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Existem pessoas dotadas de forte carga erótica. Pessoas em que o erotismo é um elemento essencial da vida, sem o que se extinguem, como se lhes faltasse o ar ou o alimento. Outras, ao contrário, parecem quase não possuí-lo. O que não significa que não tenham interesses; é como se não possuíssem esse tipo particular de sensibilidade vital. Na maior parte dos casos, entretanto, o erotismo não é constante, mas se apresenta com grandes variações. Não estou me referindo àquele interesse erótico que sempre pode ser despertado com estímulo suficiente. Refiro-me ao grande erotismo, ao erotismo como fato central da existência, que lhe dá sentido. Nessas pessoas, a riqueza erótica se manifesta somente em alguns momentos da vida. Em determinado período da adolescência, por exemplo, mas sobretudo quando se enamoram. São esses os tempos do erotismo extraordinário, as estações do amor. Depois, passado o grande amor, a paixão, toma seu lugar a vida cotidiana e o erotismo passa em surdina comparado a outros interesses e preocupações.
Os resultados de todas as pesquisas sobre a sexualidade humana, a partir do famoso Relatório Kinsey, mostram que o tempo dedicado à atividade amorosa é extremamente curto. Todos os sexólogos confirmam que são bem poucas as pessoas que têm vontade, tempo, desejo de fazer amor por horas e horas com a pessoa que amam. São poucas aquelas que, após o ato sexual, não se sentem cansadas, aborrecidas ou tristes, mas ao contrário se sentem felizes, renovadas, serenas. A maioria das pessoas está, em última análise, de acordo com o provérbio latino que diz "Post coitum omne animal triste, nisi gallus qui cantat" (Todo animal fica triste depois do coito, menos o galo, que canta) (1). Michel Foucault demonstrou em suas últimas pesquisas que essa concepção deriva da medicina grega e romana, segundo as quais no relacionamento sexual ocorre uma perda de forças vitais. Uma ideia depois retomada pelo cristianismo e que sobreviveu até alguns decênios passados, quando, aos rapazes que se masturbavam, prognosticava-se as mais horríveis doenças.
Essa concepção não existe na medicina oriental. Aliás, no taoísmo pensa-se que os relacionamentos sexuais longos e frequentes (melhor ainda se com parceiros diversos) aumentam as forças vitais e prolongam a vida. Isso porque o homem se enriquece com o princípio feminino yin e a mulher, com o princípio masculino yang. Porém, mesmo no taoísmo permanece o medo do empobrecimento. Cada um dos dois sexos deve procurar extrair do outro o mais possível do princípio complementar, dando o mínimo de si. Na prática taoísta o homem é instado a reduzir a ejaculação, e chegando a uma certa idade, suspendê-la definitivamente.
A reviravolta completa dessa impostação conservadora, predatória, voraz só acontece quando aparece o enamoramento individual. Quando aquela pessoa se torna única e insubstituível. Então ambos se desejam, sentem necessidade de ver-se, tocar-se, abraçar-se, beijar-se, fazer amor, dar-se completamente. As pessoas enamoradas, homem ou mulher, não importa, quando estão longe um do outro, sentem diminuir em si a energia vital. É como se seu organismo, suas células, tivessem necessidade do contato físico com o outro. Aparecem os sintomas da depressão. Perdem o apetite, o sono. Acordam pela manhã, e a primeira coisa que sentem é a dolorosa falta do corpo amado. E não conseguem adormecer de novo se não imaginam vê-lo, abraçá-lo, segurar-lhe a mão. Quando finalmente o encontram de novo, quando finalmente se apertam contra ele, é como se seu organismo se recarregasse de energia vital. Como se do outro emanasse um fluido vivificador que lhes renovasse as forças.
Fazendo amor longamente, desesperadamente, o corpo se carrega como uma bateria elétrica, torna-se cada vez mais vivo, mais forte. O que a pessoa amada nos dá, seus beijos, sua pele, seus humores, são nutrientes que nos robustecem a ponto de nos sentirmos de novo fortes, capazes de nos levantar, trabalhar, partir. Até de enfrentar uma separação. Depois, após um certo período, é como se a energia acumulada se descarregasse. Sentimos então um cansaço, uma sensação de peso, uma fraqueza dolorosa. Temos novamente necessidade daquela boca, daquela pele, daquele corpo, o único que nos pode transmitir a energia que se esvai, o único no mundo que a possui.
Nessa situação, a ideia de que fazer amor enfraquece é um absurdo. É somente fazendo amor, dando-nos totalmente que encontramos de novo a nossa força. Nosso amado é nosso alimento, nossa bebida, nosso ar. E nós somos o mesmo para eles. O ato amoroso, a maneira pela qual, nutrindo-o, nos nutrimos.
As pessoas dotadas de forte carga erótica vivem a sexualidade dessa maneira. Quanto mais dão, mais recebem. Se bem que, em geral, estreitamente ligado ao enamoramento e à paixão, esse erotismo generoso pode apresentar-se em certos casos também de forma leve, alegre, sensual. Não tem necessidade de fixar-se num objeto, excita-se sempre com novas formas, novos corpos, com a novidade. Está baseado numa grande excitabilidade de todos os sentidos: a visão, a audição, o olfato, mas também o tato, a sensibilidade muscular, cutânea. Responde aos mais leves estímulos, aos sinais mais fracos. Adivinha o mais tênue convite de sedução, individualiza-o, mesmo se é velado, e a ele responde prontamente. Por isso faz desabrochar o erotismo à sua volta porque o reconhece, dá-lhe seu sorriso, seu entusiasmo, sua segurança, sua energia. As pessoas desse tipo amam a vida, amam o prazer em todas as suas manifestações. Se é homem, encontra algo de belo e excitante em todas as mulheres. Se é mulher, identifica imediatamente o homem que lhe agrada e fica feliz se consegue ser notada prontamente. O primeiro envolve a mulher com seu desejo até fazê-la vibrar. A mulher se abandona ao prazer da sedução e de ser seduzida.
Porém, em geral, para revelar-se completamente, o erotismo tem necessidade de um objeto único onde descobrir todas as potencialidades. Não é necessário que no início exista enamoramento. Esse tipo de erotismo nem é necessariamente muito fiel. Porém, não está disponível para todos os estímulos. Não tem os sentidos sempre alerta e prontos a captar o mais leve sinal de sedução. Aliás, em geral, reage muito pouco, chegando mesmo a parecer obtuso. Sua força reside na concentração. Quando escolhe um objeto, quando o vê, quando o separa da massa dos outros, concentra-se nele. Somente então seus sentidos despertam. As sensações que o primeiro tipo de erotismo recolhia do mundo, esse erotismo encontra numa única pessoa, de quem descobre todos os aspectos, todas as nuances, os odores, os sabores, as infinitas formas possíveis, os brilhantismos, num turbilhão de fantasias que se concentram todas no mesmo ponto. Como os raios de sol através de uma lente, antes que a temperatura fique altíssima e as vibrações, os sentimentos, atinjam o calor branco da sensualidade e da fusão.

(Francesco Alberoni - O Erotismo)

(1) O mesmo sentido tem outra expessão: "Laeta venire Venus, tristis abire solet" (Vênus costuma chegar alegre, mas ir embora triste). Veja DICIONÁRIO DE EXPRESSÕESE FRASES LATINAS

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publicado às 16:50



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