“Ora o nascimento de Jesus Cristo foi deste modo: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, achou-se ter concebido [por obra]do Espírito Santo, antes de coabitarem. E José, seu esposo, sendo justo, e não a querendo difamar, resolveu deixá-la secretamente. Ora, andando ele com isto no pensamento, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, dizendo: José, filho de David, não temas receber em tua casa Maria, tua esposa, porque o que nela foi concebido é [obra]do Espírito Santo. E dará à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus, porque Ele salvará o seu povo dos seus pecados” (MT 1, 16-21). (1)
José tinha um sério problema, que nenhum noivo gostaria de ter que enfrentar. Ele estava comprometido com Maria, suas famílias tinham concordado com ocasamento, e, de repente, "descobriu-se" que sua noiva "carregava um filho" antes do casamento (Mateus 1:18). Segundo o Evangelho de Mateus, foi José quem descobriu a gravidez, decidindo romper os planos de casamento sem, no entanto, fazer um escândalo, de modo a não a cobrir de vergonha. É possível que planejasse ajudá-la a deixar a cidade e dar à luz secretamente, não temos como sabê-lo. Mas uma coisa ele sabia com certeza: não era o pai daquela criança em gestação. Com seu auxílio ou não, Maria efetivamente deixou a cidade às pressas e, segundo a tradição, dirigiu-se para o sul, para a pequena cidade de Ein Kerem, a seis quilômetros e meio a oeste de Jerusalém, na região montanhosa da Judeia, onde permaneceu por três meses, hospedada na casa de parentes próximos, um casal mais velho, Isabel e Zacarias (Lucas 1:39). Isabel estava também grávida nessa época, de seis meses, e o filho que ela então carregava seria conhecido como João Batista ou, literalmente, João, o Batizador. Não sabemos o grau de parentesco entre Maria e Isabel, talvez fossem primas ou talvez tia e sobrinha. Mas, dadas as circunstâncias, as duas famílias deveriam ser muito íntimas, o que significa que Jesus e João Batista eram também parentes.
Segundo Lucas, a criança nasceu em Belém devido a um censo fiscal romano. A cidade de Belém fica próxima a Jerusalém, na Judeia, no sul do país, enquanto Nazaré se situa no norte da Galileia, a três dias de distância. Lucas relata que, ao encontrar a cidade cheia de gente, com as hospedarias repletas, o casal se refugiou em um estábulo, onde Jesus nasceu. Naquela época, era comum as casas terem a seu lado estruturas parecidas com grutas, cavadas na rocha, usadas para abrigar animais domésticos. Segundo Lucas, José e sua noiva ainda não eram casados; não sabemos quando eles efetivamente se casaram, mas teria que ser após o nascimento da criança (Lucas 2:5). Mais tarde, Lucas se refere a Jesus como "o filho de José", mas é claro que ele não acredita que José possa mesmo ser seu pai. Essas palavras indicam antes que os dois se casaram e que, assim, José se tornou o pai adotivo legal de Jesus (Lucas 4:22). Mateus diz que José "tomou sua mulher", mas não diz quando, e acrescenta um detalhe fascinante — o casal só teve relações sexuais depois do nascimento da criança (Mateus 1:25)." Isso concorda com a dedução de Lucas de que o casamento aconteceu depois do nascimento, já que, na cultura judaica, o casamento só era considerado consumado depois do ato de "conhecer" sexualmente a mulher."
Esse é o esboço apresentado nos primeiros capítulos dos Evangelhos de Mateus e Lucas." Os outros dois Evangelhos, Marcos e João, começam quando Jesus já era adulto e não dizem nada sobre seu nascimento. (18) Mateus e Lucas estão de acordo sobre a origem da gravidez de Maria. No relato de Mateus, logo após descobrir a gravidez de Maria, José tem um sonho no qual um anjo lhe diz que ela teria "concebido de um espírito santo", que ele deveria casar-se com ela apesar de tudo, (19) e que seu filho deveria chamar-se Jesus. Ao casar-se com uma mulher grávida de um filho que não era seu, e ao dar-lhe um nome, ele estava na verdade "adotando" legalmente Jesus como seu filho. A frase "concebido por um espírito santo" implica que a gravidez se fez pela ação do espírito de Deus sem, no entanto, dizer claramente que Deus era o pai de Jesus — no sentido em que, digamos, Zeus era pai de Hércules quando seduziu sua mãe, Alcmena. Nesse sentido, o relato difere das histórias de nascimentos miraculosos comuns à antiga mitologia greco-romana.
No relato de Lucas, quem tem o sonho é Maria. O anjo Gabriel lhe diz que ela ficaria grávida, teria um filho e lhe daria o nome de Jesus. O nome Jesus, em hebraico, é o mesmo que Josué, bastante comum entre os judeus naquela época. Esse filho "será grande e será chamado filho do Altíssimo; e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai", para que ele reine para sempre sobre a nação de Israel. Maria respondeu: "Como pode ser isso possível, se não conheço nenhum homem?" Essa expressão bíblica significa, sem deixar lugar a dúvidas, ter relações sexuais com alguém. O anjo replicou: "Descerá sobre ti o Espírito Santo e a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra; pelo que também o Santo que de ti há de nascer será chamado filho de Deus" (Lucas 1:35).
Os credos cristãos primitivos afirmam, com base nesses textos, que Jesus foi "concebido do Espírito Santo, nasceu de Maria virgem"." É fácil confundir a "imaculada conceição" com o "nascimento virgem". Segundo os ensinamentos da Igreja Católica Romana, a Imaculada Conceição se refere à concepção de Maria por sua mãe Ana, não à concepção de Jesus. Esse ensinamento garante que Maria nasceu sem o "pecado original" herdado por todo ser humano desde Adão, o que lhe permitiu dar à luz Jesus em um estado especial de pureza moral. O "nascimento virgem" é um ensinamento diferente. Ao dizer que Maria, sem conhecer homem, ficou grávida pela intervenção do Espírito Santo, ele se refere mais à origem da gravidez do que ao próprio "nascimento".(Alguns cristãos primitivos discutiam se Maria permaneceu virgem (virginitas in partu), com o hímen ainda intacto, mesmo tendo concebido um bebê. O Proto-evangelho de Tiago (capítulo 20) é nossa fonte mais antiga desta ideia. O texto conta como uma parteira, ao examinar Maria após o nascimento de Jesus, descobriu que ela permanecera fisicamente intacta através do poder miraculoso de Deus. Esta ideia nunca se tornou dogma oficial, e a opinião da maior parte dos antigos teólogos cristãos era que Maria era"virgem em termos de homem, não virgem em termos de concepção" (Tertul ia no, De carne Christi 23) em The Ante-Nicene Fathers, vol. 3, ed. Alexander Roberts e James Donaldson (Grand Rapids:Wm. B. Eerdmans, 1986), 536) Podemos também nos referir a essa ideia como a "concepção virginal", uma vez que é a causa de sua gravidez que está em questão.
Outro dogma católico afirma que Maria permaneceu virgem durante toda a sua vida (semper virgine, "sempre virgem")" — percepção partilhada até mesmo por inúmeros líderes protestantes, como Lutero, Calvino, Zwingli e John Wesley, embora seja pouco corrente hoje em dia entre os protestantes." Maria foi idealizada em todos os tempos como a divina e santa "Mãe de Deus". Ela estava tão afastada de sua cultura e de sua época, que a mera ideia de que poderia ter tido relações sexuais, gerado outros filhos e vivido a vida normal de uma mulher judia casada foi impensável durante séculos. Ela foi "levada até os céus" de maneira bastante literal, e sua verdadeira humanidade se perdeu, assim como se perdeu a importância de seus ancestrais.
(James Tabor - A dinastia de Jesus)