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PRIMEIRO DESASTRE AMOROSO

por Thynus, em 13.02.17
 
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Você é um sucesso ou um desastre na sua vida amorosa?
Houve mais um motivo para eu ter viajado para a Índia.
Eu estava infeliz com meus relacionamentos amorosos. Tinha tido vários “rolos” bestas e nenhum relacionamento sério, nenhum namorado. Sentia-me como uma senhora de sessenta anos solteira, sem esperanças. Como se o tempo já tivesse acabado. Eu já tinha me dado por incompetente nessa área. Com 21 anos...
 Ir para Índia então também era um teste para ver se eu seria boa em alguma coisa. Se eu aguentaria me colocar em uma situação difícil e sair dela ilesa. Eu precisava me valorizar e me sentia valente no que se refere a viagens. Já tinha passado nove meses enclausurada em Dakota do Norte, nos Estados Unidos, quando tinha quinze anos, em um intercâmbio. Terminei a bravíssima tarefa de me manter lá sem ter crises de choro e voltar para o colo da mamãe.Ou melhor: tendo muitas crises de choro, mas aguentando sem mamãe. Voltando ao tema relacionamentos. Ai que difícil...
Sempre fui tímida com meninos, ou melhor, nos primórdios da minha vidinha, eu era mais confiante. Acho que só depois fui “aprendendo” a ser tímida e me esconder. Aos três anos de idade, eu me apaixonei por um garoto de doze.
Era um feriado e fomos para uma fazenda de uns amigos dos meus pais.Lembro de uma cena dele balançando em uma rede branca rendada e eu, apenas de longe, contemplando a paisagem.
Minha mãe conta, que depois que voltamos para casa, eu implorei para que ela telefonasse para o jovem galã por mim, mas ela resistiu. Afinal, o que uma menina de três anos iria falar para um moleque de doze? Enfim, ela acabou cedendo e ligou para ele.Quando me passou o telefone, recebi do outro lado uma voz desdenhosa: – O que você quer,hein,Grá? Devo ter ficado tão desapontada que desliguei. Eu tinha três anos! Meu Deus, o que aconteceu com essa menina ousada?
Com onze anos, eu me apaixonei por um menino em umas férias na praia, mas era incapaz de dar um sorrisinho que fosse para ele. O que eu mais sabia era “dar foras”, trocar soquinhos e jogar pingue-pongue. Criada no meio de meninos, isso é que era legal. Ser menininha era chato e sem graça. Apesarde ser assim, eu não era masculina. Eu devia ser feminina porque me chamavam muito de... argh... bonequinha.
Para mim era como um xingamento. Era como chamarem o Michael J. Fox no filme De volta para o futuro de covarde. Esta era a palavra inimiga: bonequinha. Para mim queria dizer fraquinha, bobinha– e isso eu não podia ser.
 O primeiro caso amoroso que eu teria tido foi com esse menino aos onze anos de idade. Um dia, muito inesperadamente, já de volta em casa depois de longas férias, recebi um bilhete de uma pomba-correio, grande amiga minha, com a seguinte pergunta dele :
 “Grá, você quer namorar comigo? Marque x: Sim Não
 1000000000000000 beijos”.
 Respondi prontamente que sim e entreguei a carta para minha amiga, que era da classe dele.
Depois de uma semana, houve uma festa e eu sabia que iria encontrar“meu namorado”.Assim que cheguei,logo vi onde ele estava e fui direto para o canto mais longe dele possível. Ele veio atrás de mim calmo e confiante. Eu queria morrer de tanta vergonha... Fugi mais uma vez.
“Meu namorado” persistiu indo atrás de mim devagar até que não teve jeito:ele chegou muito mais perto do que eu gostaria e perguntou:
“ Então,Grá, você quer namorar comigo?”
Eu afirmei que sim com a cabeça e os olhos fixados no chão.
– Então, então...
Ele foi chegando mais perto ainda e eu, em um ataque de pânico, virei as costas e disse, indo embora: –Então, tá...
 Mais tarde, na mesma festa, o momento mais triste da minha vida de adolescente. Minha amiga chegou perto de mim e falou:
 –Grá, ele disse para você não levar a mal, mas está tudo acabado.
Fui embora arrasada. Fim da história. Nunca mais o vi.
Tudo bem que eu ainda era bem jovem, mas o medo da proximidade já estava instalado. É claro que se a ausência de medo permitisse, eu não iria além de beijinhos inocentes e seguradas suadas de mãos. Mas estava muito, muito longe, até disso. Fugi do monstro do prazer “como o diabo foge da cruz”.
Esta parte de mim ainda vive e aparece de vez em quando. Medo da sensualidade, sexualidade, libido, vida, movimento, paixão – não só em relação a outro homem, mas também em relação à vida. Então, a partir dos onze anos de idade, repeti esse mesmo padrão de fugir de meninos e, depois, dos homens. Os que não me atraíam eram camaradas; os que me atraíam eram perigosos. Na presença deles, eu não era eu. Criança com a mente em formação tira muitas conclusões erradas sobre a vida e as carrega até o túmulo. Algumas das minhas milhares de conclusões sem sentido foram:
Conclusão número 1: Eu não podia ser natural, feminina, porque significava fraqueza, humilhação. Conclusão número 2: Homens são perigosos, superiores, distantes, poderosos.
Conclusão número 3: Eu sou mulher, sou pequena, sou diferente da família toda, portanto não pertenço ao grupo – deve haver algo errado comigo.
Todas estas conclusões absurdas para um adulto mas lógicas para uma criança foram se fortalecendo com o passar do tempo, tomando mais forma e reafirmando sua falsa validade. Minha percepção, por mais que a realidade se apresentasse diferente, se adequava para se encaixar nessa visão pré-moldada. Foram anos de conflitos internos porque,afinal,outra parte minha queria um relacionamento, queria ser feminina, queria se entregar, sem me sentir humilhada. E ainda, eu me apaixonava com certa facilidade; sempre tinha alguém especial ocupando meu coração.

(Graziela Bergamini - Viagens de uma Psicóloga em Crise)

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publicado às 01:42



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