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Porto, Património Mundial

por Thynus, em 29.04.16
Muy nobre e invicta cidade do Porto
 Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende até ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata são-joanina
erigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
num rosto de cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria
(Carlos Tê / Rui Veloso
 

Património Mundial, aqui, não é só um monumento, nem sequer um grande conjunto de monumentos, com casas e ruas, igrejas, pontes majestosas…e cais…e muralhas e muitas pedras mais…e ferros e azulejos…
Aqui o Património Mundial é uma cidade.
Fervente, agitada, feita mais de mudança que de parança… feita de almas que se encontram e se agitam, nas ruas e nas casas, nos barcos e nos cais, nas igrejas, nos mercados e nas lojas comerciais…
O Porto, Património Mundial, é, acima de tudo, um turbilhão de energias e vontades que transporta, para um futuro vivo, uma cidade que já carrega vinte e cinco séculos de diferenças e de camadas sobrepostas, todas elas parte integrante do sítio que é hoje.
Na força das pessoas e na dinâmica das apostas está o futuro do Porto, mais que nas pedras da Sé ou dos Clérigos.
 
Contemplava a cidade
das pontes pela última
vez, envolvida por lençóis
encardidos e uma névoa que
subia do rio para lhe morder
o coração de Pedra. Era um
burgo pobre, sujo, reles até,
mas gostaria tanto de lhe pôr
um diadema na cabeça...
(Eugénio de Andrade)
 

A cidade é feita de vida
Feita de vidas de hoje, de ontem e de amanhã, e é essa vida que encontramos nos passeios e nas lojas, nos monumentos e nas casas, é o conteúdo dessa vida e dessas vidas que procuramos entender nos restos das muralhas, nas torres das igrejas, nas grandes pontes metálicas, nos azulejos das fachadas.
Queremos entender como é que estas coisas aqui pousaram, quem as fez, quando foram feitas, porque é que os nossos antepassados, mais ou menos recentes, mais ou menos remotos, se dedicaram ao comércio do vinho, ao Vinho do Porto, à navegação longínqua, ao Brasil e à China? A cidade do Porto é um porto.

Um Porto de barcos e de percursos
O Porto é uma cidade de Celtas, de Suevos e de Tripeiros.
Aqui é a boca do rio, a porta Atlântica de toda a bacia que entra por aí acima, por esses desfiladeiros e planaltos, pela Galiza, pela Lusitânia, por Leão e Castela, buscando e recolhendo as águas (e os vinhos) de tantos montes e montanhas.
Por aqui, molhando os nossos cais tão velhos, passa toda a chuva e toda a neve que se precipita neste mundo grande que é o interior ibérico. O Porto é uma cidade de gente Atlântica, de gente do Douro também, serrana, algo lusitana, algo visigótica, com fundas marcas nórdicas.
“Geneticamente”, o Porto será da família das cidades do noroeste europeu, marítima, chuvosa, pesqueira e marinheira, junto com a Galiza das rias, com a Bretanha, com a Irlanda e com a Escócia.
Mas o Porto, historicamente, ligou-se também com a Inglaterra, com os Países Baixos, com o Báltico, com as cidades da Liga Hanseática, com os Vikings dos fiordes nórdicos.
Aqui é o local de encontro deste interior ibérico e do mar Atlântico, com as Américas e as passagens para o mundo grande, global, inteiro.
Na partilha com Lisboa, enquanto a “capital do Império” centralizava as rotas da Índia e da África, o Porto estabeleceu laços velhos e íntimos com a Inglaterra e, mais tarde, com o Brasil. Sem tratado como em Tordesilhas assim se foram dividindo os mundos.
Assim se foi construindo uma identidade e um universo de relações onde entra o Vinho do Porto com ingleses, escoceses e dinamarqueses, e a industrialização com alemães, britânicos, franceses e belgas, a emigração com o Brasil, África e Europa, a troca cultural com todo o mundo.
É, o Porto, uma cidade de judeus que depois partem para Amesterdão, Bruges, Antuérpia, e aí vão fazer a sua riqueza e continuar a sua cultura. É uma cidade aberta, liberal, progressista, mais de comerciantes do que de aristocratas, mais vivendo do mercado que da corte, mais vivendo do negócio que da guerra, mais nobre na alma que no sangue.
Esta cidade descobre-se entre nevoeiros e neblinas!
Claro que também há dias de sol. Nesses dias é preciso pôr as roupas a secar, porque as semanas de chuva, às vezes, são seguidas. Mas, entre a chuva miudinha e as orvalhadas, há muito mais para descobrir, de tudo um pouco, daquilo que se fazem as cidades e se foi, aqui, acumulando ao longo dos milénios:
Conventos e igrejas, muralhas, mercados, cais, armazéns, museus, teatros, casas/torre góticas, fachadas barrocas, pontes monumentais, barcos pequenos e grandes, o antigo escondido e o moderno não revelado, há arqueologias que nos mostram o castrejo da idade do bronze, enterrado sob o romano e as camadas medievais, mas há também o século vinte com arquitecturas de surpresa, do movimento moderno até à contemporaneidade.
Há paisagem, animação das ruas, comércio, restaurantes, jardins esplanadas, casas, barcos e vinhos.

E o Porto é também uma tribo de futebol
Esta cidade de ligações, materiais e imateriais, a outros sítios é um Porto de relações, com famílias e personalidades, com artistas que deixam a sua obra nas ruas como os arquitectos, os escultores, os paisagistas, e com outros que deixam a sua obra nas galerias, nas livrarias, nos ecos dos teatros. A cidade da história, a cidade das casas e dos quarteirões, a cidade dos monumentos e das paisagens é também a cidade dos inquilinos e dos senhorios, a cidade dos empregadores e dos empregados e a dos residentes e dos turistas.
Desde a expansão histórica das épocas romana, medieval e moderna, até aos períodos de depressão depois da queda do Império Romano, das pestes, das invasões napoleónicas e do fascismo, o Porto foi crescendo umas vezes, diminuindo outras, na relação directa da capacidade das suas gentes para resistir às crises e retomar os trabalhos do progresso e de novos futuros.
Assim se faz a química da cidade!

  A Geografia do Sítio 
O sítio fez a cidade e a cidade fez o sítio. 
A cidade histórica, o casco velho, medieval, situa-se sobre colinas graníticas, de forte pendente, situadas na margem direita do Rio Douro, a uma légua da sua foz, no Atlântico.
Na margem esquerda ergue-se Gaia, sobre morros e onde, desde o século XVIII, se situam as caves do vinho do Porto.
Embarcado nos Rabelos ou, depois, por comboio e camião, o vinho desce as encostas desde as quintas do Alto Douro, por rápidos e gargantas até ao descanso destes armazéns magníficos, onde se arrumam os cascos de carvalho que dão ao Porto o paladar do tempo e guardam a memória do sol, dos xistos e das castas das uvas.
A luta permanente do rio e do mar determinaram o poder geo-estratégico desta localização, com importância para o povoamento, para a defesa e para o desenvolvimento económico de toda a região e para a própria identidade nacional.
O clima atlântico, quase opaco, contrasta com as características semi-mediterrânicas que estão presentes a apenas três centenas de quilómetros mais a Sul (em Lisboa, por exemplo) e com o clima continental das regiões do interior, para lá dos desfiladeiros e serranias do Marão.
A jusante da grande bacia hidrográfica do Douro, que se desenvolve na sua maior parte na meseta espanhola, o Porto sofre frequentemente cheias violentas e apresenta margens escarpadas que marcam a sua paisagem, hoje urbana, atravessada pelas pontes monumentais.

A História
Agora velho de quase três milénios, já no fim da idade do bronze, entre os séculos VIII e IV antes de Cristo, o Porto constituía um assentamento urbano do tipo castrejo, comum na área do Noroeste Peninsular.
O comércio com os fenícios e com os povos do Norte da Europa já era, então, regular.
A ocupação romana acontece no século I A. C. e a cidade assume uma grande dimensão durante a paz romana, sobretudo como entreposto comercial entre o Norte e o Sul do Rio Douro, e entre a via navegável interior, fluvial, e as rotas marítimas que demandavam o Mediterrâneo e os mares do Norte.
No fim do império a cidade reduz a sua extensão e população, sendo integrada no século V no reino Suevo da Galécia, com primeira capital em Braga. Sucede-se um período de enfraquecimento da vida urbana, que atravessa a ocupação visigótica e islâmica, até ao ressurgimento urbano do século XI, já nas vésperas do início da nacionalidade portuguesa.
Na Idade Média a cidade cresce, desenvolvendo as suas importantes estruturas defensivas, portuárias, fiscais e a sua administração municipal. Neste período o Porto consolida um forte relacionamento com as cidades do Norte da Europa, nomeadamente inglesas, francesas, belgas, alemãs e holandesas. A autonomia portuense e o amor à liberdade teceram-se entre combates do partido do povo e do rei contra o feudalismo do bispo, nos últimos séculos da Idade Média.
No final do século XVI, devido ao forte crescimento urbano e demográfico do burgo, o bispo portuense Frei Marcos de Lisboa decide dividir a única freguesia existente dentro de muralha, em quatro novas freguesias: Sé (já existente), S. Nicolau, N.ª Senhora da Vitória e S. João Baptista de Belomonte. Contudo, esta última é suprimida logo em 1604 e dividida pelas freguesias de S. Nicolau e Vitória
No século XVIII, o comércio do Vinho do Porto com a Inglaterra e o relacionamento intenso com o Brasil trazem à cidade e ao Douro um período de grande importância, com resultados hoje muito presentes no plano da arquitectura e das estruturas urbanas, com a expressão dos períodos Barroco e Neoclássico, e a cidade cresce em área e em actividade.
As invasões napoleónicas, a guerra civil entre liberais e absolutistas e a revolução industrial marcam o século XIX.
D. Pedro, rei liberal e primeiro imperador do Brasil independente, desembarca nos arredores do Porto com os seus 7 500 soldados e aqui é cercado, ano e meio, pelo exército absolutista até que vence e transporta o país para a modernidade. Nas ruas e praças do Porto, nas encostas do rio, nos sítios altos ainda hoje se lembram episódios das batalhas e datas dessa guerra civil que forjou o temperamento livre e cívico dos portuenses.
Calados os canhões e chegada a maquinaria da indústria, o vapor das fábricas, dos navios e dos comboios, nascida essa nova geração laboriosa da burguesia, liberal e empreendedora, a cidade dispara para o presente.
Os cais, as grandes pontes metálicas, túneis, linhas e estações ferroviárias completam a paisagem marcada pelas grandes chaminés das fábricas. A explosão demográfica, típica das cidades industriais, vai transformar o Porto numa cidade operária.

A População
Hoje a aglomeração metropolitana do Porto tem mais de milhão e meio de habitantes e inclui quinze municípios. A cidade do Porto tinha em 2000 cerca de 270 000 residentes, e o Centro Histórico conserva, ainda, cerca de 15000. Esta área metropolitana é o centro económico de uma vasta região de 3,5 milhões de habitantes e influencia, ainda, todo o grande noroeste peninsular.

As Actividades
O Porto nasce e desenvolve-se, durante séculos, como porto marítimo e fluvial, com os seus entrepostos e armazéns, com as empresas de trânsitos marítimos e com os escritórios de exportação e importação.
Além dos vinhos, o porto do Douro movimentou, em mais de dois mil anos, linho e algodão, carvão, sal, peixe, madeiras, máquinas e produtos industriais. Ao porto comercial somou-se sempre um importante porto de pesca, com destaque para a frota bacalhoeira que demandava a Terra Nova e a Groenlândia. Os estaleiros navais, de primeira importância na Idade Média, conservam agora apenas vestígios da sua actividade.
A cidade industrial do século XIX, com as suas fábricas têxteis, cerâmicas e metalúrgicas, foi transferida, nas últimas décadas, para os municípios periféricos, deixando o Porto entregue às actividades terciárias, à universidade e agora também ao turismo. A produção industrial na região é diversificada e inclui o mobiliário, o vestuário, o calçado, as cortiças.
 
O turismo só há poucos anos aparece no Porto como uma actividade importante, crescente, que aproveita sobretudo as vantagens de um Centro Histórico com cerca de uma centena de monumentos e a classificação de Património Mundial da UNESCO, estabelecida em 1996.
Tradicionalmente a ocupação dos hotéis do Porto resumia-se aos dias de trabalho, tendo como motivação os negócios. Hoje, a procura das caves do Vinho do Porto, os passeios fluviais no Douro e os eventos culturais como a música, as artes plásticas, os espectáculos teatrais e o cinema, atraem públicos nacionais e estrangeiros cada vez mais diversos. O sector turístico ganha estatuto de área económica de primordial importância no conjunto das actividades mais florescentes de toda a região.

Depois do Porto foram classificadas pela UNESCO as áreas do centro Histórico de Guimarães, das gravuras arqueológicas do Vale do Côa, e das vinhas do Alto Douro, acrescentando assim um alargado leque de motivações para a visita à região.
No Centro Histórico e Baixa da cidade, foram reabilitados nos últimos anos importantes edifícios com fins culturais : a Alfândega, o Palácio da Bolsa, o Coliseu, o Teatro Rivoli, o Teatro S. João, o Mercado Ferreira Borges, o Museu de Arte Sacra, a Casa do Infante, a Cadeia da Relação, o Museu do Carro Eléctrico, o Museu Soares dos Reis, serão alguns dos mais expressivos, entre muitos outros de menor dimensão.

A Arquitectura
Neste quadro de referência a arquitectura do Porto não é apenas um contributo para o valor estético e cultural da cidade, dos seus edifícios e dos seus espaços, mas também uma mais valia para a qualidade de vida e para a competitividade da cidade no seu conjunto, com destaque para o Centro Histórico.
No Porto, tem vindo a ser assumida uma atitude de reabilitação urbana que procura preservar os bens herdados do passado acrescentando, contudo, exemplos daquilo que pode exprimir a estética arquitectónica do presente.
Rico em barroco, em neoclássico e na arquitectura do ferro, o Porto tem recebido nos últimos anos alguns projectos de expressão contemporânea, nomeadamente no seu centro histórico, que o valorizam sem violarem o valor patrimonial do conjunto classificado onde se inserem.
Essa atitude, que foi sempre a adoptada nos séculos mais remotos (em que o património não era cristalizado em classificações) permite exprimir a vitalidade que a cidade ainda hoje encerra, composta por tantas páginas passadas, que, no entanto, não esgotam a história, a que falta sempre mais um capítulo. A intervenção arquitectónica, rege-se, assim, no Porto, por um conjunto de princípios que não violentam a liberdade da criação artística, mas acautelam a necessidade de convivência entre essa mesma criação e a pré-existência já consolidada.
O Porto mostra-nos como cada época foi capaz de introduzir na cidade, nos seus edifícios e nos seus espaços públicos, projectos de modernidade que contribuem para a riqueza estética do conjunt, afastando-se da tradição formal e construtiva dos períodos anteriores.
Quando, nos meados do século XVIII, na transição do período barroco para o iluminismo, o neoclassicismo impera no Porto, nomeadamente na emblemática Praça da Ribeira, podemos assistir ao choque (agora simbiose!) entre as casas medievais pré-existentes e as fortes fachadas eruditas de desenho impositivo e ordenador da geometria urbana.

PORTO Centro Histórico
Depois do Porto foram classificadas pela UNESCO as áreas do centro Histórico de Guimarães, das gravuras arqueológicas do Vale do Côa, e das vinhas do Alto Douro, acrescentando assim um alargado leque de motivações para a visita à região.
No Centro Histórico e Baixa da cidade, foram reabilitados nos últimos anos importantes edifícios com fins culturais : a Alfândega, o Palácio da Bolsa, o Coliseu, o Teatro Rivoli, o Teatro S. João, o Mercado Ferreira Borges, o Museu de Arte Sacra, a Casa do Infante, a Cadeia da Relação, o Museu do Carro Eléctrico, o Museu Soares dos Reis, serão alguns dos mais expressivos, entre muitos outros de menor dimensão.  

A Arquitectura
Neste quadro de referência a arquitectura do Porto não é apenas um contributo para o valor estético e cultural da cidade, dos seus edifícios e dos seus espaços, mas também uma mais valia para a qualidade de vida e para a competitividade da cidade no seu conjunto, com destaque para o Centro Histórico.
No Porto, tem vindo a ser assumida uma atitude de reabilitação urbana que procura preservar os bens herdados do passado acrescentando, contudo, exemplos daquilo que pode exprimir a estética arquitectónica do presente. Rico em barroco, em neoclássico e na arquitectura do ferro, o Porto tem recebido nos últimos anos alguns projectos de expressão contemporânea, nomeadamente no seu centro histórico, que o valorizam sem violarem o valor patrimonial do conjunto classificado onde se inserem.
Essa atitude, que foi sempre a adoptada nos séculos mais remotos (em que o património não era cristalizado em classificações) permite exprimir a vitalidade que a cidade ainda hoje encerra, composta por tantas páginas passadas, que, no entanto, não esgotam a história, a que falta sempre mais um capítulo. A intervenção arquitectónica, rege-se, assim, no Porto, por um conjunto de princípios que não violentam a liberdade da criação artística, mas acautelam a necessidade de convivência entre essa mesma criação e a pré-existência já consolidada.
O Porto mostra-nos como cada época foi capaz de introduzir na cidade, nos seus edifícios e nos seus espaços públicos, projectos de modernidade que contribuem para a riqueza estética do conjunt, afastando-se da tradição formal e construtiva dos períodos anteriores.
Quando, nos meados do século XVIII, na transição do período barroco para o iluminismo, o neoclassicismo impera no Porto, nomeadamente na emblemática Praça da Ribeira, podemos assistir ao choque (agora simbiose!) entre as casas medievais pré-existentes e as fortes fachadas eruditas de desenho impositivo e ordenador da geometria urbana.
Contrariando a morfologia orgânica de casas populares “de ressalto” sobre a Praça, encontramos agora as pesadas fachadas sobre arcarias dos finais de setecentos.
Nessa obra (incompleta) podemos encontrar o sucesso da diversidade de volumes e de tempos que enriquece mais a cidade do que a simples semelhança que poderia advir da conclusão simétrica da praça ou de uma atitude contrária de manter para sempre as duas fachadas medievais.
Mas, neste mesmo exemplo podemos encontrar ainda os acrescentos volumétricos do século XIX que alteraram profundamente a ordem clássica e introduzem novos pisos, umas proporções e uma verticalidade contrastantes com a estética precedente.
É assim que cada século vai depositando a sua arte sobre as camadas dos séculos anteriores!
 
Na Sé, edifício emblemático da igreja e da cidade, monumento de origem românica, podemos apreciar as adições e inovações estéticas que os tempos acrescentaram.
A “galilé” barroca é, agora, um dos elementos mais expressivos da qualidade do desenho e da obra introduzidos no Porto por Nicolau Nasoni. Trata-se, no entanto, de uma obra de ruptura com a estética dos períodos anteriores.
A própria Torre dos Clérigos, edificada na 1ª metade do século XVIII, terá sido, na época, um enorme choque estético para os hábitos instalados. Hoje, é o ex-libris da cidade.
Encontramos, na cidade, muitos outros exemplos de arquitectura de opostos. Veja-se as pontes metálicas, dominantes sobre a paisagem granítica do Centro Histórico, alterando a imagem do Porto e de Gaia, cortando e emoldurando toda a panorâmica primitiva do rio Douro.
Para a construção da Ponte Luís I, de dois tabuleiros, foi demolida parte da muralha gótica, do século XIV, numa atitude de abertura ao progresso e às novas técnicas, que hoje, dificilmente, seria consensual. Mas, se podemos ler a Ponte Luís I como “atentado” ao património medieval, vemos agora como, afinal, se construiu mais património, já que, hoje, ela é Monumento Nacional e está inscrita no bem classificado como Património Mundial!
A cidade do Porto é feita de adições e substituições, e o património urbano inclui, não só, os bens que têm de ser preservados, mas também aqueles que têm de se transformar para acompanhar as mudanças dos tempos.
Se assim não fosse assistiríamos à fossilização da cidade, à sua asfixia e morte. Como cidade viva, o Porto é entendido como um território em permanente mudança, onde devem coexistir o efémero, o duradouro e o eterno.
Em intervenções mais recentes, cobrindo as últimas décadas do século XX podemos constatar como a arte contemporânea pode inscrever-se num bem patrimonial que já concentra as estéticas dos séculos anteriores. Trata-se, sobretudo, de intervenções em locais muito específicos, o que nos leva a concluir que tem sido possível “praticar” a arquitectura contemporânea, sem agressão ao espírito do lugar, articulando o desenho existente e o proposto de forma contida e subordinada à imagem do conjunto.
Poderíamos encontrar muitos exemplos em interiores de muitos edifícios reabilitados, sobretudo onde o grau avançado de ruína obrigou a transformações profundas. Nesses casos há uma grande liberdade de expressão das opções estéticas contemporâneas, como no edifício sede da Ordem dos Arquitectos (rua D. Hugo), no claustro do Mosteiro de S. Bento da Vitória, na antiga sede do CRUARB (rua da Fonte Taurina) e na Casa do Infante.
Vamos concentrar-nos naqueles que têm uma expressão mais nítida no espaço urbano. Começamos pelo Café do Cais, seguimos para a lavandaria de S. Nicolau, passamos pelos ateliers da Lada e pelo café do Largo do Colégio e terminamos na torre da Casa da Câmara junto à Sé. Tratam-se, na generalidade, de projectos de arquitectos do Porto, equipados com um conhecimento profundo da história da cidade e dos locais de intervenção. São exercícios difíceis e exigentes e uma demonstração clara do equilíbrio que importa manter entre a imagem primitiva do sítio e nova imagem que se pretende introduzir.

A Vida
A vida que hoje existe no Centro Histórico do Porto é a principal garantia de preservação do ambiente tradicional, pleno de autenticidade. É a sua população, as suas actividades comerciais e artesanais que garantem a sua própria continuidade como herança da humanidade e valor patrimonial vivo.
 
Os principais conjuntos edificados do Porto 

Sé, Ponte e Serra do Pilar
O conjunto monumental mais marcante do Porto, e talvez de todo o Douro, é o que reúne a acrópole da Sé com a sua Catedral, o Paço Episcopal e a igreja de S. Lourenço e o convento da Serra do Pilar na margem oposta, sobre a escarpa, ligados pela estrutura transparente da Ponte metálica de Luís I. Cada um destes “objectos” arquitectónicos, só por si será uma obra-prima e todos eles estão classificados como Monumento Nacional, para além da sua classificação como Património Mundial da UNESCO.
Os vários monumentos e edifícios funcionam como um único conjunto arquitectónico que está inscrito num cenário original de forte impressão sensorial. O rio aperta-se aqui numa garganta estreita a poucos quilómetros de se lançar no Atlântico. Parece que recordado dos desfiladeiros da nascente, das arribas e dos cachões, se quer despedir, assim, apertado entre escarpas, antes de se espraiar no oceano. Tal é o esganar das margens que aí se situa o melhor sítio para uma ponte!
Obra de relojoaria com milhares de toneladas e centenas de metros de extensão, a ponte, mais que centenária, lança um arco gigantesco e leve, largo, que se apoia nos maciços graníticos das duas margens. Pousado sobre o arco enorme, um tabuleiro de quatrocentos metros aproxima os dois montes opostos. Suspenso, outro tabuleiro, faz o salto à cota baixa entre as ribeiras do Porto e de Gaia.
Contrastando com a transparência da ponte a serra do Pilar assenta, volumosa, os seus rochedos no mergulho da corrente. Coroando o monte, o mosteiro de Santo Agostinho da Serra de Pilar, seiscentista, dá uma geometria horizontal, clássica à paisagem rematada pela basílica de planta redonda. Redondo é também o primoroso e raro claustro que não se vê de fora mas merece visita. Obra do Renascimento, domina a natureza agreste da margem, escarpada e selvagem, com a sua superfície emoldurada num desenho absolutamente irrepreensível, lógico e ordenador da silhueta do conjunto maciço.
 
Do lado do Porto a ponte entrega-se na “Acrópole” da Sé, românica, ameada, ao mesmo tempo castelo, templo e cidadela. Mas a Sé não é só a igreja, é um todo que inclui claustros e casas do cabido mais o impressionante paço do Bispo, barroco, rico, enorme nas suas três dimensões.
Foram os séculos e a arte que fizeram este conjunto, começando pela obra do rio que abriu a garganta na rocha na sua luta inexorável pelo mar, foram os homens primitivos que arrumaram os cais, e fizeram as primeiras casas, foram os nossos antepassados medievais que construíram a Sé e os monges que ergueram o mosteiro no renascimento, foi o barroco de Nasoni que acrescentou o paço do Bispo já no século XVIII, e Teophile Seyrig que desenhou a ponte inaugurada em 1886.
Se vasculharmos os baús da nossa história nestes sítios, vamos certamente aqui encontrar a obra de todos os tempos, de todos os séculos, mais ou menos a descoberto, mais ou menos soterrada, desde há três mil anos. Tudo isto num olhar, entre o céu e o rio que são eternos.

A Muralha Fernandina
 Com cerca de três quilómetros de perímetro e dezassete portas e postigos, a muralha fernandina foi, talvez, a maior obra pública realizada no Porto, até ao século XIX.
Iniciada no reinado de D. Afonso IV, a sua construção durou cerca de sessenta anos, ao longo do século XIV, podendo ser chamada de “muralha gótica” pelo seu estilo e pela sua época, distinguindo-se, assim, da “muralha românica” ou “cerca velha”, levantada no século XII sobre os antigos muros suevos e romanos. A muralha fernandina só em meados de setecentos começou a ser demolida para permitir a expansão urbana e a modernização do Porto. Hoje está ainda presente na nossa paisagem, em cabeços altos como o de Santa Clara e o das Taipas e em cotas baixas como o Muro dos Bacalhoeiros e o Muro da Ribeira. Conhecido é todo o seu percurso e a localização das suas portas desaparecidas. Actualmente, resta, apenas, o Postigo do Carvão ali no cais da Estiva, mesmo ao lado da Praça da Ribeira.
 
Três razões principais ditaram a sua realização, primeiro, obviamente, a defesa, segundo os interesses fiscais, já que funcionava como barreira alfandegária e, finalmente, a imagem da cidade. Cidade sem muros altos e fortes, incapaz de impressionar o visitante e tranquilizar o habitante, não tinha meio de fazer valer o seu interesse como local de comércio ou de residência. Cumpridos estes propósitos durante quinhentos anos, resta agora como memória desses tempos, em que a fronteira da pátria estava na fronteira da cidade. Hoje, tão interessante como vê-la à distância, rematando a silhueta do burgo, será entrar nela e viver o seu oco, sentir as suas pedras, nos restaurantes e botequins que a ocupam em toda a Ribeira do Porto.
 
 

Praça do Infante D. Henrique
No centro da praça do Infante D. Henrique, encontra-se a estátua deste navegador, filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, que, segundo a lenda, terá nascido na velha alfândega medieval, a actual Casa do Infante, situada na rua da Alfândega. Rodeando a estátua, além dos quarteirões vetustos e imponentes dos séculos XVIII e XIX, destaca-se a igreja do desaparecido convento de S. Francisco, gótica e austera no seu exterior, mas carregada de talha dourada, no seu interior.
No palácio da Bolsa encontramos o ecletismo das salas elegantes e o ambiente de uma burguesia portuense liberal e progressista, triunfante sobre o absolutismo miguelista, que, ainda hoje, usa esta casa como lar de um “senado” informal das empresas e das famílias que fazem o Porto e que o Porto faz. A norte, o Mercado Ferreira Borges, obra higienista, transparente e luminosa, assente sobre um soco granítico que ocupa aquilo que foi a cerca do desaparecido convento de S. Domingos. Hoje não é mercado, mas, melhor ainda, serve de local de animação e lazer para os locais e os visitantes
A sul, no interior do quarteirão com entrada pela rua da Alfândega (velha), a Casa do Infante. Aqui teremos o mais importante sítio arqueológico do Porto, com museu e arquivo histórico, sobre os estratos um palácio romano e as camadas medievais da casa da moeda, das instalações régias, da alfândega. Foi na torre norte desta casa que, em 1393, nasceu o Infante, meio inglês, nunca marinheiro (terá embarcado, apenas, na armada que foi conquistar Ceuta, armada essa que foi aparelhada no Porto). Mas, se não foi marinheiro, foi estratega - e visionário - tendo lançado no desconhecido os barcos que iniciaram a descoberta do mundo. E se, cada vez, os barcos eram maiores, muito maior era o mar que, de cada vez, os recebia, umas vezes poupando-os e outras engolindo-os, com suas almas, para sempre.
Assim se foi arredondando a terra, até ser o globo que, depois, em Tordesilhas, partimos ao meio como uma melancia!
Nas proximidades da zona do Infante fica uma das mais antigas praças do Porto, a praça da Ribeira, situada no centro da actividade comercial desenvolvida à volta do rio. No séc. XVIII, João de Almada e Melo, governador da cidade pretendeu dar-lhe uma configuração semelhante à da Praça do Comércio em Lisboa, projecto nunca totalmente concretizado. Actualmente, no centro da praça, encontra-se uma escultura em bronze “O Cubo”, homenagem à força do rio Douro, da autoria de José Rodrigues.
 
Clérigos, Cadeia e S. Bento da Vitória 
Separada da colina da Sé pelo pequeno vale do “Rio da Vila” (hoje totalmente subterrâneo) eleva-se a colina da Vitória pontuada pela exuberante Torre dos Clérigos. Desenhada pelo italiano Nicolau Nasoni, na primeira metade de setecentos, é um dos exemplares mais eloquentes do barroco portuense, talhado no nosso granito duro de grão médio e cinzento.
Alta, elaborada, escalonada, rematada por um globo de bronze encimado da inevitável cruz, equipada com um carrilhão carregado de possibilidades, a torre remata a igreja oval e domina o Porto todo.
Vê-se do Infante, da Ponte Nova, da Sé, de Cedofeita, como um farol que orienta, dentro do labirinto urbano, as rotas dos peregrinos que demandam o centro da cidade.
Imponente e elegante, vista de longe e de perto a torre serve também para mostrar, a quem lá sobe, os segredos dos telhados e das árvores, dos campanários e dos pináculos, das estátuas que olham das alturas dos frontões de toda essa vizinhança quase infinita das cidades que envolvem o Centro Histórico, até Gaia, Lapa, Bonfim…
 
Junto à Torre, dentro da desaparecida Porta do Olival, está a Cadeia. Parece demais palácio e maispareceria se não fossem os vestígios das grades. Por dentro sente-se o peso da reclusão, a espessura dos muros, a grossura dos ferros e o peso dos ferrolhos de tantos portões. Até o eco é sinistro naqueles escadórios, corredores, celas, masmorras e enxovias.
Cumpriu a sua função de castigo até há poucas décadas, como prisão e tribunal. Agora é um calabouço aberto, com memórias da fotografia e alguns espaços de recordação triste da sua utilidade primitiva.
A cela de Camilo, no piso da nobreza (o mais alto) com panorama sobre a Sé, merece romagem.
Paredes, quase meias, está S. Bento da Vitória, sobre a judiaria nova, (havia uma mais antiga fora de muros anterior a D. João I).
Depois do édito de D. Manuel, proibidos, os judeus, de exercerem a sua crença e as suas tradições, o seu gueto foi dado à construção dos beneditinos. A grandeza do mosteiro, a magnificência da igreja, a “brutalidade” do fantástico órgão de tubos, poderoso na sua imagem e no seu som, toda a renascença e o barroco acumulados, merecem visita demorada.
No claustro, clássico, rigoroso, impecavelmente preservado, esteve a Orquestra Nacional do Porto antes de se instalar na nova Casa da Música. É por isso que está coberto.
 
S. Bento, Praça e Cardosas
De S. Bento da Avé Maria, o Mosteiro, resta o nome que agora é emprestado à estação ferroviária. Obra da mudança do século XIX para o XX, é visita obrigatória. De arquitectura eclética, de inspiração francesa, conjugada com a obra do ferro, a estação é um ponto central da vida e da imagem de um Porto relacionado com as suas regiões, o Minho e o Douro.
Mas a estação vale, acima de tudo pela história magnífica contada nos seus azulejos. A evolução dos transportes desde a antiguidade, cenas da vida rural e das paisagens durienses e minhotas e, sobretudo, os grandes painéis de história, como o da entrada de D. João I e Filipa de Lencastre no Porto, Egas Moniz apresentando-se ao Rei de Leão e o torneio de Arcos de Valdevez.
Em frente à estação ergue-se o quarteirão das Cardosas, com o seu enorme palácio neoclássico, construído sobre o desaparecido convento dos Lóios que se encostava, pelo lado de dentro, à muralha, mesmo à ilharga da Porta dos Carros (a saída medieval para Braga, pela estrada que é agora a Rua do Bonjardim). Frente às Cardosas, no centro da Praça da Liberdade, D. Pedro equestre, virado para Sul, empunha a Carta Constitucional, contra o absolutismo. Primeiro imperador do Brasil independente, desembarcou nas praias do Mindelo, poucas léguas aqui a norte, com o seu exército liberal de sete mil e quinhentos refugiados, estudantes, emigrados do Brasil e açoreanos. Resistiu a ano e meio de cerco e travou, aqui, batalhas heróicas e deseperadas contra os Miguelistas que tinham o país todo contra o Porto. Saiu vitorioso e fundou o Portugal moderno, progressista, industrial e independente.
Morreu no Brasil mas deixou cá o seu coração, que a Câmara religiosamente guarda na Igreja da Lapa.

 

Batalha e Cimo de Vila
Segundo a lenda, o topónimo Batalha lembra uma heróica batalha ocorrida neste local, durante o séc. X, entre as tropas cristãs fiéis ao rei leonês, e as forças islâmicas do califa de Córdoba. Com a construção da muralha fernandina, durante o séc. XIV, é aberta a porta de Cimo de Vila na qual foi colocada a imagem de N.ª S. ra da Batalha, que recorda a velha batalha aqui ocorrida. Esta imagem deu origem à construção de uma capela com a mesma devoção, desaparecida em 1920.
Na praça encontra-se a igreja paroquial de Sto. Ildefonso, erguida no século XVIII, no local de uma antiga ermida medieval. Este edifício é marcado pelo revestimento azulejar da sua fachada, obra de Jorge Colaço, executada em 1932, bem como pelo altar-mor barroco em talha dourada, desenhado por Nicolau Nasoni e executado por Miguel Francisco da Silva, nos meados do séc. XVIII.
O palacete dos Correios é uma casa nobre edificada no final do séc. XVIII por José Anastácio Guedes da Silva da Fonseca, fidalgo da Casa Real. Em frente a este edifício destaca-se o monumento a D. Pedro V, estátua em bronze colocada pela Câmara Municipal em 1861, em homenagem ao jovem rei português, precocemente falecido.
A junção do largo da igreja de S. Ildefonso com o antigo largo da Batalha deu lugar à moderna praça da Batalha, de traçado irregular, que, no séc. XIX, é já um importante nó viário. Torna-se, assim, um centro de atracção cultural da cidade, plena de teatros, cinemas, hotéis e cafés. O Teatro S. João, o primeiro grande teatro lírico da cidade e da região, traz à Batalha, a partir do final do séc. XVIII, inúmeros artistas e espectadores. O Águia D’Ouro e o antigo Cinema Batalha acompanharam o crescimento e a afirmação do cinema, no Porto do início do séc. XX. O primeiro foi edificado para receber espectáculos de teatro e circo; o segundo é o sucessor do High-Life, a primeira sala construída de raiz, na cidade, destinada à projecção cinematográfica.
 
No início do séc. XX, num clima politica e militarmente conturbado, esta praça assistiu ao eclodir de importantes revoltas, das quais se destacam a proclamação da Monarquia do Norte (1919) pela Junta Governativa de Paiva Couceiro e a Junta Revolucionária, liderada por Jaime Cortesão que se opôs à ditadura militar, instaurada em 1926. Cima de Vila, na época medieval, correspondia ao local mais elevado no extremo de uma povoação. A rua de Cimo de Vila mantém o seu traçado sinuoso e estreito, ladeada por casas populares do séc. XVIII e XIX, sendo as mais antigas, ainda, em taipa. Nesta rua encontra-se o edifício da Venerável Irmandade de N.ª Sra. do Terço e da Caridade, construído na segunda metade do séc. XVIII. Esta estrutura é composta pela igreja de gosto rocaille, com a fachada ricamente decorada por elementos dispostos em forma de custódia, pela Casa do Despacho e pelo hospital da Irmandade.
Actualmente, a rua Cimo de Vila é um exemplo vivo da riqueza multicultural da cidade, onde tabernas, estabelecimentos comerciais, bares de alterne e pensões baratas convivem com a chegada, recente, de pessoas de diferentes comunidades.
 

Aliados e Trindade
A Trindade, localizada na parte Norte do antigo Campo das Hortas, era conhecida como Laranjal, sítio rural onde existiam algumas quintas sulcadas por vários ribeiros, oriundos da zona da Lapa e do Bonjardim. O bairro dos Laranjais, rasgado em meados do séc. XVIII no local das velhas quintas do Laranjal, deve a sua criação a João de Almada e Melo, Governador d’ Armas da cidade e seu primeiro urbanista moderno. O Plano de Melhoramentos da cidade de 1784, da responsabilidade deste governante, previa a rápida abertura da praça do Laranjal (futura praça da Trindade) e o alinhamento da travessa que ligaria à rua do Bonjardim (antiga estrada de saída para Guimarães), para facilitar o trânsito entre estas importantes vias.
Em 1803, segundo projecto de Carlos Amarante, começou-se a construir, na zona do Laranjal, a igreja da Ordem da Santíssima Trindade.
De gosto classicizante, esta igreja possui uma fachada decorada com as armas da Ordem e com as imagens dos seus fundadores, S. João de Mata e S. Félix de Valois. No seu interior destaca-se o retábulo-mor da autoria do arquitecto José Marques da Silva.
Durante o séc. XIX, esteve situada nesta praça uma vasta propriedade pertencente a Antónia Adelaide Ferreira, a célebre Ferreirinha, que aí tinha o seu palacete. Junto a esta praça encontra-se a sede de um dos clubes mais representativos da cidade: O Clube dos Fenianos Portuenses. Foi criado em 1904 com o objectivo de fazer rejuvenescer as tradições carnavalescas na cidade e mantém, ainda hoje, uma programação ligada à música, à dança e a outras actividades lúdicas.
Em 1914, é aberto concurso para o Plano de Melhoramentos e Ampliação da Cidade do Porto, apresentado pelo vereador Elísio de Melo. Na sua sequência é chamado o arquitecto Barry Parker que apresenta um projecto urbanístico que tornaria a antiga praça Nova no novo centro cívico, com espaços de circulação radial e acesso à ponte Luís I. As obras da nova avenida iniciaram-se com a demolição dos palacetes do antigo paço municipal e conduziriam ao desaparecimento de alguns arruamentos que ficavam junto à zona do Laranjal.
No início do séc. XX vão ser edificados na nova avenida edifícios notáveis, de gosto fin de siècle e Art Noveau. Dentro destes e a coroar a avenida, destaca- se o edifício dos Paços do Concelho. Na praça, junto a este edifício, foi colocada a estátua em bronze de umas das maiores figuras da política e cultura portuguesas do séc. XIX, nascido no Porto: Almeida Garrett. Esta praça, conhecida até 1974 como praça do Município, tomou o nome do General Humberto Delgado, militar opositor do Estado Novo.
Mais recentemente, a avenida dos Aliados sofreu obras de requalificação, no seu espaço público, dirigidas pelos arquitectos Siza Vieira e Souto Moura. Foz e Passeio Alegre
 
A Foz é o destino final do rio que nasce na serra do Urbião, atravessa Castela e Leão, entra em Portugal nas escarpadas vertentes de Miranda, passando, posteriormente, pela mais antiga região demarcada de vinho, banhando, no seu último trajecto, a mui nobre e leal cidade do Porto, como conclusão dos seus mais de oitocentos quilómetros de percurso.
Na póvoa piscatória de S. João da Foz, couto medieval pertencente ao mosteiro de Santo Tirso, vai surgir, no início do séc. XVI, um importante conjunto de obras que vão marcar o seu território. Por acção do abade beneditino D. Miguel da Silva, espírito influente da Renascença em Portugal, surgem em S. João da Foz, edifícios de uma grande modernidade para a sua época. Destacam-se o palacete e igreja beneditinos e a capela-farol de S. Miguel-o-Anjo (o primeiro farol moderno), obras da autoria de Francesco della Cremona.
No final do séc. XVI, já sob dominação filipina, a necessidade de controlo defensivo do território e de regularização do tráfego marítimo vai conduzir à construção da fortaleza de S. João da Foz, no local do antigo palacete renascentista. Constituída por vários baluartes nos seus ângulos, tinha por função proteger a entrada da Barra do rio Douro.
No séc. XVII, por acção dos monges beneditinos de Santo Tirso, a quem pertencia o couto da Foz, vai ser criada uma nova igreja paroquial, que vem substituir a velha igreja enclausurada no forte de S. João da Foz. A campanha de obras para a construção desta igreja acabou por se prolongar pelo séc. XVIII. Desta resultou uma igreja barroca de planta longitudinal e nave única com capelas colaterais, sendo a capela-mor decorada por um retábulo em talha dourada, atribuído a Miguel Francisco da Silva.
No final do séc. XVIII, é construído o molhe da barra do Douro. No entanto, a regularização e urbanização da zona em redor do forte de S. João da Foz, ocorre apenas no final do século seguinte. Esta torna-se possível com a conclusão dos aterros nos terrenos adjacentes, com a construção de um chalet, a plantação de árvores vindas da Alemanha e a abertura do novo jardim do Passeio Alegre. No séc. XX o jardim foi enobrecido com a colocação de dois obeliscos e um chafariz, provenientes da Quinta da Prelada.

(Fundação Rei Afonso Henriques - Património da Humanidade na Bacia do Douro)
Varandas da praia do Molhe, Foz do Douro. Isto também é Porto!

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