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APSICANÁLISE freudiana é um tratamento para a cura da neurose e uma teoria científica sôbre a natureza do homem - e todos sabem disso. O que se sabe menos é que ela constitui também um “movimento”, com uma organização internacional de linhas rigorosamente hierárquicas, regras estritas para a inscrição e que por muitos anos foi dirigida por um comitê secreto, constituído de Freud e mais seis outros. Êsse movimento revelou, ocasionalmente e através de alguns de seus representantes, um fanatismo habitualmente só encontrado nas burocracias religiosas e políticas.

A comparação mais próxima que se pode fazer da Psicanálise com outra teoria científica, no que se relaciona com o aspecto revolucionário, é o paralelo com a teoria de Darwin, cujo impacto sôbre o pensamento moderno foi ainda mais poderoso que o da Psicanálise. Mas existe um “movimento” darwinista que determine quem se pode chamar de “darwinista”, seja rigorosamente organizado e lute fanàticamente pela pureza da doutrina de Darwin?

Desejo, primeiramente, demonstrar algumas expressões mais drásticas e infelizes dêsse espírito de “linha partidária”, em relação à biografia que Ernest Jones escreveu de Freud.(Ernest Jones, The Life and Work of Sigmund Freud (Nova York, Basic Books, Ine., 1953-1957)

Isso me parece indicado por duas razões: primeiro, o fanatismo partidário de Jones levou-o a grotescos ataques póstumos a homens que discordaram de Freud; e, segundo, muitos comentaristas do livro aceitaram seus dados sem crítica ou indagação.

A “revisão” que Jones faz da história introduz na ciência um método que até então só esperávamos encontrar na “história” stalinista. Os stalinistas chamam aos que discordaram e se rebelaram de “traidores” e “espiões” do capitalismo.

O Dr. Jones faz o mesmo no àmbito psiquiátrico, afirmando que Rank e Ferenczi, os dois homens mais ligados a Freud e que mais tarde discordaram dele sob certos aspectos, foram psicóticos durante muitos anos. A sugestão é de que sómente sua insanidade lhes explica o crime de discordarem de Freud e, no caso de Ferenczi, de que as queixas contra o tratamento áspero e intolerante que lhe deu Freud são provas, ipso facto, de psicose.

Em primeiro lugar, devemos notar que por muitos anos antes de ocorrer a “traição” de Rank ou Ferenczi houve no comitê secreto lutas e ciúmes violentos entre Abraham, Jones e, sob certo aspecto, também Eitingon, de um lado, e Rank e Ferenczi, do outro. Já em 1924, quando Rank publicou seu livro sôbre o trauma da natalidade, que Freud recebeu cordialmente na época, Abraham, “estimulado ao saber das críticas de Freud”, levantou a suspeita de que Rank seguia o caminho da “traição” de Jung.

Embora Freud recebesse com tolerância, inicialmente, as novas teorias de Rank, mais tarde, provàvelmente sob a influência das intrigas e insinuações do grupo de Jones, e também devido à recusa de Rank em modificar suas linhas teóricas, rompeu com êle. Na época Freud disse que a neurose de Rank era responsável por alguns de seus desvios, tinha origem nos cinco anos posteriores à Primeira Guerra Mundial, e que durante quinze anos “não lhe ocorrera que Rank precisava ser analisado”.

Mesmo que assim fosse, Freud falou de neurose, e não de psicose. Jones sugere que Freud reprimiu o conhecimento de que Rank sofria de “psicose maníaco-depressiva”, conhecimento que Freud supostamente tivera “anos antes”. Tendo em vista a afirmação de Freud, acima mencionada, a sugestão de Jones não parece muito convincente. (E também porque a única  referência ao suposto conhecimento de Freud está numa carta por êle escrita a Ferenczi no mesmo ano, e não anos antes.) Toda uma história é inventada para explicar a existência dessa suposta psicose. Suas bases estariam nos cinco anos posteriores à Primeira Guerra Mundial, durante os quais Rank trabalhou muito, e com êxito, na direção de uma casa editôra de livros de Psicanálise, em Viena.

Esses cinco anos, “nos quais Rank continuou nesse ritmo furioso, devem ter constituído um fator em seu colapso mental subsequente”. Para um psiquiatra, para não falar de um psicanalista, explicar uma psicose maníaco-depressiva como consequência, em parte, de excesso de trabalho é realmente surpreendente.

Em 1923 “o espírito maléfico da dissensão” havia surgido. Naquela época, Freud culpou Jones e Abraham pela desintegração do comitê central. Mas Jones acabaria superando seus rivais. “Foi sómente depois de alguns anos que as verdadeiras causas da questão se tornaram manifestas: ou seja, o colapso na integração mental de Rank e Ferenczí.” Isso nos leva à afirmação suprema. Os derrotados na luta internacional, Rank e Ferenczi, haviam abrigado o germe da psicose por muitos anos, mas tais germes só se tornaram manifestos quando os dois discordaram de Freud. Quando se recusaram a apaziguar Freud, a psicose revelou-se! Como Jones diz com uma franqueza reconfortante, a esperança de Freud, ... ao fundar o Comitê, era de que seis de nós tínhamos condições para ocupar o lugar. Verificou-se depois, porém, que sómente quatro as tinham. Dois dos membros, Rank e Ferenczi, não puderam manter-se até o fim. Rank, de modo dramático ... e Ferenczi, mais gradualmente, em fins de sua vida, revelaram manifestações psicóticas que entre outros indícios incluíam um afastamento das idéias de Freud e suas doutrinas. As sementes de uma psicose destruidora, invisível durante tanto tempo, germinaram finalmente. (Grifos meus.)

Se o que diz Jones é certo, foi realmente um descuido surpreendente da parte de Freud não ter visto a evolução psicótica de dois dos seus discípulos e amigos mais íntimos, senão quando o conflito se manifestou. Jones não procura dar provas objetivas de sua afirmação, sobre a propalada psicose maníaco-depressiva de Rank. Temos apenas a sua palavra, ou seja, a palavra de um homem que fêz intrigas contra Rank e suspeitou de sua lealdade, durante muitos anos, na luta dentro da côrte que cercava Freud. Há muitas provas em contrário. Cito apenas uma declaração do Dr. Harry Bone, psicanalista de Nova York que conheceu Rank desde 1932 e estêve em contato frequente com ele até a sua morte:

Em todas as numerosas vêzes e variadas situações em que tive a oportunidade de vê-lo em ação e em repouso, não percebi qualquer indício de psicose ou de outra anormalidade mental. (Comunicação pessoal)

Rank, por fim, rompeu abertamente com Freud, o que Ferenczi jamais fêz. É portanto ainda mais surpreendente que Ferenczi seja acusado por Jones de traição. Como no caso de Jung e Rank, a história da traição começou, ao que se supõe, com uma viagem fatal à América. Quando Ferenczi quis ir a Nova York, uma “previsão intuitiva, provavelmente baseada na sequência infeliz de visitas semelhantes por Jung e Rank”, levou Jones a aconselhar-lhe que desistisse. Não obstante, com o apoio de Freud, Ferenczi partiu para os Estados Unidos e o “resultado justificou minhas [de Jones] previsões. Ferenczi jamais voltou a ser o mesmo, depois daquela visita, embora se passassem outros quatro -ou cinco anos até que sua depressão mental se tornasse evidente a Freud”. (Grifos meus.) Nos anos seguintes, as rivalidades e intrigas fantásticas entre Jones e Ferenczi, ao que parece, continuaram. Ferenczi suspeitou que Jones mentia e ambicionava, por motivos financeiros, unir as nações anglo-saxônicas sob seu cetro. Segundo Jones, “Freud foi, por isso, influenciado negativamente em relação a mim”. Mas as fôrças anti-Ferenczi parecem ter levado a melhor, no fim. Freud escreveu a Ferenczi, em dezembro de 1929: Você afastou-se, aparentemente, de mim nos últimos anos, mas espero que não o tenha feito a ponto de que se possa esperar a criação de uma nova análise, oposta, pelo meu Paladino e Grão-Vizir secreto!

Qual a essência das dissensões teóricas entre Freud e Ferenczi? Êste último se impressionara muito pela importância da falta de bondade dos pais, e acreditava que, Para ser curado, o paciente necessitava de mais do que “interpretações”, necessitava do tipo de amor fraternal que lhe havia sido negado quando criança.

Ferenczi modificou sua atitude para com o paciente, passando de observador frio a ser humano participante e amante, e entusiasmou-se com os resultados terapêuticos da nova atitude. Freud, a princípio, pareceu receber com tolerância a inovação. Mas sua atitude modificou-se, ao que tudo indica, porque Ferenczi não se dispôs a apaziguá-lo imediatamente, e também porque as suspeitas lançadas sobre ele pela facção de Jones fizeram sentir seus efeitos.

Ferenczi viu Freud pela última vez em 1932, antes do Congresso em Wiesbaden. Essa visita foi realmente trágica. Freud resumiu suas impressões finais do homem que fora seu seguidor e amigo dedicado desde os primeiros anos do movimento, num telegrama a Eitingon: “Ferenczi inacessível, impressão insatisfatória.” Ferenczi disse à Dra. Clara Thompson,(Aluna e discípula de Ferenczi, hoje diretora do William Alanson White Institute of Psychiatry, Psychoanalysis and Psychology, em Nova York) imediatamente depois da visita, no trem que os levou de Viena à Alemanha, que o encontro fôra “terrível”, e que Freud lhe dissera que podia ler seu trabalho no congresso psicanalista em Wiesbaden, mas devia prometer que não o publicaria, Pouco depois, Ferenczi revelava os primeiros sintomas da anemia aguda que causaria sua morte, no ano seguinte.

Algum tempo antes de seu último encontro com Freud, Ferenczi dissera à Sra. Izette de ForeSt (Aluna e amiga de Ferenczi, psicanalista e autora de The Leaven of Love, que encerra uma excelente exposição das idéias de Ferenczi sôbre a técnica psicanalítica) que se sentira triste e magoado pelo tratamento sêco e agressivo que recebera de Freud. (Comunicação pessoal) Tal atitude de Freud revela uma intolerância acentuada. Não obstante, a incapacidade que êle mostrava de perdoar a um antigo amigo, que dele se afastara, evidencia-se ainda mais expressivamente no ódio e no desprezo com que se referiu a Alfred Adler, por ocasião da morte dêste:

Para um menino judeu nascido num subúrbio vienense, a morte em Aberdeen é um feito excepcional, uma prova de como conseguiu fazer carreira. O mundo realmente o recompensou generosamente pelo serviço de contradizer a Psicanálise.

No caso de Ferenczi, chamar sua atitude de “frieza”‟ ou “quase inimizade”, como lzette de Forest fêz em The Leaven of Love, é uma caracterização bastante moderada. Jones, porém, que nega haver em Freud traços de qualquer autoritarismo ou intolerância, declara simplesmente que não há nada de verdade na história dessa hostilidade, “embora seja altamente provável que o próprio Ferenczi, em seu estado de alucinação final, acreditasse nela”.

Algumas semanas antes de sua morte, Ferenczi mandou a Freud congratulações pelo seu aniversário, mas supostamente “a perturbação mental fizera progressos rápidos nos últimos meses”. Segundo Jones (que não menciona fontes), Ferenczi relatou que um de seus pacientes americanos o havia analisado e com isso o curara de todos os seus problemas, e que tal paciente lhe mandava mensagens através do Atlântico. Jones, porém, é obrigado a admitir que Ferenczi sempre acreditara firmemente na telepatia, o que elimina a “prova” de sua loucura. A única “prova” existente é “a alucinação sôbre a suposta hostilidade de Freud”. Jones supõe, aparentemente, que sómente uma mente enfêrma pode acusar Freud de autoritarismo e hostilidade.

Jones leva a história da suposta psicose de Ferenczi, cujos germes teriam existido desde muito antes, a um clímax. Quando a moléstia atingiu a espinha dorsal e o cérebro, isso, segundo Jones, sem dúvida foi “exacerbado pelas suas tendências psicóticas latentes”. Numa de suas últimas cartas a Freud, depois da ascensão de Hitler ao poder, Ferenczi lhe sugeria que fosse para a Inglaterra.

Jones interpreta esse conselho realista como indício de que “havia certo método em sua loucura”. Finalmente, já próximo do fim, ocorreram manifestações paranóicas e até mesmo homicidas, seguidas pela morte súbita a 24 de maio.” Jones não alega conhecer os detalhes pessoalmente, nem proporciona qualquer indício ou prova da psicose de Ferenczi ou das “manifestações paranóicas e até mesmo homicidas”. Em vista disso, e das afirmações seguintes, as declarações de Jones sobre a psicose de Rank e Ferenczi devem ser consideradas como inverídicas e sob a suspeita de invenção, motivada por velhos ciúmes pessoais e pelo desejo de poupar a Freud a crítica de ter sido áspero e mau para com homem profundamente dedicado a ele.

(Não pretendo acusar o Dr. jones de insinceridade consciente; mas os impulsos inconscientes podem derrotar as intenções conscientes, e é exatamente disso que se ocupa a Psicanálise.)

 

Jones não viu Ferenczi nos últimos anos de sua doença. Mas a Dra. Clara Thompson, que o acompanhou desde 1932 até o dia de sua morte, declara:

“exceto pelos sintomas de sua doença física, não havia nada de psicótico em suas reações, que eu tivesse observado. Visitei-o regularmente, e conversei com êle, e não houve um único incidente, além das dificuldades de memória, que consubstanciasse as afirmações de Jones sobre a psicose ou as inclinações homicidas de Ferenczi.

O Dr. Michael Balint, um dos discípulos mais fiéis de Ferenczi e o executor de seu legado literário, também discorda da afirmação do Dr. Jones. Diz ele: Apesar da séria condição neurológica [relacionada com a anemia aguda] sua mente permaneceu clara até o fim, e posso afirmá-lo pela experiência pessoal, pois o vi frequentemente durante os últimos meses, praticamente uma ou duas vezes por semana. (Comunicação pessoal)

A enteada de Ferenczi, a Sra. Elma Lauvrik, que também o acompanhou até a morte, escreveu-me confirmando totalmente as declarações da Dr.a Thompson e do Dr. Balint.

Fiz uma descrição tão detalhada das afirmações fantásticas do Dr. Jones, em parte para defender a memória de homens bem dotados e dedicados, que já não se podem defender, em parte para mostrar, com exemplo concreto, o espírito partidarista que se encontra em certos círculos do movimento psicanalítico. As suspeitas que se possam ter formulado antes, de que o movimento psicanalítico encerra tal espírito partidário, são confirmadas pelo trabalho de Jones, especialmente pelo tratamento dado a Rank e Ferenczi no terceiro volume.

Surge, agora, uma indagação: como pôde a Psicanálise, uma teoria e uma terapêutica, transformar-se num movimento fanático desse tipo? A resposta só pode ser encontrada pelo exame dos motivos de Freud na evolução do movimento psicanalítico.

Na verdade, visto superficialmente, Freud foi apenas o criador de um novo tratamento das doenças mentais, e a tal questão dedicou seu principal interesse e todos os seus esforços. Mas se olharmos mais de perto verificaremos que atrás desse conceito de terapêutica médica para a cura de neurose há uma intenção totalmente diferente, raramente expressa por Freud, e provavelmente nem mesmo consciente. Esse conceito oculto e implícito se ocupava primordialmente não da cura da doença mental, mas de algo transcendente ao conceito da cura e enfermidade. Que era?

Certamente não era a Medicina. Freud escreveu: Depois de quarenta anos de atividade médica, meu autoconhecimento me diz que jamais fui médico, no devido sentido. Tornei-me médico ao ser obrigado a me desviar de meu objetivo inicial, e o triunfo de minha vida está em ter, depois de uma longa e tortuosa viagem, encontrado o caminho para minha finalidade original.

Qual foi essa finalidade original que Freud reencontrou? Ele o diz claramente, no mesmo parágrafo: “Em minha juventude, senti uma necessidade esmagadora de compreender um pouco dos enigmas do mundo em que vivemos, e talvez mesmo de contribuir para a sua solução.” (Grifos meus.) Interesse pelos enigmas do mundo e desejo de contribuir para a sua solução eram intensos em Freud quando na escola secundária, especialmente durante os últimos anos, e ele próprio diz: “Sob a influência poderosa de um companheiro de escola, de um rapaz um pouco mais velho que chegou a se  destacar mais tarde na política, surgiu-me o desejo de estudar Direito, como ele, e de dedicar-me a atividades sociais.” Esse colega de escola, Heinrich Braun, tornou-se o líder do movimento socialista. Como Freud diz noutro lugar, nessa época foram nomeados pelo Imperador os primeiros ministros burgueses, o que despertou grande alegria entre a classe média liberal, particularmente entre a intelligentsia judaica. Naquela época, Freud já se tinha interessado muito pelos problemas do socialismo, pela possibilidade de ser no futuro um líder político, e pretendia estudar Direito como um primeiro passo nessa direção.

Mesmo quando trabalhou como assistente num laboratório fisiológico, sentia que se tinha de dedicar a uma causa.

Em 1881 escreveu à sua noiva:

A Filosofia, que sempre me pareceu como meu objetivo e refúgio da velhice, aumenta cada dia de atração, tal como as questões humanas em conjunto, ou qualquer causa a que possa dar minha dedicação a qualquer preço. Mas o temor da incerteza das questões políticas e locais me afasta dessa esfera.

O interesse de Freud pela política usando a palavra “interesse” num sentido bastante amplo e sua identificação com líderes que eram conquistadores ou grandes benfeitores da humanidade não surgiram apenas nos últimos anos da escola secundária. Já como rapaz tivera grande admiração por Aníbal, que o levou a uma identificação que perdurou durante toda a sua vida, como se vê facilmente pelos seus escritos. A identificação de Freud com Moisés foi talvez ainda mais profunda e perdurável. Há provas disso. Basta dizer, aqui, que Freud se identificou com Moisés, que levou uma massa ignorante a uma vida melhor, vida de razão e controle das paixões. Outro indício da mesma atitude foi o interesse de Freud, em 1910, pela Fraternidade Internacional de Ética e Cultura. Jones relata que Freud perguntou a Jung o que pensava sobre seu ingresso nessa fraternidade, e somente depois da resposta negativa abandonou a ideia. Não obstante, o Movimento Psicanalítico Internacional, fundado pouco depois, viria a ser uma continuação daquele plano.

Quais os objetivos e qual o dogma desse movimento? Freud o expressou com clareza nesta frase: “Onde houver Id, haverá Ego.” Seu objetivo era o controle das paixões irracionais pela razão, a libertação do homem em relação à paixão dentro das possibilidades humanas.

Estudou as fontes das paixões a fim de ajudar o homem a dominá-las. Sua finalidade era a verdade, o conhecimento da realidade; para ele, esse conhecimento era a única luz orientadora do homem na terra. Esses objetivos eram tradicionais ao Racionalismo, ao Iluminismo, e à Ética puritana. Foi o génio de Freud que os ligou com uma nova compreensão psicológica da dimensão das fontes ocultas e irracionais da ação humana.

Em muitas das formulações de Freud é visível que seu interesse transcendia à cura médica em si. Ele fala do tratamento psicanalítico como a “libertação do ser humano”, e do analista como aquele que deve servir de “modelo” e agir como um “professor”. E afirmar que a “relação entre o analista e o paciente se baseia no amor da verdade, ou seja, no reconhecimento da verdade, que impede qualquer tipo de fraude ou engano”.

Que se segue de tudo isso? Embora conscientemente Freud fosse apenas um cientista e um terapeuta, inconscientemente era - e desejava ser - um dos grandes líderes ético-culturais do século XX. Queria conquistar o mundo com seu dogma racionalista e puritano, e levar o homem à única salvação - e muito limitada - de que era capaz: a conquista da paixão pelo intelecto. Para Freud, isso - e não a religião ou qualquer solução política, como o socialismo - era a única resposta válida ao problema do homem.

O movimento de Freud estava imbuído do entusiasmo do racionalismo e liberalismo dos séculos XVIII e XIX. O destino trágico de Freud foi ter esse movimento se popularizado, depois da Primeira Guerra Mundial, entre a classe média urbana e a intelligentsia, às quais faltava fé no radicalismo político ou filosófico. Assim, a Psicanálise substituiu o interesse radical filosófico ou político, tornando-se um novo credo que pouco exigia de seus adeptos, a não ser o aprendizado da nomenclatura.

Foi exatamente essa função que tornou a Psicanálise tão popular hoje. A burocracia que herdou o legado de Freud capitaliza sobre essa popularidade, mas herdou pouco de sua grandeza e de seu verdadeiro radicalismo. Seus membros lutaram entre si, com intrigas e maquinações mesquinhas, e o mito “oficial” sôbre Ferenczi e Rank serve apenas para eliminar os dois únicos discípulos de imaginação e poder criador entre o grupo original que perdurou, depois das defecções de Adler e Jung. No meu entender, porém, para que a Psicanálise desenvolva e siga as descobertas básicas de Freud, terá de rever, do ponto de vista do pensamento humanista e dialético, muitas de suas teorias concebidas dentro do espírito do materialismo fisiológico do século XIX. Essa tradução de Freud a uma nova clave deve basear-se numa interpretação dinâmica do homem, proveniente de uma compreensão das condições específicas da existência humana. As finalidades humanísticas de Freud, transcendendo a enfermidade e o tratamento, poderão então encontrar uma expressão mais nova e mais adequada, mas somente se a Psicanálise deixar de ser governada por uma burocracia estéril e reconquistar na ousadia original, na pesquisa da verdade.

 

(ERICH FROMM - O DOGMA DE CRISTO e Outros Ensaios Sobre Religião, Psicologia e Cultura) 

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