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Pureza

por Thynus, em 06.11.14
 

 
MUITAS VEZES ME PERGUNTAM por que desconfio tanto do discurso da saúde total em que vivemos. A preocupação com a alimentação, a pureza do ar, a higiene dos afetos, as artérias, enfim, não me engana. Eu sei que, no fundo, você, ser orgânico, é um egoísta e narcisista que conseguiu finalmente ter um discurso “filosófico e científico” a seu favor. Seu egoísmo grotesco virou ciência. Quando vou a festas (cada vez menos porque, confesso, as suporto cada vez menos; sonho com o dia em que não irei a mais nenhuma, salvo raras exceções que me emocionam por razões muito específicas) e vejo jarros de água orgânica e sobremesas com frutas orgânicas da estação e prato principal com rúculas orgânicas e servidas à francesa, sei que estou entre hipócritas. Em seu maravilhoso livro Frankenstein, Mary Shelley não imaginou, quando sonhou com sua horrorosa criatura (representando o futuro de um mundo produzido pela técnica e pela ciência), que ela fosse ser maníaca por saúde e alimentação. Mas poucos anos depois (Frankenstein é de 1818), em 1831, Alexis de Tocqueville, aristocrata e intelectual francês, ao visitar a nascente democracia americana (viagem essa imortalizada em seu livro Democracia na América), percebeu a vocação irresistível da democracia (um regime pautado pelo gosto medíocre do homem comum) para o controle de todo hábito inútil. Por isso ele profetizou que a democracia, na sua paixão mesquinha pelo sucesso dos homens comuns, proibiria o tabaco e o álcool. Proibiremos tudo que algum idiota científico considerar inútil para o sucesso físico. Algo se perde nessa dança miserável. O que se perde é o fato de que a vida é desperdício de si mesma. Sua grandeza está em perdê-la, como já dizia a sabedoria do Evangelho, e isso não mudou. A tentativa de contê-la nos limites da “ciência da nutrição” (se é que existe, porque, na realidade, trata-se apenas de mais uma moda) não passa de um modo hipócrita de negar o princípio da vida – que é se multiplicar, se esvaindo, se perdendo, como que sangrando para gerar. O que alimenta a busca da saúde total é a velha e feia ganância como qualidade de caráter. Quando me encontro em jantares inteligentes em que tudo é orgânico e equilibrado, me sinto entre vampiros que sugam o mundo, em vez de se oferecer a ele como alimento permanente da vida.

(Luiz Felipe Pondé - Contra um mundo melhor)

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publicado às 07:50



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