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Psicologia dos incendiários

por Thynus, em 30.07.14
A morte nas chamas é a menos solitária das mortes. É, verdadeiramente, uma morte cósmica, onde todo um universo se aniquila com o pensador. A fogueira é um companheiro de evolução.
G. BACHELARD, Psicanálise do fogo
Acidentes ou crimes? Os incêndios florestais foram muito numerosos durante o verão e o outono de 1970, e houve muitas coincidências para que não possa ver-se nisso alguma intenção de causar dano. Por isso o sociólogo Roger Caillois pôde recordar, em um artigo do Express de 31 de agosto de 1970, que em outros tempos houve em Roma outro incêndio e outros incendiários: aquele do qual se acusou aos cristãos, os quais esperavam, conforme suas escrituras secretas, um fogo purificador do homem, ao menos tal como eles imaginavam. Assim é como nos diz isso Roger Callois: «Dos incêndios que devastaram este verão o Var e os Alpes Marítimos, alguns eram criminais. Foram detidos alguns suspeitos. Houve alguns que confessaram, pior ainda, que se vangloriaram de serem os autores dos sinistros. Eram iluminados, que pretendiam obedecer as ordens de Deus. Com uma enorme fogueira purificaram Provença das indecências que a manchavam, das ignomínias que, cada dia mais numerosas e mais escandalosas, ofendiam gravemente à decência, a virtude e ao Céu».
E Roger Callois evoca a este respeito a mesma reação fanática dos cristãos de Roma: «Essas chamas que traduzem a vontade divina, e que consumam a aniquilação da Grande Prostituta, sem dúvida constitui um sacrilégio a combater [...] Além disso, não é inútil observar que os bairros consumidos foram os do Circo e do Palatino, onde se encontravam os templos mais antigos de Roma, o santuário que Sérvio Tulio consagrara à Lua, o de Hércules Redentor, dedicado pelo legendário Evandro, o aliado de Eneas, o de Júpiter Estator, consagrado por Rômulo, o de Vesta, que albergava os Penates do povo romano. Possivelmente não fora mais que uma coincidência, mas proclamava que se golpeava a Roma em seus deuses protetores, cuja impotência ao fim se demonstrou. Tácito proporciona um catálogo de todos os santuários destruídos...».
«Imaginam-se as reações que suscitaram os hippies ou os esquerdistas, durante os ofícios em Madeleine, ou em Notre-Dame, tiveram a ocorrência de romper ou pisotear os objetos de culto?...»
E isto, não obstante, era algo bastante freqüente durante os primeiros séculos. Eusébio da Cesaréia narra umas intervenções de «candidatos à mártires» penetrando em um templo quando um dignatário de Roma se dispunha a oferecer um sacrifício ou uma libação, opondo-se a isso retendo-lhe o braço, ou inclusive derrubando o altar com as brasas já acesas...
Renán, que para fazer-se perdoar seu Jesus, por ser muito heterodoxo para a época, toma a defesa dos cristãos, em seu Antéchrist rechaça com indignação a hipótese de que estes incendiassem a capital do Império romano. Mas os textos que enumera para tentar demonstrar como pôde a opinião pública da época orientar-se tão facilmente contra eles, a seu pesar irão além do que ele tentava estabelecer: «Possivelmente os discursos dos cristãos sobre a grande conflagração final, suas sinistras profecias, sua afeição por repetir que o mundo acabaria logo, e acabaria com fogo, contribuíram a fazer que tomasse por incendiários. Nem sequer é inadmissível que vários fiéis cometessem imprudências, e que se dispôs de pretextos para acusá-los de quererem, ao preludiar as chamas celestiais, justificar a todo custo seus oráculos». E afirma, teimoso, que eles não prenderam o fogo, «mas certamente se alegraram», dado que anunciavam sem cessar, e desejavam, a destruição da sociedade.
Eram, com efeito, como veremos logo, incendiários em potência, fanatizados incessantemente pelos mesmos temas da combustão final, purificadora e de uma vez probatória. Renán os qualifica de «incendiários do desejo». De desejo? Nós diríamos melhor: obcecados pelo incêndio. E aqui temos a prova. Tomemos o Novo Testamento:
«Toda árvore que não dê bom fruto será talhada e arrojada ao fogo...» (Mateus, 3, 10.)
«Queimará a palha em fogo inextinguível...» (Mateus, 3, 12.)
«Quem disser louco a seu próximo será réu do fogo da gehenna.;.» (Mateus, 5, 22.)
«Afastem-se de mim, malditos! Ao fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos...» (Mateus, 25, 41.)
«Quero lhes recordar [...] como Sodoma e Gomorra e as cidades vizinhas, que, de igual modo que elas, entregaram-se à impudicícia e aos vícios contra natureza, foram postas para castigo, sofrendo a pena do fogo eterno...» (Epístola de São Judas, 7.)
«Porque todos têm que ser salgados ao fogo!...» (Marcos, 9, 49.)
«Eu vim jogar fogo na terra, e o que posso desejar a não ser que acenda?...» (Lucas, 12, 49.)
«Sua obra ficará de manifesto, pois em seu dia o fogo o revelará...» (Paulo, I Epístola aos Coríntios, 3, 13.)
«Se uma terra produzir espinhos e abrolhos, é reprovada e está próxima a ser maldita, e seu fim será o fogo...» (Paulo, Epístola aos Hebreus, 6, 8.)
«Enquanto que os céus e a terra atuais estão reservados pela mesma palavra para o fogo, para o dia do julgamento e para a perdição dos homens ímpios...» (Pedro, II Epístola, 3, 7.)
«Tomou o anjo o incensário, encheu-o do fogo do altar e o jogou sobre a terra. E houve trovões, clamores, relâmpagos e tremores...» (Apocalipse, 8, 5.)
«E houve granizo e fogo misturado com sangue, que foi arrojado sobre a terra; e ficou abrasada a terceira parte da terra, e ficou abrasada a terceira parte das árvores, e toda a erva verde ficou abrasada...» (Apocalipse, 8, 7.)
«E os que montavam a cavalo tinham couraças de cor de fogo, e de jacinto e de enxofre [...] E da cabeça dos cavalos saía fogo, fumaça e enxofre...» (Apocalipse, 9, 17.)
«Com as três pragas pereceram a terceira parte dos homens, é ou seja, pelo fogo, e pela fumaça, e pelo enxofre que saía de sua boca...» (Apocalipse , 9, 18.)
«Vivos foram arrojados ambos ao lago de fogo, que arde com enxofre.» (Apocalipse, 19, 20.)
«A morte e o inferno foram jogados no lago de fogo. Esta é a segunda morte, o lago de fogo. E tudo o que não foi achado inscrito no livro da vida, foi arrojado no lago de fogo...» (Apocalipse, 20, 14-15.)
«Os covardes, os infiéis, os abomináveis, os homicidas, os fornicadores, os feiticeiros, os idólatras e todos os embusteiros terão sua parte no lago, que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte...» (Apocalipse, 21, 8.)
«E será atormentado com o fogo e o enxofre diante dos Santos anjos e diante do Cordeiro...» (Apocalipse, 14, 10.)
Encantador! E nós acrescentaremos: «Doce Jesus...».
Esse fogo e esse enxofre, que faz ainda mais dolorosa a queimadura do primeiro, através de todo esse conjunto tirado das escrituras se observa que constitui simplesmente uma obsessão no psiquismo dos cristãos. Falam deles, sonham neles, desejam-nos, são verdadeiros exutórios de seu ódio, que deriva inconscientemente de seu isolamento, inevitável na sociedade de sua época.
São, de fato, autênticos pirômanos, mas pirômanos raciocinados e conscientes.
Aqui cederemos a palavra ao Gastón Bachelard, em sua penetrante Psicanálise do fogo:
«A psiquiatria moderna elucidou a psicologia do incendiário. Demonstrou o caráter sexual de suas tendências. Reciprocamente, tirou à luz o grave traumatismo que pode receber um psiquismo ante a visão de um moinho ou um teto incendiados, de uma grande labareda sobre o céu noturno, na infinidade da planície lavrada.
»Quase sempre, o incêndio nos campos é a enfermidade de um pastor. Como portadores de sinistras tochas, os homens da miséria transmitem de geração em geração o contágio de seus sonhos de isolados. Um incêndio determina um incendiário quase tão fatalmente como um incendiário provoca um incêndio. O fogo se incuba em uma alma com mais segurança que sob as cinzas.
»O incendiário é o mais dissimulado dos criminosos. No asilo de Saint-Ylie, o incendiário mais característico é muito serviçal. Só há uma coisa que pretende não saber fazer: acender uma estufa! Além da psiquiatria, a psicanálise clássica estudou profundamente os sonhos de fogo. Encontram-se entre os mais claros, mais nítidos, cuja interpretação sexual é mais segura. Não insistiremos, pois, sobre este tema.
»De fato, voltando para problema do fogo, a psiquiatria reconheceu a freqüência dos sonhos de fogo nos delírios alcoólicos. Demonstrou que as alucinações liliputienses se achavam sob a dependência da excitação pelo álcool.»
Resumamos, pois, as causas profundas que criam ao pirômano:
a) rechaço sexual, suscitado por um puritanismo ardente, a vergonha da sexualidade, da nudez, e que conduz a uma intoxicação físico-psíquica pela não eliminação espermática. Esse seria o caso dos solitários (pastores, ascetas, etc.), ou dos puritanos; é o caso dos cristãos dos primeiros séculos; observar-se-á, além disso, que a piromania é uma tara essencialmente masculina. Isto explica o seguinte: a mulher, designada esotericamente como Água, tem medo do Fogo. O homem, designado por este elemento, converte-se em possesso senão o eliminar. Bachelard aproximou-se deste mistério;
b) traumatismo psíquico, provocado pela contemplação de um incêndio. Este é o caso do bombeiro pirômano, quão mesmo o do rebelde zelote que viu arder sua casa, seu povo. Também
é o caso do pastor solitário, perdido na contemplação de seu fogo de lenha, ao longo das estações. E também o daquele que permaneceu em um certo infantilismo, e que admira as chamas. A este respeito, o cristão dos primeiros séculos, impregnado pela leitura ou a audição de suas Escrituras «incendiárias», é um pirômano em potência, condicionado por essas entrevistas;
c) Impregnação alcoólica, como era o caso de certos cristãos no curso dos ágapes rituais. Escutemos ao Paulo: «E quando lhes reúnem, não é para comer o jantar do Senhor, porque cada um se adianta a tomar seu próprio jantar, e enquanto a gente passa fome, outro está ébrio». (Paulo, I Epístola aos Coríntios, 11, 20-21.) E Judas, em sua única carta, dirá o mesmo: «Estes são os que mancham seus ágapes, quando com vós banqueteiam sem recato, homens que se apascentam a si mesmos». (Epístola de São Judas, 12.)
Como alguns se mostrarão remissos a admitir que a embriaguez esteve à ordem do dia nos piedosos «ágapes» dos primeiros séculos, limitaremos a lhes assinalar este comunicado da Cidade do Vaticano, com data da segunda-feira 26 de outubro de 1970, e reproduzido ao dia seguinte no periódico France-Soir: «Umas pinturas murais inconvenientes foram descobertas este ano nas catacumbas de Roma. Mostram aos primeiros cristãos bebendo e festejando durante uns funerais. Ao revelar no sábado este descobrimento, o Osservatore Romano, órgão do Vaticano, sublinha que essas pinturas não têm nada em comum com outros afrescos cujo tema é a celebração da missa por cristãos reunidos ao redor de uma mesa. O “inconveniente” para o Osservatore Romano é em especial “a abundância de garrafas em pé ou tombadas” representadas nessas cenas de banquete».
Evidentemente, nós gostaríamos de saber o que evoca o termo «em especial».
Convém observar, por certo, que tampouco Jesus escapou jamais a essa reputação. Lemos, por exemplo, o seguinte nos evangelhos canônicos: «Porque veio João, que não comia nem bebia, e diziam: Está possuído pelo demônio [...] E veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizem: É comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e de pecadores». (Mateus, 11, 18, e Lucas, 7, 33.)
São Jerônimo, em seu Vulgata latina, versão oficial da Igreja católica, emprega o termo potator, que significa «saco de vinho». Mas é evidente que uma reputação, embora ampliada ou exagerada, necessariamente tem um fundo de verdade. Que Jerônimo utilizasse os termos de
comedor e bêbado posto em boca dos adversários de Jesus implica, no melhor dos casos, que comia exageradamente e bebia na mesma proporção. Coisa que não é própria da vida ascética para a que propõe a ele sempre como modelo.
Esta obsessão do fogo impregnará durante séculos às pessoas da Igreja pelos mesmos motivos. E assim o monge Bernard Gui, inquisidor, que viveu do ano 1261 aos 1331, e autor da célebre Pratica officii Inquisitionis herético pravitatis, declara em tal tratado, verdadeiro manual do inquisidor: «A finalidade da Inquisição é a destruição da heresia. A heresia não pode ser destruída sem que os hereges o sejam também, e isso não pode fazer-se mas sim de duas maneiras: mediante sua conversão ou mediante a incineração carnal atrás de seu abandono ao braço secular».
Mas foi sobretudo no século XV, na Espanha, onde o fogo purificador e corretivo recebeu uma aplicação quase litúrgica.
As incinerações dos hereges, dos judeus, dos ocultistas, foram qualificadas de autos de fé. Houve holocaustos destes cada ano, a data fixa. A essas execuções entre as chamas, e de periodicidade anual, as chamou autos de fé particulares. Por exemplo, na sexta-feira de Quaresma que precedia à Sexta-feira Santa celebrava-se com uma execução deste tipo. Aqui não se tratava já, portanto, de uma execução judicial, mas sim de um sacrifício humano, de um holocausto de propiciação.
Houve deste modo autos de fé gerais, com ocasião do advento dos soberanos, de seu matrimônio, do nascimento de cada um de seus filhos. Algumas dessas cerimônias em várias cidades da Espanha ao mesmo tempo podiam permitir a incineração de uma centena de condenados. Em Sevilha estabeleceu-se ao efeito, fora da cidade, um patíbulo permanente, de pedra, sobre o que se erguiam quatro estátuas, em honra aos quatro evangelistas. Essas estátuas estavam ocas, e tinham um nicho em seu interior. Dentro delas se encerrava, devidamente encadeadas, às vítimas, às quais assim se queimavam a fogo lento, amontoando lenha ao redor da estátua oca.
Só na Espanha, a Inquisição fez queimar de 1480 a 1808 a 34.638 pessoas. O número das que morreram antes em sua masmorra, a conseqüência da tortura, ou que conseguiram felizmente evadir-se, e que foram incineradas em efígie, eleva-se a 18.049 pessoas. (Cf. J. Francais, L'Église
et la Sorcellerie.)
Para o resto da Europa é difícil dar uma cifra. Sabemos, não obstante, por Barthélémy de Spins (cf. Quoestio de Strygibus, 1523, e In Ponz inibiu, in de Lamis Apologia, S. d.), que só na província de Lombardia se queimou aproximadamente um milhar de mulheres das que se suspeitava que eram bruxas, cada ano, durante vinte e cinco anos. Isto supõe vinte e cinco mil mulheres em um quarto de século.
Ao enxofre por associa-lo ao fogo, conforme às Sagradas Escrituras, já que se revestia aos condenados com uma camisa lubrificada de enxofre, colocava-lhes uma mitra de pergaminho, também melada de enxofre, e o corpo também era lubrificado previamente com uma pomada de enxofre, sobre a base de banha de porco.
Assim, ao aliar o enxofre com o fogo, os juízes eclesiásticos obedeciam às prescrições do santo livro do Apocalipse, do que se proclamou autor Jesus: «Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe confiou para manifestar a seus servos o que tem que sobrevir breve [...] Bem-aventurado o que lê e os que ouvem as palavras da profecia, e os que observam as coisas nela escritas, porque o tempo está próximo». (Apocalipse, 1, 1 e 3.)
Estas coisas nossos inquisidores as conservavam piedosamente em seu coração. Por isso, quando as chamas das fogueiras alcançavam por fim o corpo do condenado, faziam-no sobre queimaduras já profundas, causadas pela repentina combustão da mitra e da camisa de enxofre, avivando assim as primeiras queimaduras.
Fazendo-o assim, não podia dizer-se que os versículos já citados do Apocalipse não afetassem àqueles aos que foram dirigidos. A profecia era verídica, ao menos no plano terrestre.
De tudo o que precede podemos tirar agora uma conclusão, ou seja, que essa obsessão pelo enxofre e o fogo, esses quadros grandiosos e trágicos, nos quais, como um afresco dantesco, pintava-se a destruição do velho mundo mediante um gigantesco incêndio, tudo isso condicionou criminalmente à fração fanática do cristianismo, e foram, efetivamente, cristãos os que, cheios de ódio, incendiaram Roma.
Há alusões bastante claras para aquele que possua a suficiente intuição e perspicácia para penetrar, como um juiz de instrução, nas intenções que moviam a um escriba.
A confissão inconsciente de Simão-Pedro, supostamente morto em Roma no ano 64, ou mas
bem daquele que, sob seu nome, redigiria mais sua tarde a primeira epístola, temo-la no quarto capítulo desta: «Não sintam saudades desse incêndio que arde em meio de vós, ordenado a sua prova». (I Epístola de são Pedro, 4, 12.)
As versões de Segond, Osterwaid, Synodale, falam de uma fogueira, mas é o mesmo. Mas essa alusão a um perigo pelo fogo, para os cristãos, demonstra que Simão-Pedro não foi o autor dessa Epístola. Porque se morreu em Roma no ano 64, imediatamente depois do incêndio e da primeira perseguição que se abateu sobre a comunidade cristã da cidade, não teve tempo de redigir essa carta, destinada a ser copiada em múltiplos exemplares, já que ia dirigida aos escolhidos estrangeiros da dispersão no Ponto, Galacia, Capadocia, Ásia e Bitinia». (Op. cit., 1, 1.) A polícia romana não teria permitido que saísse.
E não podia falar antes de um perigo pelo fogo, já que ignorava que depois do incêndio Roma castigaria pelo fogo aos cristãos de tal cidade, segundo a lei que castigava aos incendiários.
Em realidade, a epístola foi redigida muito depois da segunda metade do século II, quer dizer depois do ano 150. Esta é também a opinião de Charles Guignebert, que observa que não se trata a não ser de uma simples repetição das teorias de Paulo, o que prova que é posterior à estas.
Mas esta epístola, atribuída falsamente ao Simão-Pedro, não só alude ao perigo de morte por fogo que ameaça aos cristãos, mas também implica para estes uma reputação de incendiários: «Porque nenhum de vós tem que padecer como homicida ou ladrão, ou malfeitor, ou como intrometido no alheio mas se padecer como cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus neste nome». (I Epístola de são Pedro, 4, 15-16.)
É fácil constatar que, uma vez eliminados os diversos modos de cometer maldades correntes, não fica aos cristãos mais que um só campo onde possam machucar aos pagãos, o de incendiários.
E este epíteto permanecerá tão bem ligado à qualificação de christiani, que muito tempo depois do incêndio do ano 64, continuará qualificando-se à estes de sarmentara, sarmentici, quer dizer, «que cheiram a heresia», e de semaxii: «pilares de fogueiras» (cf. Tertuliano, Apologeticen, 50). Porque se todas as atividades que possam causar dano evocadas na epístola estão proibidas aos cristãos, em troca não os proíbem o incêndio, já que este último está previsto pelas profecias, e fazendo-se incendiário atuará «pela glória de Deus».
Releiamos uma vez mais ao sombrio Tertuliano: «Estamos em todas partes, somos numerosos [...] Se não fôssemos a não ser tão somente um pequeno grupo, uma só noite e algumas tochas nos bastariam!». (Cf. Tertuliano, Apologeticen, XXXVII, 3.)
Por nossa parte, está entendido.

(Robert Ambelain - O Homem que criou Jesus Cristo)

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