso que fazemos. O denominador comum das investigações dos capítulos precedentes tem duas vertentes:
1. As investigações nos mostraram que somos parte da Matriz Divina;
2. Elas demonstraram que as emoções humanas (crenças, expectativas e sentimentos) são a linguagem que a Matriz Divina reconhece.
Ainda que por mera coincidência, é interessante assinalar que essas experiências são as mesmas que aparecem nos textos bíblicos cristãos e que foram desestimuladas pela cultura ocidental. Hoje, entretanto, tudo isso está mudando. Os homens estão sendo incitados a honrar suas emoções, e as mulheres, a explorar novas maneiras de expressar o poder, na realidade uma parte natural da existência delas. É claro que a emoção, o sentimento e a crença são parte da linguagem da Matriz Divina e que existe um tipo de emoção permitindo- nos experimentar o campo de energia que conecta o universo de maneiras tão poderosas, naturais e capazes de curar.
A pergunta é: "Como reconhecer a resposta que a Matriz Divina dá às nossas perguntas?" Admitindo que nossos sentimentos, emoções, crenças e orações estejam fornecendo um código para as coisas quânticas do universo, o que então nosso corpo, vida e relacionamentos estão nos dizendo sobre nossa parte nessa conversação? Para responder a isso, precisamos reconhecer a segunda metade de nosso diálogo com o universo. Como entender então as mensagens vindas da Matriz Divina?

(Gregg Braden - A Matriz Divina)

Hyperlinks:
* Quando o aqui é lá
* Quando o aqui é lá e o depois é agora
* O tempo existe apenas na mente
* O tempo histórico como "representação"
* A aceleração do tempo e a sua falta
* O tempo existe apenas na mente
* A doutrina do amor fati (amor do que é no presente): fugir do peso do passado, assim como das promessas do futuro 

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publicado às 22:36


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